
Danielle Steel

O Rancho



http://groups.google.com.br/group/digitalsource/







Traduo de
MARIA ADELAIDE NAMORADO FREIRE

Titulo original:
THE RANCH






Para Victoria e Nancy, amigas especiais, preciosas,
irms do meu corao,
que me fazem rir,
que me amparam quando choro
e que esto sempre, sempre, prontas a ajudar-me.
Com todo o meu amor

D. S.























Captulo l

      Em qualquer outro supermercado, a mulher que caminhava por entre filas de prateleiras com produtos enlatados e doarias de todos os gneros, empurrando um
carrinho com compras, pareceria estranhamente deslocada. Tinha cabelo castanho, impecavelmente penteado, que lhe tocava nos ombros, uma pele bonita, grandes olhos
castanhos, uma figura elegante e bonitas mos, de unhas bem arranjadas. Vestia um fato de linho azul-escuro que parecia ter sido comprado em Paris. Calava sapatos
de salto alto, azuis, levava ao ombro uma mala Chanel igualmente azul, e tudo nela rondava a perfeio. Poderia facilmente afirmar que nunca estivera num supermercado,
mas a verdade  que se sentia surpreendentemente  vontade ali. Com efeito, ia muitas vezes ao Gristede, em Madison, no seu caminho para casa. A maior parte das
compras era feita pela empregada, mas Mary Stuart Walker gostava, talvez de uma maneira um pouco antiquada, de fazer as suas prprias compras. Tinha prazer em preparar
o jantar para o marido e nunca haviam tido uma cozinheira, mesmo quando os filhos eram pequenos. Apesar do seu aspecto impecvel, gostava de se ocupar da famlia
e estar atenta a todos os detalhes.

      O apartamento em que viviam ficava na Rua Setenta e Oito, com uma vista esplndida sobre Central Park. Tinham passado ali os ltimos quinze anos, embora tivessem
casado quase h vinte e dois. Mary Stuart mantinha a casa sempre impecvel. Os filhos por vezes gracejavam com ela por querer sempre tudo perfeito, tudo com uma 
aparncia impecvel, e, olhando-se para ela, no seria difcil imaginar que assim fosse. Tratava-se de uma segunda natureza para Mary. At mesmo num quente dia de 
Junho, em Nova Iorque, aps seis horas de reunies, s seis da tarde, ela conseguia manter um aspecto fresco. Bastava-lhe retocar o baton e no tinha um s cabelo 
fora do lugar.
      
      Mary Stuart escolheu dois bifes pequenos, batatas, espargos frescos, alguma fruta e iogurtes, recordando como outrora o seu carrinho das compras estava sempre 
cheio de guloseimas para os filhos. Dizia sempre desaprovar tal coisa, mas nunca conseguia resistir a comprar as coisas que anunciavam na televiso e que os filhos 
pediam. No fazia mal dar-lhes essas pequenas satisfaes e no via qualquer vantagem em no os deixar comer coisas que lhes agradavam ou em for-los a comer outras, 
talvez mais saudveis, mas que eles detestavam.
      
      Como a maioria das pessoas do seu meio que vivia em Nova Iorque, Mary e Bill tinham grandes esperanas para os seus filhos, altos padres para tudo, classificaes 
quase perfeitas, capacidade atltica, integridade total e grande moralidade. Na verdade, Alyssa e Todd eram bonitos, inteligentes e brilhantes tanto dentro como 
fora da escola. Eram, na realidade, pessoas muito decentes. Bill costumava gracejar com ela, dizendo aos filhos que a me esperava que eles fossem perfeitos. Na 
altura em que tinham dez e doze anos, Alyssa e Todd j no suportavam ouvir essa palavra. No entanto, sabiam que havia uma certa verdade nas palavras do pai. Compreendiam 
que elas significavam que teriam de fazer sempre o melhor que pudessem, tanto na escola como fora dela, e que, mesmo que nem sempre conseguissem ter sucesso, deviam 
esforar-se ao mximo para isso. Era esperar muito deles, mas a verdade  que Bill sempre estabelecera altos padres e eles tinham correspondido. Embora a me pudesse 
por vezes parecer rgida, o pai  que era o verdadeiro perfeccionista, quem esperava tudo deles e da me. Era Bill que fazia presso sobre todos eles, no s sobre 
os filhos, mas tambm sobre a mulher.
      
      Mary Stuart fora a esposa perfeita durante quase vinte e dois anos, dando-lhe um lar perfeito, filhos perfeitos, fazendo o que era esperado dela, recebendo 
com requinte e mantendo uma casa que no s os colocava nas pginas da Architectural Digest, como era tambm um lar feliz. No havia nada de ostentativo na maneira 
de viver deles. Tudo era meticulosamente bem feito, mas de uma forma discreta. Mary Stuart dava a sensao de fazer tudo sem esforo, embora muitas pessoas se apercebessem 
de que o que ela fazia no era to fcil assim. Mas essa era a sua ddiva para o marido. Dando a impresso de que tudo era fcil, Mary organizara, durante anos, 
acontecimentos com fins beneficentes, que rendiam milhares de dlares para obras de caridade importantes, fazia parte da administrao de vrios museus e trabalhava 
afincadamente para ajudar as crianas doentes, deficientes ou sujeitas a grandes privaes. Agora, com quarenta e quatro anos, com os filhos praticamente criados, 
fazia tambm trabalho voluntrio para prestar assistncia a crianas com problemas fsicos e emocionais num hospital de Harlm.
      
      Era membro da administrao do Metropolitan Museum of Art e do Lincoln Center e ajudava a organizar ocasies especiais para recolha de fundos, porque toda 
a gente queria a sua colaborao. Mantinha-se extraordinariamente ocupada, especialmente desde que deixara de ter os filhos em casa, pois Bill ficava sempre a trabalhar 
at tarde no escritrio. Bill era um dos scios principais de uma firma de advogados de nvel internacional em Wall Street. Era ele que tratava da maior parte dos 
casos importantes entregues  firma relacionados com a Alemanha e a Inglaterra. Tomara-se conhecido como um excelente advogado, muito conceituado, e as actividades 
de Mary Stuart tambm contribuam para aumentar a sua boa reputao. Mary recebia com grande requinte os convidados do marido, como, de resto, sempre fizera, embora 
esse ano tivesse sido muito tranquilo. Bill passara a maior parte do tempo em viagens para o estrangeiro, sobretudo os ltimos meses. Preparava um importante julgamento 
em Londres, que o fazia passar muito tempo longe de casa. E Mary Stuart ocupara-se mais do que nunca com o seu trabalho voluntrio.
      
      Alyssa fora nesse ano estudar na Sorbonne, por isso Mary tinha mais tempo livre. Isso dera-lhe oportunidade de fazer uma quantidade de coisas. Empenhou-se 
mais nas suas obras de caridade, leu muito e chegou a trabalhar para o hospital aos fins-de-semana. Mas algumas vezes deixava-se ficar na cama at tarde, aos domingos, 
lendo um livro ou devorando o New York Times. Tinha uma vida cheia e atarefada e ningum seria capaz de imaginar que lhe faltava alguma coisa para se sentir feliz. 
Parecia ser pelo menos uns cinco ou seis anos mais nova do que realmente era, embora tivesse emagrecido nesse ano, o que poderia dar-lhe um ar mais envelhecido, 
mas no dava. O seu aspecto era o de uma mulher jovem. Havia nela uma meiguice que atraa, sobretudo as crianas com as quais trabalhava. Mary irradiava uma bondade 
genuna que lhe vinha da alma e transcendia as distines sociais, fazendo com que as pessoas no se apercebessem do meio a que ela pertencia.
      
      Mary Stuart tinha tudo o que quase todas as pessoas desejam, e, no entanto, quem a via, sentia nela uma pontinha de tristeza. Era uma espcie de compaixo 
que mais se sentia do que se via, talvez um sentimento de solido, o que parecia estranho. Como poderia uma pessoa como Mary Stuart, com o seu aspecto, fortuna e 
famlia, sentir-se s? Quando algum se apercebia dessa tristeza achava que se tratava de algo pouco provvel e duvidava da sua prpria intuio. No havia qualquer 
razo para pensar que Mary Stuart se sentisse s ou triste e, no entanto, quem a observasse bem sabia que era isso que sucedia. Havia algo de trgico nela por detrs 
da sua aparncia elegante.
      
      - Como est Mistress Walker? - perguntou-lhe o homem que se encontrava na caixa, sorrindo. Gostava dela. Era bonita e mostrava-se sempre delicada. Mary perguntou-lhe 
pela famlia, pela mulher e pela me, que vivera muitos anos com eles, antes de morrer. Costumava ir ali com os filhos e agora ia sozinha, mas conversava sempre 
com ele. Seria difcil no simpatizar com ela.
      
      - Estou bem, obrigada, Charlie. - Sorriu-lhe, o que a fez ainda mais jovem. Pouca diferena fazia de quando era nova e, quando por vezes ali ia, aos fins-de-semana, 
vestindo umas calas de ganga e uma simples blusa, parecia quase da idade da filha. - Hoje est calor, no est? - perguntou Mary, embora no se mostrasse encalorada. 
Isso nunca sucedia. No Inverno andava sempre bem vestida, apesar do frio brutal e da quantidade de agasalhos que as pessoas tinham de usar, as botas por causa da 
neve, os gorros, os lenos do pescoo. E no Vero, quando todos andavam esbraseados com o calor, ela mantinha o seu aspecto fresco e calmo. Era uma dessas pessoas 
que parecem nunca perder o controlo nem fazer nada mal feito. Certamente que nunca se zangava. Costumava v-la sempre alegre e bem-disposta com os filhos. A filha 
era muito bonita. O filho parecia bom rapaz... todos eles eram boas pessoas. Charlie achava o marido um pouco empertigado, mas era a sua maneira de ser, certamente. 
Tratava-se de unia famlia simptica. Charlie calculava que o marido estivesse de regresso, pois ela comprara dois filets mignons.
      
      - Dizem que amanha ainda vai estar mais quente - afirmou Charlie, metendo as compras num saco, vendo-a olhar de relance para o Enquirer e fazer uma careta 
de desaprovao. Tanya Thomas, uma cantora muito popular, vinha na capa. O ttulo dizia: "Tanya est prestes a divorciar-se de novo. O romance com o treinador desfez 
o casamento." Viam-se fotografias horrveis dela e do musculoso treinador. Outra mostrava o marido, fugindo da imprensa, escondendo a cara na altura em que desaparecia 
no interior de um clube nocturno. Charlie olhou para o ttulo e encolheu os ombros. - Isso so coisas de Hollywood. Eles l dormem todos uns com os outros. Nem sei 
como ainda se incomodam a casar-se!
      
      Era casado h trinta e nove anos e para ele os caprichos de Hollywood eram histrias de outro planeta.
      
      - No acredite em tudo quanto l - disse Mary Stuart com uma certa severidade. Charlie olhou-a e sorriu. Os bondosos olhos castanhos de Mrs. Walker estavam 
perturbados.
      
      - A senhora est sempre a desculpar toda a gente, Mistress Walker. Acredite que eles no so pessoas como ns.
      
      Sabia, porque iam  sua loja alguns clientes que eram estrelas de cinema e que apareciam constantemente com parceiros diferentes. Tratava-se de gente sem juzo, 
de pessoas muito diferentes de Mary Stuart Walker. Tinha a certeza de que ela nem sequer compreendia o que ele estava a dizer.
      
      - No acredite naquilo que l nos tablides, Charlie - repetiu Mary Stuart, com uma firmeza pouco habitual. Depois pegou no saco das compras e despediu-se 
com um sorriso.
      
      O percurso at ao edifcio onde ela morava era curto, mas apesar de j passar das seis horas ainda havia calor. Mary pensou que Bill chegaria, como de costume, 
por volta das sete horas e que lhe serviria o jantar cerca das sete e trinta ou oito horas, conforme lhe apetecesse. Decidiu meter as batatas no forno quando chegasse 
a casa. Teria tempo de tomar um duche e mudar de roupa depois disso. Sentia-se cansada e com calor, aps um longo dia de reunies, embora no o parecesse. O museu 
planeava uma grande operao para angariar fundos e queria para isso organizar um baile em fins de Setembro. Queriam que ela presidisse ao comit organizador, mas 
ela declinara o convite, preferindo ser apenas consultora. No tinha disposio para organizar uma festa desse gnero e preferia trabalhar no hospital com crianas 
deficientes ou vtimas de abusos, em HarlmO porteiro cumprimentou-a quando ela entrou, tirou-lhe o saco das compras das mos e entregou-o ao rapaz do elevador. 
Mary agradeceu e manteve-se silenciosa at chegarem ao andar onde ficava o seu apartamento. O prdio era antigo, slido e bonito. Era um dos prdios da Quinta Avenida 
que ela preferia e a vista que se desfrutava das suas janelas era espectacular, sobretudo no Inverno, com o Central Park coberto de neve, formando um ntido contraste 
com a linha do horizonte. No Vero tambm era encantadora, com todo aquele verde. Do alto do dcimo quarto piso tudo parecia bonito e tranquilo. No se ouvia o rudo 
l de baixo, nem a sujidade, nem o perigo. Era tudo belo e verde e as flores da Primavera tinham finalmente desabrochado, aps um longo e frio Inverno.
      
      Mary Stuart agradeceu ao rapaz do elevador por a ter ajudado a levar o saco e, depois de entrar em casa, dirigiu-se para a grande cozinha branca. Gostava de 
divises amplas e de linhas simples e funcionais como aquelas. Alm de trs gravuras francesas emolduradas, a cozinha era totalmente branca, com paredes, pavimento 
e grandes balces de granito branco. Essa mesma cozinha aparecera nas pginas da Architectural Digest cinco anos antes, com Mary Stuart sentada num banco, vestida 
com calas e uma camisola de angora, ambas igualmente brancas. Apesar de ela ali preparar excelentes refeies, era difcil acreditar que algum l cozinhasse.
      
      A empregada j tinha sado e a casa estava mergulhada em silncio. Mary Stuart guardou as compras, ligou o forno e ficou a olhar demoradamente para o parque. 
Dali via o campo de jogos onde as crianas brincavam, recordando o tempo em que passava longas horas ao frio, observando os filhos a brincar com os seus amiguinhos 
ou andar nos balouos ou no escorrega. Parecia-lhe ter sido h mil anos... h muito tempo... como  que tudo passara to depressa? Tinha a impresso de ter sido 
ainda na vspera que todos estavam em casa, jantando em famlia, falando ao mesmo tempo das suas actividades dirias, dos seus planos, dos seus problemas. Sentia 
a falta at das discusses entre Alyssa e Todd, muito mais reconfortantes do que o silncio. Seria um alvio quando Alyssa voltasse no Outono, para o seu ltimo 
ano em Yale depois daquele ano em Paris. Pelo menos iria passar alguns fins-de-semana a casa.
      
      Mary Stuart saiu da cozinha e dirigiu-se para a sala onde costumava trabalhar. Era ali que tinham o atendedor de chamadas e ela ligou-o para saber se tinha 
mensagens. Ouviu a voz de Alyssa. Sorriu imediatamente ao perceber que era a filha.
      
      "Ol, mam... tenho pena de a no ter apanhado em casa. S queria falar consigo e saber como est. Aqui so dez horas e vou sair com uns amigos para beber 
um copo. Venho tarde, por isso no me telefone. Ligo-lhe no fim-de-semana. Ver-nos-emos dentro de poucas semanas... Adeus..." Depois, como se de repente se tivesse 
lembrado, acrescentou: "Gosto muito de si..." Ouviu-se ento um estalido e ela desligou. O aparelho registava a hora e Mary Stuart olhou para o seu relgio, com 
pena de no ter falado com a filha. Eram quatro horas em Nova Iorque quando Alyssa lhe telefonara, duas horas e meia antes. Mary Stuart estava ansiosa por ir ter 
com ela a Paris, dentro de trs semanas. Seguiria depois de carro para o Sul da Frana e em seguida para a Itlia, de frias. Tencionava ficar l duas semanas, mas 
Alyssa s queria vir passar alguns dias a casa antes de as aulas comearem, em Setembro, e j declarara que depois de acabar o curso queria ir viver para Paris. 
Mary Stuart nem queria pensar nisso agora. O ltimo ano, passado sem ela, fora demasiado solitrio.
      
      "Mary Stuart..." Agora era a voz do marido. "Esta noite no vou jantar a casa. Terei reunies at s sete horas e descobri agora que tenho de ir jantar com 
clientes. Chegarei por volta das dez ou onze horas. Lamento." Ouviu-se um estalido e a voz desapareceu. Transmitida a informao, a voz calou-se. Provavelmente os 
clientes estavam  espera dele enquanto falava, e, alm disso, Bill detestava mquinas. Dizia que a sua constituio era incapaz de se relacionar com elas e era-lhe 
impossvel deixar gravada uma mensagem pessoal. Mary gracejava com ele por causa disso. Na verdade, costumava gracejar acerca de uma poro de coisas, embora ultimamente 
no tanto. Fora um ano muito difcil para eles. Tanta coisa mudara, tinham-se dado tantas alteraes... tivera tantos desapontamentos... to grandes desgostos! E, 
contudo, exteriormente parecia tudo to normal... Mary Stuart admirava-se de como isso era possvel. Como  que uma pessoa com o corao destroado podia continuar 
a fazer caf, a abrir camas, a comprar lenis, a assistir a reunies. Levantava-se, tomava duche, vestia-se, deitava-se, mas uma parte de si prpria morrera. Outrora 
admirava-se de como as outras pessoas conseguiam fazer tal coisa. Era algo que exercia sobre si uma fascinao mrbida. Mas agora sabia. As pessoas continuavam a 
viver. Tinham de o fazer. O corao continuava a bater e recusava-se a deix-las morrer. Caminhava-se, falava-se, respirava-se, mas por dentro doa tudo.
      
      "Ol", dizia a mensagem seguinte, "daqui fala Tony Jones. O seu VCR est reparado. Pode vir busc-lo quando quiser." Depois mais duas mensagens sobre reunies 
que tinham sido alteradas. Uma questo relativa ao baile do museu e ao comit formado para a sua organizao e umas perguntas feitas pela chefe das voluntrias de 
um abrigo de Harlem. Mary tomou nota das alteraes e lembrou-se de que tinha de desligar o forno. Mais uma vez Bill no ia jantar a casa. Ultimamente fazia muito 
isso. Trabalhava de mais. Era assim que sobrevivia. E,  sua maneira, ela prpria fazia o mesmo, com as suas infindveis reunies e comits.
      
      Desligou o forno e decidiu preparar apenas uns ovos para o jantar, mas ainda no lhe apetecia comer e dirigiu-se para o quarto. As paredes eram de um amarelo 
muito claro, com uma orla branca, e a carpete era antiga, bordada  mo, comprada por si prpria em Inglaterra. Nas paredes viam-se aguarelas e gravuras antigas, 
havia uma lareira de mrmore, e, sobre ela, molduras de prata com fotografias dos filhos. Dos dois lados da lareira encontravam-se dois confortveis cadeires onde 
ela e Bill gostavam de se sentar, a ler, junto do calor da lareira. Agora passavam quase todos os fins-de-semana na cidade, como, de resto, sucedera durante todo 
o ltimo ano.
      
      Tinham vendido a casa de Connecticut no Vero anterior. Sem os filhos e com Bill a viajar constantemente, nunca l iam.
      
      "Hoje em dia a minha vida parece ter entrado num crculo cada vez mais fechado", dissera Mary Stuart a uma amiga. "Sem os filhos e com Bill sempre fora, tudo 
 demasiado grande para ns. At mesmo o nosso apartamento nos parece grande de mais." Porm, nunca teria coragem de o vender. Os filhos haviam crescido ali.
      
      Quando entrou no quarto e pousou a carteira sobre a cama, os seus olhos dirigiram-se involuntariamente para a pedra da chamin. Ainda era tranquilizador ver 
ali os filhos, quando tinham quatro, e cinco, e dez, e quinze... e o co que fora deles quando eram pequenos, um grande lavrador amigvel cor de chocolate, chamado 
Mousse. Como sempre, sentiu-se atrada por eles e ficou a olhar para as fotografias. Era to fcil olh-las, ficar parada a recordar. Era como voltar a outros tempos, 
e ela desejava muitas vezes regressar a essa altura em que todos os seus problemas eram simples. O rosto alegre, de cabelos louros, de Todd fitava-a quando era rapazinho 
e ela conseguia ouvi-lo cham-la outra vez... ou a correr atrs do co... ou a cair na piscina, quando tinha trs anos, fazendo-a mergulhar completamente vestida. 
Nessa altura salvara-o. Sempre estivera atenta a ajud-lo, a ele e a Alyssa. Havia uma fotografia de toda a famlia tirada trs Natais antes, rindo, de brao dado 
uns com os outros, pulando, enquanto um fotgrafo exasperado lhes pedia para ficarem quietos durante um bocado para tirarem a fotografia.
      
      Todd insistira em cantar canes atrozes e Alyssa ria histericamente. At mesmo ela e Bill no conseguiam deixar de rir. Sempre fora bom estar com eles. Isso 
fez com que o som da voz de Alyssa no gravador, nessa noite, ainda se tomasse mais pungente. Ento, como fazia sempre, Mary afastou-se, virou a cara aos pequenos 
rostos que simultaneamente a acariciavam e atormentavam, que lhe despedaavam o corao e o apaziguavam. Sentia um aperto na garganta ao entrar na casa de banho 
para lavar a cara. Depois olhou-se ao espelho com severidade.
      
      - Pra com isso!
      
      Fez um aceno afirmativo com a cabea, em resposta s suas prprias palavras. Sabia que no podia fazer isso. Ter pena de si mesma era um luxo que no estava 
ao seu alcance. Tudo quanto podia fazer era seguir em frente. Mas entrara num terreno que no lhe era familiar, com uma paisagem de que no gostava, rida e despovoada, 
por vezes de uma solido insuportvel. Em certas ocasies pensava que chegara ali sozinha, mas sabia que Bill tambm l se encontrava, perdido no deserto, algures, 
no seu inferno particular. H um ano que o procurava e no o encontrara ainda.
      
      Pensou ento em preparar o seu prprio jantar, mas decidiu que no tinha fome e, depois de se despir e vestir umas calas de ganga e uma camisola cor-de-rosa, 
voltou para a salinha, sentou-se  secretria e comeou a examinar alguns papis. Ainda havia luz l fora. As sete horas, Mary resolveu ligar para Bill para lhe 
dizer que recebera o seu recado. Tinham muito pouca coisa a dizer um ao outro, alm de trocarem impresses sobre o trabalho dele e as reunies dela, mas, de qualquer 
maneira, telefonou-lhe. Era prefervel isso a afastarem-se definitivamente. Embora no ltimo ano andassem perdidos, Mary Stuart no estava preparada para desistir 
e provavelmente nunca estaria. No era prprio da sua natureza desistir, abandonar. Deviam muito mais do que isso um ao outro, depois de tantos anos de vida em comum. 
Quando o barco est prestes a naufragar, no  altura de abandonar o navio. No entender de Mary Stuart, era prefervel ir para o fundo com o navio, se fosse preciso.
      
      Marcou o nmero dele e ouviu o telefone tocar. Por fim uma secretria atendeu, afirmando que Mr. Walker ainda estava em reunies e que lhe diria que ela telefonara.
      
      - Obrigada - replicou Mary Stuart suavemente, desligando e fazendo rodar lentamente a cadeira para olhar de novo para o parque. Se quisesse poderia ver casais 
que passeavam tranquilamente, gozando a suavidade daquele pr do Sol de Junho; mas no queria ver. Tudo o que lhe traziam presentemente era mgoa e recordaes dos 
tempos em que era feliz com Bill. Talvez voltassem a s-lo. Talvez... Pensou na palavra, mas no na inevitvel concluso se isso no sucedesse. Era impensvel, e 
Mary recusou pensar nisso e voltou aos seus papis. Trabalhou durante uma hora, enquanto o Sol desaparecia, fazendo listas para os comits e sugestes para o grupo 
com o qual se reunira nessa tarde. Quando olhou de novo para fora estava quase escuro e a noite aveludada pareceu engoli-la. O apartamento encontrava-se de tal modo 
silencioso, to vazio, que sentiu vontade de gritar ou de chamar algum. Mas no havia ali ningum. Mary inclinou a cabea para trs e fechou os olhos. Ento, como 
se a Providncia a tivesse escutado e ainda se importasse com ela, do que duvidava, o telefone tocou.
      - Est?
      
      Na voz dela havia um tom de surpresa, pois fora arrancada de repente aos seus pensamentos. E ali, na sala fracamente iluminada pela ltima claridade do dia, 
com os cabelos um pouco em desordem, ela estava incrivelmente bonita.
      
      - Mary Stuart? - A voz era suave e ligeiramente arrastada e ao ouvi-la Mary sorriu. Era uma voz que conhecia havia vinte e seis anos. No a ouvia h meses, 
mas parecia estar sempre atenta quando precisava dela, como se soubesse o que se passava. Ambas partilhavam o elo poderoso de uma amizade antiga. - Es tu? De repente 
pareceu-me a voz de Alyssa.
      
      A voz do outro lado do fio era feminina, profundamente sensual, e tinha ainda um leve sotaque texano.
      
      - No, sou eu. Ela ainda est em Paris. - Mary Stuart suspirou, como se sentisse uma forte mo pux-la para a margem. Era espantoso como ela aparecia sempre 
nos maus momentos. Isso sucedera muitas vezes. Ajudavam-se uma  outra, como sempre sucedera. Ao pensar nisso, Mary Stuart recordou o que sucedera em Gristede. - 
Como ests? Li uma notcia a teu respeito num jornal. - Mary Stuart franziu a testa ao pensar no que lera.
      
      - Bonito, no ? E o mais espantoso  que tenho uma treinadora. Despedi o tipo que aparece na capa do Enquirer o ano passado. Telefonou-me hoje, ameaando 
processar-me, porque a mulher dele est furiosa com a notcia. Tem muito que aprender a respeito dos tablides... - Ela prpria aprendera isso do modo mais difcil. 
- Mas estou bem, sim, mais ou menos. - A voz suave e arrastada fazia com que a maior parte dos homens ficasse de cabea perdida, e Mary Stuart sorriu quando a ouviu. 
A voz da amiga era como uma lufada de ar fresco numa sala abafada. Sentira isso logo que a conhecera. Tinham ido para a universidade ao mesmo tempo, vinte e seis 
anos antes, em Berkeley. Eram todas muito novas e tinham passado um tempo feliz e descuidado. Haviam formado um grupo composto por quatro raparigas, que se tomaram 
amigas inseparveis. Mary Stuart, Tanya, Eleanor e Zoe. Durante os dois primeiros anos tinham sido companheiras de quarto nas instalaes da universidade e depois 
dessa altura resolveram alugar uma casa em Euclid.
      
      Durante quatro anos tinham sido inseparveis, como se fossem irms. Ellie morrera no ltimo ano e depois as coisas alteraram-se. Aps estarem formadas cada 
uma seguira a sua prpria vida. Tanya casara logo a seguir, dois dias depois da cerimnia da formatura. Casara com o seu namorado de sempre, que conhecia desde criana, 
pois vivia na mesma pequena cidade que ela, a leste do Texas. Casaram na igreja, mas o casamento durara apenas dois anos. Um ano depois do casamento a carreira meterica 
de Tanya lanara-a para os pncaros da fama, despedaando ao mesmo tempo o seu casamento. Bobby Joe conseguiu aguentar a situao durante mais um ano, mas era demasiado 
para ele. Estava completamente fora do seu elemento, e sabia-o. J era suficientemente assustador ter casado com uma mulher educada e talentosa, mas estar casado 
com uma estrela era mais do que podia suportar. Tentou, tentou verdadeiramente compreend-la, mas o que realmente desejava era que ela abandonasse tudo e ficasse 
no Texas com ele. No queria sair da sua terra nem abandonar os negcios do pai. 
      
      Eram empreiteiros e os negcios corriam-lhes bem. Ele sabia o que podia e no podia fazer. E, na verdade, no podia suportar os tablides, os agentes, os concertos, 
os gritos dos ias e os contratos de muitos milhes de dlares no eram coisa que ele quisesse, embora fossem tudo para Tanya. Esta amava Bobby Joe, mas no estava 
disposta a desistir de uma carreira com que sempre sonhara. Separaram-se depois do segundo aniversrio do casamento e no Natal estavam divorciados. Bobby levara 
muito tempo a esquec-la, mas voltara a casar e tinha seis filhos. Tanya vira-o uma ou duas vezes durante esses anos. Comentara que ele estava gordo, careca e to 
simptico como sempre. Tanya dizia isso com uma pontinha de tristeza e Mary Stuart sabia que a amiga tinha conscincia do preo a pagar pelo sucesso, pela sua fantstica 
carreira. Vinte anos depois de a ter comeado era ainda a cantora mais popular do gnero country.
      
      Mary Stuart e Tanya tinham permanecido amigas. A primeira casara um ano aps ter concludo o curso, mas Zoe fora para a Faculdade de Medicina. Fora sempre 
ela a rebelde do grupo, a que se entusiasmava pelas causas revolucionrias. As outras costumavam arreli-la, dizendo que fora para Berkeley com dez anos de atraso, 
mas era ela quem as unia, que queria que tudo fosse feito com lealdade e justia e que lutava denodadamente pelas boas causas. Fora tambm ela quem encontrara Ellie 
morta e quem, apesar de chorar desesperadamente, tivera coragem de telefonar aos tios de Ellie. Tinham sido tempos terrveis para as trs. Ellie fora a mais ntima 
de Mary Stuart. Era uma rapariga meiga, encantadora, cheia de ideias idealistas e de sonhos. Os pais tinham morrido num desastre de automvel no ano anterior e as 
suas colegas da faculdade passaram a ser a sua famlia. Mary Stuart pensava muitas vezes se ela teria podido enfrentar as presses da vida. Era to delicada que 
quase parecia irreal, e, ao contrrio das outras, que tinham os seus planos e os seus objectivos, era totalmente irrealista, uma verdadeira sonhadora. Morrera trs 
semanas antes de acabar o curso. Tanya estivera prestes a adiar o casamento por causa disso, mas todas as amigas lhe disseram que Ellie no gostaria que o fizesse 
e Tanya achara que Bobby Joe seria capaz de a matar se ela adiasse o casamento. Zoe e Mary Stuart tinham sido as suas nicas damas de honor.
      
      Na altura em que Mary Stuart se casara estava Tanya no Japo, para o seu primeiro concerto nesse pas, e Zoe no pudera sair da escola. Mary Stuart casara 
em casa dos pais, em Greenwich.
      
      Mary Stuart vira o segundo casamento de Tanya nos noticirios. Tanya tinha ento vinte e nove anos, casara com o seu manager e a cerimnia decorrera calmamente 
em Ls Vegas, seguida plos jornalistas, cmaras de televiso, helicpteros e todos os membros da imprensa existentes num raio de centenas de quilmetros em redor 
de Las Vegas.
      
      Mary Stuart nunca gostara do segundo marido de Tanya. Dessa vez Tanya queria ter filhos, pretendia comprar urna casa era Santa Brbara ou Pasadena e ter urna 
"verdadeira vida". A ideia era boa, mas o marido no pensava assim. S se interessava por duas coisas: a carreira dela e o dinheiro dela. E fez tudo quanto pde 
para favorecer uma e conseguir a outra. Tanya sempre dissera que profissionalmente ele fizera coisas muito boas por ela. Fizera mudanas que ela nunca poderia ter 
feito sozinha, arranjara-lhe contratos para concertos em todo o mundo, conseguiu-lhe contratos para gravaes que bateram todos os recordes e fez com que ela passasse 
de uma grande estrela para uma verdadeira lenda. Depois disso, Tanya podia pedir tudo o que quisesse. Durante os cinco anos em que estiveram casados recebeu trs 
discos de platina e cinco de ouro, e ganhou inmeros Grammys e outros prmios musicais. Apesar da pequena fortuna com que ele ficou quando se separaram, o futuro 
de Tanya estava assegurado, a me dela vivia numa casa de cinco milhes de dlares, em Houston, e comprara  irm e ao cunhado uma propriedade em Armstrong.
      
      Ela prpria possua uma das mais bonitas casas de Bel Air e uma casa na praia, em Malibu, que lhe custara dez milhes de dlares e onde nunca ia. Mas o marido 
quisera compr-la. Tinha dinheiro e fama, mas no tinha filhos. Depois do divrcio achou que precisava de uma mudana e comeou a entrar em filmes. Fez dois filmes 
no primeiro ano e ganhou um Oscar no segundo. Aos trinta e cinco anos, Tanya Thomas tinha tudo quanto se pensasse que podia desejar. O que nunca tivera fora a vida 
que podia ter tido com Bobby Joe, afeio, amor e apoio, algum que estivesse com ela, que se preocupasse com ela, que lhe desse filhos. Decorreram seis anos at 
Tanya casar pela terceira vez. O marido tinha uma importante firma de compra e venda de propriedades na rea de Los Angeles e estava habituado a acompanhar starlets. 
No restavam dvidas de que ele ficara impressionado com a carreira de Tanya, mas mesmo Mary Stuart, que defendia sempre a amiga, tivera de admitir que ele era uma 
pessoa decente e que, obviamente, gostava muito dela. O que preocupava as amigas de Tanya era se o marido seria capaz de suportar a vida agitada da cantora, ou se 
isso seria demasiado para ele. Pelo que soubera nos trs ltimos anos, Mary Stuart tinha a impresso de que as coisas corriam bem e sabia melhor que ningum, visto 
manter-se em contacto com a amiga nos vinte anos da sua carreira, que os ttulos que apareciam nos tablides nada significavam.
      
      Mary sabia que uma das coisas que atrara Tanya para Tony fora o facto de ele ser divorciado e ter trs filhos, um com nove, outro com onze e outro com catorze 
anos. Tanya gostava muito deles. O mais velho e o mais novo eram rapazes e adoravam Tanya. A pequenita estava completamente encantada com ela, e nem podia acreditar 
que Tanya Thomas fosse casar com o pai. Dava a notcia a todas as suas amigas e comeara at a tentar vestir-se como a madrasta, o que no era apropriado para uma 
criana de onze anos. Tanya ia muitas vezes fazer compras com ela, escolhendo coisas que lhe ficassem bem e fossem adequadas para a sua idade. Tinha muito jeito 
para crianas e falava em ter um beb. Mas casara com Tony aos quarenta e um anos e hesitava em engravidar. Receava ser demasiado velha e Tony no se mostrava interessado 
em ter mais filhos, por isso Tanya nunca forou o assunto. J tinha bastantes preocupaes, mesmo sem ser obrigada a negociar com Tony por causa de ter um filho. 
      
      Nos dois primeiros anos do casamento teve concertos atrs uns dos outros, quase ininterruptamente, a imprensa no a deixava em paz e foi forada a enfrentar 
dois processos. Era um ambiente de fazer enlouquecer e no era propcio para quem desejasse ter um beb. Era mais fcil dedicar-se aos filhos de Tony, e foi o que 
fez de todo o corao. Ele chegou a dizer que ela era melhor me para eles do que a verdadeira me. Mas Mary Stuart reparara que, apesar do seu ar amigvel e bem-disposto, 
deixava que Tanya tratasse de tudo sozinha. Era ela quem se preocupava com contratos, organizao dos concertos, falar com os advogados, enfim, era ela quem tinha 
todas as angstias e preocupaes. Ele tratava tranquilamente dos seus negcios ou ia para Palm Springs jogar golfe com os amigos. Estava menos envolvido na vida 
dela do que Tanya esperara que estivesse. Mary sabia melhor que ningum como a amiga trabalhava duramente, como se sentia s, como eram brutais as exigncias dos 
admiradores e dolorosas as traies. No entanto, Tanya raramente se queixava, e Mary admirava-a por isso. Mas aborrecia-a ver Tony acenar para as cmaras quando 
iam  cerimnia de atribuio dos Oscares ou dos Grammys. Parecia estar sempre por perto nas boas ocasies, mas nunca nas ms. Mary Stuart lembrou-se disso ao ouvir 
a amiga dizer que o antigo treinador lhe telefonara a amea-la por causa da notcia nos jornais. Tanya sabia melhor que ningum que era impossvel lutar contra 
esses tablides.
      
      - Na verdade Tony tambm no ficou encantado - acrescentou calmamente Tanya. O tom da voz dela preocupou Mary Stuart. Parecia s e cansada. Consigo passava-se 
o mesmo, e bem sabia o que isso significava. - De cada vez que os jornais anunciam que eu tenho um novo romance, ele fica doido. Diz que o embarao perante os amigos 
e no gosta disso. E eu dou-lhe razo.
      
      Suspirou, mas nada havia a fazer. No havia maneira de os deter. E a imprensa gostava de a atormentar. Tanya tinha uma figura espectacular, uma abundante cabeleira 
loura e uns enormes olhos azuis. Era difcil algum acreditar que se tratava de uma mulher como outra qualquer e que preferia beber Dr. Pepper do que champanhe. 
Mas notcias como essa no os fariam vender jornais.
      
      Tanya mantivera sempre o cabelo louro e os constantes e eficientes cuidados com a beleza faziam-na parecer muito mais nova. Dizia ter agora trinta e seis anos 
e conseguira com sucesso esconder os oito anos adicionais que ela e Mary Stuart tinham em comum. Mas, ao olh-la, ningum suspeitaria de que mentia.
      
      - Eu tambm no fico satisfeita quando me atribuem um romance com algum. Mas as pessoas que apontam so geralmente to ridculas que nem me importo... a no 
ser por causa de Tony, claro. E tambm por causa dos garotos. E embaraoso para eles e para todos. Tenho a impresso de que tm uma lista de casos possveis no computador 
e, quando lhes apetece, escolhem nomes de duas pessoas ao acaso.
      
      Tanya encolheu os ombros e pousou os ps sobre a mesinha que tinha  sua frente, franzindo o sobrolho enquanto pensava em Mary Stuart. Havia meses que no 
falava com ela.
      
      Eram as duas mais amigas do antigo grupo. Sabia que Mary Stuart no falava com Zoe h anos e ela prpria quase perdera o contacto com ela. Falavam-se uma vez 
por ano e trocavam cartes de boas-festas no Natal. Zoe afastara-se muito delas. Trabalhava num hospital de So Francisco, nunca casara nem tivera filhos. Era completamente 
dedicada ao seu trabalho e passava os tempos livres em clnicas gratuitas. Era um gnero de trabalho em que sempre acreditara. Tanya no a via h cinco anos, desde 
o seu ltimo concerto em So Francisco.
      
      - E tu, como vais? - perguntou subitamente Tanya a Mary Stuart. - Que tens feito?
      
      Tanya percebeu o tom inquisitivo na voz da amiga e preparou-se para isso.
      
      - Oh!, estou bem. Fao sempre as mesmas coisas. Comits, reunies, trabalho voluntrio em Harlm. Ainda hoje passei a tarde no Metropolitan, a tratar de uma 
grande campanha para a angariao de fundos que planeamos para Setembro.
      
      A sua voz era calma e controlada, como de costume, mas para Tanya isso no chegava. Mary podia iludir muita gente, at mesmo Bill, por vezes, mas no Tanya.
      
      - No  a isso que eu me refiro. - Houve uma pausa, enquanto as duas mulheres ficaram sem saber bem o que dizer e Tanya esperava pela resposta de Mary Stuart. 
- O que eu quero saber  como te sentes de verdade.
      
      Mary Stuart suspirou e olhou pela janela. Escurecera e estava sozinha no apartamento silencioso. Praticamente h mais de um ano que estava sozinha.
      
      - Estou bem. - A voz tremeu-lhe, mas s ligeiramente. Estava melhor do que quando Tanya a vira, um ano antes, num desastroso dia de chuva, em que ela desejara 
que a sua prpria vida tivesse acabado tambm. - Vou-me habituando. - Mas tanta coisa mudara... Muito mais do que ela tinha esperado.
      
      - E Bill?
      
      - Tambm est bem, creio. Nunca o vejo.
      
      - Isso no me parece muito bem. - Houve outra longa pausa, mas elas estavam habituadas a isso. - E Alyssa?
      
      - Acho que est boa. Gosta de Paris. Dentro de umas semanas vou l ter com ela. Vamos passar um ms a percorrer a Europa. Bill tem um julgamento importante 
em Inglaterra e vai l durante o Vero, por isso pensei em ir ter com ela. - Parecia mais feliz ao dizer aquilo e Tanya sorriu. Alyssa Walker era uma rapariga de 
quem gostava muito.
      
      - Vais estar em Inglaterra com ele? - perguntou Tanya com a voz arrastada e suave.
      
      Mary Stuart hesitou, e depois respondeu apressadamente:
      
      - No, no. Ficarei c. Ele tem muito trabalho e no me pode dar ateno durante um caso daqueles. Alm disso, tenho muito que fazer aqui.
      
      "Muito que fazer aqui." Mary sabia o que havia de dizer para encobrir os factos, para ocultar o seu desespero. Frases como: "Est tudo bem... ele  fantstico... 
est cheio de trabalho... est em viagem... tenho de ir  Baixa...  Europa ver a minha filha." Era a poltica de ocultar, de dizer as palavras correctas para esconder 
a solido, o silncio, e ter um stio para chorar em paz, longe dos olhares piedosos. Era uma maneira de afastar as pessoas sem lhes dizer como as coisas estavam 
realmente ms.
      
      - Tu no ests bem, Mary Stuart - prosseguiu Tanya com a determinao que todos lhe conheciam. No deixaria nenhuma pedra por virar at descobrir a verdade, 
a resposta, o culpado. Era essa determinao que ela e Zoe tinham em comum. Mas Tanya fora sempre muito mais subtil e muito mais afvel quando descobria o que desejava. 
- Porque no me dizes a verdade, Stu?
      
      - Estou a dizer a verdade Tan - insistiu Mary. Stu... Tan... Tannie... os nomes de antigamente... as promessas... as esperanas... o incio. Agora parecia-lhes 
aproximar-se o fim, com tudo a desabar... com tudo a fugir-lhes e nada a encontrar. Mary Stuart detestava essa sensao na sua vida. - Estamos bem,  verdade - insistiu.
      
      - Ests a mentir, mas no sei se te hei-de censurar por isso. Tens as tuas razes.
      
      Era essa a diferena entre Zoe e Tanya. Zoe nunca a deixaria mentir, ocultar. Sentir-se-ia na obrigao de a fazer expor os seus problemas, lanar uma luz 
forte sobre o seu desgosto, para o poder curar. Tanya, pelo menos, achava que ela no podia faz-lo. Tambm Tanya tinha agora as suas preocupaes.
      
      A imprensa mentia a respeito de ela ter um romance com outro homem, mas no andavam longe da verdade ao afirmarem que o seu casamento com Tony estava periclitante. 
Embora durante algum tempo ele tivesse achado uma certa graa  aura de sucesso que rodeava Tanya e que irradiava tambm sobre ele, h muito que comeara a aborrecer-se 
de ter sempre as atenes dos jornalistas focadas sobre a sua vida privada. Era embaraoso e doloroso, impedindo-os de ter uma vida familiar tranquila. Ultimamente, 
Tony no cessava de se queixar, e Tanya dava-lhe razo, mas no queria abandonar a sua carreira e, no o fazendo, era impossvel alterar aquele estado de coisas. 
Apenas podiam fugir dali de tempos a tempos, mas uma viagem ao Hawai, ou mesmo a frica ou ao Sul da Frana, no solucionava coisa alguma. Proporcionava-lhes umas 
trguas, uns momentos de descanso, mas nada mais do que isso. 
      
      Por mais absurdo que parecesse, o sucesso fenomenal de Tanya, a sua celebridade, os milhes de admiradores que a adoravam faziam dela uma vtima. E, pouco 
a pouco, Tony comeara a detestar tudo aquilo. De momento Tanya apenas lhe podia prometer ser o mais discreta possvel. Nem sequer fora ao Texas ver a me, na semana 
anterior, com receio de alimentar os rumores se sasse da cidade. Tony declarava constantemente que a presso sobre ele e os filhos era demasiada e Tanya sentia-se 
tomada de pnico ao ouvir isso, especialmente por no estar nas suas mos fazer fosse o que fosse para alterar a situao. Os seus problemas tinham todos uma origem 
exterior.
      
      - Estou a telefonar-te porque vou a Nova Iorque na prxima semana - explicou Tanya. - Pensei que com a tua vida atarefada fosse preciso marcar um encontro 
contigo, pois, caso contrrio, poderias estar a jantar com o governador para obteres fundos para uma das tuas causas.
      
      A verdade  que Tanya se mostrara sempre incrivelmente generosa para com os grupos que mais preocupavam Mary Stuart, e por duas vezes oferecera espectculos 
cujos lucros reverteram a favor dessas obras. Mas ultimamente no o pudera fazer. O seu tempo estava demasiado ocupado. Parecia nunca ter um momento para si prpria. 
O seu actual agente e manager eram mais exigentes do que quaisquer outros e arranjavam-lhe cada vez mais concertos. Ganhavam fortunas com discos gravados durante 
os concertos, direitos sobre a utilizao do nome dela em bonecas, em perfumes e outros artigos, e Tanya era cada vez mais solicitada. Eles queriam explorar esse 
rico filo, mas, de momento, Tanya estava mais interessada em entrar noutro filme.
      
      - Vou participar num espectculo televisivo em Nova Iorque - disse ela -, mas estou em negociaes com um agente para escrever um livro. Recebi um telefonema 
de um editor. Creio que no estou interessada, mas, em todo o caso, irei falar com eles. Que mais tero a dizer a meu respeito?
      
      J tinham sido publicadas quatro biografias no autorizadas, todas elas cruis e cheias de inexactides, mas Tanya no dava grande importncia a isso. Quando 
sara a primeira, o que lhe causara um choque terrvel, telefonara a Mary Stuart a meio da noite, para que a amiga a pudesse reconfortar. Tinham-se apoiado mutuamente 
no decorrer dos anos e agora tinham a certeza de que assim seria sempre. Era uma amizade firme, com profundas razes, impossvel de surgir quando j no se  to 
novo. Elas eram amigas desde a adolescncia e as razes dessa amizade tinham-se entrelaado de tal modo que era impossvel separ-las. A amizade delas era das que 
no podiam morrer.
      
      - Quando  que chegas? Vou esperar-te ao aeroporto - props Mary Stuart.
      - No. Passarei por tua casa e poderemos ir para o hotel conversar. Chegarei tera-feira. - Tanya viajaria no avio da companhia discogrfica, como sempre. 
Era como se tivesse um carro  sua disposio e a maneira prtica que ela tinha de viajar divertia sempre Mary Stuart. - Telefono-te do avio - concluiu Tanya.
      
      - Estarei  tua espera - insistiu Mary Stuart, sentindo-se como se fosse uma rapariga. Havia qualquer coisa na maneira como Tanya a animava que a fazia sentir 
novamente jovem, em vez de parecer que tinha mil anos. Sorriu  ideia de voltar a ver a amiga. No a via h imenso tempo. Nem sequer se recordava de quando a encontrara 
pela ltima vez, embora Tanya se recordasse nitidamente.
      
      - Adeus, garota, at tera - disse Tanya, sorrindo do seu lado da linha. Depois, mostrando-se mais grave e com a sua meiguice de sempre, acrescentou: - Gosto 
muito de ti.
      
      - Eu sei. - Mary disse que sim com a cabea, enquanto os olhos se lhe enchiam de lgrimas. As palavras de carinho  que Mary Stuart no conseguia tolerar. 
Era muito mais fcil enfrentar a solido. - Tambm gosto muito de ti - murmurou, sufocada com as suas prprias palavras. - Desculpa... - Fechou os olhos, lutando 
contra a emoo que a invadia.
      
      - No, no te desculpes... est tudo bem... eu sei... eu sei...
      
      Mas a verdade  que no sabia. Ningum sabia. Era impossvel algum compreender o que ela sentia nesse momento. Nem sequer o marido.
      
      - At para a semana. - A voz de Mary Stuart parecia calma outra vez, mas Tanya no se deixou iludir. Havia um dilvio de angstia por detrs do dique que Mary 
Stuart construra para dominar a sua dor e Tanya no pde deixar de pensar por quanto tempo  que a amiga poderia aguentar tal situao.
      
      - At tera. Veste umas calas de ganga. Vamos comer um hambrguer a qualquer stio ou pedimos que nos levem qualquer coisa ao quarto para conversarmos  vontade. 
Adeus.
      A comunicao acabou e Mary Stuart ficou a pensar na amiga, nos tempos de Berkeley, antes de cada uma ter seguido a sua vida, com as suas alegrias e as suas 
tristezas. Tudo fora to fcil ento... at Ellie ter morrido, antes do fim do curso. Fora essa a entrada na vida real, e, ao pensar nisso, Mary olhou para uma fotografia 
colocada sobre a sua mesa-de-cabeceira, uma foto das quatro no primeiro ano. Agora pareciam-lhe crianas, mais novas mesmo do que a sua prpria filha. Tanya com 
os seus longos cabelos louros, sex e sensacional Zoe com o seu rabo-de-cavalo ruivo, com um ar srio e intenso, Ellie, frgil, com uma aurola de caracis louros, 
e ela prpria com grandes olhos e pernas longas, de cabelo escuro e comprido, fitando directamente a cmara. Parecia-lhe ter sido h um sculo, e fora. Ficou a pensar 
nelas durante muito tempo e acabou por adormecer, completamente vestida. 
      
      Quando Bill chegou, s onze horas, encontrou-a ali. Ficou a olh-la durante algum tempo e depois apagou a luz. No lhe falou nem lhe tocou e ela dormiu, com 
as calas de ganga e a camisola cor-de-rosa, durante toda a noite. Quando acordou, na manha seguinte Bill j tinha voltado para o escritrio. Limitara-se a passar 
por ela de novo, como um estranho, o que ele agora era.















Captulo 2
      
      Quando Tanya Thomas acordou, no seu quarto da casa de Bel Air, na manh seguinte Tony j estava a tomar duche. Partilhavam o mesmo quarto e dois quartos de 
vestir separados, com a respectiva casa de banho. O quarto era grande e arejado, com uma moblia francesa antiga e enormes cortinados de seda cor-de-rosa, com metros 
e metros de tecido com flores. O quarto de vestir e a casa de banho eram de mrmore rosa, com cortinados da mesma cor. Na casa de banho de Tony predominavam o mrmore 
preto e o granito. Toalhas pretas e cortinas de seda preta davam-lhe um aspecto totalmente masculino.
      
      Tanya comprara a casa havia alguns anos e quando casara com Tony mandara-a decorar de novo, conforme o gosto dele. Apesar de Tony ser tambm uma pessoa com 
xito na sua vida profissional, Tanya sabia que gostava de exibir um pouco a celebridade dela. O ambiente de Hollywood sempre o atrara e, aps andar vrios anos 
em seu redor, ser de repente catapultado para o seu centro parecera-lhe extraordinrio. Apreciava muito mais do que Tanya comparecer s festas de Hollywood, conversar 
com as estrelas de cinema, assistir  entrega dos Oscares e dos Globos de Ouro, e especialmente frequentar os sales de Barbara Davis. Aps dezoito horas de trabalho, 
Tanya preferia ficar em casa, mergulhar num banho quente e ouvir msica cantada por outra pessoa.
      
      Tanya vestiu um roupo de cetim cor-de-rosa por cima da camisa de noite de renda e desceu para preparar o pequeno-almoo para o marido. Havia ali outras pessoas 
que poderiam fazer isso, mas Tanya gostava de ser ela a prepar-lo e sabia que Tony ficava satisfeito com essa ateno da sua parte. Tanya era uma boa cozinheira 
e gostava de cozinhar. Quando podia, preparava refeies para os filhos dele. Fazia uns bifes excelentes e dera-lhes a provar papas de aveia. Eles gracejavam com 
ela por causa disso, mas gostavam. Tambm costumava preparar pratos com massa. Havia uma quantidade de coisas que ela gostava de fazer com Tony. Gostava de fazer 
amor com ele, de estar sozinha com ele, de viajar, de descobrir novos stios na sua companhia, mas nunca tinha tempo suficiente. Havia sempre ensaios, gravaes, 
filmagens e concertos, festas de beneficncia, alm de inmeras horas passadas a examinar documentos e contratos com os seus advogados. Tanya era agora mais do que 
uma actriz ou uma cantora, era um imprio, uma indstria, e aprendera muito acerca dos negcios, da maneira mais dura.
      
      Enquanto esperava por Tony, fez sumo de laranja e partiu os ovos para a frigideira, onde a manteiga alourava. E, enquanto metia as torradas na torradeira e 
ligava a mquina do caf, ia abrindo o jornal matutino. Sofreu um choque ao ler uma das notcias da primeira pgina. Tratava-se de um seu antigo empregado, que afirmava 
ir process-la por assdio sexual. A notcia apanhou-a de chofre, mas, ao ler o artigo, reconheceu o nome do guarda-costas que tinham tido durante duas semanas no 
ano anterior, e que fora despedido por roubar. Dera uma longa entrevista ao jornal, afirmando que Tanya tentara seduzi-lo e, como ele a repelira, fora despedido 
sem qualquer razo ou explicao. 
      
      Ao ler o artigo, Tanya compreendeu, com uma sensao de desgosto, que, como em todos os processos que lhe eram movidos, acabaria por pagar o que o homem pedia, 
para acabar com o assunto. Parecia no haver qualquer maneira de se defender, de provar que era inocente e que as acusaes que lhe faziam no passavam de mentiras, 
de uma forma de fazer chantagem. Tanya sabia que o marido compreendia isso e era sempre ele o primeiro a aconselh-la a pagar, por mais indigno que fosse o ataque 
ou o pedido de indemnizao. Era mais simples dessa maneira. Mas sabia bem que Tony ficaria lvido ao ver o jornal. Dobrou-o cuidadosamente e escondeu-o. Passado 
um momento, Tony entrou na cozinha vestido para ir jogar golfe.
      
      - No vais trabalhar hoje? - perguntou Tanya, partindo um abacate e tentando mostrar-se descontrada.
      - Onde  que tens estado nos ltimos trs anos? - perguntou ele, admirado. - Sabes perfeitamente que jogo golfe s sextas-feiras.
      
      Tony era um homem bem-parecido, com cabelo escuro e constituio atltica, para os seus quarenta e oito anos. Jogava muito tnis e golfe e fazia exerccios 
no ginsio que mandara construir numa das extremidades da casa. Tinha o seu treinador particular, que no era aquele que aparecera recentemente nos tablides.
      
      - Onde est o jornal? - perguntou, sentando-se e olhando  sua volta. Lia todas as manhas o Los Angeles Times e o Wall Street Journal. Era um excelente homem 
de negcios e fizera fortuna com a sua firma de compra e venda de propriedades numa altura de grande prosperidade. Mas Tanya no tinha qualquer interesse pelo dinheiro 
dele. O seu temperamento carinhoso  que primeiro a atrara; a sua honestidade, o valor que dava  famlia, aos filhos. Para ela Tony era uma pessoa comum, que ia 
todos os dias para o trabalho, regularmente, e que jogava  bola com os filhos aos fins-de-semana. E gostava particularmente do facto de ele no estar metido no 
"negcio". O que ela no poderia ter imaginado  que ele gostava da vida de Hollywood muito mais do que ela prpria, embora no estivesse disposto a pagar o preo 
desse estilo de vida. Gostava do brilho, mas no do preo a pagar por ele. Mas Tanya sabia que no se podia ter um sem o outro. Com efeito, Tony queixava-se constantemente 
das provocaes que tinham de suportar e das histrias ultrajantes que apareciam nos jornais.
      
      "No se pode ter as duas coisas", explicara-lhe. "No se pode ter a glria sem o trabalho", dissera ela meigamente, prometendo retirar-se quando a imprensa 
voltasse a fazer-lhe acusaes acerca dos seus antigos namorados. Mas Tony insistira para que ela no se retirasse. Achava que se aborreceria. Sugerira tambm que 
tivessem um filho e abandonassem tudo. Mas ele gostava do que ela fazia, tal como Tanya, por isso continuaram a resistir aos ataques da imprensa, s ameaas de morte, 
aos processos. Tanya continuava a recusar-se a ter guarda-costas a tempo inteiro, contratando apenas um quando tinha de usar uma grande quantidade de jias que no 
lhe pertenciam.
      
      - Ento onde est o jornal? - repetiu Tony, comeando a comer os ovos e olhando-a, percebendo imediatamente que algo se passava. - O que tens?
      
      - Nada - respondeu Tanya, servindo-se de caf.
      
      - Ento, Tanya - disse ele, mostrando-se aborrecido. - Est escrito na tua cara. No ganharias um Oscar com esta representao.
      
      Sorriu tristemente e encolheu os ombros. De qualquer modo, ele acabaria por descobrir. S no queria que conhecesse a notcia enquanto tomavam o pequeno-almoo. 
Sem dizer uma s palavra, Tanya entregou-lhe o jornal, ficando a observ-lo enquanto ele o lia. Viu os msculos do pescoo e do queixo dele agitarem-se e no o ouviu 
dizer uma palavra at acabar de ler. Depois olhou-a com uma expresso sombria.
      
      - Isto vai-te custar caro. Tenho ouvido dizer que o assdio sexual agora vale muito. - Falara sem qualquer emoo, mas era fcil perceber que estava furioso. 
- O que  que lhe disseste? - Os seus olhos fitaram-na fixamente e ela olhou para o marido com assombro.
      
      - O que  que eu lhe disse? Ests louco? - Tanya olhou para o marido com espanto. - Achas que eu lhe disse alguma coisa? Apenas lhe disse onde era o estdio 
e a que horas era o ensaio. Foi isso que eu lhe disse. Como  que... podes perguntar-me uma coisa dessas?
      
      Havia lgrimas nos olhos dela ao fit-lo e Tony bebeu um gole de caf com ar comprometido.
      
      
      - S estava a ver se tinhas dito alguma coisa ao homem que lhe tivesse servido para inventar esta histria. Que diabo, ele faz declaraes espantosas!
      
      - E o que sucede sempre. Trata-se de ganncia e inveja. Sabe que h dinheiro e quere-o. Acha que pode causar-me embaraos e que lhe vou pagar para ele se calar.
      
      J passara muitas vezes por situaes daquelas, sendo processada com falsas acusaes, com ilegalidades, a pretexto de falsos acidentes, por parte de antigos 
empregados. Todos esperavam ganhar alguma coisa com os processos que lhe moviam. No era nada que surpreendesse em Hollywood, mas quando sucedia no era agradvel. 
E embora compreendesse as razes por que aquilo acontecia Tony no gostava. Dizia ser embaraoso para ele e para os filhos. Afirmava que se tornava ridculo aos 
olhos das outras pessoas e que at a sua ex-mulher tinha razo para se queixar, e ele no tinha necessidade de que tal coisa se desse. Tanya sabia muito bem qual 
a reaco de Tony a essas histrias. Primeiro fingia no se incomodar com elas, e depois ia-se tornando cada vez mais desagradvel  medida que a questo se desenrolava, 
acabando por fazer presso sobre Tanya para que os advogados resolvessem rapidamente o assunto, pagando. E entretanto procedia como se fosse ele a parte ofendida. 
Depois de a ter castigado durante algum tempo, vinha, eventualmente, a perdoar-lhe. O processo repetia-se com frequncia, e Tanya no gostava nada disso.
      
      - Vais pagar-lhe para ele se calar? - perguntou ansiosamente.
      
      - Ainda nem sequer falei ao meu advogado. Soube pelo jornal, tal como tu.
      
      - Se tivesses feito bem as coisas quando o despediste, nada disto teria sucedido - replicou Tony, vestindo o casaco e falando junto da porta.
      
      - Isso no  verdade, e tu bem o sabes. No  a primeira vez que passamos por isto. So ossos do oficio e no o posso evitar, faa o que fizer. - Agira sempre 
de forma muito cuidadosa e circunspecta, mas isso de nada lhe servia. Nunca fora promscua, nunca tomara drogas, no se portara mal, nem tratara mal os seus empregados, 
e nunca se embriagara em pblico. Mas, por mais que se fizesse ou no fizesse, as pessoas com o gnero de vida dela tinham sempre de enfrentar problemas daqueles, 
e, na maior parte dos casos, o pblico acreditava no que lia ou ouvia. E muitas vezes sucedia o mesmo com Tony.
      
      - J no tenho a certeza se sei o que fazes - disse ele, mostrando-se zangado. Detestava os embaraos que ela lhe causava. Tony deu meia volta e saiu. Poucos 
minutos depois ela ouviu o carro afastar-se a toda a velocidade.
      
      Ligou para o seu advogado, Bennett Pearson, e este pediu-lhe desculpa. Recebera os jornais tarde, na vspera, e no tivera tempo de lhe telefonar para a avisar.
      
      - Foi uma bela surpresa receber a notcia inesperadamente ao pequeno-almoo - disse ela, de forma bem texana. - Para a outra vez gostaria de ser avisada. Como 
sabe, Tony no aprecia grandemente este gnero de notcias.
      
      Na semana anterior fora a histria do seu treinador, no Enquirer, e agora era o guarda-costas. Alm de ser alvo de chantagem e de processos de diferentes gneros, 
Tanya era tambm uma sex simbol e os jornais gostavam de publicar tudo o que podiam sobre ela. Quando desligou o telefone, depois de falar com o advogado, Tanya 
tinha os olhos cheios de lgrimas. O guarda-costas insistia em que ela lhe fizera propostas, o embaraara, e que isso lhe provocara danos emocionais. E arranjara 
um psicanalista qualquer que se prontificava a testemunhar por ele. Segundo afirmavam os seus advogados, o que se estava a passar nada tinha de inusitado, mas ela 
lembrava-se de que o tipo era verdadeiramente manhoso e provavelmente continuaria a acus-la. Nos primeiros anos da sua carreira talvez Tanya tivesse chorado lgrimas 
amargas por causa daquilo, mas haviam decorrido vinte anos e todos aqueles processos lhe eram familiares. E ela sabia porque aquilo sucedia. Tinha sucesso e era 
forte, conseguindo manter-se no topo da carreira com muito trabalho e uma incrvel determinao. Havia pessoas que a invejavam, imensa gente frustrada que se sentia 
feliz por a atacar e denegrir. No se tratava, de facto, de um procedimento muito tico, mas era, com certeza, vulgar.
      
      Tanya perguntara ao advogado o que  que achava que ele podia fazer, e ele dissera-lhe para o esquecer. Ele trataria de tudo e estava certo de que, aps a 
exploso inicial, o cavalheiro em questo estaria ansioso por ser pago para se calar. Tinha a certeza de que era, na verdade, o que ele queria e avisou-a de que 
uma indenizao por assdio sexual poderia atingir facilmente milhes de dlares.
      
      - Formidvel! Que quer ento que eu faa? Porque  que no hei-de dar-lhe a casa de Malibu? Pergunte-lhe se ele gosta de sol. Ou talvez prefira a casa de Bel 
Air, embora seja um pouco mais pequena.
      
      Era-lhe impossvel no ser sarcstica e ainda mais impossvel no se sentir furiosa, defraudada e atraioada por pessoas dispostas a fazer-lhe mal, apesar 
de no a conhecerem. De certo modo, os ataques que lhe faziam eram to bvios e impessoais como um tiroteio ao acaso sobre pessoas que passassem na rua.
      
      Eram agora nove horas e a sua secretria chegara, uma rapariga desembaraada chamada Jean, que trabalhara anteriormente para o presidente de uma companhia 
discogrfica e que h mais de um ano trabalhava para Tanya. Era eficiente e de confiana, mas Tanya no gostava da maneira que tinha de criar constantemente um ambiente 
de urgncia em volta dela, em vez de tentar diminu-lo. E fez exactamente isso nessa manh. Na primeira hora que ali esteve, houve trs telefonemas de Nova Iorque, 
dois de revistas femininas, pedindo entrevistas, e outro do estdio de televiso onde ela iria aparecer. O advogado tambm lhe telefonou duas vezes e o agente ligou 
para a pressionar a tomar uma deciso sobre a sua prxima tourne de concertos. Tanya ainda no se comprometera, mas eles queriam saber imediatamente o que ela decidira, 
porque seria impossvel incluir o Japo se no o fizesse. O agente que tinha em Inglaterra tambm lhe telefonou por causa de um contrato. Souberam que iria aparecer 
nova histria noutro jornal e falaram por causa de um problema tcnico e avisando-a de que teria de estar no estdio para gravar ao meio-dia e que teria ensaios 
nessa noite para um espectculo de beneficncia. E o seu agente de cinema telefonou tambm para lhe falar de outro filme.
      
      - Meu Deus, o que est a acontecer hoje? E lua cheia ou toda a gente nesta cidade perdeu a cabea? - Tanya afastou o comprido cabelo louro com uma das mos, 
enquanto Jean lhe entregava uma chvena de caf e lhe lembrava que precisava de dar uma resposta acerca da tourne antes das quatro horas.
      
      - No sou obrigada a fazer tudo, e se no inclurem o Japo, pacincia. No estou disposta a deixar-me pressionar para tomar uma deciso antes de estar preparada 
para isso.
      
      Tanya proferiu as ltimas palavras com ar zangado, o que era incaracterstico nela. Geralmente era bem-disposta, mas a presso que exerciam sobre ela era suficiente 
para provocar uma erupo num vulco, e Tanya era um ser humano e no podia suportar tudo.
      
      - E a respeito da entrevista para a Viei. Eles precisam de uma resposta esta manh.
      
      - Porque no falam com os meus relaes pblicas? - replicou Tanya, sentindo-se cada vez mais enervada. - No deviam telefonar-me directamente. Porque no 
lhes diz isso?
      - Tentei, mas no ligaram. Sabe como , Tanya... Quando descobrem o seu nmero todos querem falar directamente consigo!
      
      - Sim, e eu tambm. - Era Tony. Regressara de jogar golfe e encontrava-se parado  entrada do escritrio dela, no parecendo nada satisfeito. - Posso falar 
um minuto contigo, Tan?
      
      - Com certeza - respondeu Tanya, olhando-o e sentindo-se subitamente nervosa. Tinha de estar no estdio dentro de meia hora, e ele no estava disposto a esperar 
nem mais um minuto. O que quer que fosse que o preocupava era urgente.
      
      Jean deixou-os ss e Tanya esperou que Tony se sentasse. Parecia ter algo importante a dizer-lhe e ela no sabia se estaria preparada para o ouvir.
      
      - Passa-se alguma coisa? - perguntou, num sussurro ansioso.
      
      - N... no... - respondeu ele com um suspiro, olhando para fora atravs da janela. - No mais do que o habitual. E quero que me compreendas. - Voltou-se e 
fitou-a. Tanya percebeu que ele ainda estava muito zangado, que se sentia trado, no s por ela, ou pela histria do guarda-costas, mas pelo facto de a vida deles 
estar sempre sujeita a esse gnero de coisas e no haver maneira de fugir a tal tortura. Como celebridades, no tinham direito a privacidade, nem sequer  honestidade, 
e cada histria inventada sobre ela e relatada na imprensa tinha a proteco da Constituio. 
      
      - No estou zangado com o que li hoje no jornal. - Tony mentia mais para si prprio do que para a mulher, mas gostava de pensar que estava a ser justo para 
com Tanya, mesmo quando isso no sucedia. - No  muito pior do que qualquer outra coisa que tenham dito a nosso respeito. Sinto um grande respeito por ti, Tan. 
No sei como consegues suportar tanta coisa. - No Natal anterior tiveram que arranjar guarda-costas para todos eles, incluindo os filhos, pois haviam recebido srias 
ameaas de morte, especialmente Tanya, e a ex-mulher de Tony ficara muito preocupada. - Considero-te uma mulher fantstica. - Mas Tanya no gostou do modo como ele 
a olhou ao falar. Os seus olhos dizia tudo, e havia mais de um ano que ela se apercebera do que ia suceder. Tony estava farto de tudo aquilo e a verdade  que queria 
afastar-se. O mal  que ela no podia. A diferena era essa. Mesmo que Tanya decidisse retirar-se nessa mesma tarde, aquele gnero de coisas continuaria a persegui-la 
durante muito tempo, talvez para sempre, e ela sabia-o.
      
      - O que  que me ests a querer dizer? - Tanya tentou no se mostrar sarcstica, mas era difcil. J passara mais vezes por situaes semelhantes, de vrias 
maneiras e com pessoas diferentes. Disse a si prpria que estava preparada, mas no fundo do seu corao sabia que no era verdade. No era possvel deixar de ter 
esperana, deixar de pensar que dessa vez seria diferente, que ele seria suficientemente forte, que se preocuparia com ela e quereria ficar a seu lado para a ajudar. 
Era tudo o que ela desejava, talvez mesmo mais do que ter filhos, um relacionamento slido, verdadeiro, com um homem que a apoiasse nos momentos difceis, porque 
eles apareciam sempre. Dissera tudo isso a Tony no incio. E ele mantivera-se firme durante quase trs anos, mas ultimamente comeara a ficar enervado. Demasiado 
enervado. - Ests a dizer-me que no s suficientemente bom para mim, que mereo melhor? Trata-se de um desses nobres discursos que me do a impresso de que me 
estou a elevar, enquanto tu foges e bates com a porta?
      
      Tanya falou com clareza, olhando-o de frente. No valia a pena tentar adiar a questo.
      
      - Isso no  verdade. Nunca fugi nem bati com a porta. - Tony estava magoado e Tanya lamentou ter dito aquilo. Talvez as suas acusaes fossem prematuras.
      
      
      - No, mas ests a pensar nisso, no ests? - perguntou Tanya em voz baixa.
      
      Ele ficou a olh-la durante muito tempo, no confirmando nem negando o que ela acabara de dizer.
      
      - Nem sei bem o que digo. Sinto apenas que estou a ficar farto. A tua vida  dura, mais dura do que qualquer pessoa possa pensar, antes de a conhecer.
      
      - Eu avisei-te disso - retorquiu, sentindo-se como uma alpinista que se encontrasse a meio cainho para subir o Evereste e o seu companheiro comeasse a fraquejar. 
- Eu disse-te como era. E uma vida dura. H coisas maravilhosas, e eu gosto do meu trabalho, mas detesto as consequncias do sucesso, o que elas me fazem, e a ti... 
e aos teus filhos... Sei como  difcil. Mas o mal  que nada posso fazer para impedir que tais coisas aconteam.
      
      - Eu sei... eu sei... e no tenho o direito de me queixar. - Olhou-a com uma expresso embaraada e angustiada, e ela percebeu que estava tudo acabado com 
Tony. Estava cansado de Hollywood, o romance perdera o fulgor. - Sei como o teu trabalho  duro, e no quero tomar as coisas piores para ti. Compreendo que te dedicas 
totalmente ao trabalho, mas isso tambm  mau para ns. No tens tempo para mim. A tua vida so os concertos, os ensaios, as gravaes. Tu fazes grandes coisas, 
Tan, e, entretanto eu fico aqui sentado a ler as notcias que os jornais publicam a nosso respeito.
      
      - E acreditando no que eles publicam? - perguntou Tanya, sem rodeios. Talvez fosse isso mesmo. Talvez ele achasse que era verdade. O guarda-costas que a estava 
a processar era um grande filho da me, mas no deixava de ser atraente.
      
      - No, no acredito - disse Tony com ar cansado --, mas tambm no fico satisfeito. Os amigos com quem joguei golfe esta manh fartaram-se de falar no assunto. 
Na verdade, alguns at acharam engraado ter uma mulher que  processada por assdio sexual, quando a maior parte afirma que as mulheres deles nunca querem dormir 
com eles. - Tony mostrava-se embaraado com o que dizia, mas Tanya percebeu o seu significado profundo. Os amigos atormentavam-no e Tony sentia-se humilhado. Tratava-se 
de uma queixa razovel, mas ela tambm se sentia cansada disso. O problema era que ele podia ficar livre em qualquer altura, e ela no. A imprensa e os potenciais 
"acusadores" queriam atac-la a ela, no ao marido. Tony prosseguiu, com ar infeliz: - Nem sei o que te hei-de dizer. Isto assim no tem graa, pois no?
      
      - No, no tem - concordou tristemente Tanya, demasiado abalada pelas palavras dele para poder discutir. De certo modo, os maus  que venciam sempre. Os tablides, 
os processos acusatrios, as ameaas e a presso eram, de facto, demasiados para um relacionamento com um ser humano normal. - Ests a dizer que queres deixar-me? 
- perguntou Tanya, sentindo-se terrivelmente infeliz. Tony no seria o amor da sua vida, mas sentia-se bem junto dele, confiava nele, gostava dele e dos seus filhos. 
Se ele no a deixasse, ela nunca acabaria com o casamento.
      
      - No tenho a certeza - admitiu Tony. Havia algum tempo que pensava no assunto, mas no chegara ainda a qualquer concluso. - Para ser sincero, digo-te que 
no sei se poderei aguentar muito mais isto. E no quero ser desleal para contigo. Realmente comeo a estar farto, e penso que deves sab-lo.
      
      - Aprecio a tua honestidade - disse Tanya, olhando-o e sentindo-se triste por ele no a apoiar, por se sentir "embaraado" por estar casado com ela e por querer 
abandon-la por isso.
      
      - Gostava que isso no me incomodasse. Nunca pensei que tal me sucedesse. Tudo nos parece fcil at estarmos metidos no assunto. Depois  tudo irreal, como 
em Alice no Pas das Maravilhas. Comea-se a cair, a cair... - disse ele. Ao ouvi-lo, Tanya recordou que o amava. Era um homem inteligente e, apesar das diferenas 
entre ambos, tinham muita coisa em comum.
      
      - E uma maneira interessante de dizer o que sentes - murmurou Tanya sorrindo melancolicamente, sabendo por instinto que para ele estava tudo acabado. - E os 
teus filhos? Se nos separarmos vais continuar a deixar que eu os veja?
      
      Tanya fez a pergunta com os olhos cheios de lgrimas. At ento tudo correra de um modo razovel. Era a primeira de vrias conversas que iriam dar ao fim do 
seu casamento. Mas quando viu a expresso de tristeza no seu rosto Tony estendeu a mo para agarrar a dela. Sentia-se terrivelmente mal por a ver assim, mas sabia 
desde h muito que no podia continuar por muito mais tempo. E a histria que lera nessa manh no jornal fizera transbordar a taa.
      
      - Ainda te amo, Tan - murmurou. Tanya detestou-o por dizer aquilo com um ar to meigo. Ainda se sentia muito atrada por ele, era sexy, bem-parecido e inteligente, 
e embora nem sempre a apoiasse ela estivera constantemente disposta a perdoar-lho. - Quis apenas dizer-te o que sinto. E mesmo que as coisas entre ns no se componham, 
nunca te impedirei de ver os meus filhos. Eles gostam de ti - concluiu, olhando-a de uma maneira que lhe despedaava o corao. Despedia-se dela sem dizer as palavras, 
mas Tanya sabia que no levaria muito tempo a diz-las. Para ele estava acabado, embora no estivesse para ela.
      
      - E eu gosto deles. - Comeou a chorar baixinho e Tony foi sentar-se ao seu lado e ps-lhe um brao por cima dos ombros.
      
      - Eles tambm gostam de ti Tan, assim como eu,  minha maneira louca - disse Tony. Mas ela no acreditou. Se realmente gostasse dela no a quereria deixar.
      
      - E a respeito de Wyoming? Eles iro? E tu? - quis saber Tanya, sentindo-se de repente desesperada e assustada. Ia perd-lo e provavelmente a eles tambm. 
Por que motivo quereriam v-la se o pai a deixava? O relacionamento que se estabelecera entre eles nos ltimos trs anos seria suficiente para que desejassem faz-lo? 
Viu ento que Tony a olhava de um modo estranho.
      
      - Penso que devem ir contigo. Ser uma grande experincia para eles - afirmou Tony com uma expresso perturbada. Ela compreendeu imediatamente o que ele estava 
a querer dizer.
      
      - Mas tu no irs. E isso?
      
      - Acho que no. Creio ser boa altura para termos frias separadas. Provavelmente irei  Europa.
      
      - Quando  que surgiu essa ideia? Foi hoje, no golfe? - Que se estava a passar ali? H quanto tempo estaria Tony a planear abandon-la? Olhou-o e viu que ele 
tinha um ar comprometido.
      
      - H algum tempo que penso nisto Tan. No foi uma ideia que tivesse tido hoje ao pequeno-almoo. Creio que foi apenas o catalisador. Foi o Enquirer a semana 
passada e o Star na semana anterior. Foram as acusaes, os processos, as ameaas de morte e as notcias nos tablides desde que nos casmos.
      
      - Julguei que te estavas a habituar... - respondeu ela, mostrando-se surpreendida.
      
      - Corno  que algum se poder habituar? Tu tambm no te habituas...
      Tony preocupara-se muitas vezes com o stress a que ela estava sujeita. Sabia que at mesmo pessoas novas como ela podiam morrer devido ao excesso de stress. 
Admirava-se por ela suportar tudo to bem e lamentava no poder dizer o mesmo de si prprio.
      
      - Ento que fazemos agora? - Tanya queria saber se devia ir para cima e arrumar as malas dele, ou se devia fazer apaixonadamente amor com ele e convenc-lo 
a desistir. Que esperaria Tony que ela fizesse? E mais importante ainda era saber o que ela queria. Sentia-se ainda demasiado magoada e assombrada por aquilo que 
o marido lhe dissera.
      
      - No sei bem o que devemos fazer - replicou Tony com sinceridade. - Quero pensar um bocado no assunto. Mas queria avisar-te da direco que estou a tomar.
      
      - E uma espcie de furaco, ou uma inundao. E uma verdadeira catstrofe natural - disse ela, tentando sorrir, mas com as lgrimas nos olhos... Nessa altura, 
Jean bateu  porta e espreitou para dentro da sala.
      
      - Est uma hora atrasada para o estdio. O produtor telefonou para a lembrar disso. Os msicos querem saber se podem ir almoar j e voltar ao estdio daqui 
a uma hora. O seu agente telefonou tambm, dizendo que precisa de uma resposta at s quatro e meia. Bennett Pearson ligou e pediu para falar com ele logo que possa.
      
      - Est bem, est bem. - Tanya ergueu a mo, para a fazer calar. - Diga aos msicos para irem almoar agora. Estarei l dentro de meia hora. E diga a Tom para 
esperar, que mais tarde trataremos do assunto.
      
      E como  que ela havia de cantar, decidir se ia ao Japo, se iria fazer outro filme, outra toornee, se devia pagar ao chantagista que dera a entrevista ao 
jornal, tudo ao mesmo tempo? Quando Jean saiu, Tanya voltou-se para o marido e disse:
      - Tens razo. Nada disto  muito divertido, pois no?
      
      - Por vezes , mas a maior parte das ocasies no  - respondeu Tony com sinceridade, levantando-se. - E preciso pagar muito caro pela fama. - Sentia-se terrivelmente 
mal, mas ao mesmo tempo estava aliviado. A vida dela era um verdadeiro pesadelo. - Vai fazer a tua gravao Tan. Lamento ter-te atrasado. Falaremos noutra altura. 
No h nada a resolver agora. Desculpa ter-te roubado tanto tempo.
      
      No havia problema. Uma hora. Trs anos. Fora divertido. Quem poderia censur-lo por se querer ir embora agora? Viu-o sair da sala, sentindo simultaneamente 
dio e tristeza.
      
      - Est tudo bem? - Jean voltou com uma pilha de mensagens para Tanya e para lhe recordar que devia sair para o estdio dentro de cinco minutos.
      
      - Est bem, est bem. Estou ptima. - ptima!... Estava sempre tudo ptimo, mesmo quando isso no sucedia. E no pde deixar de pensar quanto tempo levaria 
a imprensa a descobrir, se Tony a deixasse. Era algo que no a devia preocupar, mas preocupava. A ideia de saber que iriam escrever nova srie de histrias sobre 
ela fazia-a sentir exausta.
      
      Lavou a cara antes de sair e tentou no chorar. Ps culos escuros e Jean foi a conduzir. Tanya respondeu do carro a alguns dos telefonemas e disse ao seu 
agente que faria a tourne, incluindo o Japo. No ano seguinte estaria em viagem durante aproximadamente quatro meses, vindo de avio a casa de tempos a tempos. 
Sabia como esses concertos seriam importantes. Dirigiu-se directamente para o estdio logo que chegaram e permaneceu l at s seis horas. Em seguida foi ao ensaio 
para a festa de beneficncia, e s voltou a casa cerca das onze horas. Quando chegou viu um bilhete de Tony em cima da mesa da cozinha. Fora passar o fim-de-semana 
a Palm Springs. Tanya ficou imvel durante longo tempo, pensando o que fora feito da vida deles e quanto tempo duraria at o seu casamento acabar definitivamente. 
Percebeu que ele escrevera apoiado numa parede, obviamente  pressa, antes de sair. Pensou em ligar-lhe para Palm Springs, para lhe dizer como o amava e como lamentava 
a dor que lhe causava. Mas quando pegou no telefone ficou parada, quieta. Porque no estava ele a seu lado? Porque no suportava os dissabores que se acumulavam 
sobre ela? Porque estava disposto a fugir? A nica concluso a que chegou, depois de pensar no assunto, foi que Tony Goldman nunca a amara verdadeiramente. E que, 
se assim fosse, ela nunca poderia saber a verdade. Pousou o telefone, e, com lgrimas nos olhos, dirigiu-se calmamente para o silncio do quarto.























Captulo 3
      
      Tanya viajou para Nova Iorque no avio da companhia discogrfica, e decidiu no levar a secretria consigo, para ficar sozinha. Na verdade, para um nico espectculo 
televisivo e um encontro com um agente literrio no precisava de Jean. Alm disso, precisava de tempo para pensar em Tony. Depois de passar o fim-de-semana em Palm 
Springs, Tony regressara no domingo  noite. Jantaram com os filhos e ele nada mais disse acerca de se sentir infeliz ou das histrias que apareciam na imprensa. 
Ela tambm no teve coragem nem energia para falar do assunto. Nem mencionou nada quando viu que a revista People tambm publicava o caso do ex-empregado que a queria 
processar. Sabia que j dissera o suficiente e quando saiu de casa para embarcar para Nova Iorque j Tony fora para o escritrio.
      
      O avio esperava-a. Era quase como se tivesse um avio comercial s para si. Um dos administradores da companhia viajava no mesmo avio. Obviamente sabia quem 
ela era, mas, aps um breve cumprimento, nada mais lhe disse. Tanya tomou notas, fez telefonemas e trabalhou numa msica. A meio da viagem recebeu um telefonema 
do advogado, informando-a de que o seu antigo guarda-costas queria um milho de dlares para desistir de a processar.
      
      - Diga-lhe que nos encontraremos no tribunal - respondeu Tanya friamente.
      
      - No me parece que seja uma deciso inteligente - afirmou Bennett Pearson com grande calma.
      
      - No vou pagar a chantagistas. Ele no pode provar coisa alguma. No tem nada que prove o que diz. E uma inveno absurda.
      
      -  a palavra dele contra a sua, Tanya. Voc  uma grande estrela e, segundo ele declarou, provocou-o, traumatizou-o e depois despediu-o. Diz que voc lhe 
estragou a vida por ele no ter feito sexo consigo...
      
      - Pronto, Bennett. No precisa de contar a histria toda. Eu sei o que ele disse.
      
      - As pessoas podem ficar com pena dele. Os jurados so imprevisveis. Tem que pensar nisso. E se a condenam a pagar-lhe dez milhes de dlares de indemnizao? 
Que sentiria ento?
      
      - Vontade de o matar!
      
      - Pense bem. Creio que seria melhor pagar para se livrar dele. Um milho no  nada de extraordinrio.
      
      - Sabe quanto tenho de trabalhar para ganhar um milho? Sabe bem que trabalho muito para o ganhar!
      
      - No prximo ano vai fazer uma tourne. Tire o dinheiro da e faa de conta que foi um azar, um fogo em casa que no esteja coberto pelo seguro.
      
      - Isso  nojento! No passa de um roubo...
      
      - E verdade, e est sempre a suceder. Tm-no feito a si e a muitas outras pessoas.
      
      - Fico doente por dar dinheiro a gente dessa.
      
      - Pense bem no caso. Tem outras coisas que a preocupam, sem ter de estar a pensar num processo. A ltima coisa de que precisa  de fazer um depoimento que 
aparecer em todos os jornais. Trata-se de um caso pblico e como tal...
      
      - Est bem, est bem.
      
      - Telefone-me de Nova Iorque.
      
      Porque seria tudo to desagradvel? No admirava que Tony quisesse deixar aquela vida. s vezes tambm ela tinha vontade de sair da sua prpria vida, mas era-lhe 
impossvel escapar. Tudo aquilo estava to preso a ela como uma carraa ou um cancro.
      
      O voo para Nova Iorque levou apenas cinco horas e Tanya telefonou para Mary Stuart pouco antes de aterrarem. Disse-lhe que dentro de meia hora a iria buscar 
a casa, e Mary Stuart pareceu excitada ao ouvi-la. Tanya telefonou outra vez, do carro, e quando chegou a casa da amiga ela j estava  porta do prdio,  espera, 
vestindo umas calas de ganga e uma camisola de algodo. As duas mulheres abraaram-se carinhosamente e Tanya observou melhor a amiga depois de entrarem no carro. 
Mary Stuart estava mais magra e tinha um ar mais srio do que era costume. O ltimo ano fora, obviamente, muito difcil para ela. Sabia que com a filha, Alyssa, 
em Paris as coisas deviam ser ainda mais difceis para a amiga.
      
      Mas Alyssa tivera necessidade de ir para longe deles. Mary Stuart sabia-o, e por isso no se queixava.
      
      - Cus! Ests sempre na mesma! - exclamou Mary, admirando a amiga, surpreendida por ver como ela se mantinha bonita, mesmo naquela idade. Era como se o tempo 
no passasse por ela. - Como  que consegues isso?
      
      - Segredos profissionais, minha querida. - Soltou uma gargalhada, parecendo sex e misteriosa, e as duas comearam a rir. Para alm de qualquer operao plstica 
que pudesse ter feito, Tanya tinha uma pele bonita, um belo cabelo e uma figura fantstica. E possua tambm uma aparncia juvenil que nunca a abandonara. Mary Stuart 
tambm tinha bom aspecto, mas aparentava mais a sua idade. Claro que Mary Stuart no tinha a mesma preocupao que Tanya em manter uma aparncia jovem.
      
      - Tu tambm tens bom aspecto, menina, apesar de tudo - atreveu-se a dizer Tanya. Era difcil de acreditar que decorrera um ano, o pior da vida de Mary Stuart, 
e provavelmente tambm de Bill, embora ele nunca o dissesse.
      
      - Tenho a impresso de que fizeste um pacto com o Diabo - queixou-se Mary Stuart. - No  justo. Que idade dizes agora que tens? Trinta e um? Vinte e cinco? 
Dezanove? Vo pensar que sou tua me.
      
      - Oh!, cala-te! Pareces ter menos dez anos do que realmente tens, e sabes bem isso.
      
      - Quem me dera! - Mary Stuart sabia perfeitamente como o ltimo ano fora difcil. Apesar do que Tanya dizia, ela via-se ao espelho.
      
      Foram ao J. G. Melon, como costumavam fazer h anos, e teceram comentrios aos rostos que conheciam ou sobre os que j no viam ali; Tanya disse-lhe que iria 
fazer uma tourne nesse Inverno.
      
      - O que  que Tony pensa disso? - perguntou Mary Stuart enquanto comia o hambrguer. Houve uma breve pausa na conversa, mas a expresso de Tanya disse tudo.
      
      - Ainda no lhe contei. De facto, nos ltimos tempos, tenho-o visto pouco. Ns... eu... bem, creio que temos um problema. - Mary Stuart fitou-a com uma expresso 
preocupada. - Ele... hum... foi passar uns dias a Palm Springs e pensa que talvez seja bom fazermos frias separadas este Vero. Ele quer ir  Europa, enquanto eu 
levo os garotos para Wyoming.
      
      - Vai em peregrinao religiosa, ou h alguma coisa que no queiras dizer?
      
      - No. - Tanya parou de comer e olhou calmamente para a amiga. - Creio que h qualquer coisa que ele no diz por enquanto, mas que dir. Ainda no o sabe. 
Acha que est a tentar tomar uma deciso. Mas eu conheo os sinais. Ele j a tomou.
      
      - O que  que te faz pensar isso? - Mary Stuart sentia pena dela, mas no se mostrava surpreendida. O gnero de vida de Tanya causava grandes problemas, e 
ambas o sabiam. Tanya estava desapontada e infeliz.
      
      - Creio que o faz porque eu j no sou to nova como o mdico me faz parecer. - Mary Stuart sorriu ao ouvir o comentrio dela. - Tenho visto muitas fatalidades. 
Ele j me deixou, embora no o saiba. J no aguenta a presso, os ataques da imprensa, os processos, os embaraos, as humilhaes. No posso dizer que o censuro.
      
      - No ests a esquecer nada? - murmurou suavemente Mary Stuart. - E as coisas boas?
      
      - Penso que ele as esqueceu no meio da confuso. So coisas que se esquecem. Tambm me sucede a mim e, na verdade, no o posso censurar. As nicas ocasies 
em que gosto do que fao  quando estou a cantar... para fazer uma gravao ou num concerto. Nem sequer me importam os aplausos. E s a msica... e ele no tem isso. 
Ele apanha com todos os problemas. Eu tenho a glria. Suspeito de que est farto. Esta semana veio uma histria num jornal contada por um ex-empregado que contratmos 
o ano passado. O tipo declarou que eu o persegui e que o despedi por ele me ter repelido. A histria do costume, sabes... Apareceu na primeira pgina e embaraou 
Tony perante os amigos. Creio que foi a ltima gota.
      
      - E tu? Onde ficas tu no meio disso tudo? - Mary Stuart estava genuinamente preocupada. Havia anos que se preocupavam uma com a outra, embora no estivessem 
sempre em contacto e nem sequer vivessem na mesma cidade.
      
      Mas ambas sabiam que podiam sempre contar uma com a outra. - Ests a dizer-me que ele no suporta a presso e se vai embora?
      
      - Ainda no o disse, mais vai faz-lo. Neste momento quer umas trguas e tempo livre para ir sozinho para a Europa. Isso vai fazer com que eu v com os filhos 
dele para um rancho em Wyoming. Mas no me importo. Gosto muito deles.
      
      - Sei que gostas, mas no me sinto nada impressionada pelo cavalheirismo e dedicao do pai deles.
      
      - Conta-me novidades - pediu Tanya com ar melanclico, apertando a mo da amiga. - Que se tem passado contigo? Como est Bill? Tem sido to mau para ele como 
para ti? - Estava estampado na cara da amiga o que ela tinha sofrido.
      
      - Suponho que sim. - Encolheu os ombros. - No falamos muito a respeito disso. No h nada a dizer. No se pode desfazer o que aconteceu. - Ou as coisas que 
tinham dito um ao outro a respeito do sucedido.
      
      Tanya atreveu-se ento a fazer uma pergunta que no fora capaz de formular no ano anterior e que suspeitava fosse a raiz do problema.
      
      - Ele culpa-te? - As palavras dela pouco mais eram do que um sussurro, mas Mary Stuart ouviu-a, apesar do rudo que ali havia.
      
      - Provavelmente - suspirou. - Suponho que nos culpamos ambos por no termos visto o que estava a suceder. Mas sei que inicialmente ele achou que eu devia ter-me 
apercebido do que ia passar-se. Eu devia ter sido capaz de prever o desastre antes dele nos atingir. Bill atribui-me qualidades mgicas, quando lhe apraz. De qualquer 
modo, acho que tambm me censuro a mim mesma. Isso no altera coisa alguma. A iluso  pensarmos que podemos fazer parar o relgio e voltar atrs se deixarmos as 
culpas sobre algum. Mas as coisas no so assim. No interessa. Acabou. - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas e Tanya arrependeu-se imediatamente de ter feito 
a pergunta.
      
      - Desculpa... no devia ter dito nada...
      
      Tanya censurou-se em silncio por ter falado no assunto, enquanto Mary Stuart levava o leno aos olhos e olhava tranquilizadoramente para a amiga.
      
      - No tem importncia Tanya. O desgosto est sempre comigo. E como um membro amputado. E algo que fica para sempre, embora por vezes a dor seja insuportvel 
e outras vezes menos profunda. Mas nunca deixa de doer. Tu no me magoaste Tan. A dor est sempre comigo.
      
      - No podes viver assim para sempre - murmurou Tanya, sentindo-se devastada pela dor da amiga. Era a pior coisa que tinha sucedido a qualquer delas e nada 
podia fazer para a remediar.
      
      - Aparentemente, pode-se viver assim para sempre - respondeu, desesperada, Mary Stuart. - As pessoas fazem constantemente isso. Vivem com dores de todos os 
gneros, artrite, reumatismo, indigesto, cancro. Depois h destas dores, a destruio do corao, a morte da esperana, a perda de tudo o que mais amamos. E um 
desafio  alma - concluiu, mostrando-se angustiada, mas to forte que Tanya quase no a conseguia olhar.
      
      - Porque no vens comigo para Wyoming? - sugeriu subitamente Tanya. Era a nica coisa que lhe ocorria para ajudar a amiga.
      
      Mary Stuart sorriu.
      
      - Vou ter com Alyssa  Europa. Se no fosse, gostaria de ir contigo. Gosto de montar a cavalo. - Depois franziu o sobrolho, confusa por uma antiga recordao 
e satisfeita por abandonar um assunto que lhe era insuportavelmente doloroso. - Mas no sabia que tu montavas.
      
      - No monto. Detesto tal coisa. - Tanya riu-se. - Mas tenho ouvido dizer que  um stio fabuloso e creio que os midos vo adorar l estar. - Pareceu embaraada 
durante uns momentos. - Tambm achei que Tony gostasse, e afinal ele no vai. Mas os filhos tm respectivamente doze, catorze e dezassete anos agora, e gostam de 
andar a cavalo. Creio que ir ser perfeito para eles.
      
      - Tenho a certeza que sim. E tu, vais aprender a montar?
      
      - Depende dos professores... - replicou Tanya, num tom muito texano, e ambas riram. - Creio que sou a nica rapariga do Texas que no gosta de cavalos.
      
      Mas Mary Stuart lembrava-se de que ela sabia montar, embora no gostasse de o fazer.
      
      - Talvez Tony mude de ideias e te acompanhe.
      
      - Duvido - respondeu calmamente Tanya. - Ele j tomou a sua deciso. Talvez lhe faa bem passar algum tempo longe de mim. - Contudo, Tanya achava que isso 
no iria fazer qualquer diferena e Mary Stuart, embora no o dissesse, era da mesma opinio. As coisas pareciam estar definitivamente a deteriorar-se entre a amiga 
e o marido.
      
      Conversaram durante um bocado a respeito de Alyssa, do prximo filme de Tanya e da tourne que ela iria fazer nesse Inverno. Mary Stuart nem imaginava como 
aquele poderia ser um trabalho exaustivo, e admirava Tanya por o ter aceitado. Em seguida falaram do show na televiso, na manh seguinte. Era o programa diurno 
mais visto em todo o pas.
      
      - Como precisava de vir a Nova Iorque para a reunio com o editor, achei que poderia tomar parte no espectculo. Espero que no queiram falar-me do processo. 
O meu agente j lhes disse que eu no queria falar nisso. - Depois lembrou-se de um convite que queria fazer  amiga. - Conheo uma actriz que se estreou recentemente 
no teatro. Dizem que a pea  boa e ela teve criticas muito favorveis. Vo represent-la aqui durante o Vero e, se tiver xito, apresent-la-o durante o Inverno. 
Arranjo-te bilhetes, se quiseres. Mas ela d uma festa amanh  noite e eu gostava que tu fosses comigo. Bill tambm querer ir? Terei muito gosto em que v, mas 
no sei se gostar ou se estar demasiado ocupado. - Nem sabia se ele falava normalmente com Mary Stuart.
      
      - s uma querida. - Mary Stuart sorriu-lhe. Tanya trazia sempre excitao e alegria  sua vida. Lembrava-se de como ela era vinte anos antes. Era sempre Tanya 
quem reunia toda a gente, quem as fazia tomar parte nalgum projecto louco, quem as levava a divertirem-se, muitas vezes mesmo contra a vontade delas. Mary no imaginava 
que Bill quisesse ir. Havia muitos meses que no saam juntos, a no ser por causa de negcios, e ultimamente Bill trabalhava at tarde todas as noites, preparando-se 
para ir para Londres. Partiria dentro de duas semanas e passaria l todo o Vero, mas ela esperava que no fim da sua viagem com Alyssa pudessem passar um fim-de-semana 
juntos no Claridge. Contudo, Bill j lhe dissera que estaria demasiado ocupado para que elas pudesse estar mais tempo com ele. Por isso, Mary Stuart regressaria 
sozinha aos Estados Unidos. Bill dissera-lhe que a informaria de como iria decorrendo o julgamento e se ela poderia ir ter novamente com ele. De certo modo, a atitude 
do marido no lhe parecia muito diferente da de Tony para com Tanya. E provavelmente no era. Ambas estavam a perder os maridos e no tinham maneira de os deter.
      
      - No sei se Bill poder ir connosco. Tem trabalhado at tarde na preparao do julgamento em Londres. Mas eu pergunto-lhe.
      
      - Querers ir sem ele? E uma rapariga muito simptica. - Ento Tanya mostrou-se embaraada. Estava a falar como se se tratasse de uma actriz desconhecida. 
- Se calhar  melhor eu dizer-te o nome dela, para no desmaiares quando eu ta apresentar. Trata-se de Felicia Davenport. Conheo-a h anos e  realmente fantstica.
      
      - Mas que grande enganadora - exclamou Mary Stuart, rindo, pois Felicia era uma das melhores actrizes de Hollywood, que recentemente se estreara na Broadway. 
Mary Stuart lera essa notcia no New York Times de domingo. - Foi bom teres-me dito o nome dela. Caso contrrio eu poderia desmaiar ali mesmo.
      
      Saram do restaurante a rir e Tanya disse que no dia seguinte lhe daria mais indicaes sobre a festa. Mary Stuart prometeu v-la na televiso. A festa seria 
na casa alugada por Felicia em Nova Iorque, em East Sixties.
      
      Tanya deixou a amiga  porta de casa e as duas abraaram-se carinhosamente.
      
      - Obrigada por esta noite, Tan. E bom ver-te. Antes de se encontrar com a amiga nem sequer imaginara como se sentia s e frgil. Ela e Bill mal se tinham falado 
durante o ano inteiro, e sentia-se como uma flor que no tivesse sido regada. Mas falar com Tanya tivera nela um efeito revigorante, como se houvesse sido refrescada 
por uma chuvada. E ia a sorrir ao entrar no edifcio onde vivia, caminhando com vivacidade.
      
      - Boa noite, Mistress Walker - disse o porteiro, levando a mo ao bon para a cumprimentar, como sempre fazia. O rapaz do elevador disse-lhe que o marido chegara 
havia poucos minutos. Quando entrou, Mary encontrou Bill na sala separando uns papis. Estava bem-disposta e sorriu-lhe quando ele se voltou. Bill mostrou-se espantado 
ao ver a expresso dela, como se ambos tivessem esquecido o que era passar um bocado agradvel, sair com amigos, conversar um com o outro.
      
      - Onde estiveste? - Bill parecia surpreendido. Via Mary como uma pessoa completamente diferente e no podia imaginar de onde ela viria quela hora, vestindo 
calas de ganga.
      
      - Tanya Thomas est em Nova Iorque. Jantmos juntas e gostei muito de estar com ela. - Mary sentia-se como uma bria na igreja, sorrindo para o marido, parecendo 
esquecida da solenidade do ltimo ano, do silncio que se erguera como uma barreira entre ambos. Sentia-se de repente demasiado ruidosa, jovial e subitamente embaraada 
diante do marido. - Lamento chegar to tarde... deixei-te um bilhete... - balbuciou, sentindo-se encolher enquanto falava com Bill. Os olhos dele eram frios, a cara 
inexpressiva. O rosto simptico, de feies correctas, que ela amara durante tantos anos, transformara-se em pedra no passado ano, juntamente com tudo nele. Distanciara-se 
dela de tal modo que Mary j no o conseguia ver. Ouvia apenas um eco do que costumava ser.
      
      - No vi o bilhete. - Era mais uma constatao do que uma acusao. E, ao olh-lo, Mary deu por si a pensar que preferia que ele no fosse to atraente. Tinha 
cinquenta e quatro anos e mais de um metro e oitenta de altura, uma constituio atltica e um corpo esbelto. Os olhos azuis, penetrantes, eram agora glidos.
      
      - Lamento, Bill - disse em voz baixa. Mary tinha a sensao de passar a vida a pedir desculpa por uma coisa de que no deviam culp-la. Mas sabia que ele nunca 
lhe perdoaria. - Deixei o bilhete na cozinha.
      
      - Jantei no escritrio.
      
      - Como vo as coisas? - perguntou Mary, enquanto ele guardava os papis na pasta.
      
      - Muito bem, obrigado - respondeu o marido, como se falasse a uma secretria ou a uma desconhecida. - Estamos quase prontos. Vai ser um julgamento muito interessante 
- concluiu Bill, apagando a luz da sala, como que a despedi-la. Levava a pasta para o quarto, algo que ele nunca teria feito um ano antes. Era uma coisa sem importncia 
e, de qualquer modo, j no interessava. - Creio que partiremos para Londres um pouco mais cedo.
      
      Ainda nada lhe dissera at ento. Limitara-se a fazer os seus planos, como se ela j no tivesse nada a ver com isso. Mary queria saber o que significava as 
palavras "mais cedo", mas no se atreveu a perguntar-lhe. Provavelmente s o iria aborrecer.
      
      Se ele partisse mais cedo, ela faria o mesmo, embora no tivesse ainda os detalhes finais. Tinham reservado hotel em Paris, em St. - Jean-Cap-Ferrat, San Remo, 
Florena e Roma, e iriam ficar no Claridge com Bill em Londres. Seria uma viagem formidvel, e Mary Stuart estava ansiosa por ir viajar com a filha, depois de passar 
tantos meses sem a ver. Alyssa fizera vinte anos em Abril. O aniversrio dela era uma semana antes do do irmo. Os dois dias tinham sido importantes para Mary Stuart.
      
      Quando Bill pousou a pasta e se dirigiu para a casa de banho para vestir o pijama, Mary Stuart lembrou-se do convite de Tanya e disse-lhe.
      
      - Creio que se trata de um coquetel, ou coisa assim. A festa  oferecida por Felicia Davenport, que  amiga de Tanya. - Ao olhar para a cara de Bill, Mary 
sentiu-se como se fosse uma adolescente de catorze anos a pedir ao pai para ir ao seu primeiro baile. Ele pareceu assombrado por Mary ter ousado sequer fazer a pergunta. 
- Creio que gostarias de ir. A pea em que ela entra teve crticas muito boas e Tanya diz que  muito simptica.
      
      - Estou certo que sim, mas amanh preciso de trabalhar tambm at tarde. Estamos a preparar um caso muito importante, Mary Stuart. Julguei que tinhas percebido 
isso. - Era mais uma censura do que uma recusa e o tom de voz dele f-la sentir subitamente aborrecida.
      
      - Compreendo, mas tens de admitir que se trata de um convite invulgar. Acho que devamos ir. - Ela queria ir. Estava farta de ficar sentada em casa a chorar. 
Ver Tanya fizera-lhe lembrar que existia um mundo fora daquelas paredes, embora tambm tivesse problemas, as preocupaes, os processos, a imprensa. Apesar de tudo 
isso, Tanya no ficava sentada a um canto a chorar e fizera lembrar a Mary Stuart que existiam outras opes.
      
      - Para mim est fora de questo - disse Bill com firmeza. - Mas tu podes ir, se quiseres. - Fechou a porta da casa de banho, mas, quando saiu, a mulher esperava-o 
com um ar decidido.
      
      - Irei - declarou com uma expresso obstinada, como se esperasse que ele a proibisse.
      
      - Irs? - Ele pareceu confuso com o que ela dizia. E, se no a conhecesse to bem, diria que ela tinha bebido. Estava a comportar-se de um modo muito estranho. 
- Do que  que ests a falar? - perguntou Bill, mostrando-se aborrecido e sem se aperceber de que ela estava mais descontrada do que de costume e mais bonita.
      
      - Irei  festa! - declarou com determinao.
      
      - ptimo. E eu no irei, compreendes? Deves gostar de encontrar pessoas desse gnero. Tanya parece, de facto, ter amigos interessantes, mas isso no  de surpreender...
      
      Pareceu ento esquecer o assunto e foi deitar-se, levando consigo uma pilha de revistas que precisava de consultar com propsitos legais. Tinham artigos a 
respeito de vrios clientes seus. Mary Stuart entrou, por sua vez, na casa de banho e saiu de l dez minutos depois com uma camisa de noite branca de algodo. Mas 
poderia ter usado correntes ou uma camisa de crina que ele no teria reparado. 
      
      Enquanto Bill lia, Mary Stuart ficou deitada, imvel, meditando na sua conversa com Tanya e nas coisas que ela dissera a respeito de Tony. Pensava se Tanya 
teria razo e se, de facto, ele a deixaria em breve, ou se ficaria com ela e as coisas se comporiam. Pensou se Tanya no deveria tentar fazer qualquer coisa para 
o deter, em vez de aceitar sem luta a deciso dele. Era to fcil olhar para a vida de outra pessoa e decidir o que ela devia fazer!... No entanto, durante o ltimo 
ano, sentira-se completamente incapaz de inverter a situao ou mesmo de se aproximar de Bill de qualquer maneira. Ele estava completamente fora do seu alcance, 
por detrs de uma parede de gelo que se ia tomando cada vez mais densa. Parecia-lhe que no o via h meses e comeava a perder a esperana de voltar a alcan-lo. 
No fazia ideia do que fariam acerca do seu futuro. 
      
      Ele tambm no queria discutir esse assunto. Tinha a impresso de que se lhe falasse nisso ele diria que ela estava louca. Como lhe dera a entender nessa mesma 
noite, ao v-la chegar com um sorriso nos lbios e passos mais leves. Olhara como se ela viesse de outro planeta. Era bvio que o riso no mais seria tolerado e 
a proximidade entre eles era coisa do passado distante. Mary s se apercebia verdadeiramente de como as coisas estavam ms quando as via atravs dos olhos de outras 
pessoas. Alyssa ficara horrorizada quando estivera em casa no Natal e mostrara-se ansiosa por voltar para Paris. E, embora tudo isso fosse muito mau para todos, 
Mary Stuart no sabia como acabar com aquela situao. E Bill no queria.
      
      Ele apagou a luz quando acabou de ler e nada disse a Mary Stuart. Ela estava deitada ao seu lado, de olhos fechados, fingindo dormir, pensando se ele voltaria 
a ser humano, se alguma vez se aproximaria dela de novo, se algum viria a gostar dela, ou a tocar-lhe, ou a dizer-lhe que a amava. Ou se tudo isso pertenceria agora 
ao passado. Aos quarenta e quatro anos, a vida dela no se limitara a piorar de muitas maneiras. Acabara.






























Captulo 4
      
      Mary Stuart permaneceu diligentemente em casa para ver Tanya na televiso na manh seguinte e teve vontade de partir o ecr quando ouviu o entrevistador saltar 
de uma pergunta relativa  infncia de Tanya numa pequena cidade texana para lhe pr questes sobre rumores recentes que a ligavam a um antigo treinador, fazendo 
uma referncia insidiosa a respeito de um processo por assdio sexual de que estava a ser vtima. Mas, apesar de Mary Stuart se sentir furiosa, Tanya respondeu s 
perguntas graciosamente, com um sorriso amigvel, afirmando-lhe tratar-se de chantagem e de notcias habituais em certos tablides. Contudo, quando saiu do estdio, 
sentia os braos colados ao corpo e tinha a impresso de ter despejado um copo de gua em cada axila, para no falar do comeo de uma terrvel dor de cabea.
      
      - Belo programa, no h dvida - disse para a publicitria que a acompanhara ao estdio e que a escoltaria at  sua paragem seguinte, a entrevista com um 
agente literrio que desejava publicar um livro sobre a sua vida. Mas, no fim da reunio, Tanya estava desiludida. Tudo aquilo tinha pouco interesse para ela. O 
que eles queriam era sensacionalismo, nada mais. Na altura em que telefonou a Jean, nessa tarde, estava farta de todos, descobrindo que o seu nome tinha aparecido 
novamente nos jornais e que tambm havia uma histria acerca do marido ter passado o fim-de-semana em Palm Springs com uma estrela no identificada. A histria no 
era bonita. Jean leu-lhe o artigo sobre o processo que lhe fora movido pelo ex-treinador e Tanya teve de se esforar por no chorar enquanto a ouvia. O seu ex-guarda-costas 
afirmara que ela andava nua pela casa quando estavam ss, o que a teria feito rir, se no se sentisse to desgostosa.
      
      - Gostava de me lembrar da ltima vez que estive sozinha nessa casa - disse Tanya, sentindo-se deprimida. Podia imaginar a reaco de Tony. Declinou a oferta 
de Jean para lhe ler o artigo acerca dele. Quando desligou, saiu e foi comprar o jornal. O artigo era acompanhado por uma fotografia de Tony, tentando esconder-se 
do fotgrafo, acompanhado por uma jovem actriz que no teria mais de vinte anos. Mas era impossvel saber se a foto teria sido computorizada para dar a impresso 
de que estavam juntos. Nunca se podia ter a certeza com as fotografias que se viam. Embora inicialmente tentasse resistir a esse impulso, Tanya acabou por lhe telefonar 
para o escritrio. Apanhou-o justamente quando ele ia a sair.
      
      - J sei que o meu nome esteve outra vez em foco hoje - disse ela, tentando mostrar-se bem-humorada, apesar da situao.
      
      - Bem o podes dizer. O teu amigo Leo parece ter muito que contar a teu respeito. J leste? - perguntou ele, mal tentando ocultar a sua fria.
      
      - Jean leu-me a histria. No passam de mentiras. Espero que o saibas. - Tanya mostrava-se calma e controlada.
      
      - J no sei nada Tan.
      
      - O que escreveram a meu respeito no  pior do que a histria que contam sobre ti e a rapariga que supostamente levaste a Palm Springs. At publicaram uma 
fotografia tua - continuou, tentando gracejar com ele. - E isso tambm no  verdade. Portanto, que importa?
      
      Houve uma longa pausa e ele falou lentamente.
      
      - Com efeito,  verdade. Ia contar-te, mas no tive oportunidade antes de te ires embora.
      
      Tanya teve a sensao de receber uma pancada na cabea. Ele enganara-a, vinha nos jornais e ele estava a confessar t-lo feito. Ficou calada durante um grande 
bocado, sem saber que dizer.
      
      - E uma bela histria. Que esperas que eu diga agora?
      
      - Tens o direito de estar zangada Tan. No te censuro. Algum os informou. No fao ideia porque tero aparecido no hotel. Logo vi que a notcia apareceria 
nos jornais.
      
      - Es velho de mais para seres to ingnuo, sabes? Ests h demasiado tempo em Hollywood para no saberes como as coisas funcionam. Quem  que pensas que informou 
os fotgrafos? Foi ela. E um grande golpe para ela andar com o marido de Tanya Thomas. Como  que ela poderia deixar passar uma oportunidade dessas? - Era uma coisa 
desagradvel de se dizer, mas provavelmente fora assim mesmo, e Tony sabia-o. No lhe ocorrera na altura. E do lado dele fez-se um longo silncio. - Es agora uma 
celebridade Mister Goldman. Que dizes a isso?
      
      - No posso dizer grande coisa, Tan.
      
      - No, no podes. Podias, pelo menos, ter sido discreto, ou ido com algum que no te denunciasse.
      
      - No quero jogar este jogo contigo, Tanya - replicou Tony, embaraado e zangado. - Amanh saio de casa. - Houve outro longo silncio, enquanto ela tentava 
no chorar.
      
      - Sim, j calculava - murmurou com voz rouca.
      
      - No posso viver assim, sendo um alvo constante para os tablides.
      
      - Eu tambm no gosto Tony - retorquiu tristemente Tanya. - A nica diferena  que tu podes fugir a isso e eu no.
      
      - Tenho pena de ti - disse ele, embora no parecesse. Subitamente tornara-se mau. Fora apanhado em flagrante e no gostava que isso tivesse acontecido. Tambm 
no gostava de ter um lugar secundrio em relao a ela, de ser trado, de fazer figura de parvo. No gostava de nada disso, e estava desejoso de sair da casa e 
da vida dela, e das luzes da ribalta, onde fora forado a estar por ser casado com ela. Inicialmente desejara-o, mas, quando as luzes se tomaram fortes de mais, 
deixara de gostar. - Desculpa, Tan... no queria dizer-te isto ao telefone. Queria dizer-te amanh, quando viesses para casa. - Tanya no respondeu, com as lgrimas 
a correrem-lhe pela cara, e Tony perguntou se ela ainda estava, at que, por fim, respondeu:
      
      - Sim, ainda aqui estou. - Estava o que restava dela. Tudo quilo era muito duro, e Tanya sentia-se insuportavelmente s. Passara por muita coisa, durante muito 
tempo fora explorada e expohada. O segundo marido roubara-a e Tony dissera-lhe agora que no podia suportar a presso e enganava-a com jovens actrizes como a que 
ela vira na fotografia. Como  que no pensara que a notcia fosse parar s pginas dos tablides? Como pudera ser to descuidado e to estpido?
      
      - Lamento... - murmurou novamente a voz de Tony do outro lado do fio, mas agora as palavras dele j no tinham importncia.
      
      - Eu sei... no faz mal... Vemo-nos quando eu voltar - disse Tanya, ansiosa por desligar. Ele j a magoara o suficiente. Nada mais tinha a dizer-lhe. Lembrou-se 
ento de uma coisa. - E a respeito de Wyoming? - quis saber.
      
      - Leva os garotos - disse magnanimamente. - Vai ser bom para eles. - Estava ansioso por se livrar dela e ir para a Europa acompanhado pela mesma jovem actriz 
com quem passara o fim-de-semana.
      
      - Obrigada. Tony... eu tambm lamento... - Comeou a soluar e pouco depois desligou o telefone. Chorava ainda quando o ouviu tocar outra vez. Esteve quase 
para no atender, pois pensava que era o marido a saber se ela estava bem. Mas no. Era Mary Stuart, que percebeu imediatamente como a amiga estava perturbada. No 
meio dos soluos, Tanya explicou-lhe que Tony acabara de a deixar. Contou-lhe dos dois artigos e disse-lhe que Tony passara o fim-de-semana com uma mulher. Falou 
de uma maneira confusa, quase ininteligvel, mas Mary Stuart conseguiu perceber o que se estava a passar e insistiu para que Tanya fosse a casa dela. Tinham muito 
tempo antes da festa, mesmo que acabassem por ir. Tanya s desejava agora voltar para casa, mas o avio s a viria buscar na manh seguinte.
      
      - Quero que venhas tomar uma chvena de ch comigo... ou um copo de gua. Se no vieres, vou a buscar-te - insistiu Mary Stuart. Tanya mostrou-se relutante, 
mas comovida com o convite.
      
      - Eu estou bem - afirmou Tanya, chorando cada vez mais.
      
      - No, no ests bem, mentirosa. - Depois fez-lhe uma ameaa: - Se no vieres, telefono para os jornalistas - declarou firmemente Mary Stuart. E Tanya no 
pde deixar de rir.
      
      - s mesmo m - disse Tanya, rindo e chorando ao mesmo tempo. - H um ano que no te via e no dia seguinte a voltar a ver-te o meu marido abandona-me.
      
      - Pelo menos posso reconfortar-te. Agora venha, antes que eu telefone ao Enquirer, ao Globe, ao Star e a outros que consiga descobrir. Queres que eu te v 
buscar, Tan? - perguntou meigamente. Tanya assoou-se e respondeu:
      
      - No, eu estou bem... Pronto, eu vou. Estarei a dentro de cinco minutos.
      
      E esteve, despenteada, com os olhos inchados e o nariz vermelho. Mas, apesar de tudo isso, continuava bonita e Mary Stuart disse-lhe isso mesmo, enquanto a 
abraava carinhosamente, como se embalasse uma criana chorosa. Tivera grande prtica, com Todd e Alyssa, pois sempre fora uma boa me. Durante os seus vinte e dois 
anos de casamento, muitas vezes consolara e reconfortara. Mas, infelizmente, isso no fora o suficiente para Todd. Se tivesse sido, talvez as coisas fossem diferentes.
      
      - Nem posso acreditar no que ele me fez... em cinco minutos o nosso casamento desmoronou-se. - Mas ambas sabiam que, na verdade, esse desmoronamento j vinha 
a processar-se h muito tempo. Havia muito que Tony no suportava uma poro de coisas na vida dela, sem que, no entanto, o dissesse. Compreendia agora que ele se 
sentira infeliz durante muito tempo. Olhando para trs, podia aperceber-se disso, mas no meio do furaco que era a sua vida no dera plos sinais.
      
      Mary Stuart preparou-lhe uma chvena de ch, apesar do calor que fazia l fora, e Tanya sentou-se na imaculada cozinha branca e bebeu-o.
      
      - Que fazes aqui? - perguntou Tanya, observando o que a rodeava. - Encomendas a comida de fora?
      
      - No. Cozinho aqui - replicou Mary Stuart, sorrindo para a amiga, que, embora triste e magoada, sentia-se um pouco melhor. - Mas gosto das coisas limpas e 
organizadas.
      
      - No - corrigiu Tanya. - Gostas das coisas perfeitas, sabes isso muito bem. Mas nem tudo pode ser sempre perfeito, por vezes fica tudo em desordem, e as coisas 
so assim mesmo e no se podem mudar. Talvez precises de aceitar isso. Continuo com a impresso de que te ests a punir pelo que sucedeu. - Era verdade, e Tanya 
desejava mais do que tudo libertar a amiga do tormento que podia ver nos seus olhos.
      
      - No te punirias, se fosses tu? - perguntou suavemente Mary Stuart. - Como no hei-de culpar-me? Bill culpa-me... bem o sei. Nem sequer consegue olhar para 
mim. Vivemos aqui como dois estranhos... Nem sequer somos inimigos... Inicialmente fomos, mas agora j nem isso.
      
      - Ele vem para casa  noite? - perguntou Tanya, sentindo compaixo plos dois.
      
      - Diz que tem de trabalhar at tarde no escritrio - respondeu Mary Stuart.
      
      - Est a esconder-se. - Como a maior parte das pessoas, tinha maior compreenso sobre o que se passava com a vida dos outros do que com a sua. Alm disso, 
Tanya era mais inteligente do que a maioria das pessoas. Mas arranjava maridos que no prestavam.
      
      - Sei disso - disse Mary Stuart, enquanto se dirigiam para o quarto. - Mas no o consigo encontrar. Procurei-o por todo o lado, mas no sei onde ele est. 
E como A Terra em Perigo. Vive aqui um homem que se parece com o Bill, mas que eu sei que no  o Bill. No fao ideia onde meteram o verdadeiro.
      
      - Continua a procurar - replicou Tanya, surpreendendo Mary Stuart com a sua sinceridade. - Nada acaba sem ter acabado - De certo modo, Tanya sentia que Mary 
e Bill tinham algo que valia a pena preservar. Estavam casados havia quase vinte e dois anos. Era muito tempo para se pr de lado. No entanto, as pessoas faziam 
isso, e seria errado da parte dela desperdiar toda a sua vida com ele se no o encontrasse. Mas no gostava de ver a amiga desistir to depressa, depois de tantas 
coisas que lhe tinham sucedido. E era to injusto Bill culpar Mary Stuart!
      
      - Isso tambm  verdade para ti? - perguntou Mary Stuart enquanto se encaminhavam para a sala, passando por vrias portas fechadas, que Tanya desconfiava fossem 
de quartos. - No est acabado sem ter acabado?
      
      - Creio que o meu caso  diferente - respondeu Tanya com um suspiro. - Talvez j tenha acabado h uns tempos sem eu me aperceber. Nunca compreendi como ele 
se sentia infeliz com todo esse lixo que eu no consigo controlar. Mas se isso o enlouqueceu, ento nada posso fazer. - Ainda amava Tony, mas era suficientemente 
esperta para saber quando estava derrotada. E, de certo modo, nunca nada estivera completamente certo entre os dois, e ela sabia-o, embora detestasse admiti-lo.
      
      Instalaram-se na sala e conversara durante u bocado. Depois Tanya levantou-se e disse que precisava de ir  casa de banho. Mary Stuart indicou-lhe onde ficava. 
Havia uma pequena casa de banho para as visitas ao fundo do corredor,  esquerda, e Tanya dirigiu-se rapidamente para l. Abriu a porta, acendeu a luz e soltou uma 
exclamao abafada. Enganara-se na porta e encontrava-se no quarto de Todd, olhando para os trofeus, fotografias e recordaes de todo o gnero que a rodeavam. Tudo 
ali continuava perfeitamente arrumado nos seus lugares, como se ele estivesse na escola e fosse voltar de Princeton a qualquer momento. E, enquanto estava parada 
a olhar para tudo o que a rodeava, no ouviu os passos de Mary Stuart atrs de si, nem a expresso devastada do rosto da amiga.
      
      - Nunca aqui venho - disse num murmrio que fez com que Tanya se sobressaltasse e se voltasse. Ao ver a expresso amargurada da amiga, abraou-a instintivamente. 
Tanya achava que ela no devia ter deixado o quarto assim. Era como que um santurio dele, e sab-lo ali to perto dela, todos os dias, devia ser incrivelmente doloroso. 
Sobre a secretria havia uma maravilhosa fotografia de Todd com dois amigos. Tanya j no se lembrava bem como ele era parecido com a me quando sorria, mas agora 
recordava-se e isso f-la chorar.
      
      - Oh!, Mary Stuart... - murmurou, com os olhos cheios de lgrimas. - Desculpa... enganei-me na porta e fiquei parada, a olhar...
      
      A me do rapaz sorriu por entre as lgrimas e ficou ao lado de Tanya a olhar para a mesma fotografia.
      - Ele era to maravilhoso, Tanny... Foi sempre um garoto formidvel... fazia sempre o que estava certo... era sempre a estrela... o rapaz que servia de exemplo, 
de que todos gostavam...
      
      As lgrimas rolavam-lhe lentamente pelas faces e Tanya continuou a olhar para a fotografia, como se esperasse que ele falasse ou aparecesse ali, mas ambas 
sabiam que isso no sucederia.
      
      - Eu sei. Lembro-me perfeitamente dele... parecia-se muito contigo - disse meigamente Tanya.
      
      - Ainda no posso acreditar que tenha acontecido - continuou Mary Stuart, olhando para Tanya e sentando-se na cama. No fazia isso desde o Natal. Fora ali 
sozinha, de noite, na vspera de Natal, e ficara a chorar durante horas, agarrada  almofada dele. Como de costume, no se atrevera a dizer a Bill que estivera ali. 
Ele achava que o quarto devia ser fechado  chave, mas quando ela lhe perguntara o que havia de fazer s coisas de Todd, ele respondera-lhe que fizesse o que quisesse. 
Mary no tivera coragem de tirar nada dali. No fora capaz de o fazer.
      
      - No achas que devias desfazer-te das coisas dele? - perguntou tristemente Tanya. Imaginava que seria difcil, mas achava que seria mais saudvel para eles. 
Ou talvez fosse prefervel venderem o apartamento. Contudo, no ousou diz-lo.
      
      - No pude - respondeu Mary Stuart. - No sou capaz de me desfazer das coisas dele - repetiu Mary, enquanto as lgrimas recomeavam a cobrir-lhe as faces, 
pensando no filho que ali vivera. - Sinto imensamente a falta dele... todos ns sentimos. Bill nada diz, mas sei que ele tambm deve sentir. Est a mat-lo... est 
a matar-nos a todos. - Sabia como a morte do irmo tambm afectara Alyssa. Vira-a uma vez entrar no quarto dele. E no achava que fosse um mistrio ela querer continuar 
em Paris. Quem a poderia censurar por isso? A casa tornara-se um local deprimente e de momento a situao no parecia melhorar. Nem Mary nem Bill estavam recompostos.
      
      - A culpa no foi tua - disse repentinamente Tanya, segurando nos braos da amiga e fitando-a bem nos olhos. - Tens que acreditar nisso. No o podias ter detido, 
uma vez que ele tomou a deciso.
      
      - Como  que foi possvel eu no ter visto o que lhe estava a acontecer? Como  que pude deixar de ver, se o amava tanto? - Mary Stuart sabia que nunca perdoaria 
a si prpria por no ter previsto o que iria suceder.
      
      - Ele no queria que tu visses. Era um homem e tinha o direito de ter os seus segredos. No queria que soubesses, ou ter-te-ia contado. No se pode esperar 
que vejas tudo, que leias as mentes dos outros. No podias saber, Mary Stuart. Tens de acreditar nisto. - O que Tanya no podia imaginar era que Bill a tinha torturado 
durante o ltimo ano, fazendo-a acentuar o seu sentimento de culpa, tanto pelas suas aces como pelo seu silncio.
      
      - Pensarei sempre que a culpa foi minha - disse tristemente Mary, mas Tanya no desistiu. Estava decidida a libertar a amiga das amarras que a prendiam.
      
      - Tu no eras assim to importante para ele. Ele tinha a sua prpria vida, os seus amigos, os seus sonhos, desapontamentos e tragdias. No o podias ter levado 
a fazer o que fez, mesmo que quisesses, e tambm no podias t-lo impedido de o fazer, por mais que quisesses. A no ser que ele tivesse falado contigo, pedindo-te 
para o deteres. E ele nunca o faria. Era uma pessoa introspectiva, tal como tu.
      
      Tanya olhou a amiga de frente, decidida a ajud-la.
      - Mas eu nunca faria uma coisa daquelas - disse Mary Stuart, ainda a olhar para a fotografia do filho, como se quisesse perguntar-lhe por que motivo aquilo 
sucedera. Mas agora todos sabiam porqu. Era pateticamente simples. A rapariga que ele amava h quatro anos morrera num acidente de automvel, numa estrada gelada 
em Nova Jrsia, quatro meses antes, e ele mergulhara numa depresso cada vez mais profunda. Ningum se apercebera de como era grande o seu desespero e de como estava 
deprimido. 
      
      Na Pscoa tinham pensado que ele estava a melhorar, mas, pensando agora nisso, Mary Stuart sabia que ele parecia mais feliz na Pscoa provavelmente por ter 
tomado a deciso de o fazer depois das frias. Nessa altura mostrara-se cada vez mais ligado  me. Tinham dado um longo passeio pelo parque, conversando filosoficamente 
e rindo. Ele falara at, em termos vagos, a respeito do seu futuro. Dissera-lhe que sabia agora que seria sempre feliz. E depois fizera aquilo, na noite em que regressara. 
Suicidara-se duas semanas antes de fazer vinte anos, no seu quarto, em Princeton. 
      
      O rapaz que ocupava o quarto ao lado fora-lhe pedir qualquer coisa emprestada e encontrara Todd na cama. A maneira como ele estava deitado despertou as suas 
suspeitas. Examinou-o rapidamente e tentou reanim-lo at a Polcia chegar. Mas tinham dito que Todd j estava morto h horas quando ele o encontrara. Deixara um 
bilhete, dizendo que se sentia calmo e tranquilo e que por fim seria feliz. Sabia que era cobardia da parte dele e pedia desculpa pelo desgosto que lhes iria causar, 
mas no conseguia viver sem Natalie. E esperava que, quando lhe perdoassem, ficassem satisfeitos por saber que ele e Natalie estariam juntos para sempre no cu. 
Embora os pais o achassem muito novo para se casar, Todd tencionava casar com Natalie logo que acabasse o curso, no Vero seguinte. E, de certo modo, dizia Todd 
no bilhete, agora estavam casados.
      
      Bill culpara Mary Stuart pelo sucedido, dizendo que, se ela no lhe tivesse enchido a cabea com tolices e ideias romanescas, se no tivesse permitido que 
ele se envolvesse to seriamente com Natalie e no lhe tivesse dado ideias religiosas, ele nunca teria tido aquela crena em Deus e no Alm. Segundo Bill, fora Mary 
Stuart quem preparara o ambiente para o desastre. Fizera com que o suicdio do filho pesasse para sempre na conscincia da me. Na altura, as palavras do marido 
quase a tinham feito sucumbir. Mas, pior do que tudo o que ele lhe pudesse dizer, era a angstia de ter perdido o filho... o primognito... o nico filho... que 
fora sempre a sua luz... que lhe dera tanta alegria e a fizera sentir orgulhosa.
      
      Ao ouvir as palavras da amiga, Tanya sentiu vontade de ir ter com Bill e de o sacudir. As acusaes dele eram as mais loucas que ela alguma vez ouvira e apercebia-se 
facilmente de que ele tentava assim diminuir a sua prpria dor e o sentimento de fracasso, deitando as culpas sobre a mulher. Era cruel e insuportvel. E era fcil 
ver o que isso fizera em Mary Stuart. Ela estava quase morta por dentro.
      
      - Pobre rapaz - murmurou Tanya, soluando baixinho, sentada ao lado da amiga no quarto de Todd, tentando perceber, um ano mais tarde, como  que ele pudera 
fazer tal coisa.
      
      - Ele estava to apaixonado por ela que julguei que ia morrer quando recebeu a notcia do acidente - disse Mary Stuart. E no fim morrera. Tinham morrido todos. 
Nada restava de Mary Stuart, de Bill, nem do casamento deles.
      
      Tinham morrido todos com Todd, pelo menos a parte mais importante deles, os coraes e as almas, todos os seus sonhos haviam desaparecido com aquele rapaz 
que tanto amavam, perdido to injustamente.
      
      - Alguma vez te sentiste zangada com ele por causa disto? - perguntou Tanya. Mary mostrou-se surpreendida.
      
      - Com Todd? Como poderia faz-lo?
      
      - Porque ele os magoou a todos. Porque lhes tirou qualquer coisa. Porque se acobardou e devia ter tido a coragem de continuar a viver e devia ter-te dito o 
desgosto que sentia.
      
      - Eu devia ter percebido - repetiu Mary Stuart, culpando-se de novo, mas Tanya no a deixou faz-lo.
      
      - Tu no podes saber tudo. No tens capacidade para ler as mentes, s apenas um ser humano. E foste uma me maravilhosa para ele. Todd no te devia ter feito 
isso.
      
      Mary Stuart nunca permitira a si prpria fazer tais consideraes e assustava-a ouvi-las.
      
      - No foi justo para contigo ao tirar a vida a si prprio - continuou Tanya. - E Bill tambm no est a ser justo em culpar-te. Talvez seja chegada a altura 
de te recompores e de te zangares com ambos. Tm posto uma carga demasiada sobre os teus ombros.
      
      Mary ficou calada durante um longo momento.
      
      - Desde a noite em que ele morreu que senti que a culpa foi minha.
      
      - Sei que sentiste. Mas isso tem sido conveniente para todos. No achas? Talvez que mesmo agora Todd tenha de ser responsabilizado por aquilo que fez. Talvez 
tu tenhas de fazer Bill ver isso e dizer-lhe o que pensas. No te podes limitar a aceitar em silncio todo o peso da culpa do que aconteceu. Todd fica a ser um heri 
e no um garoto tolo, doente, que cometeu um acto incrivelmente estpido, que todos lamentaremos para sempre. Mas, fosse qual fosse a razo que o levou a fazer isso, 
talvez fosse o seu destino. Foi assim que sucedeu. E algo que no pode ser alterado agora. No se pode voltar atrs. Nem a deciso foi tua, nem tu s culpada. Foi 
ele quem o fez. E Bill no tem o direito de te lanar as culpas. Faz isso para se absolver a si prprio. A culpada s tu e ele fica livre para se sentir infeliz 
e miservel. Mary Stuart, tu no s a parte responsvel neste caso, tu s o bode expiatrio.
      
      - Eu sei - murmurou Mary. - J me apercebi h algum tempo, mas isso nada altera as coisas. Bill nunca o admitir. No que lhe diz respeito, a culpa ser sempre 
minha.
      
      - Ento talvez devas deix-lo. Ou vais permitir que ele te castigue durante toda a vida? Vais ficar de joelhos durante quarenta ou cinquenta anos, dizendo 
mea culpa? E muito tempo para te sentires culpada. Es demasiado nova para isso!
      
      Ao ouvir a amiga, Mary teve a sensao de que algum abria as cortinas de um quarto escuro e deixava entrar a claridade. Estivera sentada num canto escuro 
durante um ano, chorando o seu desgosto. Sentia-se estranha estando ali a falar do que acontecera. Era quase como se Todd ali estivesse com elas. Ouvir as palavras 
de Tanya fez com que de repente tudo lhe parecesse muito diferente. Apetecia-lhe zangar-se com Bill, gritar com ele. Como podia ser to estpido? Como podia ter 
destrudo o casamento deles?
      
      - J no sei o que hei-de pensar, Tanya. E tudo to confuso. E a pobre Alyssa. Deve ter sido um pesadelo para ela vir a casa no Natal, o ano passado. Ns estvamos 
de tal maneira, que ela ansiava por regressar rapidamente a Paris. - A filha acabara por partir quatro dias antes do que previra e Mary ainda se sentira mais culpada 
por isso.
      
      - Tens muitos anos para a compensares. O que precisas de fazer agora  de pensar em ti e no que tu precisas. No podes continuar a deixar que Bill te faa 
isto. Tens de encontrar a paz, de ter uma longa conversa contigo mesma e com o teu filho, para veres o que da sai. Depois ters de falar com Bill. Ele sente-se 
bem assim.
      
      - No creio - disse sensatamente Mary. - Penso que o desgosto dele  to grande que se esconde atrs de um muro de gelo at ficar completamente dormente. Creio 
que tem medo de sair de l agora.
      
      - Se no o fizer, destri-te a ti e ao vosso casamento. - "Se no o fez j", pensou Tanya. No sabia o que  que a amiga conseguira salvar, mas pelo menos 
estava a pensar nisso. E sentia-se satisfeita por ter entrado no quarto de Todd e estar ali com ela.
      
      - Obrigada, Tanny - disse Mary Stuart, levantando-se e indo abrir as cortinas. O quarto encheu-se ento de luz e ela olhou o que a rodeava. - Ele era um rapaz 
fantstico. Ainda no posso acreditar que tenha desaparecido.
      
      - De certo modo no desapareceu - disse suavemente Tanya. - Todos o recordaremos para sempre.
      
      Ambas tinham lgrimas nos olhos ao sarem do quarto de brao dado. Foram outra vez para a cozinha, Tanya bebeu outra chvena de ch e saiu para ir para o hotel 
preparar-se para a festa. Depois de ela sair, Mary Stuart voltou ao quarto de Todd, correu as cortinas e fechou calmamente a porta, indo em seguida para o seu quarto. 
Talvez Tanya tivesse razo. Talvez a culpa no fosse sua. Talvez fosse apenas de Todd e de mais ningum. Mas continuava a no conseguir ficar zangada com Todd. Era 
muito mais fcil zangar-se com Bill, assim como para ele censur-la a ela por no ter previsto aquilo que se iria passar.
      
      Estava ainda sentada a pensar no assunto, quando Alyssa telefonou. Conversaram durante um bocado, Mary falou na visita de Tanya, sem, contudo, mencionar o 
que se passara no quarto de Todd. Contou-lhe que Tanya a convidara para uma festa oferecida por Felicia Davenport, mas que no sabia se havia de ir. Sentia-se emocionalmente 
esgotada pela conversa com Tanya. Mas Alyssa ficou indignada por pensar que ela ia perder uma oportunidade dessas.
      
      - No faa isso! Aproveite para se distrair um pouco. V-se arranjar. Vou desligar para no a fazer perder tempo. Vista o vestido preto Valentino.
      
      - Aquele que tu usas constantemente? - gracejou Mary. Mas sentia-se reconfortada por ter falado com a filha. Sempre tinham sido muito unidas, mas depois da 
morte de Todd a intimidade entre as duas tornara-se ainda maior. E Alyssa nunca deixara de apoiar a me. Mary teve vontade de lhe pedir desculpa por andar deprimida 
h tanto tempo, mas no quis falar nessa altura num assunto doloroso. Em vez disso, tomou um banho, envergou o vestido preto do costureiro Valentino, calou sapatos 
de salto alto e escovou o cabelo at ficar a brilhar. Maquilhou-se cuidadosamente e ps uns brincos com diamantes que Bill lhe oferecera h anos. Olhou-se ao espelho, 
viu que estava elegante e bonita e sorriu. "Estou bem", pensou, "talvez at um pouco melhor que bem", mas fazia-lhe impresso sair sem o marido.
      
      Tanya ligou da a pouco, dizendo que a ia buscar. Mary Stuart estava  espera, junto da porta, quando a limusina chegou. Entrou no carro e ficou impressionada 
ao ver Tanya. Esta trazia uma blusa cor-de-rosa, larga e quase transparente, por cima de umas calas de cetim preto que realavam o seu corpo perfeitamente ginasticado. 
Calava sapatos de cetim de salto alto e a sua cabeleira loura emoldurava-lhe o rosto. Estava incrivelmente bonita e muito sex, mas a sua apreciao de Mary Stuart 
tambm foi satisfatria.
      
      - Ests muito elegante - disse com admirao. Havia algo em Mary Stuart que ela sempre invejara. Tudo nela era perfeito, at ao ltimo detalhe, ao mais pequeno 
cabelo,  mais pequena unha. Tinha um cabelo e umas pernas sensacionais e nessa noite, pela primeira vez naquele ano, os seus grandes olhos castanhos pareciam um 
pouco menos melanclicos. - Ests ptima!
      
      - Tens a certeza de que no farei m figura a teu lado? - perguntou timidamente Mary Stuart.
      
      - No  provvel. Vais passar a noite a ter que enxotar os homens. - Sorriu e ergueu as sobrancelhas. - A no ser que no o queiras fazer, claro.
      
      Mary Stuart abanou a cabea ao ouvir essas palavras... No queria ningum. Pelo menos por enquanto. E provavelmente nunca iria querer. Mas no gostava de sentir 
que essa parte da sua vida estava completamente acabada, e no ltimo ano fora isso que sucedera, mas, apesar da conversa com Tanya nessa tarde, ainda no via qualquer 
luz ao fundo do tnel. Contudo, sentia-se bem por estar arranjada, por sair  noite e encontrar pessoas diferentes. Quando chegaram  festa viram que era ainda melhor 
do que esperavam.
      
      Felicia Davenport mostrou-se encantadora, afvel e hospitaleira e Mary Stuart passou um grande bocado a conversar com ela, a falar de Nova Iorque, de teatro 
e at dos filhos. Mary Stuart simpatizou muito com ela. Era uma mulher fascinante e obviamente uma grande amiga de Tanya. Esta passou a noite rodeada de homens e 
Mary Stuart teve tambm o seu quinho de admiradores. Disse a toda a gente que era casada e a sua aliana de casamento estava bem visvel, mas conversou animadamente 
e a noite foi favorvel para o seu ego. Quando finalmente saram, Tanya convidou-a para irem comer um hambrguer, mas ela preferiu ir para casa. No queria exagerar 
a sua nova independncia, nem afastar mais Bill.
      
      Tanya foi deix-la em asa. Mary Stuart convidou-a para subir, mas ela recusou. Queria voltar para o hotel, fazer alguns telefonemas, e descansar, visto Mary 
Stuart no querer ir aos hambrgueres.
      
      - Obrigada por um bocado to bem passado... por muitas coisas... - Mary Stuart sorriu-lhe com gratido. - Como de costume, salvaste-me a vida. E engraado 
como fazes sempre isso.
      
      - No fao nada a no ser aparecer de ano a ano como uma moeda falsa.
      - Agora toma conta de ti, ouviste? - recomendou Mary Stuart, enquanto se abraavam. Mary ficou parada no passeio a acenar at o carro desaparecer e, quando 
se voltou para entrar no vestbulo, sentiu-se como uma Cinderela. As visitas de Tanya transformavam sempre a sua vida e isso lembrava-lhe como elas tinham sido grandes 
amigas, ainda o eram e provavelmente seriam. Havia mais de um ano que no se sentia to bem. Tanya chegara mesmo na altura apropriada e, apesar de ela prpria ter 
problemas, conseguira ajudar a amiga.
      
      - Mister Walker acaba de chegar - anunciou-lhe o rapaz do elevador quando a viu.
      
      Momentos depois, ao entrar no apartamento, Mary viu Bill a dirigir-se para o quarto. Ele ouviu-a entrar, mas no se voltou para a olhar. Foi como se ele lhe 
desse uma bofetada, quando o viu afastar-se, recusando-se a v-la.
      
      - Boa noite Bill - disse ela, entrando no quarto logo a seguir ao marido. S ento ele mostrou dar pela sua presena, olhando-a por cima do ombro. Tinha a 
pasta na mo.
      
      - No te ouvi entrar - replicou ele, mas Mary sabia que mentia. No a quisera ver. Era mestre na rejeio. - Como foi a festa?
      
      - Foi boa. Conheci algumas pessoas interessantes e foi agradvel. Felicia Davenport  encantadora e gostei da maior parte dos amigos dela. Foi pena no teres 
podido ir. - Pela primeira vez no sentia necessidade de rastejar diante dele, de pedir o seu perdo para uma falha imperdovel. Era estranho, mas tinha a sensao 
de que Tanya a libertara nessa tarde.
      
      - Sa do escritrio h vinte minutos, enquanto tu te estavas a divertir - disse antipaticamente, sorrindo. - Partiremos para Londres daqui a trs dias.
      
      - E muito mais cedo do que tinhas dito - replicou Mary, mostrando o seu desagrado, mas sentiu-se mais uma vez punida e abandonada. No havia qualquer razo 
para ela no poder estar em Londres com ele, mas Bill tomara bem claro que isso estava fora de questo. No a queria l enquanto estivesse a trabalhar. Era mais 
uma maneira de a manter afastada, de a castigar pelas suas transgresses.
      
      - Ver-nos-emos quando fores ter comigo com a Alyssa - disse Bill, como se estivesse a ler os seus pensamentos. Mas dois dias em dois meses dificilmente seriam 
suficientes para manter um casamento, sobretudo no havendo qualquer razo para ela no estar junto dele em Londres. Depois da sua viagem com Alyssa, poderia passar 
o resto do Vero em Londres, em vez de ficar sozinha em Nova Iorque. E, por momentos, Mary pensou em ir para a Califrnia fazer uma visita a Tanya durante alguns 
dias. Nada mais tinha a fazer, pois todas as suas ocupaes ficariam paradas por causa das frias de Vero. Ocorreu-lhe a ideia, embora soubesse que no a poria 
em aco.
      
      Momentos depois Bill entrou na casa de banho, voltando de l j em pijama. Nem sequer olhou para a mulher, nem viu como ela estava vestida, nem reparou como 
estava bonita. Era como se Mary tivesse deixado de ser mulher para ele, no momento em que o filho morrera.
      
      Mary Stuart entrou na casa de banho a seguir e despiu o bonito vestido preto, e com ele desapareceu a iluso de ser atraente ou independente. Saiu da casa 
de banho de roupo e Bill voltou a no dar por ela. Encontrava-se de costas voltadas, lendo uns papis. E, antes de se poder dominar, Mary sentiu como que uma fora 
interior que a levou a confront-lo. Falou lenta e claramente e at ela ficou surpreendida com as suas prprias palavras, embora no tanto como ele.
      
      - No vou suportar isto para sempre Bill. - Mary ficou parada diante dele durante um momento e Bill voltou-se lentamente, com os culos na mo e uma expresso 
de assombro.
      - Que queres dizer exactamente com isso? - Falou como um advogado no tribunal, mas ela recusou-se a deixar-se intimidar. As coisas que Tanya lhe dissera tinham-lhe 
dado coragem.
      
      - Significa exactamente o que acabo de dizer. No vou viver assim para sempre. No posso. No falas comigo, ignoras-me, procedes como se eu no existisse. 
Agora vais trs meses para Londres, ou pelo menos dois, e queres que eu fique satisfeita com uma visita de dois dias. Isto j no  um casamento. E escravido, e 
as pessoas costumam ser mais simpticas para os seus escravos do que tu.
      
      Era a coisa mais violenta que ela lhe dissera no ltimo ano e ele no gostou do que ouviu.
      
      - Achas que me vou divertir? Pareces esquecer que vou trabalhar - respondeu Bill num tom glacial.
      
      - E tu pareces esquecer que somos casados. Ele sabia exactamente o que ela queria dizer, sem precisar de mais explicaes.
      
      - Tem sido um ano terrivelmente difcil para ambos - disse Bill. O aniversrio da morte de Todd passara recentemente e isso parecia ter tomado as coisas ainda 
piores.
      
      - Tenho a sensao de que morremos os dois com ele - disse tristemente Mary Stuart, olhando para o marido, sentindo-se aliviada por estarem a falar. - E o 
nosso casamento est a morrer connosco.
      
      - Isso no  necessariamente verdade. Penso que ambos precisamos de tempo - respondeu Bill, mas Mary percebeu que ele no estava a ser honesto, nem com ele 
prprio, nem com ela. Ele achava que bastava esperar at que as coisas se compusessem, mas Mary sabia que seria preciso muito mais do que isso.
      - Passou-se um ano Bill - lembrou Mary, pensando at onde ele deixaria seguir a conversa. Suspeitava de que no seria at muito mais longe.
      
      - Sei isso - afirmou Bill. Essas palavras foram seguidas de uma longa pausa. - Sei coisas que no sabia, como, por exemplo, que planeavas fazer-me um ultimato.
      
      - No o disse com essa inteno. Quis apenas informar-te, pois, mesmo que quisesse continuar a viver assim, creio que no conseguiria.
      
      - Podes fazer tudo quanto quiseres.
      
      - Ento talvez no seja isto que eu queira. No desejo ser tratada como uma pea de mobilirio durante o resto da minha vida. Isto no  um casamento,  um 
pesadelo. - Era a primeira vez que lhe dizia aquilo. E ele no respondeu, limitou-se a voltar-lhe as costas, voltou a pr os culos e concentrou-se na leitura. - 
No acredito que continues a ignorar-me depois do que eu te disse.
      
      Bill falou de costas voltadas para ela e era difcil, ouvindo-o, recordar que houvera afecto, amor e alegria entre eles. Era ainda mais difcil acreditar que 
ela estivera profundamente apaixonada por ele e que se tratava do pai dos seus filhos.
      
      - No tenho mais nada a dizer-te - replicou ele, continuando a ler. - Ouvi o teu depoimento e no tenho mais comentrios a fazer.
      
      Era inacreditvel, e ela no pde deixar de pensar se ele estaria to profundamente assustado e magoado que se tivesse transformado num bloco de gelo. Mas, 
fosse como fosse, Mary encarou finalmente o facto de que no podia suportar aquela situao durante muito mais tempo.
      
      Mary deitou-se Bill apagou as luzes e no voltou a dirigir-lhe a palavra. Mary ficou acordada, no escuro, durante muito tempo, pensando nas pessoas que encontrara 
na festa de Felicia. Apesar de j ter quarenta e quatro anos, existia ainda vida para ela, pessoas dispostas a falar com ela e a mostrarem um pouco de interesse. 
Era como se Tanya lhe tivesse aberto uma porta e ela se atrevesse a espreitar para fora pela primeira vez desde h muito tempo. Era tudo muito intrigante e no fazia 
ideia do que havia de fazer agora. E depois do que lhe ouvira dizer nessa noite, o marido tambm no sabia. Estavam presos nos lados opostos daquilo que se tomara 
para eles o Grande Canyon, e que fora antes o seu casamento.























Captulo 5
      
      Durante os trs dias seguintes, os caminhos de Bill e de Mary Stuart raramente se cruzaram. Ele trabalhava at perto da meia-noite todos os dias e comeava 
a dar a impresso de que vivia no escritrio. Mas Mary j estava habituada. Estivera mais ou menos sozinha durante todo o ano e realmente as coisas no eram agora 
muito diferentes. A nica diferena era ela no precisar de fazer o jantar. E o resultado era estar cada vez mais magra, o que outrora teria preocupado Bill. Agora, 
porm, nem dava por isso.
      
      No dia anterior quele em que Bill devia partir, Mary Stuart ligou-lhe para o escritrio para lhe perguntar se queria que lhe fizesse as malas para ir para 
Londres. Calculava que quisesse, visto nunca as ter feito, mas ele disse-lhe que iria a casa nessa tarde para as fazer.
      
      - Tens a certeza? - Ficou surpreendida, como se j no o conhecesse, ou pelo menos era essa a sua leitura da situao. Tinha a impresso de que haviam deixado 
de ser as mesmas pessoas. - Eu no me importo de o fazer. - Parecia-lhe que seria natural e assim manter-se-ia ocupada. Estava ainda a tentar absorver a ideia de 
que o marido se iria embora por dois ou trs meses. S tomara verdadeiramente conscincia disso nesse dia. Exceptuando a sua viagem com Alyssa, iria ficar sozinha 
todo o Vero. E, de certo modo, isso assustava-a. O facto de Bill no querer que ela o acompanhasse a Londres tomava mais evidente o distanciamento entre os dois. 
Bill afirmava que seria aborrecido para Mary e que ela o distrairia do trabalho, mas anos antes nunca tal coisa lhe passaria pela cabea. - No me importo de te 
fazer as malas - insistiu Mary. Mas Bill declarou que precisava de ser ele a decidir o que levava, pois teria de ter muito cuidado com o que iria usar no tribunal.
      
      - Estarei em casa s quatro horas - concluiu Bill, apressado. Era complicado abandonar o escritrio durante vrios meses e havia inmeros detalhes a tratar. 
Bill levava uma das suas assistentes com ele, e, se se tratasse de uma mulher mais nova e mais atraente, Mary tiraria as concluses bvias. Mas era uma senhora forte, 
inteligente, mas sem qualquer atractivo, que devia ter mais de sessenta anos.
      
      - Queres jantar em casa ou preferes ir jantar fora? - perguntou Mary Stuart, sentindo-se deprimida, mas querendo dar  ocasio um ar festivo. Tinha a sensao 
de ter deixado de haver qualquer fingimento entre ambos, nem mesmo a iluso de intimidade, e essa sensao tornara-se mais forte  medida que a partida dele se aproximava.
      
      - Comerei qualquer coisa que tenhas no frigorfico - disse Bill. - No precisas de te incomodar. - Ambos detestavam agora os jantares silenciosos em que os 
dois se sentiam embaraados e fora um alvio quando ele passara a jantar no escritrio e a trabalhar at tarde. Em consequncia disso estavam os dois mais magros.
      
      - Vou comprar um prato frio no William Poll ou no Fraser Morris - replicou Mary.
      
      Depois de desligar, saiu para fazer as compras. Precisava de ir buscar a roupa de Bill  lavandaria e queria oferecer-lhe um livro que sabia que ele apreciaria 
para ler no avio. Ao caminhar ao longo de Lezington, sentiu-se subitamente satisfeita por partir dentro de poucas semanas. Apesar do abismo que se abria entre eles, 
iria sentir-se incrivelmente s sem o marido.
      
      Comprou alimentos frios no William Poll, o livro e algumas revistas, uns doces e pastilhas elsticas e quando regressou a casa pendurou todas as camisas dele 
no roupeiro, para que pudesse escolher as que queria levar. Bill chegou e foi logo fazer as malas, sem trocar uma nica palavra com ela. Mary ouviu-o tirar as malas 
da parte de cima dos roupeiros e s voltou a v-lo s sete horas, quando ele apareceu na cozinha. Trazia ainda vestida a camisa branca que levara para o escritrio, 
mas tirara a gravata e tinha o cabelo ligeiramente despenteado. Subitamente achou que ele tinha um aspecto rejuvenescido, e o que ainda se tornava mais doloroso 
era o facto de ele lhe fazer lembrar Todd. Tentou corajosamente ignorar os seus sentimentos.
      
      - Ests despachado? No me teria custado nada fazer-te as malas - disse suavemente Mary, pondo o jantar na mesa.
      
      O dia fora muito quente e era agradvel comer carnes frias e no ter que cozinhar.
      
      - No quis dar-te essa maada - replicou Bill, sentando-se num dos bancos altos ao lado do balco de granito. - No te fao feliz e no me parece justo dar-te 
trabalho e desgostos, ou pouco mais do que isso. Assim, prefiro no te incomodar, para tomar as coisas mais fceis.
      
      Era a primeira vez que ele falava na situao e Mary olhou-o com assombro. Quando ela tentara dizer-lhe qualquer coisa, uns dias antes, embatera com uma muralha 
de gelo e ele ignorara-a completamente. Mary nem sequer sabia se a ouvira.
      
      - No espero que tu no me ds maadas - retorquiu Mary, sentando-se em frente do marido e fitando-o. Os olhos dela pareciam dois lagos de chocolate escuro. 
Bill gostara sempre de a olhar, de ver a expressividade dos seus olhos, mas a dor que se estampara neles durante o ltimo ano fora demasiada para ele a poder suportar, 
e era mais fcil evit-la. - O casamento no  para levar distanciamento,  para partilhar.
      
      Eles tinham partilhado a alegria durante quase vinte e um anos e um desgosto infindvel durante o ltimo ano. O mal fora no partilharem esse desgosto. Cada 
um sofrera em silncio, no seu canto.
      
      - Ultimamente no temos partilhado muita coisa, pois no? - perguntou tristemente Bill. - Creio que tenho andado ocupado de mais no escritrio.
      
      Mas no era isso. Ambos o sabiam. Mary ficou calada, olhando-o, e ele estendeu lentamente um brao e tocou-lhe na mo. Era o primeiro gesto desse gnero desde 
h muitos meses e os olhos de Mary encheram-se de lgrimas ao sentir os dedos dele.
      
      - Tenho sentido a tua falta - sussurrou Mary, mas ele limitou-se a dizer que sim com a cabea. Tambm sentira a falta dela, mas no era capaz de lho dizer. 
- Vou ter saudades tuas quando estiveres em Londres - continuou calmamente Mary. Era a primeira vez que iam estar separados durante tanto tempo desde que se tinham 
casado. Mas ele mostrara-se peremptrio em no querer que ela o acompanhasse. - E muito tempo.
      
      - Vai passar depressa. Irs com Alyssa no prximo ms e eu conto estar de volta em fins de Agosto.
      
      - Vamos estar juntos dois dias em dois meses - afirmou Mary, olhando-o, desesperada, comeando a afastar a mo da dele, devagar. - No  costume as pessoas 
casadas gostarem de estar tanto tempo separadas. Eu ficava no hotel e entretinha-me sozinha durante o dia. - Tinham muitos amigos em Londres, com os quais ela poderia 
conviver, e Bill sabia-o.
      
      - Distrair-me-ias do meu trabalho - respondeu Bill com ar infeliz. Tinham falado muitas vezes no assunto e ele mostrara sempre que no queria que ela fosse 
a Londres, a no ser durante dois dias, com a filha.
      
      - Mas  a primeira vez que pensas assim - replicou Mary, sentindo-se novamente suplicante, e detestando-se a si prpria e a ele por isso. - De qualquer modo... 
bem...  muito tempo... acho que ambos sabemos isso,
      
      
      Os olhos dele fitaram subitamente os dela e Mary percebeu que havia uma interrogao nos olhos do marido.
      
      - Que queres dizer com isso? - pela primeira vez ele pareceu ficar preocupado. Bill era um homem atraente e Mary tinha a certeza de que muitas mulheres andariam 
atrs dele em Londres. Mas no podia imaginar que ele se pudesse preocupar com ela. Fora sempre uma esposa perfeita, mas ele tambm nunca a deixara sozinha durante 
um longo Vero, depois de um ano como aquele.
      
      - O que quero dizer  que dois meses  muito tempo, especialmente depois de um ano como este. Vais-te embora por dois meses, possivelmente mais... No sei 
bem o que hei-de pensar disto Bill. - Olhou-o com uma expresso preocupada e em seguida ficou ainda mais surpreendida.
      
      - Nem eu. Pensei apenas que... que pudssemos aproveitar o tempo da separao para... para avaliarmos a situao, pensarmos no que havemos de fazer e tentarmos 
encaixar as peas do puzzle.
      
      - No compreendo como  que uma separao nos poder vir a aproximar mais - retorquiu prosaicamente Mary.
      
      - Poder ajudar-nos a aclarar ideias. No sei... s sei que precisava de estar longe de ti, de pensar noutra coisa qualquer, de me embrenhar no trabalho. - 
Mary ficou surpreendida quando viu lgrimas nos olhos dele. No o voltara a ver chorar desde o dia em que tinham ido buscar o corpo de Todd a Princeton. Mesmo no 
funeral mantivera um ar severo, sem derramar uma lgrima. Comeara desde esse dia a esconder-se por detrs de uma muralha e era agora a primeira vez que se aventurava 
a sair detrs dela. Talvez se sentisse perturbado por se ir embora. Isso j era alguma coisa. - Quero estar sozinho para trabalhar, Mary Stuart. E que... - os seus 
lbios tremeram e os olhos encheram-se novamente de lgrimas, enquanto ela estendia de novo a mo para a dele e lha apertava meigamente - ... de cada vez que olho 
para ti... lembro-me dele...  como estarmos todos irremediavelmente ligados uns aos outros. Preciso de me afastar, de deixar de pensar nele, naquilo que poderamos 
ter feito ou dito, ou sabido... ou em como as coisas poderiam ter sido diferentes. Isso quase me tem feito enlouquecer. Pensei que a ida para Londres pudesse ser 
uma boa maneira de alterar as coisas. Achei que afastar-me de ti pudesse ser bom para ambos. Deves sentir o mesmo a meu respeito, quando me vs.
      
      Mary sorriu atravs das lgrimas, comovida mas entristecida pelas palavras dele.
      
      - Pareces-te tanto com ele! Quando entraste na cozinha, h pouco, sobressaltaste-me.
      
      Bill concordou com um gesto. Compreendia perfeitamente. Eram ambos perseguidos pela memria do filho. Estava farto do apartamento, do correio que ainda ocasionalmente 
chegava para Todd, do quarto que sabia estar intacto, mas no qual nunca entrava. Mesmo Alyssa lhe fazia lembrar Todd, em certas alturas, e ele tinha os olhos e o 
sorriso da me. Era tudo insuportavelmente doloroso.
      
      - No podemos fugir um do outro para escaparmos  recordao do nosso filho - disse Mary com tristeza. - Assim  uma dupla perda. Perdemo-lo e perdemo-nos 
um ao outro. - Com efeito, j tinham perdido, e ambos o sabiam.
      
      - Irs ficar bem enquanto eu estiver fora? - perguntou Bill, pela primeira vez com um sentimento de culpa. Dissera a si mesmo que era sensato deix-la. Afinal 
ia para Londres trabalhar. Sentira-se aliviado com a oportunidade de fugir da presena da mulher, e agora, embora essa deciso lhe parecesse disparatada e estpida, 
no queria mudar de opinio e lev-la.
      
      - Ficarei bem - respondeu Mary com mais dignidade que verdade. Que havia de dizer? Declarar-lhe que passaria os dias fechada em casa, a chorar? Que era mais 
do que podia suportar? No era. Estava quase habituada a isso. Bill abandonara-a quando Todd morrera, pelo menos emocionalmente. Agora estava apenas a levar o corpo 
consigo. Havia um ano que estava sozinha, e mais dois meses no fariam grande diferena.
      
      - Podes telefonar-me sempre que tenhas qualquer problema. Talvez fosse bom ficares na Europa com Alyssa durante uns tempos.
      
      Mary sentiu-se como uma parente idosa a ser afastada para casa de outros parentes ou aliciada para fazer um cruzeiro. Mas sabia que estaria melhor em sua casa 
do que sozinha em hotis, por toda a Europa.
      
      - Alyssa vai  Itlia com os amigos. Tem os seus prprios planos.
      
      E ele tambm. Todos tinham. At mesmo Tanya tencionava ir a Wyoming com os filhos de Tony. Toda a gente ia fazer alguma coisa, excepto ela. Restava-lhe apenas 
uma curta viagem com Alyssa e passar o resto do Vero  espera. Era uma presuno extraordinria da parte dele, mas, dadas as circunstncias a que chegara a sua 
vida, j nada a surpreendia.
      
      Comeram o que ela comprara sem grande apetite, falaram de certas coisas que ela precisava de saber, de um prmio do seguro de que ele estava  espera, do correio 
que ele queria que lhe fosse enviado e do dinheiro que ela receberia. Bill esperava que ela pagasse as contas, pois teria muito pouco tempo livre quando estivesse 
a trabalhar em Londres. Depois de conversarem durante algum tempo Bill foi para o quarto acabar de arrumar os papis. Estava na casa de banho, a tomar duche, quando 
Mary entrou no quarto. Quando voltou ao quarto Bill envergava um roupo e tinha o cabelo hmido. Cheirava a sabonete e a aftershave e por momentos, vendo-o assim, 
ela sobressaltou-se. Bill estava mais descontrado. Pensou se estaria assim por ter pena de a deixar ou por estar satisfeito por se ir embora.
      
      Quando se deitaram, nessa noite, o marido no se chegou para ela, mas, mesmo assim,  distncia, pareceu-lhe menos rgido. Mary gostaria de lhe dizer certas 
coisas sobre o que sentia e o que ainda esperava dele, mas achou que, apesar de um ligeiro abrandamento da guerra-fria, Bill ainda no estava pronto para que ela 
abrisse a sua alma, para que lhe dissesse o que pensava acerca do seu casamento. Sentia-se incrivelmente triste e estranhamente trada. Fora-lhe tirado um filho 
e a Todd fora roubado, ou roubara a si prprio, o seu futuro. Mas parecia que, quando ele desaparecera, levara os pais consigo. Seria bom poder dizer isso a Bill, 
francamente, mas, como sabia que quase no o veria nos dois meses seguintes, Mary achou que no era a altura apropriada para lho dizer. Ele no estava preparado 
para a ouvir. E ficou do seu lado da cama, a pensar nele. Bill adormeceu sem lhe dizer uma nica palavra e sem lhe rodear o corpo com o brao. Dissera-lhe j tudo 
quanto era capaz, quando estavam os dois na cozinha.
      
      Quando se levantou, na manh seguinte Bill comeou logo com pressa de se organizar. Telefonou para o escritrio, fechou as malas, tomou duche, barbeou-se e 
mal teve tempo para olhar para o jornal enquanto tomava o pequeno-almoo. Mary preparara-lhe cereais, ovos e torradas de po integral, que ele comia habitualmente. 
Em seguida fora arranjar-se e aparecera com um fato de calas e casaco de linho preto e uma blusa s riscas pretas e brancas. Como de costume, parecia sada da capa 
de uma revista.
      
      - Tens alguma reunio hoje? - perguntou Bill, olhando-a de relance.
      
      - No - respondeu calmamente Mary Stuart, sentindo um aperto no estmago.
      
      - Ests muito bem vestida para ficares em casa. Vais almoar fora?
      
      
      Mary no pde deixar de pensar o que lhe importaria isso, visto estar fora dois meses. Que diferena lhe faria o que ela fizesse?
      
      - No quis levar-te ao aeroporto de calas de ganga - respondeu Mary, reparando que ele franzia o sobrolho.
      
      - No espero que me leves ao aeroporto. Vem um carro buscar-me s dez e meia. Mistress Anderson tambm vai e Bob Miller igualmente. Tencionamos ainda ver umas 
coisas no carro, a caminho do aeroporto.
      
      No podiam perder um momento. Eram verdadeiros robs humanos. Ou seria para se livrar dela mais cedo?
      
      - No preciso de ir, se preferes que no v - declarou calmamente Mary Stuart. E o marido voltou de novo a sua ateno para o jornal.
      
      - No me parece que faa muito sentido. Acho mais simples despedirmo-nos aqui.
      
      - Sim. Mais simples e menos embaraoso. Com certeza ele no queria que algum pensasse que a amava. Mas amaria? A pequena afabilidade que mostrara na vspera 
desaparecera completamente. A muralha interpunha-se novamente entre eles, e Bill ocultava-se no s atrs dessa muralha, mas tambm atrs do jornal.
      
      - Tenho a certeza de que ters coisas mais interessantes a fazer hoje. O aeroporto  uma confuso nesta altura do ano e ias levar horas a voltar  cidade.
      
      Sorriu, mas sem sombra de afeio. Era o gnero de sorriso que se podia oferecer a um desconhecido. Mary fez um gesto de concordncia e foi pr os pratos no 
lava-louas, tentando no chorar. Era estranho v-lo partir assim. E, quase sem ela dar por isso Bill chamou o elevador e colocou as malas no patamar. Envergava 
um fato cinzento-claro e estava terrivelmente atraente. Fora tacitamente decidido entre eles que Mary no o acompanharia ao aeroporto. Ficou  porta, vendo o rapaz 
do elevador pegar nas malas, enquanto Bill se dirigia para ela. Mary deu discretamente um passo atrs para o rapaz no os ver.
      
      - Eu telefono-te - prometeu Bill, enquanto Mary se esforava para que ele no lhe visse as lgrimas. Parecia-lhe impossvel que partisse sem um nico gesto 
de amor para com ela.
      
      - Tem cuidado contigo - recomendou timidamente.
      
      - Vou ter saudades tuas - disse Bill, inclinando-se para a beijar na face. Sem querer, Mary rodeou-lhe o pescoo com os braos.
      
      - Lamento... tudo... - Lamentava o que se passara com Todd, o ano anterior, o facto de ele achar que precisava de um intervalo de dois meses no seu relacionamento. 
Lamentava o facto de o seu casamento estar destroado. Havia tantas coisas a lamentar que era difcil recordar tudo, mas Bill percebia o que ela estava a dizer.
      
      - Est bem... vai ficar tudo bem, Stu... - No lhe chamara assim durante o ano inteiro. Ficaria? J no acreditava nisso. Agora iam estar separados dois meses. 
Sabia instintivamente que essa separao os afastaria ainda mais, ao contrrio do que ele dizia. Era insensatez pensar que seria bom para eles. S poderia tomar 
ainda mais fundo o abismo que os separava. Bill recuou um passo, sem a beijar, e olhou-a com uma infinita tristeza. - At daqui a umas semanas.
      
      Mary pde apenas dizer que sim com a cabea, enquanto as lgrimas lhe corriam pelas faces. O rapaz do elevador esperava, com a porta aberta.
      
      - Amo-te - sussurrou, quando ele ia a afastar-se. O marido voltou-se, quando a ouviu, mas limitou-se a dizer que sim com a cabea. Depois a porta do elevador 
fechou-se silenciosamente. Partira sem lhe responder.
      
      Quando ficou s no apartamento, Mary Stuart sentiu de tal modo a solido que teve dificuldade em respirar. No podia acreditar que ele se fora embora daquela 
maneira, que no voltaria a casa durante meses e que s o veria durante uns dias em companhia da filha. Pelo menos tinha a filha, mas sentia que o seu casamento 
estava acabado. Por mais que ele dissesse, o facto de precisar de passar algum tempo longe dela e de j no ser capaz de corresponder ao seu carinho dizia tudo.
      
      Sentou-se no sof e chorou durante um bocado, sentindo pena de si prpria. Depois dirigiu-se lentamente para a cozinha. Meteu os pratos na mquina de lavar, 
deitou fora o resto do pequeno-almoo e quando o telefone tocou esteve quase a no atender. Pensou que pudesse ser Bill a ligar do carro para lhe dizer que se esquecera 
de alguma coisa, ou talvez que a amava. Mas era a filha.
      
      - Ol, querida. - Mary Stuart tentou parecer animada. No quis dizer a Alyssa como se sentia infeliz por o pai se ter ido embora. J eram suficientemente infelizes 
sem ela se queixar por causa do seu casamento, especialmente  filha. - Como est Paris?
      
      - Linda, quente e romntica - replicou Alyssa. Era uma palavra nova no seu vocabulrio e Mary Stuart sorriu, pensando se haveria um novo amor na vida da filha. 
Talvez um jovem francs.
      
      - Posso perguntar porqu? - disse, ainda a sorrir.
      
      - Oh!, apenas porque  assim. Paris  uma cidade maravilhosa e eu adoro estar aqui. No quero ir-me embora.
      
      Mas teria de ir. Deixariam o apartamento depois dela ir ter com a filha a Paris.
      
      - No te posso levar a mal por isso - respondeu Mary, olhando de relance para Central Park pela janela da cozinha. Era tambm bonito e cheio de verdura, mas 
era, alm disso, sujo, cheio de vagabundos e ladres. Definitivamente no era o mesmo que Paris. - Estou ansiosa por ir ter contigo - disse, tentando no pensar 
na partida de Bill, uma hora antes. Devia estar agora no aeroporto, mas duvidava que lhe telefonasse. No havia nada a dizer e ela fizera-o sentir-se mal mostrando 
as suas emoes. Percebera claramente isso. Mas Alyssa permaneceu estranhamente silenciosa. - J organizaste a nossa viagem? - Mary Stuart pedira-lhe para ela comprar 
alguns mapas para as viagens que fizessem de carro. Essa parte da viagem era incumbncia de Alyssa. A restante fora tratada pelo pessoal do escritrio de Bill. - 
J tens os mapas dos Alpes martimos? Falaram-me de um pequeno hotel excelente nos arredores de Florena. - A filha continuava calada. - Alyssa? Ests bem? Passa-se 
alguma coisa? - Havia algum problema. Estaria apaixonada? Estaria a chorar? Quando ela falou de novo, percebeu que no chorava. Estava apenas embaraada.
      
      - Mam... tenho um problema...
      
      - Oh!, meu Deus! Ests grvida? - A filha tinha quase vinte anos e seria uma calamidade que Mary Stuart preferiria no ter de enfrentar, mas, se fosse necessrio, 
enfrent-la-ia.
      
      Porm, Alyssa ficou indignada com a sugesto dela.
      
      - Por amor de Deus, mama! Claro que no!
      
      - Desculpa. Pensei... Qual  o problema? Alyssa respirou fundo e lanou-se numa histria complicada, que Mary Stuart comparou s histrias que ela costumava 
contar-lhe quando andava na terceira classe e que pareciam nunca mais ter fim. Depois de muitas explicaes, Mary acabou por perceber que um grupo de amigos de Alyssa 
ia fazer uma viagem aos Pases Baixos e queriam que ela os acompanhasse. Tratava-se de uma oportunidade nica, segundo Alyssa. Viajariam at  Sua e  Alemanha, 
ficando hospedados em casas de amigos ou em pousadas para a juventude. Depois iriam at  Itlia, onde j planeara encontrar-se com eles mais tarde. Mas a primeira 
parte da viagem fora j organizada e, na opinio de Alyssa, era uma ocasio que s aparecia uma vez na vida.
      
      - Acho formidvel, mas continuo a no perceber qual  o problema.
      
      Alyssa suspirou. A me s vezes era to estpida... mas pelo menos no o era sempre, como o pai.
      
      - Partem esta semana. Viajaro durante dois meses antes de nos encontrarmos, em Capri. Eu podia deixar agora o apartamento e ir com eles se no fosse... - 
Calou-se e Mary Stuart compreendeu. A filha j no queria viajar com ela pela Europa. Era compreensvel, claro, mas no deixava de ser um grande desapontamento para 
si. Alyssa era tudo o que lhe restava nesse momento. E ansiava por aquela viagem com a filha, a nica que lhe restava.
      
      - Compreendo - retorquiu calmamente Mary Stuart. - No queres ir comigo. - Depois arrependeu-se de pronunciar aquelas palavras. No queria dizer aquilo to 
cruamente.
      
      - No  nada disso, mam. Irei consigo se realmente quiser. E que... pensei... trata-se de uma oportunidade to boa... mas quando quiser... - Tentava mostrar-se 
diplomata, mas estava ansiosa por ir com os amigos e Mary Stuart sabia que seria muito mais divertido para ela. No era justo impedi-la de ir.
      
      - Acho maravilhoso - disse generosamente Mary Stuart. - Penso que deves ir.
      
      - A srio? Pensa realmente isso? - Parecia uma garota e Mary imaginava-a aos pulos no apartamento de Paris. - Oh!, mam,  a melhor me do mundo! Sabia que 
compreenderia, mas receava que pensasse... eu...
      
      Ento Mary Stuart compreendeu ainda mais, mas isso no a chocou.
      
      - H algum cavalheiro includo nesse grupo? - Pela voz da filha percebeu que havia, e isso f-la sorrir, mas tambm lhe causou uma certa nostalgia.
      
      - Bem... talvez... mas no  por isso que quero ir com eles. Sinceramente,  por ser uma viagem fantstica.
      
      - E tu s uma rapariga fantstica e eu gosto muito de ti. Ficas-me a dever uma viagem no Outono. Iremos para um stio qualquer juntas, antes de voltares para 
Yale. Combinado?
      
      - Prometo.
      
      Mas Mary Stuart sabia que no seria o mesmo. A filha estaria ansiosa por ir a casa para em seguida regressar s aulas. Esquecer-se-ia facilmente. A viagem 
pela Frana e pela Itlia seria maravilhosa para si prpria, mas a viagem plos Pases Baixos em companhia dos amigos iria ser muito mais divertida para a filha. 
E Mary Stuart nunca hesitara em sacrificar-se plos filhos.
      
      - Quando  que partes?
      
      - Dentro de dois dias, mas terei tempo de tratar de tudo. - Falaram sobre o modo como Alyssa havia de enviar as suas coisas para casa e dos pagamentos que 
tinham de ser feitos. Mary Stuart teria de lhe mandar dinheiro. Disse a Alyssa para comprar traveller's checks com esse dinheiro e quantos comprar, e conversaram 
durante muito tempo acerca dos detalhes da viagem de Alyssa. Depois a me quis saber se ela ainda planeava ir a Londres.
      
      - No me parece. No tencionvamos ir a Londres e outro dia falei com o pap e ele disse-me que ia estar muito ocupado.
      
      Mary viu ento que o marido estava a afastar toda a gente, e no s a ela, mas isso no lhe servia de conforto.
      
      Quando desligaram, Mary Stuart ficou sentada a olhar pela janela durante muito tempo, vendo as crianas brincarem no parque e as mes a vigiarem-nas, ou sentadas 
nos bancos, a conversarem. Recordava-se desses tempos como se ainda tivessem sido na vspera. Ela costumava passar as tardes no parque com os filhos. Algumas das 
suas amigas trabalhavam, mas ela sempre achara mais importante ficar em casa e sentira-se sempre feliz por o poder fazer. E agora os filhos tinham partido e ela 
sentia-se s. Uma tornara-se adulta e ia viajar pela Europa com um grupo de amigos. O outro fora para um lugar distante, na eternidade, onde ela esperava voltar 
a v-lo um dia. Essa crena era a nica coisa a que se podia agarrar.
      
      "Tomem conta deles", apetecia-lhe murmurar s mes que via l em baixo. "Segurem-nos, enquanto podem." Passava tudo muito depressa e depois acabava. Como o 
casamento dela, que acabara tambm. Tinha a certeza disso. Havia meses que o percebera e recusara-se a acreditar, mas, ao pensar na maneira como ele partira, nas 
coisas que tinham ficado por dizer e do modo como se afastara dela quando lhe dissera que o amava, deixara de haver qualquer dvida no seu esprito. E nem sequer 
tinha o conforto de pensar que havia outra mulher. No era ningum. Apenas ele, ela, o tempo, o facto de a tragdia os ter atingido e eles no terem sobrevivido. 
Era a vida. Mas, fosse o que fosse, sabia que o casamento deles tinha morrido. Agora s lhe restava adaptar-se. Tinha na sua frente dois meses de liberdade para 
ver se gostava.
      
      Nessa tarde foi dar um passeio e pensou em tudo isso, em Alyssa, que ia viajar com amigos, em Bill, que passaria dois meses em Londres, e compreendeu algo 
que sempre soubera e receara, que iria ficar s. Cabia-lhe agora apanhar os bocados, continuar a viver, aceitar o que o filho fizera. Tanya tivera razo no que dissera. 
Ela no podia fugir ao sucedido para sempre. Talvez a culpa fosse dela, mas, mesmo que fosse, no poderia continuar a usar a morte dele como uma mortalha, at ela 
a matar.
      
      Voltou para casa e quando entrou e pousou a carteira soube o que tinha a fazer. Soubera-o h muito tempo, mas nunca tivera coragem de o fazer. Teria preferido 
no ter de agir sozinha, mas era chegada a altura. Abriu a porta do quarto do filho e ficou ali parada durante muito tempo. Depois correu os cortinados e os estores 
e deixou entrar o sol. Sentou-se  secretria e comeou a abrir as gavetas. Ao princpio sentiu-se uma intrusa, ao examinar todos os papis de Todd. Havia cartas, 
antigos exames, recordaes da sua infncia e um antigo bilhete de Princeton relativo  apresentao no clube onde ia comer. Percorreu todas as gavetas, uma a uma, 
e em seguida, esforando-se por no chorar, foi  cozinha e tirou de um armrio vrias caixas de carto e levou-as para o quarto de Todd. Logo que comeou a encher 
as caixas as lgrimas deslizaram-lhe pelas faces. Mas era quase um alvio chorar. Nessa noite passou horas no quarto de Todd e o telefone nunca tocou. Bill nunca 
telefonava. O avio devia aterrar em Londres s duas horas da manh e estaria no Claridge s trs e meia. No fazia ideia do que ela estava a fazer e ele prprio 
lhe dissera que fizesse o que quisesse.
      
      Levou vrias horas a arrumar tudo, e quando acabou nada restava. Metera todas as roupas de Todd em caixotes e guardara apenas algumas coisas especiais, como 
o seu antigo uniforme de escuteiro, um casaco de cabedal de que ele muito gostava e uma camisola de malha que ela lhe fizera, que ia guardar numa prateleira. O resto 
seria dado e os papis e livros iriam para a arrecadao que tinham na cave do prdio. Deixou todos os trofeus ganhos por Todd alinhados numa prateleira. Queria 
arranjar um stio onde os pr. As fotos que ali se encontravam foram espalhadas pela casa toda. Parecia que ele tinha repentinamente partilhado alguma coisa com 
eles, como se lhes tivesse oferecido um presente, uma recordao. Eram duas horas quando acabou de arrumar tudo e deixou-se ficar imvel na cozinha branca, s escuras. 
Quase podia senti-lo junto de si, ver o seu rosto, os olhos, ouvir a sua voz. As vezes pensava que ia esquecer, mas sabia que isso nunca aconteceria. Todd significava 
muito mais para ela do que todas aquelas coisas. Nada daquilo importava agora. Desaparecera tudo e o que verdadeiramente interessava ficaria com ela para sempre.
      
      Tirou as colchas verde-escuras das camas, guardou-as no armrio para as mandar limpar e tomou mentalmente nota para mudar os cortinados. Nunca reparara como 
estavam desbotados. Era triste olhar para o seu antigo quarto, vazio e abandonado, com caixas cheias de objectos por todo o lado. Parecia que ele se ia mudar para 
outro stio, e a verdade  que h um ano que ele o fizera. Ela j devia ter feito aquilo h um ano. Estava a despedir-se dele agora, mas nunca o esqueceria. 
      
      As coisas no mais voltariam a ser iguais. Era apenas uma questo de tempo at ter de desmanchar o resto do apartamento. Olhou  sua volta uma ltima vez e 
fechou lentamente a porta. No dia seguinte telefonaria para uma obra de beneficncia para mandarem buscar as roupas de Todd, e o porteiro transportaria o restante 
para a arrecadao, na cave. E, ao encaminhar-se lentamente para o seu quarto, pensou em tudo o que sucedera no ano anterior e concluiu que todos eles estavam ss. 
Todd morrera, Alyssa encontrava-se na Europa com os amigos, e Bill passaria o Vero em Londres. E ela ali estava, pondo de parte velhas recordaes do seu filho, 
o seu primeiro beb. 
      
      Ficou muito tempo parada a olhar para uma fotografia dele. Os seus olhos, grandes, brilhantes e claros, pareciam rir. Com efeito, ele tirara a fotografia a 
rir. Ainda podia ouvir o som do riso dele. "Ento, mam... depressa." Tinha o fato de banho molhado e estava com frio. Encontravam-se ento em Cape Cod e ele fingira 
estar a estrangular a irm, numa grande brincadeira. Depois disso correra pela praia com a parte de cima do biquini dela e Alyssa fora atrs dele, embrulhada na 
toalha e a gritar. Era como se tudo isso se tivesse passado h mil anos e a vida dela fosse agora feita de recordaes, no apartamento vazio.
      
      Mary Stuart s se deitou umas horas mais tarde e quando o fez sonhou com todos eles. Alyssa dizia-lhe qualquer coisa a respeito de ela abanar a cabea e Todd 
agradecia-lhe por ter empacotado as suas coisas. E, ao olhar, vira Bill  distncia, afastando-se dela. Quando o chamara ele no se voltara e continuara a andar, 
cada vez para mais longe.






















Captulo 6
      
      Tanya no sabia bem o que iria encontrar no seu regresso a Los Angeles. Tony dissera-lhe que se ia embora, mas havia ainda a possibilidade de no ter ido. 
Logo que chegou a casa foi revistar os armrios dele e viu que se encontravam vazios. Jean esperava-a, ansiosa por lhe dar as ltimas notcias e mostrar-lhe os horrores 
que os tablides haviam publicado. A sua foto estava nas primeiras pginas e as histrias que o ex-guarda-costas contava sobre ela eram espantosas. Algum lhes dissera 
que Tony alugara um apartamento para ele, apenas temporariamente, segundo explicavam, e publicavam mais fotografias dele acompanhado pela jovem actriz, dessa vez 
enquanto jantavam.
      
      - Est bem... est bem... - disse Tanya, mostrando-se cansada. - J sei. J vi. - Tinha comprado um jornal igual no aeroporto. - Creio que irei uns dias para 
Santa Brbara.
      
      Precisava de sair dali, de se afastar dos olhos que a espiavam, dos armrios vazios, da casa deserta. Nem sequer tinha tempo para chorar por ele. S podia 
pensar em proteger-se dos mdia.
      
      - No pode ir - declarou peremptoriamente Jean, entregando-lhe quatro folhas onde anotara tudo quanto ela tinha que fazer. - Amanh  noite entra num espectculo 
de beneficncia, nos dois dias seguintes tem ensaios e no fim-de-semana tem de se encontrar com Bennett por causa do processo.
      
      - Diga-lhe que no posso - replicou Tanya, aborrecida. - Preciso de dois dias de descanso.
      
      Nunca faltaria a uma festa de beneficncia nem aos ensaios, mas no iria passar ali o fim-de-semana por causa de preparar depoimentos com o advogado.
      
      - Creio que ter mesmo de ir - afirmou Jean. - J esto marcados os depoimentos no caso Leo Turner e Bennett disse-me que recebeu um telefonema do advogado 
de Tony esta manh.
      
      - Foi rpido - respondeu Tanya, deixando-se cair num confortvel cadeiro de cetim cor-de-rosa no seu quarto. - No perdeu tempo. - Era como se os trs anos 
de casamento tivessem desaparecido repentinamente no ar e agora tivessem apenas de tratar de negcios. Tanya tinha a impresso de que, afinal, tudo se resumia a 
isso: negcios, ganncia, dinheiro. Os agentes, os advogados, as pessoas que vendiam histrias a seu respeito, os que queriam que ela lhes pagasse para no a processarem, 
a imensido de pessoas que achavam que ela lhes devia qualquer coisa por ter sucesso, por ter tido sorte e elas no. - Preciso de um dia para mim - declarou calmamente, 
dirigindo-se  secretria. Ningum podia fazer ideia de como isso era verdade. No podia continuar, no podia continuar a sorrir, a cantar e a trabalhar para todos. 
As vezes tinha a sensao de trabalhar apenas para pagar aos que a rodeavam. No tinha vida prpria. S trabalhar e fazer pagamentos.
      
      - Bennett acha que poder comprar Leo por quinhentos mil dlares - disse Jean, continuando a pression-la, com as mos cheias de notas para entrevistas e acusaes. 
Mas Tanya tinha uma expresso sombria.
      
      - Leo que v para o diabo. E pode dizer a Bennett que foi isso que eu disse. - Jean respondeu que sim com a cabea, mas no desarmou. Era implacvel.
      
      - Recebemos hoje um telefonema do Los Angeles Times. Querem saber todos os detalhes sobre o divrcio, se Tony pretende uma penso ou se chegam a um acordo 
de outro gnero. E desejam saber se lha ir dar.
      
      - Foi o advogado dele ou o jornal? - Tanya sentia-se confusa. No havia realmente qualquer privacidade na sua vida, nem decncia, nem coisa alguma, mesmo remotamente 
humana.
      
      - Foi da parte do jornal, mas Tony tambm ligou. Queria falar-lhe a respeito dos filhos.
      
      - Que tm eles? - Encostou a cabea na cadeira e fechou os olhos, enquanto Jean se sentava na sua frente e prosseguia. Nunca desistia. Ainda tinha de falar 
a Tanya de todas as entrevistas marcadas. Um advogado, um contabilista, um decorador que pensava que ela iria redecorar a casa e um arquitecto que a ajudaria a alterar 
a cozinha da casa da praia.
      
      Todos eles tinham de ser pagos, atendidos e ouvidos, e se por acaso achassem que ficava aqum do que esperavam dela, process-la-iam. As coisas eram assim 
mesmo e Tanya sabia-o. E no importava o facto de o advogado dela os fazer assinar acordos confidenciais, garantindo que no venderiam informaes aos tablides. 
- Por que motivo querer Tony falar-me acerca dos garotos? - perguntou Tanya a Jean, que foi verificar os seus apontamentos, para ver se tomara nota de alguma coisa. 
As vezes trabalhava dez e doze horas por dia. No se tratava de um trabalho fcil, mas era bem pago e Tanya mostrava-se quase sempre simptica para com ela. E Jean 
gostava da glria que isso lhe dava, gostava de a acompanhar aos concertos, de ser vista com ela, de vestir a roupa que ela lhe oferecia, de viver praticamente  
sua sombra. Tambm quisera cantar, mas no tinha a voz, a sorte ou o talento de Tanya e sentia-se feliz por estar perto dela.
      
      - No tenho a certeza - respondeu finalmente Jean. - Creio que no me disse. Mas pediu que lhe telefonasse.
      
      Trataram de diversos assuntos durante mais meia hora e depois Jean lembrou-lhe que a empregada lhe deixara o jantar na cozinha. Tanya no quis saber do jantar, 
deitou vinho num copo e disse a Jean que lhe desse um dossier com contratos e alguns apontamentos. Tinham sido deixados ali plos seus advogados e eram todos dos 
promotores da tourne. Quando por fim Jean saiu, s nove horas, Tanya pegou no telefone e ligou para Tony.
      
      Sentia-se completamente exausta. Fora um longo dia desde a sua partida de Nova Iorque, de manh cedo, at quela altura. As vezes admirava-se de conseguir 
sobreviver.
      
      - Jean disse que me querias falar.
      
      - Sim,  verdade - respondeu ele, parecendo pouco  vontade. - Como est Nova Iorque?
      
      - Bem, como de costume. Vi Mary Stuart Walker, e s por causa dela e de Felicia Davenport mereceu l ter ido. Na entrevista que dei  televiso atiraram-me 
 cara com todas as coisas que aparecem na imprensa a meu respeito. - No era a primeira vez que lhe sucedia isso, j nada a surpreendia, mas continuava a no gostar. 
- E o agente literrio tambm foi uma desiluso e uma perda de tempo. - Mas, enquanto falava, compreendeu que eleja no estava interessado na vida dela. - Isto j 
no te interessa, pois no? Agora s nos resta falar de negcios, no ?
      
      - Nunca falmos de outra coisa, pois no? S dos teus concertos, da tua carreira, da tua msica.
      
      - E assim que vs agora as coisas? Acho que deixaste algo de fora. O que fizemos juntos, as viagens... o carinho plos garotos... - Houvera muito mais na vida 
deles do que a sua carreira. No era justo da parte dele vir dizer-lhe aquilo s para se absolver a si mesmo por a deixar, mas Tanya no queria discutir com ele. 
No fora apenas o trabalho e as presses que tinham feito com que Tony a deixasse. Ele sentira-se humilhado fora com as histrias publicadas constantemente acerca 
dela. Era preciso ter uma pele muito dura para amar uma pessoa metida no mundo do espectculo, e aparentemente ele no a tinha. - A propsito, que disseste aos garotos? 
- perguntou Tanya. Estava preocupada com isso. Quisera telefonar-lhes de Nova Iorque, mas decidira no falar com eles antes de Tony o fazer.
      
      - A me deles encarregou-se disso por mim - respondeu Tony, mostrando-se zangado. - Mostrou-lhes tudo o que tm escrito nos jornais.
      
      - Lamento - murmurou Tanya com genuna humildade. Era doloroso para todos eles, especialmente para as crianas.
      
      - Sim. Eu tambm - concordou Tony sem sinceridade. Parecia mais aliviado do que infeliz. Depois, de repente, mostrou-se embaraado. - Com efeito, Nancy quer 
que eu fale contigo. Com tudo o que tm escrito a nosso respeito, ela acha que no... pensa que os garotos... no quer exp-los de momento ao teu estilo de vida. 
- Disse as ltimas palavras como se as cuspisse.
      
      - O meu estilo de vida? - Tanya ficou completamente assombrada com o comentrio dele. - Que estilo de vida? O que  que mudou desde a semana passada? - Depois 
compreendeu. Nunca lera as histrias que escreviam sobre ela e as afirmaes de Leo a seu respeito dizendo que andava nua pela casa e que lhe fazia assdio sexual. 
- Tony, os teus filhos viveram quase sempre connosco durante os ltimos trs anos. Isso fez-lhes algum mal? Que julga ela que eu vou fazer agora de diferente?
      
      - Eu j no estou a e ela acha que, no estando eu, eles tambm no devem estar. Podem ir visitar-te se eu estiver tambm. - Tony disse as palavras como se 
elas o sufocassem. At ele se sentia incomodado com o que Nancy afirmara. - Ela no quer que eles fiquem contigo.
      
      - Ests a falar em visitarem-me? J chegmos a? - Se estavam a falar de divrcio, onde se encontravam os seus advogados?
      
      - Eventualmente falaremos disso - explicou ele. E falariam tambm de outras coisas, como da casa de Malibu, por exemplo, que Tanya comprara com o dinheiro 
dela, depois de casar com Tony, e da qual ele gostava muito. De resto, era ele o nico que a usava. Ela nunca tinha tempo para l ir. - Nancy est a referir-se agora 
 ida para Wyoming.
      
      Houve um silncio prolongado da parte de Tanya quando comeou a perceber. Nancy no queria que ela levasse os enteados para Wyoming.
      
      - Isso no poder ser negociado? - perguntou Tanya, sentindo-se profundamente desapontada. Ia ser to divertido e ela ansiava por isso h meses! Agora tudo 
corria mal. Tony deixara-a, e os filhos dele ficariam em casa com a me. - E um local fabuloso Tony. Toda a gente o diz e os garotos iam adorar. - Ao princpio ele 
no queria ir. Ningum queria. E ela alugara uma vivenda luxuosa, com trs quartos, por quinze dias. - Que vou fazer agora com a reserva?
      
      - Cancela-a. No te devolvem o dinheiro?
      
      - No. Mas no  essa a questo. Queria fazer algo de especial e de diferente com os garotos.
      
      - Nada posso fazer, Tan - respondeu Tony, mostrando-se novamente embaraado. Tudo aquilo o incomodava. Sabia como ela ansiava por aquelas frias e sentia-se 
mal, sobretudo por a ter deixado. - Nancy diz que no Tan. Fiz o possvel por a convencer. Leva umas amigas. E se fosses com a tua amiga de Nova Iorque, Mary Stuart?
      
      - Muito obrigada pelas sugestes - respondeu Tanya. Sabia que a amiga estava agora preocupada com outras coisas. - O que quero  saber o que se passa. Serei 
autorizada a voltar a v-los? - Queria ouvi-lo da boca dele. No era justo que lhe fizessem tal coisa. E, ao fazer a pergunta, os seus olhos encheram-se de lgrimas.
      - Quem? - Ele tentou mostrar-se vago, mas sabia bem a quem ela se referia. E no era com ele, era com a me.
      
      - Sabes muito bem o que estou a perguntar, que diabo! No brinques comigo! Os garotos. Ser-me- permitido v-los?
      
      - Com certeza... estou certo de que Nancy... - Tanya percebeu que ele estava a fugir  pergunta.
      
      - Quero a verdade. O que  que combinaste com ela? Poderei v-los? - Disse aquilo como se estivesse a falar com um estranho ou com algum de outro planeta. 
Mas ele compreendera claramente, no sabia era como responder sem a fazer ficar furiosa.
      
      - Ters de tratar do assunto com o teu advogado - respondeu Tony vagamente, evitando um confronto.
      
      - Que diabo quer isso dizer? - Tanya gritou com ele, perdendo rapidamente o controlo. Sentia-se subitamente invadida por uma vaga de pnico. Porque  que toda 
a gente podia tirar-lhe tudo? O dinheiro que ela ganhava com tanto trabalho, a sua reputao, e agora at os filhos que ela considerava como seus. - Vais deixar-me 
v-los ou no? - gritou novamente.
      
      - No  comigo Tan. Por mim podias v-los sempre que quisesses. E a me.
      
      - Uma ova  que  a me! Essa cabra no quer saber deles para nada e tu bem o sabes. Foi por isso que a deixaste.
      
      Por isso e por outras coisas mais, como um problema de alcoolismo, uma tendncia para o jogo e o facto de ter dormido com todos os homens que ele conhecia. 
Tivera, mais de uma vez, de ir procur-la e aos filhos a Las Vegas. Mas, apesar disso, os midos eram formidveis e Tanya sabia que fora boa para eles. Queria continuar 
a fazer parte da vida deles e Nancy no tinha o direito de a impedir.
      
      - Fala com o teu advogado. - Trocaram algumas palavras durante mais uns minutos e desligaram. Tanya comeou a andar de um lado para o outro pela casa como 
um leo enjaulado. No podia acreditar no que lhe estava a acontecer. Tony deixara-a, levara os filhos, enganara-a em Palm Springs, pelo que fizera figura de parva 
na imprensa, e agora a mulher dele no a deixava ver os garotos! Mas quando o advogado lhe telefonou, nessa noite, as suas explicaes no foram encorajadoras.
      
      - Existe uma coisa chamada "direitos de padrastos" - informou pacientemente Bennett. Ela odiava cada vez mais o som da voz dele. Era sempre o mesmo. Explicavam 
os direitos que tinham as pessoas normais e os direitos das celebridades. Eram diferentes. E, em determinadas circunstncias, no poderiam ser piores. - Mas tem 
de compreender, Tanya, que no tem sido descrita nos jornais como sendo a Virgem Maria, com o gnero de acusaes que Leo lhe est a fazer. O tipo contou umas histrias 
bastante feias a seu respeito, e eu acho que a ex-mulher de Tony no quer os filhos expostos a esse gnero de comportamentos. Acho que, se fosse depor, meia hora 
depois de ser interrogada plos advogados dele ningum permitiria que levasse os filhos  catedral de So Paulo, quanto mais deix-los permanecer em sua casa ou 
irem passar frias consigo a Wyoming! - Tanya ouviu o advogado com lgrimas nos olhos. Ele no imaginava como a estava a magoar. - Lamento, Tanya. Mas as coisas 
so assim mesmo. Acho que no deve pensar nisso por agora. Pelo menos tem de deixar a poeira assentar sobre o processo.
      
      - Mas em seguida vir outro. E depois? - Tanya assoou-se. Sabia bem como as coisas se passavam.
      
      
      - Outro? - Tinha confundido Bennett. - H outro processo? No sei de nada!
      
      - No, mas tenho a certeza de que aparecer. - O ltimo tinha sido h uma semana.
      
      - No seja cnica - respondeu o advogado, embora soubesse que ela tinha razo. Tanya era um alvo constante. No era de admirar que o marido a tivesse deixado. 
Nesse momento, ela odiava a sua vida tanto como Tony. - De qualquer modo, falemos de Leo - prosseguiu Bennett, ignorando a frustrao dela relativamente aos filhos 
de Tony. Nada podia fazer a esse respeito e no queria discutir no tribunal, certamente em frente das cmaras fotogrficas, se Tanya tinha ou no por hbito andar 
nua pela casa em frente do seu guarda-costas ou se dormia com o treinador. Tinha a certeza de que ela no fizera nenhuma das coisas, mas no conseguia livrar-se 
das difamaes e das vinganas. Ela sabia o que fazia. Era uma mulher adulta.
      
      - No quero falar agora de Leo - respondeu Tanya peremptoriamente. Sentia-se infeliz e exausta.
      
      - Ele est disposto a aceitar quatrocentos e noventa se nos decidirmos j. Francamente, acho que devia aceitar. - O advogado falou muito calmamente, mas Tanya 
deu um salto na cadeira e quase desligou o telefone quando o ouviu.
      
      - Quatrocentos e noventa mil dlares?! - gritou. - Est doido? O tipo inventou a histria toda e ns vamos dar-lhe meio milho de dlares por isso? Porque 
 que ele no entra num filme?
      
      - Porque ningum ouviu falar nele e teria de trabalhar em quatro ou cinco filmes para ganhar isso. Poderia levar um par de anos para tal, se tivesse sorte. 
Processando-a ganha mais e mais depressa.
      
      - Isso mete nojo. Nem posso acreditar. - Mas o pior  que era verdade.
      
      - Se esperarmos, ele pode voltar a pedir o dobro. Posso telefonar para o advogado dele para lhe dizer que concordamos? Quero obrig-los  confidencialidade, 
claro. O advogado disse-me que ele j tinha contactado uma das estaes de televiso para fazer um filme.
      
      - Oh!, meu Deus - gemeu Tanya, fechando os olhos outra vez. Em que espcie de pesadelo vivia ela? No era de admirar que Tony se tivesse ido embora. Quem podia 
viver assim? Ela tambm gostaria de abandonar tudo aquilo, mas era a nica maneira de ganhar a vida que conhecia. - Isto pe-me doente. Mas que vida  esta em que 
eu estou metida? Porque terei comeado nisto e permanecido?
      
      - Quer saber quanto ganhou no ano passado? Talvez isso lhe sirva de conforto...
      
      Mas Tanya abanou a cabea. Aquilo era de mais. Nunca pensara viver atolada naquele gnero de lodo.
      
      - Sabe uma coisa, Bennett? Pensar naquilo que ganho no chega para me consolar. Essa gente brinca com a minha vida. E a meu respeito que dizem mentiras. Transformei-me 
numa coisa, numa caixa registadora, num objecto. - Todos aqueles que queriam extorquir-lhe dinheiro mentiam, difamavam, faziam chantagem sobre ela, e conseguiam 
assim tudo quanto queriam sem que ela se pudesse defender.
      
      Bennett ficara silencioso ao ouvir as palavras dela. Detestava ter de a pressionar, mas sabia que tinha de o fazer.
      
      - Ento que digo ao advogado de Leo, Tan? Tenho de lhe dizer alguma coisa.
      
      Houve um longo silncio e, por fim, Tanya suspirou e falou com voz rouca:
      
      - Est bem. Telefone-lhe e diga-lhe que pagamos... Patife... - Depois, tentando afastar os pensamentos deprimentes que lhe advinham de ter concordado em pagar 
meio milho de dlares a um homem que s contara mentiras sobre ela, fez outra pergunta a Bennett. - E sobre Wyoming? Pode fazer alguma coisa sobre isso?
      
      - Como, por exemplo? Que o compre para si? - Estava a tentar gracejar com ela, para ver se a animava, mas via bem que no estava a resultar e no a censurava 
por isso. Era difcil ser uma celebridade, apesar do que as pessoas diziam. Do lado de fora parecia formidvel, mas por dentro abundavam os dissabores e os desgostos. 
Era impossvel no levar essas coisas a srio. Todos o faziam. Eram pessoas como outras quaisquer.
      
      - Queria que a convencesse a deixar-me levar os garotos comigo. Pelo menos uma semana, se isso servir para a demover - disse Tanya, embora tivesse alugado 
a casa por duas semanas.
      
      - Tentarei, se quiser, mas creio que  intil. E quase certo que aparecer nos jornais a notcia de que Tony a deixou, o que no melhorar nada a sua imagem. 
E, visto estarmos a pedir confidencialidade a Leo, preferia que o assunto no fosse parar aos jornais.
      
      - Obrigada - respondeu Tanya, tentando no se mostrar afectada pelas palavras dele.
      
      - Lamento, Tan - disse o advogado com pena dela.
      
      - Est bem, obrigada. Amanh telefono-lhe - respondeu Tanya, a chorar.
      
      - Eu telefono-lhe. Temos de estudar os contratos para a tourne.
      
      Tanya desligou, sentindo o corao destroado. A vida dela tornara-se um inferno no decorrer dos anos e s de tempos a tempos  que se apercebia disso. Apesar 
da adulao, dos aplausos, dos prmios, do dinheiro que ganhava, aquela vida fazia com que ela aparecesse aos olhos do inundo como uma mulher sem vergonha. O marido 
fugira-lhe e provavelmente no voltaria a ver os enteados, de quem tanto gostava. Era de admirar que em Hollywood algum pudesse andar ainda de cabea erguida.
      
      Ficou sozinha na sua casa de Bel Air, sem dormir, pensando em tudo o que se passara e desejando estar morta, mas demasiado infeliz e assustada para fazer fosse 
o que fosse. Pela primeira vez desde h muitos anos pensou em Ellie e no filho de Mary Stuart, Todd. 0 que eles tinham feito parecia uma fuga fcil, mas no era. 
Era uma coisa totalmente errada e que, no entanto, requeria uma mistura de cobardia e de coragem para se fazer. E ela no tinha nem uma coisa nem outra.
      
      Ficou sentada na sala at ao nascer do Sol, pensando em tudo aquilo, desejando odiar Tony e descobrindo que tambm no era capaz de o fazer. S conseguia ficar 
ali sentada a chorar, durante toda a noite, sem que houvesse algum para a ouvir. Por fim levantou-se e foi para a cama. No fazia ideia do que iria resolver acerca 
de Wyoming, e j nem se importava. Cederia a casa a Jean, que poderia ir para l com os amigos, ou  sua cabeleireira, ou deixaria que Tony fosse com uma amiga. 
Toda a gente tinha uma famlia, filhos e at mesmo uma reputao decente. A ela restava-lhe apenas uma pilha de discos de platina e de ouro, expostos numa parede, 
e por baixo uma poro de prmios enfileirados numa prateleira. Mas, para alm disso, pouco mais tinha. No conseguia imaginar que pudesse voltar a confiar em algum, 
e supunha que nenhum homem poderia aceitar viver no meio de tanto lixo. Dava vontade de rir. Percorrera um longo caminho para chegar ao topo, para acabar por descobrir 
que no havia ali nada que pudesse interessar fosse a quem fosse. Ficou estendida na cama, a meditar sobre tudo isso e a pensar nos filhos de Tony, que provavelmente 
no voltaria a ver, ou que, pelo menos, s veria de passagem, durante alguns minutos. Era como se Tony, os filhos dele e a vida que tinham tido em comum desaparecessem 
no ar, como se nunca tivessem existido. Desaparecidos num jacto de fumo... numa chama gigantesca... uma vida inteira sumida por entre as labaredas ateadas plos 
tablides.



























Captulo 7
      
      Quando acordou, na manh seguinte, Tanya sentia-se como se tivesse sido espancada. Mal conseguira dormir e as notcias que tivera no dia anterior, a respeito 
de Tony, dos garotos, do processo, davam-lhe a sensao de estar a ser perseguida e encurralada. Levantou-se e teve a impresso de estar com uma ressaca, embora 
na vspera nem um copo de vinho tivesse bebido. Olhou-se ao espelho e fez uma careta, dizendo para o seu prprio reflexo:
      
      - Cus, se isto continua assim, vou precisar de fazer outra visita ao cirurgio plstico.
      
      Depois foi para a casa de banho e ps um banho quente a correr. Mergulhou lentamente na gua perfumada e sentiu-se um pouco melhor. Iria cantar numa festa 
de beneficncia e no queria faltar, pois tratava-se de uma causa que achava muito importante. Teria tambm um curto ensaio nessa tarde  ao meio-dia j tinha de 
estar embrenhada nas suas mltiplas obrigaes.
      
      Vestiu o roupo e dirigiu-se para a cozinha, fez caf e, quando se sentou para o tomar, estendeu a mo para o jornal da manh. Pelo menos dessa vez a sua fotografia 
no aparecia na primeira pgina, nem a do seu futuro ex-marido, ou qualquer dos seus empregados, o que j era uma grande coisa. Virou cada pgina hesitantemente, 
como se receasse ver uma tarntula saltar de entre as folhas. Mas a nica coisa que lhe chamou a ateno foi um artigo a respeito de uma mdica de So Francisco 
chamada Zoe Phillips. Tanya leu avidamente a notcia e quando terminou sorria. Zoe era uma das suas antigas companheiras de quarto na universidade. Estava a fazer 
coisas notveis, o que no era de surpreender. Fundara a mais importante clnica para tratamento de sida da cidade e era notvel a angariar fundos. Dava de comer 
a pessoas sem casa e doentes com sida, alojava-os e tratava-os, assim como a parte da populao infectada, mas com maiores recursos. O artigo fazia-a parecer uma 
irm Teresa de So Francisco. E Tanya ficou to comovida com o que leu, que pegou na sua lista telefnica, procurou o nmero e ligou. Havia dois anos que no falava 
com ela, mas mandavam sempre cartes de boas-festas uma  outra. Tanya sabia que era a nica que se mantinha em contacto com Zoe. Mary Stuart perdera-a de vista 
anos antes. Nunca tinham colmatado a fenda que se abrira entre elas desde a morte de Ellie, e Mary Stuart nem sequer gostava que lhe falassem de Zoe. Mas Tanya era 
amiga das duas e quando uma enfermeira atendeu o telefone, perguntou pela Dr. Phillips.
      
      A enfermeira comeou por lhe dizer que a doutora estava a administrar um tratamento e perguntou se queria que lhe desse algum recado.
      
      - Com certeza - respondeu imediatamente Tanya.
      
      - Posso perguntar quem fala?
      
      - Tanya Thomas.
      Houve uma longa pausa. A enfermeira ainda julgou tratar-se de uma coincidncia, mas a mdica tinha jeito para pedir a celebridades que tomassem parte em festas 
de beneficncia a favor da clnica, ou apenas que fizessem algum donativo em dinheiro.
      
      - A Tanya Thomas?
      
      - Acho que sim - respondeu Tanya, rindo. - Fui colega da doutora Phillips na universidade - explicou. Era evidente que Zoe nunca se gabava dessa amizade. Tanya 
s lhe interessava por ser sua amiga h muito tempo.
      
      A enfermeira que a atendeu ficou obviamente impressionada por a mdica e Tanya Thomas terem sido colegas e ofereceu-se para ir saber se a doutora j teria 
acabado o tratamento. Houve outra espera e um momento depois Tanya ouviu uma voz familiar ao telefone. Era uma voz suave e grave, com uma seriedade que se percebia 
mesmo atravs dos fios telefnicos.
      
      - Tan? Es tu? - perguntou lentamente. - As minhas enfermeiras quase iam ficando doidas por saberem que eras tu.
      
      - Pelo que estou a ler no jornal, pareces-me um verdadeiro doutor Salk. Tens estado muito ocupada e esqueceste-te de me mandar um carto de boas-festas no 
Natal. - Quando falava com Zoe, Tanya sentia-se como se fosse outra vez uma garota, tal como sucedia quando falava com Mary Stuart.
      
      - No enviei nenhuns. Estive muito ocupada. Tive um beb.
      
      - Tiveste o qu? Casaste? - Duvidava de que a amiga o tivesse feito. Zoe nunca se interessara pelo casamento. Estava satisfeita com a sua carreira e com uma 
relao mongama, antiga, mas estava mais interessada em alterar o curso da histria da medicina do que em casar. - O que  que me ests a dizer? Juntaste-te ao 
resto da populao burguesa? Que sucedeu?
      
      - No te entusiasmes tanto. Adoptei. No, no casei. No mudei assim tanto. Mas tenho andado verdadeiramente ocupada.
      
      - Que idade tem o beb? - Era to encantador pensar num beb, e ao mesmo tempo no esperava isso de Zoe. Tanya nunca a considerara muito maternal. A julgar 
pelo que Zoe dissera, resolvera adoptar uma criana aos quarenta e trs anos. Quisera experimentar a maternidade antes de ser demasiado tarde, mas era interessante 
no ter preferido ficar grvida.
      
      - Tem quase dois anos. Pode-se dizer que "aconteceu" na minha vida. A me dela era minha doente, embora felizmente no tivesse sida, mas era indigente. No 
quis ficar com a Jade, por isso eu adoptei-a. E coreana. E tem sido perfeito. Eu nunca teria tido tempo para ficar grvida.
      
      E nunca estivera envolvida com ningum a quem desejasse ficar permanentemente ligada. Pelo menos nos ltimos anos. Dedicava-se de alma e corao ao seu trabalho 
e seria capaz de tudo para ajudar os seus doentes.
      
      - Quando  que a verei? - perguntou melancolicamente Tanya, pensando na amiga e na pequenita coreana que ela adoptara. Jade. Gostava do nome. E era parecido 
com Zoe.
      
      - Vou mandar-te uma fotografia - prometeu Zoe, ao mesmo tempo que fazia sinais a uma enfermeira que a esperava  porta. Apontou para o relgio e ergueu cinco 
dedos. Queria mais cinco minutos para falar com Tanya. Tinha mais de quarenta doentes  sua espera na sala, alguns demasiado doentes para ali se encontrarem. Era 
uma histria familiar para Zoe, mas podia tirar pelo menos cinco minutos para falar dos velhos tempos.
      
      - E se fizesses melhor do que enviar-me uma fotografia? Porque no vens passar uns dias de frias comigo a Wyoming? - Tanya sentira o impulso de a convidar 
naquele momento. Se Zoe fosse com ela, com Jade e Mary Stuart tambm? Mas sabia que era um disparate. Mary Stuart ia para a Europa com a filha. - Foi uma ideia que 
me ocorreu - explicou. - Aluguei uma bela casa num rancho de turismo, em Julho, e no tenho ningum para ir comigo.
      
      A sua voz denotava cansao e tristeza, e Zoe apercebeu-se de que algo no corria bem com Tanya. Se assim fosse, tinha pena.
      
      - E o teu marido? - perguntou.
      
      - Isso prova o que eu sempre pensei a teu respeito. No compras mercearias e no ls os jornais.
      
      Zoe fora sempre muito magra e fazia inveja  maior parte das mulheres que a conheciam, mas riu do comentrio de Tanya.
      
      - Tens razo. Nunca tenho tempo para comer e no seria capaz de ler esse lixo, mesmo que me pagassem.
      
      - Fazes bem. De qualquer modo, vou responder  tua pergunta. Tony foi-se embora esta semana. E agora a ex-mulher dele no me deixa ver os filhos, porque me 
esto a mover um processo por assdio sexual. Um antigo guarda-costas alega que eu tentei seduzi-lo. Na verdade,  tudo de tal modo nojento que no vale a pena tentar 
explicar esta trapalhada toda a um ser humano racional. No te preocupes em imaginar o que se passa. Eu no consigo faz-lo e vivo aqui. - Mas o que Zoe ouviu, mais 
do que as palavras, foi a tristeza na voz da amiga. Estava genuinamente infeliz com o estado da sua vida nessa altura.
      
      - Isso parece-me terrvel. Mas Wyoming deve ser formidvel. Quem me dera poder ir contigo!
      
      A enfermeira estava outra vez  porta a fazer-lhe sinais, mas Zoe no queria interromper Tanya, que precisava de algum com quem falar. Por isso fez sinal 
 enfermeira para mais cinco minutos e ela afastou-se com uma expresso de desespero.
      
      - No achas que poders ir Zoe? Talvez s para um fim-de-semana...
      
      - Quem me dera poder! No tenho ningum a trabalhar aqui comigo neste momento. Precisaria de ter quem me substitusse, e alguns dos meus pacientes esto to 
doentes que me querem sempre aqui.
      
      - Nunca tens uns dias de descanso? - perguntou Tanya, com espanto. No que ela tivesse tambm muito descanso, mas, mesmo assim, o que ela fazia no era to 
rigoroso como tratar de doentes a morrer.
      - Raramente - confessou Zoe. - E a verdade  que  melhor eu voltar agora ao trabalho. Caso contrrio ainda partem a porta do meu gabinete para me lincharem. 
Qualquer dia telefono-te. E no deixes que esses idiotas te atirem abaixo, Tan. So pessoas inferiores e no merecem que te preocupes por causa delas.
      
      - Estou sempre a tentar lembrar-me disso, mas, de qualquer maneira, acabo por ficar magoada. De certo modo, eles vencem sempre, pelo menos aqui, ou nesta profisso.
      
      - Tu no mereces isso - disse Zoe com a sua voz meiga, e Tanya sorriu pela primeira vez nessa manh.
      
      - Obrigada. Oh!, a propsito, estive h dias com Mary Stuart.
      
      - Como est ela? - Zoe mostrou-se tensa ao perguntar por Mary, mas isso j era habitual e Tanya nunca ligara a tal coisa. Continuara sempre a dar-lhes notcias 
uma da outra e ainda tinha esperana de vir a junt-las de novo, como antigamente.
      
      - Ela est bem... mais ou menos. O filho morreu o ano passado. Creio que nenhum deles se recomps ainda do que sucedeu e as coisas ainda esto um pouco tremidas.
      
      - Diz-lhe que lamento muito. De que morreu ele? De acidente?
      
      - Creio que sim - respondeu vagamente, no querendo dizer que se tratava de suicdio. Sabia que Mary Stuart no gostava de dizer que o filho se suicidara. 
- Estava em Princeton. Tinha vinte anos.
      
      - Que pena! - Lidava constantemente com a morte, mas nunca se tornara indiferente a ela. Era uma derrota que ainda detestava e sabia que nunca aceitaria de 
bom grado. De cada vez que perdia um doente sentia-se ludibriada.
      
      - Sei que tens muito que fazer... mas pensa em Wyoming, se puderes. Seria divertido, no achas? - Era um sonho louco, mas agradava a Tanya e Zoe sorriu. Para 
ela nem sequer era um sonho. Havia onze anos que no tinha uns dias de frias. - Telefona-me quando puderes. - A voz de Tanya era triste e Zoe desejou poder estar 
junto dela e abra-la. Era estranho pensar que uma pessoa com tanto sucesso na vida pudesse sentir-se to s e vulnervel. As pessoas que no a conheciam no poderiam 
acreditar nos dissabores que ela e os artistas como ela sofriam e o preo que era preciso pagar pela fama.
      
      - Vou mandar-te fotografias de Jade, prometo! - disse, antes de desligar. Assim que o fez aproximaram-se trs enfermeiras a queixar-se da multido que se acumulava 
na sala de espera, mas a enfermeira que recebera a chamada olhou-a com assombro.
      
      - Nem podia acreditar que fosse realmente Tanya Thomas. Como  ela? - Toda a gente perguntava isso, embora fosse uma pergunta tola.
      
      - E uma das pessoas mais simpticas que conheo - respondeu Zoe. - Uma das mais decentes. Trabalha imenso e tem tanto talento que nem sequer se apercebe disso. 
Merece melhor sorte do que a que tem tido na vida. Talvez ainda a venha a ter... - acrescentou, enquanto seguia as enfermeiras at ao consultrio. Mas a enfermeira 
que atendera o telefonema no podia compreender o que Zoe estava a dizer.
      
      - Ela tem ganho Grammys, prmios da Academia, discos de platina, discos de ouro, dizem que ganha dez milhes de dlares por uma srie de concertos e um milho 
de dlares num s concerto. Que mais pode querer?
      
      - Muitas coisas, Annalee, acredite. Voc e eu temos mais do que ela. - Era comovente pensar que Tanya tinha de telefonar a uma amiga dos seus tempos de universidade 
para arranjar algum para ir de frias com ela. Pelo menos ela tinha o seu beb.
      
      - No compreendo - replicou a enfermeira, abanando a cabea, enquanto Zoe entrava na sala de tratamentos. Entretanto, em Los Angeles, Tanya olhava para a fotografia 
de Zoe no jornal. Depois, lembrou-se de ligar para Mary Stuart.
      
      - Adivinha com quem acabei de falar h cinco minutos? - perguntou Tanya.
      
      - Com o presidente - respondeu Mary Stuart, gracejando, contente por ouvir a voz da amiga.
      
      - No. Com Zoe. Ela dirige uma clnica para tratar doentes com sida em So Francisco. Li um longo artigo publicado no Los Angeles Times sobre ela. Adoptou 
uma menina. E coreana, tem quase dois anos e chama-se Jade.
      
      - Isso  bom - disse Mary Stuart, tentando sentir-se generosa para com a antiga amiga, mas, mesmo depois de decorridos vinte anos, algumas das suas antigas 
feridas ainda doam. - Sinto-me feliz por ela - acrescentou com sinceridade. - E to tpico dela, no ? Refiro-me a ter adoptado uma criana asitica. Tornou-se 
realmente a pessoa que se esperava que viesse a ser. E a clnica para doentes com sida tambm no me surpreende. Ela casou?
      
      - No. Acho que  mais esperta do que ns. Bill j partiu para Londres?
      
      - Ontem. - Ficou calada de repente, ao pensar no que estivera a fazer nessa noite. Sabia que Tanya acharia que ela fizera o que era correcto, embora isso tivesse 
sido muito doloroso. - Esta noite desfiz-me das coisas de Todd e desmanchei o quarto dele. Creio que j o devia ter feito h uni ano, mas no me sentia preparada 
para o fazer antes.
      
      - Ningum deve fazer o que no pode - disse meigamente Tanya. - Fazemos o que podemos para ir sobrevivendo aqui. - Depois contou a Mary Stuart que Nancy no 
a deixava levar os filhos para Wyoming. Estava muito desapontada e Mary apercebeu-se disso. Sabia o que os filhos de Tony significavam para ela. De certo modo, tinham 
sido a melhor parte do seu casamento.
      
      - Que grande maldade - disse, com pena.
      
      - No ? E acabei por concordar em dar meio milho de dlares quele chantagista que foi contar mentiras aos jornais.
      
      - Oh!, isso  terrvel. Porqu uma to grande quantia?
      
      - Porque toda a gente tem medo. Os meus advogados tm um medo terrvel dos jris. Acham que nunca poderiam ganhar num tribunal com jurados. A parte contrria 
faria com que eu fosse vista como um monstro a nadar em dinheiro. No h maneira de os fazer retratar uma celebridade como sendo honesta e decente. Para eles "celebridade" 
equivale a "pouco decente", ou, pelo menos, algum que merece que lhe sejam extorquidas grandes quantias a favor de outros menos afortunados, menos honestos ou extremamente 
preguiosos. Deviam pr estes significados no dicionrio - concluiu Tanya, mastigando um pedao de tosta. Mary Stuart sorriu. 
      
      Tanya estava triste, mas no to destroada como seria suposto, tendo em conta tudo o que lhe sucedera. Podia meter-se na cama a chorar, com a cabea tapada, 
mas no o fazia. Sempre fora muito corajosa e Mary Stuart admirava-a por isso. Fosse o que fosse que a vida lhe fizesse, levantava-se de novo, arranhada, ferida, 
abalada, mas voltava a sorrir e a cantar. - Tiveste notcias de Bill? - quis saber Tanya, pois lembrara-se do que a amiga lhe dissera sobre a partida do marido. 
Achava, de facto, estranho que ele no quisesse que a mulher o acompanhasse a Londres. E pelo que Mary Stuart dissera no lhe parecia que ele a enganasse com outra 
mulher. Muito simplesmente no a queria junto dele.
      
      - Ainda no. Quem me telefonou ontem foi a Alyssa. A nossa viagem foi cancelada.
      
      - Foi? - exclamou Tanya, admirada. - Que sucedeu?
      
      - Teve uma proposta melhor. H um rapaz metido no caso. - Mary Stuart sorria, mas a sua voz no conseguia ocultar o desapontamento. - Na idade dela no h 
nada que consiga sobrepor-se a isso.
      
      - Na minha tambm no! - exclamou Tanya, com uma gargalhada. - E tu, que vais fazer agora?
      
      - Olha, nem sei. Estou a tentar imaginar o que hei-de fazer nos prximos dois meses. Bill falou comigo antes de ir para Londres e continua decidido a no querer 
que eu v ter com ele. Acha que eu o "distrairia". Para te dizer a verdade, pensei em ir visitar-te durante uns dias, se tiveres tempo. Posso ficar num hotel. Nova 
Iorque  detestvel em Julho e Agosto e este ano no alugmos casa para passar o Vero, porque sabamos que Bill iria para Londres.
      
      - Que dizes a ires comigo para Wyoming? - O rosto de Tanya iluminou-se com a ideia. Pelo menos poderia realizar metade do seu sonho. Embora Zoe no pudesse 
ir, Mary Stuart podia. Iriam as duas para Wyoming, brincar s cowgirls. - Queres ir comigo? Aluguei uma casa por duas semanas num grande rancho. Parece que  muitssimo 
luxuoso, ao estilo do Oeste, e eu no posso suportar a ideia de ir sozinha. A reserva est feita e no posso voltar atrs. Ia ceder a casa  minha secretria ou 
a qualquer outra pessoa que trabalhe comigo.
      
      Mary Stuart ficou um bocado pensativa e por fim respondeu:
      
      - Parece-me uma boa ideia. No tenho mais nada que fazer. No sei se ainda saberei montar a cavalo, embora esteja bem almofadada...
      
      - No me venhas com isso, tens menos uns cinco quilos do que devias ter. Mas quem se importar se no montarmos? Quem o saber? Poderemos ficar a olhar para 
as montanhas, ou sentadas a beber caf, ou champanhe, ou a caar garotos.
      
      - Bonito! Depois aparecamos na imprensa. No vou para lado nenhum contigo se estragares a minha reputao! - exclamou Mary Stuart, rindo. Agradava-lhe a ideia 
de ir para um rancho com Tanya. Anteriormente, quando Tanya falara no caso, nem sequer pensara nisso, porque sabia que ia para a Europa ao encontro de Alyssa, enquanto 
a amiga iria para Wyoming com os filhos de Tony.
      
      - Prometo portar-me bem. Vem comigo. Adorava que fosses, Stu! - exclamou Tanya com uma expresso radiante.
      
      Mary Stuart sorriu quando ouviu o nome que as amigas costumavam chamar-lhe na universidade.
      
      - Est bem. Quando partimos? - Tinha todo o Vero  sua frente.
      
      
      - Logo a seguir ao Quatro de Julho. Compra umas botas. Eu ainda tenho umas.
      
      - Vou hoje mesmo fazer compras. Como  que vou l ter? - Tinha de repente muito que fazer: botas para comprar, preparativos para a viagem. Sentiu-se de sbito 
como uma colegial, e a ideia de passar duas semanas com Tanya encantava-a. Era exactamente do que estava a precisar.
      - Porque no vens ter comigo a Los Angeles, para irmos as duas na minha carrinha? Chegaremos l em dois dias. No caminho podemos dormir, comer, ler, ver filmes, 
o que quiseres. O meu motorista nem sequer fala comigo. Podemos fazer tudo o que quisermos at chegarmos a Jackson Hole. - Tanya tinha um verdadeiro autocarro de 
estrela rock, com duas grandes salas, cozinha, casa de banho em mrmore. Uma verdadeira casa ambulante.
      
      - E isso mesmo. Vou ter contigo.
      
      - Irei esperar-te ao aeroporto.
      
      Tanya indicou-lhe as datas e Mary Stuart anotou tudo cuidadosamente. No era de modo algum o que esperara fazer, mas, de repente, percebeu que se tratava de 
um bilhete para a liberdade.
      
      Logo que desligou, enviou um fax a Bill, dizendo-lhe que Alyssa cancelara a viagem e que no iriam a Londres. Em vez disso, ela e Tanya Thomas iriam passar 
duas semanas a Wyoming. Prometia dar-lhe detalhes quando os tivesse. Disse tambm que esperava que estivesse tudo a correr bem e que se encontrassem bem instalados 
no hotel. Acrescentou que partiria para Los Angeles na semana seguinte, depois do 4 de Julho, e que quando l chegasse lhe enviaria outro fax. Assinou, enviando-lhe 
um beijo, mas dessa vez no disse que sentia a falta dele.
      
      Depois de enviar o fax a Bill, saiu para ir comprar botas de montar ao Billy Martin's. Na Califrnia, Tanya andava aos saltinhos pela cozinha, como uma criana, 
pensando na viagem. Ela e Mary Stuart iriam ter umas frias em cheio. Esteve todo o dia bem-disposta a pensar nisso, e nessa noite, na festa de beneficncia, apareceu 
deslumbrante, com um vestido preto com lantejoulas que moldava a sua figura extraordinria, e toda a gente achou que nunca actuara melhor.
      
      - Foi fantstica - sussurrou Jean ao seu ouvido quando Tanya saiu do palco, cansada, mas satisfeita. Fora uma grande noite e a multido adorava-a. Gritavam: 
"Es a melhor!" Foi chamada ao palco inmeras vezes, cantou encores e as pessoas rodearam-na de todos os lados. Os admiradores atiraram-lhe flores e at se viram 
algumas peas de roupa lanadas pelo ar. Enquanto a Polcia a protegia para poder passar por entre a multido dos seus fs, Tanya pensava na loucura que era a sua 
vida, as loucas dicotomias de que a celebridade se compunha. Era amada por uns e odiada por outros.

























Captulo 8
      
      O resto do dia de Zoe, depois de Tanya lhe ter falado, passou-se como de costume. Decorreu rapidamente, enquanto ela ia de doente para doente. A maior parte 
deles era composta de homens homossexuais, mas nos ltimos tempos via um nmero crescente de mulheres e heterossexuais, que tinham contrado a doena sexualmente, 
ou por meio das agulhas com que injectavam as drogas, ou ainda que tinham apanhado a doena devido a transfuses. Mas os casos que ela mais detestava, e eram muitos, 
eram os de crianas. Parecia-lhe que estava a trabalhar num pas subdesenvolvido. No os podia curar e apenas lhes podia oferecer um pequeno alvio. Por vezes era 
apenas um gesto, um toque nas mos, uma ddiva de tempo, um instante  cabeceira da cama antes de morrerem. Passava inmeras horas a visitar os seus doentes. Era 
incansvel e sempre o fora desde h anos, desde o aparecimento dos primeiros casos, no incio da dcada de 80. Desde ento a sida tornara-se a sua obsesso, a sua 
nmesis e a sua paixo.
      
      Ao fim de cada dia estava completamente esgotada tanto da sua energia como da emoo. O nico ser humano que a podia fazer esquecer um pouco tudo aquilo era 
a filha. Tentava passar todo o tempo possvel com ela, e s vezes ia almoar a casa s para estar com a criana. Inicialmente levava-a consigo para a clnica e deixava-a 
no seu gabinete, dentro da alcofa. Mas logo que Jade comeara a andar isso tornara-se impossvel. Nesse dia, preparava-se para ir para casa ter com a filha, quando 
Sam Warner, o nico mdico que a podia substituir ali naquela altura, apareceu para se inteirar de como estavam as coisas. Era um bom mdico e uma excelente pessoa. 
Zoe conhecia-o h anos e tinham sido bons amigos na Faculdade de Medicina, em Stanford. Haviam sido inseparveis durante uns tempos, e quando eram novos Zoe achara 
que ele tinha uma paixo por ela, mas estivera sempre to obcecada pelo seu trabalho que no dera mostras de o perceber e ele tambm nada fizera para lhe chamar 
a ateno para isso. Fora depois trabalhar para Chicago e tinham estado muito tempo sem se ver, o tempo bastante para que ele se casasse e divorciasse. Quando ele 
regressou  Califrnia encontraram-se casualmente e retomaram a sua antiga amizade. Mas agora nada mais era do que isso. Eram amigos e ele gostava de trabalhar na 
clnica.
      
      - Como vo as coisas por aqui? - perguntou ele, metendo a cabea pela abertura da porta. - H semanas que no tenho notcias tuas. - Sam Warner tinha o aspecto 
de um enorme e simptico urso de pelcia. Era alto, de ombros largos, tinha cabelo castanho um pouco desgrenhado e grandes olhos castanhos. O seu ar bondoso fazia 
esquecer o aspecto um tanto desalinhado. Zoe sabia que ele era ptimo para com os seus doentes. Sabia lidar com pessoas de todas as idades e era o nico mdico que 
ali ia substitu-la em quem ela confiava. - Nunca tiras um dia para descansar? - perguntou Sam com uma expresso preocupada. A especialidade dele era fazer locum 
tenens para vrios mdicos. Isso significava que no tinha um consultrio particular e trabalhava a tempo inteiro na substituio de vrios colegas. Gostava especialmente 
de trabalhar na clnica de Zoe. Ela era uma grande organizadora, uma grande mdica e trabalhava num campo quase impossvel nesse momento.
      
      - Tento nunca tirar um dia de folga - afirmou Zoe em resposta  pergunta dele. - Os meus doentes no gostam. - Embora todos apreciassem Sam, ela sentia-se 
na obrigao de nunca os abandonar. Trabalhava afincadamente na clnica e. fazia visitas domicilirias, muitas vezes aos domingos. Sam sabia bem isso.
      
      - Precisas de ter algum tempo livre - disse ele, enquanto Zoe despia a bata e a atirava para a roupa suja. - E bom para ti, e alm disso... - sorriu - o dinheiro 
faz-me falta.
      
      - Creio que ainda te devo o da ltima vez, Sam. Tenho uma nova guarda-livros e at agora tem sido um verdadeiro desastre.
      
      Zoe sorriu-lhe. Ele era sempre incrivelmente paciente com os pagamentos. Soubera, enquanto andavam na faculdade, que pertencia a uma famlia rica, do Leste, 
e que tinha rendimentos, mas nunca se referia a isso e nada nele revelava ostentao. Conduzia um carro velho, usava roupas simples, sobretudo calas de ganga e 
camisas prticas, e calava quase sempre umas botas de que obviamente gostava e que pareciam ter sido usadas por mil cowboys.
      
      - Algo de novo por aqui? - perguntou. Gostava de estar a par do que se passava na clnica, para no ser apanhado desprevenido quando ficava a substitu-la. 
E ela s o fazia quando estava doente ou tinha algum evento especial onde ir. Mas ultimamente isso sucedera raras vezes. Zoe chegava  noite extenuada e durante 
o dia estava sempre muito ocupada. Preferia ficar em casa com o seu beb do que sair. Contudo, quando saa, o que fazia ocasionalmente, levava o seu beeper para 
poder ser contactada. Por diversas vezes sara a meio de uma pea ou deixara um jantar mesmo antes de ter comeado. No era, de facto, uma pessoa interessante para 
se ter como companhia, mas no deixava de ser uma excelente mdica.
      
      - Nada de muito diferente. - Zoe foi-o pondo a par da situao enquanto mudava de sapatos. - Temos bastantes crianas pequenas, de momento. - Haviam apanhado 
sida durante a gestao.
      
      - Depois de sares vou fazer a ronda. - Zoe no se importava que ele visse as fichas dos doentes. No tinha segredos para Sam. - D um beijo  Jade por mini.
      
      - Obrigada.
      
      Zoe sorriu e olhou rapidamente para o relgio. Era uma dessas raras noites em que ia sair com algum e j estava atrasada. Eram seis horas e quarenta e cinco 
minutos e ela combinara encontrar-se com o Dr. Richard Franklin s sete e meia. Ele era um conhecido cirurgio de oncologia e tinham-se conhecido dois anos antes, 
durante uma conveno mdica. Zoe ficara intrigada com a rivalidade natural dos seus dois campos de trabalho. Ele mostrara-se irritado com as atenes que a imprensa 
dedicava ao problema da sida, citando o facto de morrer muito mais gente com cancro da mama do que com sida e afirmando que os fundos deviam ser destinados, sobretudo 
 pesquisa da cura do cancro. Isso provocara uma viva discusso entre ambos e servira de base a uma interessante amizade. Durante os ltimos dois anos sara vrias 
vezes com ele, especialmente nos ltimos meses. 
      
      Era um homem brilhante e Zoe gostava da sua companhia, e algumas vezes mesmo mais do que isso, mas Richard Franklin no era um homem por quem se apaixonasse. 
Existiram outros homens na sua vida que tinham significado bastante para ela, mas nunca por muito tempo. O ltimo homem a quem amara realmente morrera dez anos antes 
com sida apanhada devido a uma transfuso e Zoe fundara a sua clnica por ele lhe ter deixado todo o seu dinheiro. Houve mais um ou dois especiais na sua vida depois 
disso, mas nenhum que a fizesse desejar casar. E tambm no pensava casar com Richard Franklin.
      
      Foi para casa na sua velha carrinha Volkswagen. Comprara-a quando adoptara Jade e utilizava-a muitas vezes para transportar doentes e, eventualmente, pensava 
us-la para entrar em concursos de carros. E utilizava-a agora para chegar a casa o mais rapidamente possvel. Comprara uma casa encantadora em Edgewood, perto do 
hospital de oncologia, prximo da floresta. Dava passeios pela floresta com Jade e a vista que se desfrutava da sua sala era espectacular. Via claramente Golden 
Gate e Marin Headlands. Logo que abriu a porta, ouviu o grito de excitao de Jade:
      
      - Mam! Mam! - Zoe ergueu a filha nos braos e apertou-a contra si, acariciando-a, enquanto Jade agitava os braos e lhe contava uma histria sobre um co, 
um coelho, uvas e uns meninos. A conversa no era muito inteligvel, mas Zoe sabia exactamente o que ela queria dizer. - oleio. oleio, mam! - repetia, batendo as 
palmas. Zoe percebeu imediatamente que ela vira tudo aquilo em casa dos vizinhos.
      
      - Eu sei, talvez tambm te compre um.
      
      Zoe sentou ento Jade na sua cadeirinha e provou uma colher do jantar dela. Era hambrguer e arroz, preparado pela rapariga dinamarquesa, que tomava conta 
dela. No era fabuloso, mas saudvel, e Jade mostrou-lhe a cenoura crua que estava a roer. Depois Zoe subiu rapidamente para o seu quarto. Queria mudar de roupa 
o mais depressa possvel, para ter ainda alguns minutos para brincar com Jade antes de sair com Dick Franklin. Era por essa razo que ela no gostava de sair  noite. 
Ficava sem tempo nenhum para estar com a filha. Mas as suas sadas eram raras, assim como as folgas.
      
      Desceu as escadas vinte minutos mais tarde, envergando uma saia de veludo preto, comprida, e uma blusa de seda branca. Escovara bem o seu cabelo ruivo e entranara-o 
de novo. Usava-o preso numa trana que lhe caa pelas costas, tal como na universidade.
      
      - Mam, mam - disse a pequenita, batendo palmas outra vez, e Zoe sorriu, sentando-a no seu colo. Sentia-se incrivelmente cansada.
      
      - Ento como est a minha menina hoje? - perguntou, enquanto a criana se aninhava contra ela e Zoe sorria, apertando-a contra si. A vida era aquilo, no era 
a excitao, as festas, nem mesmo o dinheiro ou o sucesso, e no eram certamente as coisas de que Tanya lhe falara. O que era importante na vida, pelo menos para 
Zoe, era a sade e as crianas, e ela nunca deixava de pensar na sua importncia. Tambm no se podia esquecer. Isso era-lhe recordado diariamente.
      
      Zoe e Jade brincaram durante algum tempo com grandes blocos Lego cor-de-rosa, e pouco depois a campainha tocou. Era Richard Franklin. Vinha muito elegante 
e fresco, com umas calas cinzentas e um blazer, mas Zoe reparou que ele trazia uma gravata cara e, como de costume, parecia ter acabado de cortar o cabelo. O Dr. 
Franklin andava sempre impecvel, como se esperasse a todo o momento ter de fazer uma conferncia na presena de importantes personalidades. Conhecia perfeitamente 
a sua especialidade e era impossvel no admirar os seus conhecimentos, embora no se tivesse a mesma admirao pela sua maneira de ser. Ele e Zoe eram muito diferentes, 
mas, de certo modo, sentiam-se fascinados um pelo outro.
      
      - Como est, doutor Franklin? - perguntou Zoe quando ele entrou. Continuava ainda sentada no cho a brincar com a filha.
      
      - Estou impressionado - respondeu ele com um ar simptico, mas extremamente altivo. Zoe sempre o achara arrogante e suspeitava de que o que a atraa nele era 
o desejo de o domar. Mas at ao momento conseguira controlar esse desejo. - Faz isso muitas vezes? - Indicava o jogo que ela fazia com Jade, construindo uma grande 
casa cor-de-rosa com os blocos Lego, que Jade atirava rapidamente abaixo.
      
      - Tantas quanto me  possvel - respondeu honestamente Zoe, sabendo bem que isso o fazia sentir-se desconfortvel. H muito tempo que lhe confessara que no 
tinha jeito para crianas. Nunca tivera filhos e, como ela, nunca casara. Afirmava que nunca se apresentara uma oportunidade para o fazer na altura certa, mas Zoe 
percebia que ele era muito egocntrico. - Quer jogar? - perguntou, em tom de brincadeira. Com efeito, nunca o imaginara sentado ou de joelhos no cho a brincar com 
uma criana. Poderia despentear-se ou amarrotar as calas. Zoe sabia que os colegas o achavam "empertigado", e de certo modo era-o, mas era tambm incrivelmente 
inteligente e, alm disso, extremamente atraente, apesar dos seus cinquenta e cinco anos. Superficialmente parecia o tipo de homem com o qual a sua famlia gostaria 
que ela casasse, mas os pais haviam morrido h anos, e ela prpria considerava extico s o facto de sair com ele.
      
      - Est pronta? - perguntou Franklin, que no se mostrava particularmente interessado em estar a v-la brincar com Jade. Em menos de um minuto j se sentia 
farto. A reserva no Boulevard era para as oito horas e ficava a uma distncia considervel de Edgewood. Tratava-se de um restaurante to popular que no guardavam 
as mesas, mesmo para personalidades importantes.
      
      - Estou pronta - respondeu Zoe, vestindo um casaquinho de veludo. Mesmo em Junho as noites eram frescas em So Francisco. Depois pegou em Jade e beijou-a.
      
      - Gosto muito de ti, ratinha - disse, esfregando o nariz no dela e dando-lhe em seguida um beijo de borboleta, roando as pestanas pela cara da criana, o 
que a fez rir de satisfao. - At logo. - Ao ouvir essas palavras, o lbio inferior de Jade comeou a tremer e Zoe percebeu que ela ia chorar. Passou-a rapidamente 
para os braos da jovem escandinava, que comeou a girar com ela, para a distrair, e saiu rapidamente. No ltimo ano Zoe tornara-se mestre em sadas rpidas.
      
      - Faz isto muito bem - disse Franklin com admirao. Era invulgar para ele sair com mulheres que tivessem filhos pequenos. Preferia mulheres que estivessem 
to envolvidas nas suas carreiras que no pensassem em casar e em ter filhos, o que era exactamente o retrato de Zoe quando ele a conhecera. Depois ela surpreendera-o 
adoptando uma criana. No era de modo algum o que esperava dela e, de certo modo, alterara o seu relacionamento, mas continuava a ach-la terrivelmente atraente 
e gostaria de passar muito mais tempo com ela. Mas Zoe estava ocupada com os seus doentes e agora tambm com a criana, e ele tinha de se limitar a aceitar as migalhas 
da sua mesa. - H duas semanas que no a vejo - queixou-se ele quando entravam no seu Jaguar verde-escuro.
      
      - Tenho estado muito ocupada - respondeu simplesmente Zoe. - Tenho muitos doentes de extrema gravidade. - Ultimamente haviam morrido vrios, o que era muito 
deprimente para ela, pois no conseguia deixar de viver a tragdia deles, principalmente para o fim, sempre comovedor e pattico.
      
      - Tambm tenho doentes muito graves - replicou Franklin, ligeiramente irritado, quando se dirigiam para o centro atravs de Haigh.
      
      - Sim, mas voc tem scios.
      
      - Sim. E voc devia pensar em fazer o mesmo. Nem sei como consegue trabalhar desse modo. Ainda acaba por ficar doente, com hepatite, ou pior ainda, poder 
apanhar sida, contaminada por algum dos seus doentes.
      
      - Uma ideia muito agradvel - retorquiu Zoe, olhando para fora, atravs do vidro.
      
      - Sucede - afirmou ele com ar srio. - Devia pensar no que anda a fazer Zoe. No h necessidade de ser uma herona ou uma mrtir.
      
      - Tenho pensado nisso, mas s fao a minha obrigao. Os doentes precisam de mim.
      
      - Tambm a sua filha. E no s. Devia ter mais tempo livre. - Era a segunda pessoa a dizer-lhe o mesmo nessa noite e Zoe fitou-o, para perceber que razo o 
levara a afirmar aquilo. Ele no era habitualmente to solcito nem to cuidadoso. - Tem um ar cansado, Zoe - afirmou o mdico. Depois sorriu e deu-lhe uma palmadinha 
na mo. - Um bom jantar num restaurante vai fazer-lhe bem. Provavelmente nem come.
      
      Zoe nem conseguia lembrar-se se tomara o pequeno-almoo ou se almoara nesse dia. Quando chegava  clnica embrenhava-se no trabalho e no pensava em mais 
nada. E era todos os dias assim. Mas quando chegaram ao restaurante sentiu-se inclinada a concordar com ele. A sala era to bonita e to bem iluminada, a mesa to 
convidativa, que ela lamentou no ir ali mais vezes. Franklin pediu vinho para os dois e decidiram comer a meias um prato de cordeiro e pediram souffle para a sobremesa. 
Era realmente muito diferente dos restos dos hambrgueres que Jade deixava e da piza ria que tinha no frigorfico da clnica.
      
      - Isto  encantador - murmurou Zoe, com ar satisfeito.
      
      - Tenho sentido a sua falta - disse ele, estendendo a mo para a dela. Mas Zoe no estava com disposio para romances e havia qualquer coisa na arrogncia 
dele que nunca deixara que se apaixonasse por ele, embora o achasse muito atraente. E nessa noite, apesar da luz das velas e do vinho, Zoe sentia-se inclinada a 
manter a distncia.
      
      - Tenho estado ocupada - respondeu, explicando assim as duas semanas de ausncia.
      
      - Demasiado. Que diz a irmos passar um fim-de-semana a qualquer stio? Aluguei uma casa em Stinson Beach para Julho e Agosto. Que diz a ir passar l um fim-de-semana?
      
      - Com Jade? - perguntou Zoe, sorrindo. Conhecia-o melhor do que ele julgava. Ele hesitou e por fim disse que sim com a cabea.
      
      - Se preferir. Mas podia ser bom para si ir sem ela.
      
      - Sentiria a falta dela - disse Zoe, rindo. - Creio que seria uma convidada indesejvel. Ando to cansada que provavelmente iria dormir todo o fim-de-semana.
      
      - Posso pensar numa maneira de a despertar - replicou Franklin com um ar imensamente sensual, erguendo o copo para ela e bebendo um gole de vinho.
      - Acredito que sim, doutor Franklin. - Zoe sorriu de novo e o jantar decorreu animadamente. Falaram do hospital onde ambos trabalhavam, das polticas prprias 
dos hospitais-escolas e de vrios rumores intrigantes. Ambos falaram das suas especialidades e Franklin explicou-lhe uma tcnica que aperfeioara e que vinha j 
nos livros de estudo. Ele era bom no que fazia e no se mostrava especialmente modesto, mas Zoe no se importava. A conversa era fascinante e Zoe gostava de falar 
sobre medicina com ele. Quando dizia o mesmo a Sam, ele respondia-lhe que ela s pensava numa coisa e que no gostava de jantar com mdicas que s sabiam falar do 
seu trabalho e que discutiam transplantes do fgado enquanto comiam massa. Achava que ela devia expandir os seus horizontes e no suportava o Dr. Franklin. Achava-o 
pomposo.
      
      Depois do souffle, ambos tomaram caf. Nessa altura eram quase onze horas e, embora Zoe no o quisesse dizer, estava completamente exausta. Tinha dificuldade 
at em se manter acordada  mesa. E tencionava estar a passar a sua ronda aos doentes s sete da manh, o que significava que teria de se levantar s cinco e meia, 
para ter tempo de brincar um bocado com Jade. Era a parte do dia de que mais gostava.
      
      Mas Dick nem sequer pareceu reparar em como ela estava cansada quando a levou a casa e lhe lembrou novamente o fim-de-semana em Stinson.
      
      - Diga-me quando lhe for possvel. Estou  sua disposio.
      
      - Primeiro tenho de combinar com o mdico que me substitui e certificar-me de que a au pair pode ficar ao domingo. - Apesar do que lhe dissera, nunca levaria 
Jade a passar um fim-de-semana inteiro em casa dele. Ficaria doido, embora Jade fosse uma criana boazinha. Mas ele quereria ouvir msica clssica, fazer amor da 
parte da tarde e discutir tcnicas operatrias com ela, e no teria pacincia para a ver mudar fraldas e dar de comer  filha. E Zoe compreendia isso. - Verei quando 
estiverem os dois livres e depois telefono-lhe. - Encontravam-se sentados no carro dele, em frente da casa de Zoe. Ele quisera lev-la a sua casa, em Pacific Heights, 
primeiro, mas percebera que ela bocejava enquanto ele conduzia. Zoe pediu desculpa por ser to m companhia, e ele respondeu meigamente:
      
      - O mal  no ser. De cada vez que samos quero estar mais tempo consigo, mas est sempre muito ocupada. Contudo, Franklin compreendia isso. Ele prprio era 
um mdico extremamente ocupado, com grande nmero de doentes para ver. Era considerado um dos cirurgies mais proeminentes de oncologia e ainda conseguia dar conferncias 
por todo o pas.
      
      - Talvez seja isso que torne as coisas interessantes - disse Zoe, sorrindo, sentada no carro confortvel. Dick era imensamente afectuoso e bem-parecido, e 
ela apreciava bastante a companhia dele, mas sabia que nunca poderia am-lo. - Talvez eu o aborrecesse se passssemos mais tempo juntos.
      
      Ele riu ao ouvir as palavras dela.
      
      - No me parece muito provvel - replicou Franklin. Era uma das mulheres que mais admirava e atraa-o de vrias maneiras, como nessa altura. Conseguia ser 
simultaneamente vulnervel e inatingvel, forte e gentil e os contrastes excitavam-no mais do que ele queria mostrar. - Suponho que no poderei convenc-la a chocar 
a sua au pair esta noite, pois no? - perguntou, esperanado, mas Zoe abanou lentamente a cabea. Nunca fizera isso. Pelo menos estando a jovem dinamarquesa l em 
casa com o beb. E no iria comear a faz-lo agora, nem mesmo com o Dr. Franklin.
      
      - Acho que no, Dick. Lamento.
      
      - No estou surpreendido - confessou ele, bem-disposto. - Apenas desapontado. Bem, veja o seu calendrio e arranje uma data para um fim-de-semana. Em breve, 
por favor.
      - Sim, senhor.
      
      Subiu as escadas com Zoe e abriu a porta com a chave dela. Depois beijou-a ao de leve nos lbios. No merecia a pena comearem uma coisa que no podiam acabar, 
achava ele. E era um homem paciente, capaz de esperar uma ou duas semanas para a voltar a ver outra vez, embora tivesse preferido fazer amor com ela nessa noite. 
Mas estava disposto a aceitar as limitaes dela. Zoe agradeceu-lhe o jantar e ele foi-se embora. No momento em que se afastou Zoe correu para o quarto, despiu-se 
e meteu-se na cama, sem sequer vestir a camisa de noite ou escovar os dentes. Estava to cansada que apenas podia dormir, e morreu para o mundo at s seis horas 
da manh seguinte.
      
      Jade estava j acordada quando Zoe entrou no quarto dela. Brincava tranquilamente com os brinquedos que a jovem que tomava conta dela l deixara com esse fim. 
Falava sozinha e cantarolava baixinho, mas logo que viu a me levantou-se e soltou um gritinho de alegria.
      
      - Ol, macaquinha - disse Zoe, tirando-a da cama para lhe mudar a fralda. Mas, ao faz-lo, achou que estava mais cansada do que de costume, ou ainda se sentia 
cansada da vspera. Isso sucedia-lhe cada vez mais frequentemente e fez-lhe lembrar que devia ir ao laboratrio quando chegasse  clnica:
      
      Saiu de casa s seis e quarenta e cinco, para fazer a ronda das sete no hospital de oncologia, e s oito e meia encontrava-se na clnica, onde j a esperavam 
duas dzias de doentes. Foi um dos dias mais atarefados dos ltimos meses e Zoe no teve tempo de ligar para o laboratrio at  hora do almoo. Quando ligou, disseram-lhe 
que anda no tinham os resultados e, dessa vez Zoe perdeu a pacincia.
      
      - Estou  espera h duas semanas - disse ela. - No  justo fazer esperar as pessoas tanto tempo - queixou-se. - Trata-se de situaes de vida ou de morte. 
No  uma simples anlise de urina. Quando  que posso saber os resultados?
      
      Do laboratrio pediram desculpa pelo atraso e disseram-lhe que, se ela telefonasse s quatro horas, os teriam de certeza. Zoe s conseguiu parar um pouco s 
cinco e meia e voltou a ligar para o laboratrio. Eles fizeram-na esperar um bocado, enquanto ela se enervava, remexendo os papis na secretria, at que a voz do 
outro lado se fez ouvir de novo.
      
      - Positivo - disse calmamente o tcnico do laboratrio. No era surpresa nenhuma. Os seus doentes tinham sempre testes positivos. Por terem sida  que iam 
ter com ela.
      
      - Positivo? - repetiu Zoe, como se nunca tivesse ouvido a palavra. - Positivo - Sentia a casa girar  sua volta.
      
      - Foi o que eu disse - confirmou o tcnico. - Desta vez ficou surpreendida?
      
      E o mal  que no era surpresa. Explicava como se sentia cansada, exausta, o peso que perdera, a diarreia que tinha de tempos a tempos e os sintomas que a 
perturbavam havia seis meses, desde o ltimo Natal. Os resultados eram de uma anlise dela, dessa vez, e sabia exactamente como  que aquilo lhe sucedera. Picara-se 
acidentalmente, quase h um ano, com uma agulha que fora utilizada por um doente com sida, ao tirar sangue para anlise a uma menina que morrera h dois meses, em 
Abril.
      
      Agradeceu ao tcnico do laboratrio e desligou calmamente, sentindo-se como se o quando tivesse acabado, tal como sucedia com os seus doentes quando lhes dizia. 
O tcnico falara sem subtilezas nem hesitaes. Positivo... positivo... tinha sida... Que faria com Jade? Como iria trabalhar? Quem tomaria conta da criana quando 
ela casse doente? Que iria fazer agora? E, ao pensar na enormidade do que lhe sucedia, sentiu-se esmagada pela intensidade dos seus sentimentos. Inicialmente dera 
negativo, mas h semanas que ela suspeitava, desde que tivera uma estranha ferida nos lbios. A ferida desaparecera rapidamente, mas as suspeitas dela no. Os seus 
conhecimentos mdicos obrigaram-na a enfrentar a situao e a fazer anlises. Era exactamente o que se passava com os seus doentes. A preocupao que sentia fora 
suficiente para evitar encontrar-se com Dick Franklin nas ltimas semanas, embora tivesse sido sempre extremamente cuidadosa com ele. Desde que o homem que ela amava 
morrera com sida, dez anos antes, tomara sempre todas as precaues e avisava sempre disso todos os homens que passavam pela sua vida. Dissera a Dick e ambos haviam 
sido extremamente cautelosos. Nunca o expusera a qualquer risco. Mas, se continuasse a andar com ele, teria de lhe dizer. Porm, no tinha qualquer desejo de o ver 
nem de lhe falar. No podia imagin-lo a cuidar dela, nem mesmo a mostrar-se muito simptico. Ele at a avisara dos riscos que corria com os seus doentes. J sucedera 
que outros mdicos tivessem sido contaminados. E no achava que valesse a pena correr tais riscos.
      
      Dick era um cientista, os dois continuavam bons amigos, mas no se tratava do gnero de pessoa a quem se pusessem problemas. Era o tipo de homem com quem se 
saa e se passava uma noite agradvel. Zoe tinha a certeza de que ele ficaria assombrado se ela contasse. E sabia que os encontros entre os dois tinham acabado. 
Assim como uma poro de coisas. A sua carreira como mdica talvez no... por enquanto, mas com certeza o seu futuro. Sentia uma enorme vontade de chorar, mas sabia 
que no conseguiria. Precisava de ver ainda alguns doentes. Mas, subitamente, percebeu que nem conseguia pensar correctamente.
      
      - Est algum? - Sam Warner meteu novamente a cabea pela porta entreaberta e ficou assombrado quando viu o aspecto dela. Parecia que tinha sido lanada da 
boca de um canho. E tinha, de facto. - Sentes-te bem? Ests com um aspecto horrvel! - declarou peremptoriamente.
      
      - Creio que estou a ficar adoentada - respondeu vagamente Zoe, procurando uma desculpa para explicar o seu estado. - Uma constipao... urna gripe... qualquer 
coisa.
      
      - Ento no devias estar aqui - disse Sam com firmeza. - Sabes muito bem que os teus doentes no podem ser expostos a qualquer contgio.
      
      - Usarei uma mscara - respondeu Zoe, procurando na gaveta da secretria, com mos trmulas. Sam reparou nesse tremor quando ela tentou, em vo, dar um n 
na mscara, mas nada disse. Apenas se mostrou preocupado. - Eu estou bem... na verdade...  apenas uma dor de cabea...
      
      - Ests num estado lastimoso - declarou Sam, tirando-lhe o estetoscpio do pescoo e colocando-o sobre a secretria. - Vai para casa. Eu vejo os doentes que 
faltam e no te cobro nada. E um presente meu. H pessoas que no sabem quando ho-de parar. - Sam falou com ar decidido e quase a empurrou para fora da porta, e 
ela no lhe desobedeceu. 
      
      Subitamente no podia falar, no conseguia pensar, no podia crer no que lhe tinham dito. Tinha sida... sida... o vrus assassino que matava os seus doentes... 
a sua vida estava acabada. No estava, claro, podia viver muitos anos, com os cuidados adequados, sabia isso. Mas rinha o vrus no sangue,  espera como um atirador 
oculto ou uma bomba de relgio.
      
      - Vai para casa - dizia agora Sam. - Vai para casa e mete-te na cama. Mais tarde irei ver como ests.
      
      - No  preciso. Estou bem. E obrigada por acabares o meu trabalho por hoje.
      
      Sam era fantstico e Zoe gostava imenso dele. Era incrivelmente meigo e paciente para com todos os doentes. Zoe hesitou em contar-lhe o que lhe sucedia. Era 
lgico dizer-lho, mas Zoe no queria que se soubesse. Pelo menos por enquanto. No o diria enquanto no fosse obrigada a isso. No contaria a Sam, nem aos seus amigos. 
Nem sequer s enfermeiras. No diria a ningum. Teria, contudo, de o revelar ao Dr. Franklin, embora tivesse sido sempre escrupulosamente cuidadosa nas suas relaes 
com ele e soubesse que no o fizera correr qualquer risco. Mas, por uma questo de tica, queria dizer-lhe, embora no tencionasse voltar a dormir com ele. Mas no 
desejava partilhar a m notcia com mais ningum. Como fazia com tudo o resto, guardaria aquilo para si. Zoe Phillips no chorava no ombro de ningum.
      
      Mas Zoe chorou durante todo o caminho para casa, ao volante da sua velha carrinha Volkswagen, e quando chegou tinha um aspecto quase to devastado como se 
sentia. A sua jovem empregada olhou-a com ar admirada e at Jade pareceu estranhar a sua aparncia.
      
      - Mam triste? - perguntou, parecendo preocupada.
      
      - A mam gosta muito de ti - disse Zoe, apertando-a contra si, pensando que teria de ter todo o cuidado para no se cortar e que no devia aproximar-se de 
Jade se ela fizesse qualquer golpe. Pensou se deveria usar mscara e luvas em casa e depois percebeu que se estava a deixar dominar pelo pnico. Era mdica e sabia 
o que devia fazer. Mas aquilo era diferente. Tratava-se da vida dela. Era difcil ser racional e objectiva.
      
      Zoe seguiu o conselho de Sam e foi para a cama. Jade foi-se deitar ao seu lado e Zoe permaneceu muito tempo abraada  criana. Parecia que a menina tinha 
a percepo de que podia perder a me. Mas no era o caso de "poder" perder. Perderia mesmo, um dia. Zoe sabia que para uma pessoa infectada com o vrus da sida 
no era se, mas sim quando. Mas no seu caso, devido  maneira como fora infectada, seria mais cedo do que tarde, e sentiu-se novamente tomada de pnico ao pensar 
que no tinha ningum a quem deixar Jade quando morresse. Teria de pensar no caso e de tomar decises muito em breve.
      
      
      Uma hora depois, Inge foi ter com ela para lhe dizer que o Dr. Franklin estava ao telefone. Zoe hesitou por um momento e depois abanou a cabea. Pediu a Inge 
que dissesse que no estava em casa. Quando voltou para junto de Zoe, Inge deu-lhe o nmero de Stinson Beach. Mas Zoe no queria falar-lhe ao telefone, decidira 
j escrever-lhe. Seria mais fcil dizer-lhe por escrito. Tinha a conscincia tranquila, porque fora escrupulosamente cuidadosa, e sabia que no o expusera a qualquer 
risco, mas, de qualquer modo, sentia que tinha de lhe dizer e esperava poder confiar nele para que no espalhasse a notcia. A comunidade mdica era to pequena 
que as novidades corriam cleres, mas ela no queria que ningum soubesse, por enquanto, embora tivesse conscincia de que, se ficasse muito doente, todos viriam 
a saber. Se tivesse sorte, isso poderia no suceder durante muito tempo. Entretanto, no queria que Dick Franklin contasse a toda a gente. Detestava que os colegas 
falassem acerca dela. Ningum tinha nada a ver com o facto de ela ter sida. E embora no se sentisse ligada a Franklin, achava que tinha obrigao de lhe dizer. 
E, para tirar esse peso de cima, escreveu-lhe uma breve carta nessa mesma tarde. Disse apenas que fizera uma anlise positiva e pensava que ele devia saber, mas 
recordava-lhe que ele nunca correra qualquer risco com ela. Disse-lhe tambm que precisava de ficar s durante uns tempos e que seria melhor afastarem-se. 
      
      Enfim, libertou-o muito graciosamente de qualquer ideia de compromisso e quando leu a carta, depois de a acabar, pensou se ele lhe telefonaria depois de a 
receber. Dick Franklin era interessante e inteligente, mas nunca fora particularmente afectuoso. No o imaginava a oferecer-lhe qualquer conforto, nem mesmo a telefonar-lhe 
a saber como estava, muito menos a querer ajud-la com a sua filha adoptiva. Dick era um bom companheiro para jantares, para ir ao teatro,  pera, para um fim-de-semana 
com adultos. Era um bom companheiro para os bons tempos, no para os maus. Zoe nada esperava dele, queria apenas que no fosse contar a toda a gente no hospital 
de oncologia, e isso no lhe parecia pedir muito.
      
      
      Depois de escrever a carta Zoe voltou para a cama e, passado pouco tempo, Inge foi buscar Jade para lhe dar o jantar e olhou para Zoe com uma expresso preocupada. 
Nunca a vira com aquele aspecto infeliz e Zoe nunca se sentira to destroada como agora, a no ser, talvez, quando a amiga morrera. No se sentia doente, sentia-se 
apavorada. S lhe apetecia fugir, tapar a cabea e agarrar-se a algum. Mas no tinha ningum em quem se apoiar.
      
      No se preocupou em acender as luzes, pois ainda havia luz l fora, embora estivesse a anoitecer... Ouvia Jade na sala ao lado do quarto a brincar com Inge, 
que lhe dava o jantar. Com esses sons reconfortantes Zoe mergulhou outra vez no sono e dormiu at ouvir algum falar com ela. Abriu os olhos e ficou surpreendida 
ao ver Sam Warner, que lhe apalpava o pescoo para ver se ela tinha febre.
      
      - Como te sentes? - perguntou Sam, e Zoe nunca se sentira to grata para com ele como nesse momento. No admirava que os doentes gostassem de Sam. Tinha bom 
corao e modos cheios de meiguice. Isso era por vezes mais importante do que ser um bom mdico.
      
      - Estou bem - disse ela com sinceridade. E estava, de momento, mas to assustada que quase se sentia doente e estava zangada consigo mesma por ser to pattica.
      
      - No, no ests - declarou Sam firmemente. Sentou-se na beira da cama e olhou-a com cuidado, observando os seus olhos, a sua cor, sem nunca lhe tocar, e ficou 
perplexo. - No tens febre, mas tens um pssimo aspecto. - Zoe parecia sobretudo perturbada, e de repente Sam pensou numa coisa e decidiu fazer-lhe a pergunta. - 
Ests grvida?
      
      Zoe sorriu em resposta. Quem lhe dera que fosse assim to simples e to bom.
      
      - No estou - respondeu com tristeza -, mas  uma ideia encantadora. Quem me dera que estivesse!
      
      - Gostaria de te ajudar no que puder. - Zoe riu e ele segurou-lhe uma das mos. - Zoe, sei que isto pode parecer que ando  procura de trabalho, mas no ando. 
- Zoe sabia bem que no. Sam substitua j imensos colegas e no precisava que ela lhe desse trabalho. Ele continuou: - Precisas de umas frias. No sei o que te 
preocupa, mas, de qualquer modo, precisas de descansar. - Comeava a pensar que se tratava de algo mais emocional do que fsico, mas era bvio que ela necessitava 
de deixar o trabalho durante algum tempo. - No podes dar-te a cem por cento constantemente sem sofreres as consequncias. Porque no experimentas ir para fora? 
- Zoe lembrou-se do convite que Dick lhe fizera na vspera de ir para Stinson, mas isso era impossvel agora, e, alis, ela no queria ir. Por outro lado, tambm 
compreendia o que Sam estava a dizer. Precisava de fazer alguma coisa por si prpria. E se tinha de ir lutar pela vida, teria de fazer tudo para a prolongar. Talvez 
fosse bom tirar agora umas frias para recuperar as foras.
      
      - Vou pensar nisso.
      
      - No, no vais. Conheo-te. Amanh de manh l estars tu a visitar os doentes do hospital s sete da manh. Porque no me deixas fazer isso por ti durante 
uns dias e no chegas ao consultrio s nove horas, como uma pessoa civilizada?
      
      A oferta era tentadora e Zoe ficou sem saber bem o que lhe havia de responder. J se sentiria grata por uma noite de sono e por poder pensar no que deveria 
fazer.
      
      - Sers capaz de me substituir hoje  noite e amanh de manh? - perguntou Zoe, sentindo-se novamente cansada. No sabia se era da doena que rinha em si, 
ou por ter ficado emocionalmente exausta pela confirmao das suas suspeitas.
      - Farei tudo o que quiseres - respondeu Sam afectuosamente, e Zoe sentiu a tentao de lhe contar o que tinha sabido. Mas no queria contar a ningum, nem 
mesmo a Sam. Mais tarde iria precisar dele para a ajudar na clnica, mas era demasiado cedo para lhe falar no assunto e s pensar em falar disso a deprimia.
      
      - Agradeo-te muito - disse suavemente, enquanto ele se levantava.
      
      - Cala-te e dorme. Vou telefonar para o servio, para avisar que irei substituir-te. Provavelmente amanh, quando acordares, sentir-te-s bem, mas no quero 
ver-te no hospital. Pensando bem, porque no hs-de ir s por volta das dez horas?
      
      - Vais tornar-me mandriona, Sam - disse Zoe, recostando-se nas almofadas enquanto ele se dirigia para a porta.
      
      - No creio que algum consiga fazer isso - replicou Sam, sorrindo. Gostaria de lhe dizer muitas coisas, acerca de respeito, de amizade e sobre o relacionamento 
do trabalho que partilhavam, mas parecia nunca haver oportunidade para tal. Desde que voltara para So Francisco que tivera vontade de a convidar para sair, no entanto 
ela mantinha-se sempre distante e ele vira-a uma ou duas vezes com o ilustre Dr. Franklin. Achava que no havia nada de srio entre eles, mas pensava que era imprprio 
perguntar. Apesar de serem amigos h longos anos, Zoe era uma pessoa muito fechada quanto  sua vida privada. Contudo, era-lhe difcil no se sentir atrado pela 
dedicao e pela compaixo que Zoe punha e tudo o que fazia. Admirava-a mais do que alguma vez lhe poderia dizer e seria capaz de fazer fosse o que fosse por ela.
      
      - Obrigada, Sam - disse Zoe. Sam acenou-lhe e saiu, fechando a porta. Zoe ficou estendida na cama, perdida nos seus pensamentos, durante muito tempo. Tinha 
tanto em que pensar, nos seus doentes, na filha, na sua sade, no seu futuro. Todos esses pensamentos rodopiavam no seu crebro e quando fechava os olhos parecia-lhe 
tudo enevoado. Ento, ali estendida na cama, lembrou-se subitamente de Tanya. Aquilo que a sua amiga condiscpula lhe propusera era exactamente o gnero de coisa 
que ela receitaria a uma doente sua, e ao pensar novamente nisso resolveu seguir o seu prprio conselho e telefonar a Tanya. Procurou na agenda e ligou o nmero. 
Sabia que era uma linha particular. O telefone tocou durante uns segundos e Zoe chegou a pensar que a amiga no estava em casa, mas ela atendeu ao quarto toque. 
Estava ofegante e Zoe ouviu msica ao longe. Encontrava-se sozinha e estava a fazer exerccios junto da piscina.
      
      - Est? - A sua voz era exactamente como quando andava na universidade. Era estranho como algumas coisas nunca mudavam nelas e outras mudavam to radicalmente.
      
      - Tanny? - A voz de Zoe era suave, cansada e vulnervel e ela teve o desejo de se atirar para os braos da amiga e chorar agarrada a ela, mas forou-se a ser 
forte ao falar com Tanya, que no desconfiou como ela se sentia infeliz ou sequer que tinha um problema.
      
      - No pensei ouvir a tua voz to cedo - exclamou Tanya, mostrando-se surpreendida, mas satisfeita. Tinham falado uma com a outra no dia anterior aps um interregno 
de dois anos e estava surpreendida por Zoe lhe voltar a falar to depressa. - Passa-se alguma coisa?
      
      - Sucedeu hoje uma coisa louca. Muito louca, de facto - mas no disse o que era. - H aqui um mdico que me substitui de tempos a tempos e agora quase me ps 
fora do consultrio  fora, por uns dias. Diz que precisa de dinheiro.
      
      - Falas a srio? - Tanya estava admirada e ainda no compreendera de que se tratava.
      
      
      - Estou... estava a pensar... na viagem de que me falaste... a Wyoming... suponho que tu no... no quero intrometer-me ou coisa assim... Vais sozinha? Pensei 
que...
      
      Foi ento que Tanya compreendeu a razo do telefonema e viu logo que era uma oportunidade perfeita para juntar Zoe e Mary Stuart. Mas sabia que se Zoe tivesse 
conhecimento da ida de Mary Stuart, provavelmente no iria. Tinha muito tempo para se explicar quando l chegassem e estava certa de que, por fim, tudo ficaria bem 
entre as duas amigas.
      
      - No, vou sozinha - mentiu. Deu-lhe rapidamente todos os detalhes e sugeriu-lhe que fosse de avio directamente para Jackson Hole. Se Zoe fosse ter a Los 
Angeles para ir com elas no autocarro, poderia acontecer que Mary Stuart se recusasse a acompanh-las. Mas estava certa de que se estivessem todas no rancho seria 
uma reunio maravilhosa. Antes de l chegar no lhes queria dar oportunidade de recuarem.
      
      - No entanto, s posso ir uma semana - disse firmemente Zoe. Estava j em pnico com a ideia de deixar a clnica, mas era isso mesmo que teria de fazer agora 
se queria conservar a sade. De qualquer modo, uma semana seria suficiente.
      
      - ptimo. Talvez te consigamos convencer a ficares mais uma semana, depois de l estares - disse Tanya, feliz. No podia imaginar nada melhor do que passar 
umas frias com duas das suas mais antigas amigas.
      
      - No vais com um amigo, pois no? - perguntou Zoe. Tinha ouvido o verbo na segunda pessoa do plural, mas quando Tanya lhe disse que no, pensou que era apenas 
uma maneira de falar. Nunca lhe passaria pela cabea que Tanya tivesse convidado Mary Stuart.
      
      - E a tua filha? - perguntou Tanya, pronta para tratar de arranjar acomodaes para ela. Zoe ficou a pensar na pergunta de Tanya um grande bocado.
      
      - No a levarei. Creio que ser melhor para ela. E realmente muito pequena. No iria apreciar a viagem com a idade que tem e talvez me faa bem ir sozinha 
por uns dias - disse por fim Zoe, embora detestasse a ideia de deixar a filha e os seus doentes.
      
      - Mas tu ests bem, no ests?
      
      Havia qualquer coisa no modo de Zoe falar que preocupava Tanya, mas era algo de indefinido e Zoe afirmava estar tudo bem. No entanto, qualquer coisa na voz 
de Zoe fez recordar a Tanya a voz dela numa altura em que se sentira terrivelmente infeliz, com a morte de Ellie. Mas no se viam h tanto tempo que Tanya no quis 
insistir nem acus-la de estar a mentir.
      
      - Estou bem - assegurou Zoe - e ansiosa por te ver. Zoe era uma boa amiga, sabia montar a cavalo e, com alguma sorte, pensou Tanya, logo na primeira noite 
Zoe e Mary Stuart fariam as pazes e ficariam juntas de novo, como nos velhos tempos.
      
      - Ento vemo-nos no rancho - disse Tanya, despedindo-se e sentindo-se muito feliz por Zoe lhe ter telefonado.
      
      - At qualquer dia. - Zoe desligou e voltou-se para o outro lado, na cama. No era de sua vontade que abandonava tudo para partir de frias. Mas precisava 
de o fazer. Iria tentar tudo o que estivesse ao seu alcance para prolongar a sua vida. Sempre a achara uma ddiva preciosa, e agora, com a pequena Jade, era-lhe 
mais preciosa ainda. E conhecendo o que teria eventualmente de enfrentar, a viagem para Wyoming passou a ser, de repente, muito importante.



Captulo 9
      
      Na semana seguinte, Sam trabalhou com Zoe durante vrias horas, para ficar a par de tudo o que se relacionava com os seus doentes. Alguns j ele conhecia das 
ocasies e que a substitura por algumas horas, mas, quando leu as fichas de todos os doentes, ficou admirado de ela conseguir cuidar de um to grande nmero de 
pacientes. Tinha aproximadamente cinquenta doentes em estado terminal e todos os dias chegavam mais  clnica, e s vezes todas as noites.
      
      Eram levados por parentes ou amigos, ou iam simplesmente por ter ouvido falar do que ela fazia. Estavam todos muito doentes, os que tinham sida e os que no 
tinham. Zoe aceitava-os a todos e Sam ficou especialmente comovido ao verificar o grande nmero de crianas que tinham a doena. Isso fazia que uma pessoa se sentisse 
grata por cada criana saudvel que via.
      
      - Nem posso acreditar que vejas diariamente tantos doentes - comentou Sam ao fim da tarde. - E desumano. No admira que andes sempre cansada!
      
      Teria sido simples dizer-lhe nessa altura que tinha apanhado sida. Mas o problema no era dele e Zoe j decidira que no iria sobrecarregar ningum com a sua 
situao, pelo menos enquanto o pudesse evitar. Planeava poupar dinheiro para quando viesse a precisar de tratamento ou at de internamento, se fosse esse o caso. 
O nico verdadeiro problema era resolver o que fazer com Jade, com quem a deixar quando morresse. Era terrvel pensar assim, mas Zoe sabia que tinha de o fazer. 
Parte de si mesma resistia ainda  ideia, mas a outra parte aceitara j o seu destino. Parecia um fim incrvel para uma carreira to brilhante, e poderia lamentar 
a sua pouca sorte, mas no queria faz-lo. Desejava apenas viver o melhor possvel o tempo que lhe restava. Sabia que poderia viver vrios anos, talvez mesmo uma 
dcada. No era o que acontecia habitualmente, mas podia suceder, e ela ia fazer tudo para que assim fosse. A viagem a Wyoming fazia parte desse plano, o descanso, 
a paisagem, a altitude, o ar e o conforto de voltar a ver a sua velha amiga Tanya.
      
      - E este? - perguntou Sam, interrompendo o devaneio de Zoe. Tratava-se da ficha de um rapaz extremamente doente. Tinha entrado j na ltima fase da doena 
e Zoe duvidava de que ele durasse muito mais tempo. Lutava corajosamente contra a morte desde h muitos meses, e agora pouco havia a fazer, a no ser dar-lhe conforto 
e consolar o seu amante. Zoe visitava-o todos os dias. Explicou tudo isso a Sam e ele abanou a cabea. A maneira de trabalhar de Zoe era a menos ortodoxa de todas 
as que conhecia, mas era tambm a mais criativa em termos de tratamento, e sentia-se profundamente comovido com a compaixo que ela demonstrava. Zoe procurava constantemente 
descobrir novos antibiticos, medicamentos, modos de tratar infeces e dores. Procurava, alm disso, conhecer novos tratamentos naturais. Fazia tudo quanto podia 
para vencer a doena, at ao ltimo momento, e nunca deixava de confortar o doente.
      
      - Um dia teremos sorte - disse tristemente Zoe. Mas, infelizmente, no seria suficientemente depressa para todos. Nem sequer para si prpria!
      
      - Creio que os doentes j tiveram sorte quando te encontraram - declarou Sam, olhando-a com uma admirao cada vez maior. Sempre gostara dela e agora gostava 
ainda mais. No sabia se a sua dedicao plos doentes teria alguma coisa a ver com o homem que ela amara e que morrera com sida dez anos antes. No sabia se ela 
teria amado algum desde ento, mas achava que no. Com certeza no amara Dick Franklin. Sam gostaria de se aproximar mais dela. Zoe mostrara-se sempre muito franca 
com ele, e muito amigvel, mas nunca dera a entender que gostaria de ser mais do que uma boa amiga, uma pessoa que gostava de o ter como colaborador.
      
      Zoe, por seu lado, achava que no podia ser ntima de ningum. Sempre tivera o cuidado de manter uma certa distncia entre ela prpria e o resto do mundo, 
e sentia isso at mesmo com Sam, embora o conhecesse desde que ambos estudavam medicina. No queria que ele pensasse que ela estava interessada nele como homem. 
Queria tomar bem claro que no estava disponvel como mulher, mas apenas como mdica. Pensara at em comprar uma aliana de casamento barata para usar, e forava-se 
a no se lembrar que estava a seguir um caminho solitrio.
      
      Nesse dia, quando lhes faltava examinar apenas a filha de um doente, Sam olhou para Zoe e pensou se ela aceitaria ir jantar fora com ele. Tinham ainda muitas 
impresses a trocar e ele no tinha pressa de ir para casa.
      
      - Que dizes a comermos qualquer coisa enquanto conversamos? Pensei em irmos comer pasta a qualquer stio aqui perto. Ests de acordo? - perguntou, contendo 
a respirao e sentindo-se estpido. As vezes Zoe fazia com que ele se sentisse como um garoto, mas gostava disso. Tudo em Zoe lhe agradava. Sempre assim fora. E 
com o passar dos anos admirava-a cada vez mais e gostava mais dela.
      
      - Parece-me bem - respondeu Zoe, sem lhe passar pela cabea que Sam a pudesse achar atraente. Tambm ela queria convid-lo para lhe agradecer o facto de ele 
lhe possibilitar sair da cidade e ter umas verdadeiras frias. Sentia remorsos por deixar Jade, mas Sam prometera-lhe olhar por ela e ir v-la todos os dias, antes 
de ir para casa.
      
      - Es realmente um mdico para todo o servio - gracejou Zoe, enquanto se sentavam num compartimento de um pequeno restaurante italiano em Upper Haight. Havia 
anos que ela ali ia. A comida era boa e o ambiente agradvel, tranquilo. Era a primeira vez, desde os tempos da faculdade, que ela e Sam iam jantar juntos para conversarem. 
Apesar de os seus caminhos se cruzarem regularmente nos ltimos dezoito anos, nunca tinham tido tempo para estar juntos e ss. Andavam sempre a trabalhar.
      
      Pediram ambos ravioli e Sam ofereceu-lhe vinho, mas ela recusou e retomaram a conversa sobre o trabalho. Estavam a meio do jantar quando Sam a olhou com o 
seu sorriso agarotado e com uma expresso to afectuosa e amigvel no olhar que Zoe se sentiu mais  vontade com ele do que nunca estivera.
      
      - No fazes mais nada a no ser trabalhar? - perguntou meigamente. Admirava-a, mas tinha pena dela. Zoe fazia tanto por tanta gente, mas parecia no ter ningum 
que fizesse nada por ela! Sam sabia por experincia prpria como o gnero de trabalho de Zoe era esgotante e no acreditava que ela sentisse algum verdadeiro conforto 
no seu relacionamento com uma pessoa como Dick Franklin ou outro como ele.
      
      - Ultimamente no - respondeu Zoe. - A no ser estar com Jade.
      
      - Nunca casaste? - Sam pensava que no e viu que tinha razo quando ela abanou a cabea.
      
      - Nunca. - No parecia minimamente preocupada com isso. Sentia-se bem com a vida que tinha e feliz com a filha adoptiva. A sua vida estava completamente preenchida.
      
      Mas Sam mostrou-se curioso e perguntou:
      
      - Posso saber porqu? Isto , se no te ofendes com a minha curiosidade...
      
      Zoe sorriu. No se importava nada. A no ser quanto  sua doena, no tinha segredos para ele.
      
      - Nunca tive verdadeiramente desejo de casar quando era nova. O nico homem com quem talvez pudesse ter casado morreu h dez anos. Contraiu sida devido a uma 
transfuso. Graas a ele fundei a clnica. Era um investigador brilhante e teve de pr um bypass aos quarenta e dois anos. Essa operao veio a ser a causa da sua 
morte. No chegou a viver um ano depois da transfuso. Tinha pensado em me dedicar  investigao cientfica com ele. Sempre me sentira intrigada com mistrios por 
solucionar e doenas remotas. Depois apareceu a sida e eu enveredei plos cuidados mdicos e no pela pesquisa.
      
      - Teria sido uma grande perda para muita gente se tivesses enveredado por um caminho diferente - declarou afectuosamente Sam. Zoe era, de facto, uma mdica 
fantstica. Sam j ouvira falar no mdico que morrera, mas por intermdio de outras pessoas. Enquanto Zoe falava, observava-a. Parecia-lhe triste, mas no destroada. 
Era bvio que se conformara com a perda, sem, no entanto, voltar a encontrar algum que significasse tanto para si. - Antes de aparecer a sida, estive a trabalhar 
com casos de diabetes juvenil. De certa maneira,  uma praga semelhante a esta, mas  qual  dada muito menos ateno.
      
      - Sempre me interessei por isso. Creio que sou uma espcie de abutre. Gosto de estar em contacto com o trabalho dos outros, de recolher certas informaes, 
de resolver problemas, de fazer o que posso e depois seguir adiante. Nunca quis ter a minha clientela prpria, o que poder parecer irresponsvel, mas detesto tudo 
quanto seja burocracia e papelada, tudo quanto  necessrio para um mdico se estabelecer e que nada tem a ver com a medicina. Talvez ainda no tenha atingido a 
maturidade. Estou sempre  espera que isso acontea. Penso constantemente em juntar-me um dia a um grupo de mdicos e abrir uma clnica, ou coisa assim, mas nunca 
o fao. Quase tudo o que vejo me afasta dessa prtica, a no ser numa base rotativa, como fao contigo. Deste modo consigo trabalhar em vrias frentes.
      
      Zoe sorriu ao ouvi-lo. A filosofia dele assemelhava-se um pouco  dos mdicos que se dedicam s chamadas de urgncia. Querem lidar apenas com os doentes, sem 
terem de se preocupar com papelada e outros problemas. Mas, no caso dela, teria sentido a falta de um relacionamento a longo prazo, como o que mantinha com os seus 
doentes.
      
      - Fazes-me lembrar um pouco o Lone Ranger - disse Zoe, sorrindo. - Os meus doentes gostam de ti e no te censuro por fugires de todas as maadas que advm 
de ter uma clnica ou um consultrio particular. Realmente tem-me feito falta no ter associados, pois assim trabalho muito mais, mas tambm gosto de no ter de 
suportar as discusses, as invejas mesquinhas e todos os problemas que inevitavelmente teria. Quando Adam morreu, tomou-se possvel fundar o gnero de clnica que 
eu queria e agir exactamente como achava que devia agir. Mas claro que  duro no ter um auxlio apropriado, a no ser ocasionalmente.
      
      Zoe sorriu novamente e Sam pensou at que ponto ela estaria envolvida com o Dr. Franklin, mas receou perguntar-lho.
      
      - Tencionavas casar com Adam antes de ele adoecer? Sam sentia curiosidade acerca dela, acerca da criana que adoptara e por que motivo parecia sentir-se to 
bem sozinha.
      
      Era uma mulher intrigante.
      
      - No. Talvez vissemos eventualmente a casar, mas no falvamos nisso. Adam j tinha sido casado e tinha filhos. Eu estava muito ocupada como mdica interna 
no hospital. Tive um consultrio em sociedade com dois outros mdicos, mas sa quando fundei a clnica. Nunca me senti compelida a casar ou a viver com algum. Estvamos 
juntos muitas vezes, mas nunca vivemos juntos at ele estar quase a morrer. Pedi uma licena de trs meses e tratei dele. Foi muito triste. - Zoe falou com uma expresso 
melanclica, mas calma. Recordava o caso com ar grave, mas sem dor. Passara-se muito tempo desde a morte de Adam e entretanto muitas coisas se tinham passado. Zoe 
ainda via os filhos dele de tempos a tempos, mas nunca estivera muito ligada a eles. S depois de Jade ter nascido  que compreendera a alegria extraordinria de 
ter um filho. Sam tambm lhe fez perguntas a esse respeito e Zoe contou-lhe como sucedera. A me de Jade era uma rapariga de dezanove anos, solteira, e no mostrara 
vontade de ficar com o beb. A famlia dela recusara-se a aceit-la quando descobrira que era asitica. - Foi a melhor coisa que me sucedeu - declarou simplesmente 
Zoe. Depois passou ela a fazer as perguntas.
      
      - E tu? - Sabia que ele casara em Chicago. - Que sucedeu ao teu casamento?
      
      Tinham perdido o rasto um do outro durante os respectivos estgios, e quando Sam regressara a So Francisco Zoe soubera que ele se tinha divorciado e nada 
mais. Sam no falava disso e raramente tinham tido oportunidade de estar a conversar s os dois.
      
      - O meu casamento durou dois infelizes anos, enquanto eu estive a fazer o estgio - explicou Sam com ar pensativo. - Pobre rapariga. Eu mal a via. Sabes como 
. Ela detestava a vida que tnhamos. Jurou nunca mais se envolver com outro mdico, mas estava geneticamente condenada. O pai dela era um eminente cirurgio torcico 
de Grosse Pointe, o irmo  mdico de desporto em Chicago, e depois do divrcio acabou por casar com um cirurgio plstico. Tem trs filhos e vive em Milwaukee. 
Creio que  muito feliz. H anos que no a vejo. Quando vim para a Califrnia, vivi com uma mulher durante vrios anos, mas nenhum de ns teve interesse em casar. 
Ambos havamos tido experincias fracassadas e no estvamos preparados para novo casamento. De certo modo, tu s um pouco como ela. E uma espcie de santa, como 
tu. Sentia urna verdadeira necessidade de fazer algo de diferente e estava sempre a pressionar-me nesse sentido. Por fim, fez o que tinha a fazer e eu fiquei para 
trs. E enfermeira numa colnia de leprosos no Botswana.
      
      Zoe recordava-se de ter ouvido vagamente falar dela, mas isso fora antes de Sam a ajudar na clnica e Zoe no a conhecera.
      
      - Oh! Isso  srio! - Zoe olhou-o, fascinada pelo que estava a ouvir. - E nunca te convenceu a ires com ela? - Zoe achava que a ideia poderia t-la atrado, 
mas Sam abanou a cabea com uma expresso horrorizada.
      
      - Nem pensar - replicou, sorrindo. - Por mais que gostasse dela, detesto cobras, bicharocos de qualquer espcie. Nunca pertenci aos escuteiros e acho que passeios 
para acampar e sacos-cama so uma verdadeira tortura. Decididamente no sou talhado para servir a humanidade na selva. Gosto de ter  noite uma cama confortvel, 
uma boa refeio, de ir a um restaurante agradvel, de beber um copo de vinho, e a vegetao mais selvagem que gosto de ver  a do Golden Gate Park aos fins-de-semana. 
Rachel vem aqui mais ou menos uma vez por ano e eu ainda gosto dela, mas somos apenas amigos. Ela vive com o chefe da colnia de leprosos e tm um beb. Rachel adora 
a frica e diz-me que no sei o que estou a perder.
      
      - Por no teres filhos ou por viveres aqui? - perguntou Zoe, rindo, mas pensando que era uma histria muito interessante.
      
      - Pelas duas coisas. Rachel diz que jamais sair de frica, mas nunca se sabe. As polticas ligadas a esse continente so bastante assustadoras. De qualquer 
modo, no estou interessado. Rachel  uma grande mulher e fez o que estava certo para ela. Partiu h cinco anos e o tempo tem voado. Tenho quarenta e seis anos e 
creio que me tenho esquecido de me casar.
      
      - Tambm eu - disse Zoe, rindo. - Os meus pais ficavam loucos com isso. Morreram ambos h poucos anos, portanto deixei de ter quem me fale no assunto. - E 
agora sabia que no voltaria a casar. Sam, depois de ter falado sobre a sua vida, sentiu-se mais corajoso e perguntou:
      
      - E o doutor Franklin?
      
      
      Sentia-se nervoso ao fazer a pergunta, mas tinha curiosidade. Zoe era muito ciosa da sua privacidade e Sam queria saber se era por causa de Dick Franklin ou 
se existiam outras razes. Talvez ela gostasse de algum que ele nem sequer conhecesse. Era difcil de acreditar que uma mulher como Zoe s se interessasse pela 
filha adoptiva e plos seus doentes.
      
      - Que tem o Dick? - exclamou Zoe, parecendo perplexa. - Somos bons amigos, nada mais. E um homem interessante - acrescentou afavelmente, enquanto Sam a olhava 
atentamente  procura de sentimentos mais profundos.
      
      - No revelas muito, pois no? - disse Sam. E ela riu outra vez.
      
      - Que deseja saber exactamente, doutor Warner? Se  uma coisa sria? No . E a verdade  que no tenciono voltar a v-lo. No ando com ningum e  assim que 
desejo continuar.
      
      Havia algo de decisivo na voz dela ao dizer aquilo que o deixou perplexo. Mas a mensagem ficava ali, para quem a quisesse ouvir.
      
      - Tencionas entrar em breve para um convento? Ou preferes o amor livre?
      
      Zoe olhou-o e subitamente comeou a rir-se. Aquilo era novo para ela. Percebia que podia ter aprendido muitas coisas com os seus doentes. Como  que eles faziam? 
O que diziam? Sabia que muitas pessoas que tinham sida avisavam as outras antes de iniciarem qualquer relacionamento. Mas ela tambm no queria fazer isso. Preferia 
guardar segredo e viver apenas para Jade. Seria diferente se houvesse algum na sua vida, mas no havia e no haveria. Pelo que lhe dizia respeito, as portas estavam 
fechadas.
      
      - No tenho tempo para uma relao - declarou com simplicidade, e Sam mostrou-se surpreendido. A maneira como ela dissera aquilo parecera-lhe terminante e 
contrria  sua personalidade. Era uma pena que uma mulher com a idade de Zoe, to calorosa e cheia de vida, no tivesse um homem ao seu lado. Isso perturbava verdadeiramente 
Sam.
      
      - Ests a dizer-me que tomaste conscientemente essa deciso, com a tua idade? - Parecia horrorizado com a perspectiva.
      
      - Mais ou menos. - Referia-se  deciso que tomara, mas no queria aprofundar o assunto, pois estavam a entrar em terreno perigoso. Mas Sam estava decidido 
a continuar a falar na questo e Zoe acabou por dizer: - No posso dar nada a ningum, Sam. Estou demasiado envolvida com a minha profisso e a minha filha. - Era 
uma desculpa, mas Sam percebeu que ela falava a srio.
      
      - Isso  um disparate Zoe - declarou firmemente. - Ests enganada se pensas que no podes dar nada a ningum. H mais coisas na vida do que trabalhar e cuidar 
de um beb... - Sam no percebia qual o motivo que a fazia mostrar-se to decidida a ficar sozinha. Ainda choraria pelo seu antigo amor? Mas ele no acreditava nisso, 
pois sabia que Zoe andara com Richard Franklin. Por que motivo no quereria envolver-se com ningum? Porque se esconderia? A obsesso com a filha e o trabalho no 
podia ser assim to grande. Ou seria? - Es demasiado nova para fechar as portas a um relacionamento com um homem Zoe - declarou com firmeza. - Tens de repensar isso.
      
      Sam Warner teve a sensao de sofrer uma perda pessoal ao olhar para Zoe e perceber que ela era sincera.
      
      Ela sorriu-lhe, mas no se deixou demover pelas palavras dele.
      
      - Pareces o meu pai, Sam. Ele costumava dizer-me que as mulheres com educao superior ameaavam os homens e avisou-me de que estava a cometer um grande erro 
indo para Stanford. A faculdade estava bem, mas estudar medicina era de mais. Dizia-me que se eu queria praticar medicina poderia estudar enfermagem, poupando-lhe 
assim muito dinheiro.
      
      Sam abanou a cabea. Conhecia mais pessoas assim. Na famlia dele eram todos mdicos, incluindo a me.
      
      - Bem, devias ter estudado enfermagem, se o facto de seres mdica te fez chegar a uma concluso to tola. E uma coisa estpida, Zoe.
      
      Pensou se ela teria sido violada, ou se teria passado por uma m experincia, ou se Franklin fizera alguma coisa que a tivesse perturbado, mas o mais certo 
era que tivesse uma relao secreta, talvez com um homem casado, que quisesse proteger. Ou talvez procurasse apenas dizer-lhe, de uma maneira simptica, que no 
estava interessada nele, mas esperava que tambm no fosse esse o caso. De outro modo no podia compreend-la, embora ela se mostrasse muito firme.
      
      Zoe levou a conversa para outro terreno, o que o frustrou ainda mais. Descobriu que ainda tinham mais coisas em comum do que ele pensara. Zoe possua um grande 
sentido de humor e uma inteligncia viva. Interessavam-se pelas mesmas coisas, tinham a mesma paixo pela medicina. Zoe viajara muito e havia nela algo de genuno 
e de maravilhosamente honesto. Dizia as coisas como elas eram, analisava muito astutamente as situaes e, enquanto lhe falava nos seus doentes, era bem visvel 
como gostava deles. Era a primeira mulher que ele conhecia, desde h muito tempo, por quem estava verdadeiramente apaixonado e desejava ardentemente andar com ela. 
Havia anos que se sentia atrado por ela, mas sempre hesitara em mostrar-lhe o seu interesse. Agora, depois de jantar com ela e de estarem a conversar, sentia-se 
ainda mais apaixonado. Zoe tomava-se ainda mais apetecvel por afirmar que desistira de qualquer relacionamento futuro e por nem sequer querer falar do caso com 
ele. Sam tinha a certeza de que existia alguma razo, possivelmente uma ligao com um homem casado. Podia ter-lhe dito. Com efeito, tudo na vida dela apontava para 
isso. O facto de ter tanta disponibilidade para o trabalho, de no querer casar-se, indicavam que andava com algum e no queria que se soubesse. E ele sentia-se 
muito infeliz com isso.
      
      Quanto a Zoe, ao observar Sam, enquanto comiam e conversavam, sentia que cada vez gostava mais dele. Era exactamente aquilo que sempre lhe parecera ser: um 
grande urso de pelcia bonacheiro, um homem inteligente e bondoso, algum com quem realmente se podia contar. E estava to apaixonado como ela pela clnica. Achava 
que fora um empreendimento fantstico, o dela, e admirava-a por isso.
      
      - De todas as maneiras que conheo de exercer medicina, a tua  a que mais me agrada e a que mais respeito. Gosto realmente do modo como tratas os teus doentes, 
especialmente dos cuidados que dispensas aos que se encontram em casa.
      
      - Essa foi a parte mais difcil de organizar. Encontrar as pessoas certas para fazerem o que  preciso, sem ter de as dirigir constantemente,  muito custoso. 
Vigio-as de perto, mas, mesmo assim, ainda tm muitos desvios. No entanto, os doentes tambm tm grandes responsabilidades. A maior parte dos parceiros e das famlias 
dos doentes quer trat-los em casa, sem qualquer assistncia, quase at ao fim, e depois acabam por os meter em lares. Morrer com sida no  nada fcil.
      
      Falaram mais um bocado sobre o que Zoe queria que Sam fizesse enquanto estivesse fora e ele sorriu ao ouvi-la. Sabia que ia ser duro para ela afastar-se e 
tentou tranquiliz-la, garantindo-lhe que os doentes ficavam em boas mos com ele. E Zoe acreditava sinceramente nisso.
      
      - Fala-me ento da tua viagem a Wyoming - pediu Sam enquanto bebiam a segunda chvena de caf. J reparara que Zoe estava exausta. Nos ltimos tempos notara 
vrias vezes que ela andava muito cansada, mas no pensara muito nisso. O seu trabalho era to esgotante que no se surpreendia por ela andar plida, mas nessa noite 
reparou que estava tambm mais magra. Precisava realmente de umas frias e Sam sentiu-se satisfeito por ela as ir ter. - Vais com quem? No vais acampar, pois no? 
- perguntou, desejando por momentos poder acompanh-la.
      
      Zoe riu da pergunta dele.
      
      - No me parece. Vou com uma antiga colega dos meus tempos da universidade. E uma mulher fantstica e h algum tempo que no a vejo, mas telefonou-me outro 
dia e convidou-me. Inicialmente disse-lhe que no, mas, como me sentia muito cansada, acabei por aceitar o convite. Como vou com ela, tenho a certeza de que no 
se trata de campismo. E ainda mais exigente do que eu. - Zoe tambm no gostava de acampar. Tal como Sam, detestava insectos, cobras ou qualquer gnero de bicharocos 
rastejantes. - Ela vive em Los Angeles e estou certa de que iremos para o rancho mais luxuoso que tenha descoberto.
      
      - Quem  ela? E mdica? - perguntou Sam, enquanto abria a carteira para pagar o jantar. Zoe sorriu antes de responder.
      
      - No. E cantora. Somos amigas de longa data e ela nunca mudou, embora poucas pessoas possam acreditar nisso.
      
      Os mdia tm-lhe tomado a vida num inferno. No  justo. - Olhou pensativamente para Sam e acrescentou: - No gosto de dizer s pessoas quem ela , pois tiram 
imediatamente mil concluses inexactas.
      
      - Sinto-me fascinado - replicou Sam, fitando Zoe, enquanto a empregada de mesa levava o dinheiro. Sentia-se cada vez mais intrigado com Zoe, com os seus profundos 
olhos verdes e tudo o que se lia neles. - Ento quem  ela?
      
      - Tanya Thomas - disse calmamente Zoe. Para ela era apenas um nome, para as outras pessoas era uma vida de luxo, de prazer, de mentiras. Era essa a imagem 
que vendiam dela e Sam teve a reaco habitual. Abriu muito os olhos e ficou por instantes de boca aberta. Depois riu da sua prpria reaco.
      
      - Isso  verdade? E tua amiga?
      
      - Era a minha melhor amiga na faculdade. Fomos companheiras de quarto. Gosto mais dela do que de qualquer outra das minhas amigas. No nos vemos muitas vezes, 
mas a nossa amizade continua a mesma.
      
      - Oh! Estou impressionado! - exclamou sinceramente Sam. - Sei que parece tolice, mas tenho dificuldade em acreditar que as pessoas conheam celebridades desse 
gnero e que comam piza com elas, bebam caf e procedam em tudo como pessoas vulgares.
      
      - Tanya tem sofrido muito por causa disso. Acho que est a divorciar-se outra vez. E impossvel ter uma vida normal, com o gnero de presses a que est sujeita. 
Quando samos da universidade, casou com um excelente rapaz, o seu antigo namorado dos tempos do liceu, mas passado um ano ela tornara-se famosa. Ganhara um disco 
de ouro e iniciava uma carreira fabulosa. O sucesso destruiu o casamento deles. O pobre Bobby no era homem para suportar a celebridade, as luzes da ribalta sempre 
a incidirem sobre Tanny. Trs anos depois casou com um tipo horrvel, o seu manager que a explorou o mais que pde. Creio que se tratava de um indivduo tpico daquele 
ambiente, mas tomou Tanya muito infeliz. E h trs anos casou com um homem de Los Angeles, creio que tem uma firma de compra e venda de propriedades. Pensei que 
com esse o casamento durasse, mas ele saiu de casa e no a deixou levar os filhos dele, dos quais Tanya gosta muito, para a casa que ela tinha alugado num rancho, 
em Wyoming. Foi por isso que me convidou para ir com ela. Zoe contara a histria com tal simplicidade que Sam lhe achou graa.
      
      - Sorte a tua! - exclamou sinceramente. - Que divertido!
      
      - Sim, o mais divertido vai ser estar com Tanya. Nenhuma de ns  louca por cavalos. Na verdade, eu quero apenas dormir durante toda a semana.
      
      - Deve fazer-te bem - disse Sam, olhando-a com uma expresso preocupada. - Ests bem, no ests Zoe? Tens andado cansada e sei que no te tens sentido muito 
bem. Ests realmente a exagerar.
      
      Sam falou meigamente e Zoe sentiu-se comovida com as suas palavras. Estava to habituada a cuidar dos outros, que se surpreendia se algum se preocupava com 
ela.
      
      - Estou bem. Sinceramente - respondeu Zoe. Mas ficou a pensar no que ele poderia ter visto. Lembrou-se subitamente se pareceria doente. Estava cansada, mas 
no notara qualquer diferena na sua aparncia exterior ao ver-se ao espelho. No tinha feridas nem quaisquer outros sinais. No havia nenhuma indicao de que pudesse 
ter sida, e sabia que poderia no haver durante muito tempo, ou poderiam surgir a qualquer momento. O maior risco que corria era o de ter infeces. Mas ela sabia 
o que devia fazer para se proteger e estava a ser cuidadosa.
      
      - Agradeo a tua preocupao - disse para Sam, e ficou surpreendida quando ele estendeu o brao por cima da mesa e lhe segurou numa das mos. No esperava 
que ele fizesse isso.
      
      - Preocupo-me contigo. Quero ajudar-te, mas tu s sempre muito obstinada. - Sam disse essas palavras de uma maneira que fez com que ela o olhasse nos olhos. 
Eram castanho-escuros e infinitamente meigos.
      
      - Obrigada, Sam...
      
      Zoe sentiu-se invadir por uma onda de emoo e desviou os olhos. Um momento depois retirou a mo. Sabia que tinha de estar em guarda. Por mais que ele a atrasse, 
no podia permitir a si prpria deixar-se envolver.
      
      Fora to simples com Dick, quando tinham sado juntos. Eram apenas amigos e se, por momentos, eram um pouco mais do que isso, no tinha grande importncia. 
No alimentava iluses a respeito dos sentimentos dele para com ela. Dick queria apenas uma companhia agradvel, de tempos a tempos, algum com quem ir ao teatro, 
a um concerto, a uma pera ou com quem partilhar um jantar dispendioso. Mas no queria mais dela do que aquilo que ela lhe dava. Com efeito, ficaria assustado se 
Zoe lhe desse mais do que isso. Dick sabia exactamente at onde queria chegar com ela e tinha sempre o cuidado de manter as distncias. E, embora tivesse gostado 
de ter um relacionamento srio com algum, no houvera, de facto, ningum que a atrasse dessa maneira durante muitos anos e fora-lhe fcil evitar as imitaes baratas. 
Agora que a sua vida mudara, era pouca sorte descobrir que Sam Warner podia ter sido importante para ela. Nunca se apercebera de como era profundo, bondoso, compadecido, 
de tal modo em sintonia com a maneira de pensar dela. Apenas o considerava um bom mdico e um bom amigo. 
      
      Agora que sentia que havia algo mais nele e tambm no que ela sentia por ele, era-lhe negado o direito de explorar esses sentimentos. A porta dessa parte da 
sua vida estava fechada para sempre. Que poderia ela oferecer agora a algum? Uns meses? Alguns anos? Mesmo que fossem cinco ou dez, no seria justo. E, alm de 
tudo, existiria sempre o risco remoto, mas potencial, do contgio. Passara por tudo isso com Adam e no queria que ningum sofresse esse martrio por causa dela. 
Certamente no faria tal coisa a Sam. No havia a mais pequena possibilidade de permitir que ele se aproximasse mais dela. Eram colegas e amigos, nada mais. No 
permitiria que ele ultrapassasse os limites estabelecidos por ela e Sam apercebeu-se disso. Estava triste quando deixaram o restaurante. Gostava muito dela, mas 
sentia que Zoe o afastava e isso magoava-o. No percebia porqu, mas sabia que nada poderia fazer para modificar esse estado de coisas.
      
      Depois de entrarem no carro, Sam fitou demoradamente Zoe e murmurou:
      
      - Passei uma noite fantstica, Zoe.
      
      - Tambm eu, Sam.
      
      - E quero que te divirtas em Wyoming - acrescentou, olhando-a nos olhos.
      
      Zoe teve a sensao de estar a ler os pensamentos dele e no queria faz-lo. No queria que ele lhe abrisse o corao, ou lhe pedisse que lhe abrisse o dela, 
ou, pior ainda, que a obrigasse a contar-lhe, porque no podia. Achava que ningum tinha o direito de saber.
      
      - Obrigada por me ficares a substituir - disse Zoe. Era um alvio falar acerca do trabalho e no do que sentiam. Apercebia-se de que se encontrava em terreno 
perigoso com ele. Observou-o. Com o seu casaco de tweed, a camisola de gola alta e o seu ar bonacheiro, Sam era, de facto, muito bem-parecido. Procurou no se sentir 
atrada por ele, mas no era fcil.
      
      - Sabes bem que estarei sempre pronto para te ajudar - respondeu ele, sem pr o carro em andamento. Havia uma coisa que lhe queria dizer e no sabia como faz-lo. 
- Quando voltares quero falar contigo.
      
      Zoe no se atreveu a perguntar-lhe porqu. Receava que ele tivesse decidido pression-la. No era justo que isso sucedesse agora. Infelizmente no tinham descoberto 
mais cedo a atraco um pelo outro. Estivera completamente cega quanto ao que Sam sentia por ela, e nem sequer se apercebera de como ele era atraente.
      
      - Creio que o que dissemos esta noite merece ter um seguimento - afirmou decididamente Sam.
      
      - No tenho a certeza de que seja uma boa ideia - respondeu calmamente Zoe, sem deixar de o olhar. Havia uma expresso de profunda tristeza nos olhos dela 
e Sam teve de se conter para no a abraar, mas sabia que, pelo menos nesse momento, no era isso que ela desejava. - H coisas que  prefervel no serem ditas, 
Sam.
      
      - No concordo contigo - insistiu Sam, fitando-a, pedindo-lhe mudamente que o ouvisse. - Es uma mulher corajosa, Zoe. Vi-te olhar a morte de frente e desafi-la 
vrias vezes. No podes ser cobarde acerca da tua prpria vida.
      
      Por momentos Zoe sentiu-se tomada de pnico ao ouvir as suas palavras. Mas sabia que ele no podia ter descoberto o seu segredo. As anlises feitas no laboratrio 
no tinham nome. Eram identificadas por meio de nmeros.
      
      - No creio que seja cobarde acerca da minha prpria vida - respondeu tristemente. - Tomei decises que julguei adequadas, no por cobardia, mas por sensatez.
      
      - Que disparate! - exclamou Sam, inclinando-se perigosamente para Zoe, fazendo com que ela se afastasse e olhasse para fora, pela janela.
      
      - Sim, no... no posso. - Os olhos dela estavam marejados de lgrimas, mas ele no as viu.
      
      - Diz-me s uma coisa - pediu ele. Apetecia-lhe tom-la nos braos e beij-la, mas, por respeito por ela e pelas suas loucas ideias, no o fez. - H outra 
pessoa? Diz-me sinceramente. Preciso de saber.
      
      Zoe hesitou durante um longo momento. Era uma sada perfeita. Bastava-lhe dizer que havia outra pessoa na sua vida e Sam no insistiria. Mas era demasiado 
honesta para o fazer e por fim respondeu:
      
      - No, no h, mas isso no altera coisa alguma. Tens de compreender isso. Podemos ser amigos, mas no posso dar mais nada a ningum. E simples.
      
      - No compreendo... - murmurou Sam, tentando no se mostrar zangado nem perplexo, como se sentia. - Ouve, Zoe, no te peo que te comprometas comigo. Peco-te 
apenas que sejas franca. Se no te interesso, se no h nada no nosso relacionamento que queiras explorar, muito bem. Mas tu dizes apenas que a porta para essa parte 
da tua vida est definitivamente encerrada, e isso  que eu no compreendo. E por causa do homem que amaste? Ainda choras por ele? - Passados onze anos no lhe parecia 
razovel, mas quem era ele para julgar?
      
      Zoe abanou a cabea lentamente.
      
      - No, no  por causa dele. H muito que estou em paz depois da morte de Adam. Confia em mim, Sam. Sejamos amigos. - Sorriu e tocou-lhe meigamente na mo. 
- Acredita em mim, Sam. Sou uma pessoa difcil de aturar.
      
      - Isso  verdade - concordou Sam, pondo o carro em andamento. Ela fascinava-o completamente. Havia anos que se sentia atrado por ela, mas sempre dominara 
os seus sentimentos, e desde h muito que aceitara a sua amizade, mas nunca esperara ficar completamente desanimado ao ouvi-la dizer que a porta atrs da qual se 
escondia estava fechada e selada para sempre. Essa ideia enlouquecia-o. E, enquanto conduziu o carro, no deixou de a olhar de relance. Zoe, calmamente sentada a 
seu lado, estava to tranquila e bonita que parecia quase luminosa. Parecia uma jovem santa e tinha um esprito notvel. Dizia a si prprio que no se pode ter tudo 
na vida, mas era uma injustia ter ouvido aquelas palavras da boca de Zoe. Quando chegaram a casa dela, Sam foi abrir-lhe a porta do carro. Ajudou-a a sair e teve 
a sensao de estar a segurar o brao de uma criana.
      
      - Tenta engordar um pouco no rancho - disse com ar preocupado. - Ests a precisar.
      
      - Sim, doutor - concordou Zoe, olhando-o com ternura e quase desejando que as coisas pudessem ter sido diferentes. - Jantei maravilhosamente e passei um sero 
encantador. Obrigada. Quando eu voltar tens de vir jantar comigo e com a Jade. Fao uns cachorros deliciosos.
      
      - Talvez eu leve as duas a jantar fora.
      
      Sam sorriu, desejando poder arranc-la da sua fortaleza. Tinha a sensao de que havia qualquer coisa que ela lhe ocultava. No sabia porqu, mas via isso 
nos seus olhos, embora no conseguisse alcan-la. Mas atingira-a mais do que pensava, e de tal maneira que ela se sentia assustada.
      
      - Mais uma vez obrigada, Sam.
      
      - Eu  que te agradeo... e desculpa ter-te pressionado. - Receava lev-la a esconder-se ainda mais.
      
      - No tem importncia. Eu compreendo. - Compreendia mais ainda do que ele julgava. Sentia-se emocionada e lisonjeada, mas mantinha-se inflexvel. A sua deciso 
era cada vez mais forte.
      
      - No tenho a certeza de que compreendas - replicou tristemente Sam. - Nem eu compreendo. H muito que queria fazer isto. Desde os tempos da universidade. 
Talvez tenha esperado demasiado tempo - acrescentou com tristeza.
      - No te preocupes, Sam. Est tudo bem - disse Zoe, dando-lhe uma palmadinha no brao, enquanto ele a acompanhava lentamente at  porta. Quando pararam, ele 
desejou beij-la. No iria  clnica no dia seguinte, mas Zoe sabia que voltaria a v-lo antes de partir e sentiu-se confortada com a ideia. Pelo menos poderia ocasionalmente 
trabalhar em conjunto.
      
      - At daqui a uns dias - disse Sam, beijando-lhe a testa. Depois, quando ela abriu a porta, desceu rapidamente as escadas e correu para o carro, ficando parado 
at a ver desaparecer. Zoe voltou-se e os olhos dos dois encontraram-se durante um ltimo momento; ela disse-lhe adeus e entrou. Momentos depois, ouviu o carro afastar-se.
      
      Sam, dentro do automvel, parecia atordoado pela intensidade do que sentia. O sero no fora como ele esperara. E Zoe tambm no. E, apesar do que sentia por 
ela e da sua amizade, ela era, mais do que nunca, um mistrio para si.
















      
Captulo 10
      
      No dia em que partiu para Nova Iorque, Mary Stuart permaneceu durante muito tempo na sala da sua casa, observando o que a rodeava. Os estores estavam descidos, 
os cortinados fechados, o ar condicionado desligado e o apartamento aquecia lentamente. Na ltima semana houvera uma terrvel vaga de calor. Falara na noite anterior 
com Alyssa, que se encontrava em Holanda. A filha afirmara-lhe estar a fazer uma viagem fantstica na companhia de cinco amigos e amigas. Mary Stuart desconfiava 
que ela estivesse a viver o seu primeiro verdadeiro romance. Sentia-se feliz por ela, mas ainda um pouco triste por ter perdido a oportunidade de viajar pela Europa 
em companhia da filha.
      
      Tambm falara vrias vezes com Bill. Ele dissera-lhe que tinha imenso trabalho e mostrara-se surpreendido ao saber que ela ia partir para Wyoming. No conseguia 
compreender porqu e pensava que ela podia ir para Martha's Vineyard ou para Hamptons, para casa de amigos, como fizera no 4 de Julho. Na verdade nunca aprovara 
o seu relacionamento com Tanya Thomas. E no sabia o que ia fazer para um rancho de luxo. No achava que ela gostasse muito de cavalos. Invocara todos os argumentos 
que, h uns anos, a teriam feito reconsiderar, mas que dessa vez no a afectaram. Queria passar duas semanas no rancho com a amiga. Queria conversar com ela, estar 
ao p dela e olhar para as montanhas ao acordar. 
      
      Subitamente compreendeu que precisava de se afastar dali e reavaliar a sua vida. Se o marido no percebia isso, o problema era dele. Ia passar dois meses em 
Londres e no a queria junto de si, portanto no tinha o direito de a aborrecer com o que ela ia fazer. Perdera esse direito ao dizer-lhe que no a queria em Londres 
com ele. Desistira de uma quantidade de coisas nesse ano, intencionalmente ou no, e Mary queria meditar seriamente acerca disso. No podia imaginar voltar a viver 
com ele da forma como viviam ultimamente. No podia viver no ambiente sem ar, sem amor e sem alegria que ele criara. E, embora na noite anterior  sua partida ela 
tivesse entrevisto o antigo Bill, no havia qualquer promessa de voltar a encontr-lo no fim do Vero. Ou noutra ocasio.
      
      Mary comeava a aperceber-se de que o amor que tinham um pelo outro desaparecera, provavelmente para sempre. E duvidava de que o que ficara em lugar desse 
amor valesse a pena ser conservado. Parecia-lhe impossvel estar a pensar tal coisa. Mas no podia imaginar voltar para ele e viverem da mesma maneira, sem se falarem, 
sem se tocarem, sem se encontrarem. Tinham perdido os seus sonhos, as suas vidas, e no apenas o filho que morrera. Sentia isso de muitas maneiras. E a ida para 
Wyoming era um modo de deixar o que tinha agora e pensar no que ainda seria possvel entre eles. E, por momentos, ao olhar  sua volta, sentiu que deixava a sua 
antiga vida para sempre. Nunca mais voltaria a ser o mesmo. No mais voltaria para o homem que a deixara s e angustiada durante o ltimo ano. Ou regressava para 
junto do homem que conhecera, ou no voltaria mais. E, em qualquer dos casos, queria dizer a Bill para vender o apartamento. Mas nada voltaria a ser o mesmo, nem 
o fora durante o ltimo ano, e ela sabia-o.
      
      A perspectiva de ficar sozinha na idade dela assustava-a. Mas a perspectiva de permanecer com Bill no tmulo que ele criara para ambos era ainda pior. Caminhou 
ao longo do corredor e parou por momentos em frente da porta onde fora o quarto de Todd. As cortinas tinham sido tiradas, as colchas das camas estavam na lavandaria, 
fora tudo levado dali e j nada restava dele. O que restava estava no seu corao e na sua memria. Ele estava finalmente livre.
      
      Pegou na mala e dirigiu-se para a porta. Pensava em Todd, em Bill e em Alyssa. Como tinham sido felizes juntos e como as coisas agora eram diferentes. A mo 
cruel do destino fizera um gesto e o sonho findara. Tudo terminara to rapidamente!... Era estranho pensar nisso agora. Tinha a sensao de ter tentado nadar num 
mar gelado durante muito tempo. Estivera prestes a afogar-se na gua glida, mas agora comeava a avanar, ainda gelada, ainda atordoada e magoada, mas comeando 
a pensar que poderia no se afundar. Agora havia uma leve esperana de conseguir salvar-se. E quando parou junto da porta com as chaves na mo desejou dizer adeus 
a algum... ao marido... ao filho...  vida que tinham tido ali. "Amo-te", murmurou em voz baixa para o vestbulo vazio, sem saber bem se se dirigia a Bill ou a 
Todd... ou  vida que haviam partilhado. Ento, com um ltimo olhar, fechou devagar a porta.
      
      O porteiro chamou um txi e chegou ao aeroporto menos de uma hora depois. O voo para Los Angeles decorreu sem incidentes. Em casa de Tanya a actividade era 
intensa. Quando saiu levava seis malas com roupa, duas caixas cheias de chapus e nove pares de botas de cowboy de diversas cores, de pele de lagarto ou de crocodilo. 
A empregada colocou vrios sacos com alimentos no autocarro e ela comprara uma dzia de vdeos para se entreterem durante a viagem atravs do Nevada e de Idaho. 
O percurso seria longo e montono, segundo lhe haviam dito, e levava consigo meia dzia de scripts para ler. Tinha recebido propostas para trabalhar em vrios filmes.
      
      Eram onze horas e o avio de Mary Stuart chegaria ao meio dia e meia hora, mas ela queria fazer uma ltima paragem em Gelsen para comprar mais uns produtos 
alimentares. O autocarro estava j bem fornecido, mas Tanya desejava algumas coisas mais.
      
      O motorista esperava pacientemente junto do autocarro enquanto ela dava um beijo de despedida ao co, agradecia  empregada e fazia-lhe recomendaes a respeito 
da segurana, agarrava no chapu, na mala, na agenda com endereos e subia os poucos degraus com a cabeleira loura solta e um aspecto sensacional com as calas de 
ganga muito justas e uma T-shirt branca. Calava umas botas de cowboy de um tom amarelo-vivo que comprara no Texas quando tinha dezasseis anos. Usara-as muitas vezes 
desde ento e via-se que no eram novas, mas todos os que conheciam Tanya sabiam como ela gostava daquelas botas.
      
      - Obrigada, Tom - disse, acenando para o motorista, e ele comeou lentamente a manobrar o enorme veculo para passar pelo porto. O autocarro estava dividido 
em duas grandes salas. Uma delas, a sala de estar, era decorada com mveis de teca e veludo azul, com dois sofs, confortveis cadeires, uma mesa de jantar para 
oito pessoas e uma srie de pequenos sofs formando recanto para se conversar. A outra sala estava decorada em tons de verde e transformava-se rapidamente num quarto. 
Entre as duas havia uma cozinha e uma casa de banho em mrmore branco. Tanya comprara o autocarro quando ganhara o seu primeiro disco de platina. Assemelhava-se 
muito a um iate ou a um avio particular e fora quase to caro como qualquer deles.
      
      Durante a viagem ela e Mary Stuart dormiriam no quarto e estacionariam perto de um motel para Tom a ficar instalado. Um complicado sistema de alarme mant-las-ia 
em segurana. Por vezes Tanya levava segurana consigo, mas no achara que agora fosse necessrio. Estava ansiosa por fazer a viagem e por poder conversar com Mary 
Stuart durante dois dias inteiros. Fazendo dez horas de viagem por dia, estariam em Jackson Hole no dia seguinte  hora do jantar.
      
      Chegaram ao aeroporto dez minutos antes de o avio de Mary Stuart aterrar e Tanya esperava-a  sada, com culos escuros e um chapu de cowboy preto, quando 
Mary apareceu, vestindo calas de ganga e um blazer, e trazendo no brao um saco Vuitton. Como habitualmente, a sua aparncia era impecvel, como se algum lhe tivesse 
passado o casaco a ferro durante a viagem e acabasse de sair do cabeleireiro.
      
      - Gostava de saber como  que consegues isso - disse Tanya, sorrindo-lhe e abraando-a. - Nunca te despenteias nem te amarrotas.
      
      - E congnito. Os meus filhos detestam. Todd chegava a tentar "pr-me em desordem" para eu ficar com um aspecto "normal".
      
      Mary falou de maneira que parecia estar a desculpar-se, e foram-se encaminhando, de brao dado, para o stio onde iam recolher a bagagem. Afastou-se um pouco 
para um dos lados com a amiga, e ainda no tinham decorrido muitos minutos quando viu cabeas a virarem-se para elas, sussurros, alguns sorrisos tmidos, e pouco 
depois um grupo de adolescentes dirigia-se para Tanya com papel e caneta na mo.
      
      - Pode dar-me um autgrafo Miss Thomas? - perguntavam, com risinhos, empurrando-se uns aos outros. Tanya estava habituada quilo e dava sempre autgrafos se 
lhos pediam, mas sabia que, se no sassem rapidamente dali, seria rodeada por fs em menos de cinco minutos. Sabia, por experincia prpria, que, logo que era reconhecida, 
bastavam uns minutos para ser cercada pela multido. Enquanto assinava o ltimo pedao de papel, murmurou para Mary Stuart:
      
      - Temos que ir... daqui a pouco ser uma loucura. Depois disse qualquer coisa a Tom. Mary Stuart entregou-lhe o bilhete para ele levantar a nica mala que 
trouxera e Tanya conduziu-a o mais rapidamente possvel para a sada. Mas havia j um grande grupo de mulheres e de jovens que se dirigiam para elas e, de sbito, 
aproximaram-se dois homens de aspecto rude, surgidos no se sabia de onde. Um deles segurou Tanya por um brao e ps-lhe uma caneta em frente da cara.
      
      - Tanya, e que tal assinares-me isto aqui? Podes fazer o desenho do teu soutien. - acrescentou, rindo ruidosamente.
      
      - Obrigada... noutra ocasio... adeus... - e, antes que Mary Stuart se apercebesse do que se estava a passar, eles foram atirados pela porta fora, indo cair 
mesmo em frente do grupo de mulheres que avanava. Tanya e Mary correram para a sada, enquanto duas mulheres lhes tiravam uma fotografia. Mas Tom tinha a chave 
na mo e em menos de um segundo Tanya estava dentro do autocarro, seguida por Mary. Tudo se passara numa fraco de segundo, mas Mary apercebeu-se imediatamente 
de como a vida de Tanya era difcil. Nem se lembrara disso, mas sabia que coisas daquelas sucediam constantemente  amiga. No supermercado, no mdico, no cinema. 
No podia ir a lado nenhum sem atrair as atenes. Fizesse o que fizesse para se esconder, descobriam-na sempre.
      
      - Foi terrvel - disse sucintamente Mary, enquanto Tanya tirava duas Coca-Colas do frigorfico e lhe entregava uma.
      
      - Habituamo-nos... Ou quase - respondeu Tanya, sorrindo. Depois acrescentou: - Obrigada, Tom. Foi muito oportuno.
      
      - Sempre s ordens.
      
      Lembrou-lhes que ia buscar a bagagem de Mary e recomendou que mantivessem a porta fechada.
      
      - Bem, eu tinha pensado em sentar-me  porta a vender bilhetes.
      
      Sorriu, com o chapu de cowboy ainda posto. O chapu e as botas davam-lhe um ar muito texano.
      
      - Tenha cuidado - avisou novamente Tom. E quando ele saiu ia-se aglomerando uma pequena multido no passeio, tirando fotografias ao autocarro, embora no tivesse 
qualquer identificao e no pudessem ver l para dentro. Era apenas um autocarro preto, sem nada escrito. Mas as pessoas sabiam, A notcia correra de boca em boca. 
Quando Tom regressou, havia cinquenta pessoas junto do autocarro, falando e acotovelando-se. Quiseram deter Tom, impedindo-o de entrar, mas ele era um homem alto 
e forte e no se deixava intimidar. Antes que algum pudesse chegar junto dele estava j dentro do autocarro, com a bagagem de Mary Stuart.
      
      - Meu Deus, as pessoas esto agressivas, no esto? - disse Tanya, olhando para fora. As vezes ainda se sentia amedrontada com a multido. Era assustador ser 
perseguida, devorada, caada. Mary Stuart olhou-a com uma expresso de pena no rosto.
      
      - No sei como aguentas isto! - exclamou Mary Stuart, enquanto as duas se sentavam e o autocarro se punha em movimento.
      
      - Nem eu - respondeu Tanya, pousando a sua lata de Coke em cima da mesa de mrmore. - Tenho de aguentar, creio. E mesmo assim. O pior  que quando agarramos 
no microfone para comearmos a cantar ningum nos avisa do que vem depois. Ao princpio julgamos que  por nossa causa e por causa da msica, mas no . Passado 
um certo tempo no tem nada a ver com isso. Deixamos de ter um momento de sossego, de privacidade. As pessoas comem-nos vivas, se deixarmos. Do-nos tudo, os coraes, 
as almas, os corpos, se os quisermos, e depois tiram-nos tudo, tudo o que temos, e no nos devolvem nada, se no tivermos cuidado. - Tanya sabia do que falava. Lutara 
muito para chegar onde estava e pagara um alto preo por isso, desistira de partes dela mesma que nunca recuperaria. Dera confiana e amor e trabalhara mais do que 
qualquer outra pessoa e, por fim, ficara sozinha no alto da montanha. No era um local para se estar. Mary Stuart podia apenas imaginar. Mas Tanya sabia-o. - Ento, 
como esto as coisas?... Como foi a viagem?... E como est Alyssa? - perguntou Tanya, sentando-se num dos cadeires, para iniciarem a longa viagem que as levaria 
a Winnemucca, Nevada, onde iriam dormir.
      
      - Alyssa est bem. Encontra-se agora na Holanda e est apaixonada. Parece-me to feliz que quase me magoa ouvi-la. Bill tambm est bom - acrescentou, mas 
o seu rosto entristeceu ao falar no marido. - Est muito ocupado.
      
      "E no me quer junto dele", pensou. No disse mais nada, mas era bem visvel que se sentia infeliz.
      
      
      - Como vai isso? Ou no devo perguntar?
      
      - No tenho a certeza. - Hesitou durante um grande bocado, olhando para fora, pela janela. - Tenho meditado muito. - Depois fitou a amiga e recordou-se das 
conversas infindveis em Berkeley, das horas que passavam a falar das suas vidas, dos seus sonhos e do que verdadeiramente desejavam. Tanya queria apenas casar com 
Bobby Joe. Mary Stuart desejava um emprego, um bom marido e filhos. Casara com Bill dois meses depois de ter concludo o curso e durante um certo tempo parecera 
ter tudo quanto desejara. Mas agora j no estava to segura disso. - No tenho a certeza se quero regressar depois das frias - murmurou. Tanya olhou-a, espantada.
      
      - No queres voltar para Nova Iorque? Mary Stuart abanou a cabea ao ouvir a pergunta de Tanya.
      
      - No. No sei se quero voltar para Bill. - Tanya ficou ainda mais surpreendida com esta resposta. - No sei o que se passa com ele. Agora acha que pode fazer 
tudo quanto quer, ir para Londres sozinho durante dois meses, sem querer que eu fosse com ele. Claro que eu poderia ter ido. A firma pagaria a minha estada l. Ele 
 que no quis. No entanto, contava que eu estivesse  espera dele, para tomar conta da casa, receber as mensagens e cozinhar o jantar. Mas deixou de me falar, de 
se preocupar e de sair comigo. Culpa-me em silncio pela morte de Todd, ou pelo menos por no o ter impedido de fazer o que fez. Bill deixou de agir como meu marido. 
E o meu castigo. Eu sou casada, ele no . Foi como se me tivesse condenado ao purgatrio. Deixei que ele me punisse porque me sentia culpada. Mas aconteceu uma 
coisa estranha: quando esvaziei o quarto de Todd, libertei-me. Sinto uma grande tristeza, uma sensao de enorme perda e um terrvel desgosto. - Chorara por ele 
na noite da vspera. Pelo filho morto e pelo seu casamento desfeito. Sentira que talvez nunca mais voltasse em paz ao apartamento. - Mas no me sinto culpada. A 
culpa no foi minha. Foi uma coisa terrvel. Mas foi algo que Todd fez, e eu, embora fosse me, no o poderia ter evitado.
      - Acreditas realmente nisso? - perguntou Tanya, aliviada. Fora exactamente o que ela quisera dizer  amiga, mas Mary Stuart no estava ainda preparada para 
a ouvir. Ou talvez tivesse sido ela a iniciar o processo. Esperava que sim.
      
      - Agora acredito - declarou calmamente Mary Stuart -, mas no creio que suceda o mesmo com Bill. Ele quer continuar a castigar-me indefinidamente. - Mary olhou 
pela janela. Estavam a sair de Los Angeles. - J no somos casados, Tan. Est tudo acabado. Se no estivesse, eu encontrar-me-ia em Londres com ele.
      
      - Talvez ele ainda no consiga encarar-te - tentou dizer Tanya, embora desconfiasse que Mary Stuart tinha razo. Aquilo que ela lhe contara, em Nova Iorque, 
fora um verdadeiro pesadelo. O silncio, a solido, a angstia de se ver rejeitada. E o facto de ele no querer a mulher junto de si em Londres dizia tudo.
      
      - No creio que haja alguma coisa que me faa regressar. Levei muito tempo a aceitar os factos. Penso que foi especialmente difcil para mim, por achar que 
o nosso casamento era formidvel. Mais de vinte anos no  mau. E quando estvamos bem, ramos to felizes! - recordou tristemente Mary. - Dir-se-ia que a perda 
que sofremos nos aproximaria ainda mais.
      
      - Creio que nem sempre  assim. H muitos casamentos que no sobrevivem  morte dos filhos - disse com sinceridade Tanya. - As pessoas censuram-se mutuamente, 
ou parece que murcham por dentro. No sei, mas tenho lido bastante a respeito disso. No creio que o que te sucedeu seja surpreendente.
      
      - D a impresso de que todos os anos anteriores no contam. Pensei que era como ter dinheiro no banco. Amealha-se para quando nos faz falta o termos. Mas 
connosco, quando o telhado caiu, descobri que o meu mealheiro estava vazio. - Sorriu com tristeza, mas, estranhamente, nas ltimas semanas, comeara a aceitar os 
factos. E tivera muito tempo para pensar no assunto depois de ele partir para Londres. - No creio que possa voltar para a vida que tive o ano passado, e no me 
parece que voltemos a viver como dantes.
      
      - Tentarias, se ele te pedisse? - Tanya sentia-se curiosa.
      
      Tal como Mary Stuart, ela sempre pensara que o casamento ! de Mary e Bill era perfeito.
      
      - No tenho a certeza - respondeu cautelosamente Mary Stuart. - Por agora no sei. O que passei foi to doloroso que no quero voltar para trs. S para a 
frente.
      
      Tanya e Mary ficaram silenciosas durante um bocado enquanto se dirigiam para as montanhas Sam Bernardino. Estavam ambas estendidas nos seus respectivos sofs. 
Tanya j tirara o chapu e as botas. Mary achava que era uma excelente maneira de viajar. Ficou pensativa e passado um bocado perguntou:
      
      - Que se est a passar com Tony?
      
      - Nada de especial. Arranjou um advogado. O meu est a tratar do assunto por mim. E tudo bastante previsvel e relativamente feio. Ele quer a casa de Malibu 
e eu no lha vou ceder. Fui eu que a comprei e fui eu que gastei quase todo o dinheiro necessrio para a decorar, mas, no fim, terei de lhe dar uma poro de dinheiro 
para ficar com ela. E algumas outras coisas. Levou o Rolls, quer uma penso e um acordo financeiro. Provavelmente consegui-lo-. Declara que o meu estilo de vida 
lhe causou desgosto e sofrimento, e quer ser pago por isso. - Tanya encolheu os ombros, mas Mary Stuart ficou lvida.
      
      
      - Julguei que ele tivesse vergonha de exigir tais coisas - disse Mary com ar de desaprovao. Sempre destestara o que faziam a Tanya. Parecia que achavam que 
tudo lhes era permitido por ela ser quem era. At Tony acabara por fazer o mesmo. Tinham dificuldade em se lembrar de que ela era uma pessoa, e mais dificuldade 
ainda em resistir a tirar-lhe tudo quanto podiam.
      
      Tanya tambm detestava que a tratassem assim, mas desde h muito que se habituara. Era o que sucedia a quem se tornava famoso.
      
      - Poucas coisas fazem com que as pessoas se envergonhem - retorquiu Tanya, com as mos atrs da nuca. - E assim, e pronto! H alturas em que acho que estou 
habituada a tudo isto e noutras ocasies fico doida. O meu advogado est sempre a dizer-me que  apenas dinheiro e que no devo perturbar-me por causa disso. Mas 
 o meu dinheiro e a minha vida, e tenho trabalhado como uma moura para o ganhar. No sei porque  que um tipo qualquer h-de aparecer, viver comigo durante uns 
anos e depois levar metade do que  meu! E um preo muito caro por viver um tempo com um homem que ainda por cima me enganava. E a minha dor? O meu sofrimento? Acho 
que isso no interessa para o caso. Para o prximo ms iremos a tribunal e os media l estaro.
      
      - Achas que sim? - Mary Stuart mostrou-se horrorizada. Como  que lhe podiam fazer aquilo? Mas podiam e faziam-no quase h vinte anos.
      
      - Claro que estaro. Os tribunais encontram-se abertos  imprensa e  televiso. Liberdade de expresso, no ? - disse Tanya sarcasticamente, mas sabendo que 
era assim mesmo.
      
      - Isso no  liberdade de expresso. Isso  uma porcaria, e tu bem sabes!
      
      
      - Diz isso ao juiz... - respondeu Tanya, cruzando os tornozelos. Estava belssima, mas no havia ali ningum para a ver. Era um dos seus raros momentos de 
privacidade. Tinha confiana em Tom, o seu motorista. Havia anos que trabalhava para ela e era uma discrio a toda a prova. Era casado, tinha quatro filhos e no 
dizia a ningum para quem trabalhava. Admirava-a muito e seria capaz de tudo para a proteger.
      
      - No sei como suportas tantas coisas desagradveis - disse Mary Stuart com admirao. - Eu acho que ficava completamente louca passados dois dias.
      
      - No, no ficavas. Habituavas-te, tal como eu. Sabes?, so todos uns aldrabes! Primeiro tudo so rosas, s comeam a magoar-nos quando j  demasiado tarde 
e pensamos que, j agora,  melhor ficar at ao fim do espectculo. Eu ainda no tenho a certeza de ter valido a pena. As vezes duvido. E outras vezes adoro.
      
      Detestava a presso que exerciam sobre si, a imundcie que a imprensa lhe atirava para cima, mas continuava a gostar do que fazia e ia ficando por causa disso. 
No resto do tempo nem sabia como conseguia suportar aquela vida.
      
      Mantiveram-se silenciosas durante algum tempo e depois Tanya levantou-se e foi  cozinha fazer pipocas. Mais tarde comeram sanduches e Tanya levou uma a Tom, 
com uma chvena de caf. Pararam apenas uma vez, para ele descansar, e aps essa curta pausa prosseguiram. As duas amigas conversaram, leram e Tanya esteve a ver 
um filme que a Academia lhe emprestara e que ainda no fora exibido. Mary Stuart dormiu enquanto ela o viu. Estava exausta de tantas emoes. Desde que Bill se fora 
embora que pensava numa deciso a respeito do rumo que a sua vida iria tomar. E agora tomara essa deciso. Embora fosse triste, de certo modo era um alvio. Chegara 
a altura de se separarem. Tanya no discordava, ms Mary Stuart sabia que Alyssa ficaria perturbada quando lhe contasse. E no fazia ideia de qual seria a reaco 
de Bill. Pensava que para ele tambm era um alvio. Talvez fosse isso que ele quisesse durante todo o ano e no tivesse tido coragem para lho dizer. Mary ia esperar 
para lhe falar quando ele regressasse de Londres, em fins de Agosto ou Setembro. Entretanto ia fazendo planos para o seu futuro prximo. Depois de passar as duas 
semanas no rancho, ficaria em Los Angeles com Tanya durante mais uma semana e decidira ir em seguida para East Hampton, para no estar na cidade. Tinha l imensos 
amigos. Ia ser um Vero interessante.
      
      Quando acordou da sesta, Mary viu Tanya que lhe sorria. Tinham-se afastado j da Califrnia do Sul e avanavam pelo Nevada.
      
      - Onde estamos? - perguntou Mary Stuart, sentando-se e olhando  sua volta. Apesar de ter estado a dormir, o cabelo continuava impecavelmente penteado. Tanya 
inclinou-se e despenteou-a, como costumava fazer na faculdade, e ambas riram.
      
      - Pareces ter doze anos, Stu. Detesto-te. Tenho passado metade da vida a fazer visitas ao cirurgio plstico e tu consegues o mesmo efeito naturalmente. E 
revoltante! - Apresentavam ambas uma excelente aparncia e ningum lhes daria a idade que tinham. - A propsito - disse Tanya com ar casual -, falei com a Zoe a 
semana passada. Est a fazer um trabalho fantstico em So Francisco, com a sua clnica para tratar doentes com sida.
      
      Nenhuma delas se admirava de Zoe ter conseguido tal sucesso e Tanya comentou que era uma pena ela nunca ter casado.
      
      - Creio que nunca pensei que ela casasse - disse Mary Stuart pensativamente.
      
      - No sei porqu! Tinha muitos namorados...
      
      - Sim, mas a dedicao dela era com causas em grande escala... os rfos do Camboja, as crianas com fome da Etipia, os refugiados dos pases subdesenvolvidos... 
A sua clnica para tratar doentes com sida no me surpreende nada. E exactamente o que se poderia esperar dela. A nica coisa que me surpreende  ter adoptado um 
beb. Nunca pensei que quisesse ter filhos.  demasiado idealista. Posso imagin-la a morrer por uma causa em que acredite, mas no a limpar vomitado.
      
      Tanya no pde deixar de rir com a descrio. Acertava em cheio. Tinham sido sempre Mary Stuart e Eleanor a limpar a casa quando todas viviam juntas, na universidade. 
Zoe andava sempre em manifestaes, em qualquer stio, e ela prpria, ou estava ao telefone com Bobby Joe ou a ensaiar qualquer msica que iria cantar. Nenhuma das 
duas era dada aos trabalhos domsticos.
      
      - Gostava muito de a ver - continuou Tanya cautelosamente, para ver qual seria a reaco de Mary e esperando que no fosse muito adversa. Teria um grande desgosto 
se alguma delas se recusasse a ficar no rancho. Mas se alguma das duas se fosse embora, achava que seria Mary Stuart e no Zoe. Mary Stuart  que ficara magoada 
com o que Zoe lhe dissera.
      
      No entanto, quando Tanya disse que gostaria de ver Zoe, Mary Stuart no respondeu. Limitou-se a olhar para fora, pela janela, recordando o que sucedera. Tinham 
sido tempos trgicos para todas elas, mesmo antes do fim do curso. Fora uma m maneira de o terminarem. E no mais haviam voltado a reunir-se todas. Mary Stuart 
nunca mais vira Zoe, embora pensasse nela s vezes. Tanya dava-se com ambas, em alturas diferentes.
      
      A viagem prosseguiu durante mais umas horas, enquanto elas liam. Mary Stuart levara um monte de livros e Tanya folheava revistas, satisfeita por no encontrar 
nelas qualquer referncia  sua pessoa. s nove horas chegaram finalmente a Winnemucca. Era uma cidadezinha cheia de restaurantes e casinos na zona central, que, 
na verdade, no passava de uma parte da estrada. Tom parou o autocarro no parque de estacionamento da Red Lion Inn, onde reservara um quarto. Tanya preferia dormir 
no autocarro com Mary Stuart, mas queria jantar num restaurante e jogar nas mquinas. Na realidade, era mais um caf do que um restaurante, mas tinha umas cinquenta 
mquinas de jogos e algumas mesas de blackjack.
      
      Calou as botas, ps o chapu de cowboy e culos escuros. Levara consigo uma peruca preta, curta, mas estava calor e a peruca fazia-lhe comicho, por isso 
resolveu no a pr. Mary Stuart mostrava-se descontrada e bem-disposta enquanto as duas lavavam os rostos e retocavam o baton, rindo da ideia de irem jogar em Winnemucca.
      
      - Pode ser que alguma de ns ganhe um jackpot - gracejou Tanya. - Mas se for eu no digas ao Tony. - Piscou um olho  amiga, com ar srio, e depois soltou 
uma gargalhada. Ela prpria se sentia admirada de conseguir deixar rapidamente a sua vida com ele para trs e dos sentimentos entre os dois terem desaparecido to 
depressa. Era como se mal se tivessem conhecido. Tanya sentia-se to furiosa com ele que nem sentia a sua falta. De vez em quando tinha saudades, recordando bons 
momentos, mas logo a seguir pensava no resto e as saudades desapareciam. Fora um erro casar com ele. O casamento no devia ter passado de um romance ocasional. Custava-lhe, 
mas no tanto como receara, quando ele sara de casa. Perguntou a si prpria se estaria a ficar endurecida ou se, afinal, o casamento com Tony nunca teria sido como 
ela desejara. Era muito estranho ver o seu relacionamento com o ex-marido desaparecer como no meio do nevoeiro. Agora tinha apenas saudades dos filhos dele.
      
      Saram do autocarro sob a vigilncia de Tom, mas Tanya disse-lhe para estar descansado. Podia descontrair-se, jantar, jogar, dormir, enfim, fazer o que quisesse. 
E ele entrou para confirmar a reserva do quarto e jantar. Tanya e Mary Stuart foram trocar duas notas de cinquenta dlares em moedas para jogar nas mquinas. Meteram 
as moedas num balde e divertiram-se imenso a jogar. De vez em quando ganhava um dlar, aqui e ali, e olhavam para as pessoas. Havia imensas mulheres com cabelo azul 
e tops de polister estampado, com flores ou em tons pastel. Muitas delas tinham o cigarro pendente dos lbios enquanto jogavam. Os homens jogavam nas mesas e bebiam. 
Tambm havia homens a jogar nas mquinas, mas as mulheres eram em muito maior nmero. Quando Tanya bateu palmas, ao ganhar dez moedas de um quarto de dlar, um homem 
que jogava numa mesa prxima sorriu-lhe e um minuto depois aproximou-se. Tinha pernas compridas e finas e era to magro que as calas pareciam escorregar-lhe pela 
cintura. A barba devia ter pelo menos dois dias e as mos eram calosas. Usava um chapu de cowboy no muito diferente do de Tanya.
      
      - Quanto  que ganhou? - perguntou, para meter conversa, e Mary Stuart olhou nervosamente para Tanya. No estava disposta a ser agredida por um bbado em Winnemucca.
      
      - Uns dlares - respondeu Tanya, ignorando-o e franzindo o sobrolho, fingindo s prestar ateno ao jogo das duas mquinas em que estava a tentar a sorte.
      
      - J alguma vez lhe disseram que  parecida com Tanya Thomas? S que  mais nova e mais alta.
      
      - Sim, obrigada - replicou Tanya sem o olhar. Cher dissera-lhe uma vez que, no olhando uma pessoa nos olhos, era difcil reconhecerem-na. Por vezes isso resultara 
com ela, outras vezes no. - Dizem-me isso muitas vezes. Mas ela , de facto, bastante mais baixa.
      
      - Foi o que eu disse. Voc  mais alta. Mas ela  boa. Gosta de a ouvir cantar?
      
      - Canta bem - respondeu Tanya, retomando o seu antigo sotaque texano, e Mary Stuart fez um esforo para no se rir -, mas no gosto muito do seu tipo de msica 
- continuou Tanya com ar descontrado.
      
      - Na... ela  boa - contrariou o homem. - Gosto mesmo de a ouvir.
      
      Tanya encolheu os ombros e pouco depois o homem voltou para a mesa e sentou-se. Mary Stuart inclinou-se para Tanya e murmurou:
      
      - s muito corajosa. - Tanya respondeu-lhe com um largo sorriso e ganhou vinte dlares. At agora, entre as duas, tinham o dinheiro quase gasto. Haviam combinado 
que, quando perdessem os cem dlares, deixavam de jogar. Jogariam enquanto tivessem dinheiro.
      
      - E a nica maneira de fazer isto - replicou Tanya. Momentos depois ouviram uma mulher dizer: "Olhem,  Tanya Thomas!", mas o homem que falara com ela disse 
logo que era parecida, mas bastante mais alta, e a mulher concordou imediatamente. - E mais nova - acrescentou Tanya em voz baixa, enquanto Mary Stuart a empurrava. 
Tinham agora s uns cinquenta dlares entre as duas. As dez horas entraram num restaurante para comer um hambrguer e vrias pessoas olharam para elas, mas Tanya 
fingiu no reparar. A empregada que servia s mesas observou-a com particular ateno, mas via-se que no tinha a certeza e envergonhou-se de perguntar, por isso 
conseguiram comer uma refeio em sossego, o que para Tanya era raro. Depois voltaram a jogar nas mquinas at perto da meia-noite. No fim restaram quarenta dlares 
e dividiram-nos entre as duas.
      
      - Oh! Ganhmos quarenta dlares! - exclamou Mary Stuart, satisfeita, enquanto Tanya trancava a porta do autocarro.
      
      - No, minha tola. Perdemos sessenta. No te lembras que levmos cem?
      
      - E verdade - concordou Mary Stuart, mostrando-se momentaneamente desanimada, mas depois riram as duas, como crianas, enquanto se despiam e se preparavam 
para se deitar. Os dois compridos sofs da sala verde transformaram-se em duas confortveis camas com uma mesa entre si.
      
      - Sabes, pareces-te imenso com Tanya Thomas - disse Mary Stuart enquanto Tanya escovava a cabeleira loura na casa de banho. Era como se fossem outra vez companheiras 
de quarto. Tanya espreitou pela porta entreaberta. Fizera um pequeno implante no pescoo uns anos antes, ao mesmo tempo que uma lipoaspirao mais abaixo, o que 
fez com que ficasse com o pescoo de uma mulher muito jovem.
      
      - Mas mais alta e mais nova - disseram em unssono, rindo ainda mais.
      
      - No te esqueas do "mais nova" - lembrou Tanya. - Paguei uma fortuna por me fazerem esta porcaria.
      
      - Es impossvel! - exclamou Mary Stuart enquanto vestia a camisa de noite. Havia muitos anos que no ria tanto e pela primeira vez em muitos meses no sentiu 
a falta de Bill. Subitamente tinha a sua prpria vida, e a rejeio dele parecia-lhe triste, mas muito menos importante. - No ests diferente do que eras - disse 
Mary a Tanya, olhando-a pelo espelho. Mas ela tambm no, e nada fizera para isso.
      
      - A questo  essa. Mas o que eu gostava de saber  como tu tambm no ests diferente, sem nada teres feito. Creio que ests a mentir.
      
      Mas no, sabia que Mary dizia a verdade. O que ela tinha era bons ossos, boa pele, bons genes e era uma mulher muito bonita. Eram ambas.
      
      Deitaram-se e ficaram a conversar at s duas da madrugada, com as luzes apagadas. Na manha seguinte s acordaram s nove horas. Tanya dissera a Tom que lhe 
ligaria para o hotel quando estivessem prontas.
      Tanya foi para a cozinha fazer caf e aquecer pezinhos doces no microndas, enquanto Mary Stuart tomava duche. Depois foi a vez de Tanya ir para o chuveiro 
e ambas vestiram calas de ganga, sem se preocuparem com a maquilhagem.
      
      - Eu nunca ando assim, sabes? - confessou Tanya, olhando para o espelho com ar admirado. Claro que em Los Angeles no podia andar assim, mas ali no tinha 
importncia. Para ela era um verdadeiro luxo ter liberdade de o fazer. - Tenho sempre receio de encontrar um fotgrafo ou um reprter, mas aqui pouco me importa 
- acrescentou, sorridente. Sentia-se melhor s por ali estar, e o mesmo se passava com Mary Stuart. Estavam ambas livres das suas pesadas cargas.
      
      Alguns minutos depois voltaram a entrar no casino. Tanya telefonara a Tom e dissera-lhe que estavam quase prontas para partir. Elas tinham fechado as camas 
e ele ia proceder  limpeza e meter gasolina no autocarro. As duas mulheres resolveram ento ir gastar mais vinte dlares nas mquinas. E dessa vez ambas duplicaram 
o seu dinheiro. O homem da noite anterior no se encontrava ali, mas havia pelo menos uma dzia como ele. Porm, nenhum prestou ateno a Tanya. Mary Stuart achou 
isso espantoso.
      
      - Talvez devesses sair mais vezes sem maquilhagem - disse Mary quando se dirigiam para o autocarro. Tom esperava-as com caf acabado de fazer.
      
      - Obrigada, Tom - agradeceu Tanya ao ver como o autocarro estava bem arranjado. Mary Stuart teve de concordar com ela e pensou que era a melhor maneira de 
viajar. No admirava que Tom lhe chamasse um iate para a terra.
      
      Saram de Winnemucca pouco depois das dez horas e continuaram a viagem pelo Nevada durante toda a tarde. Quando chegaram a Idaho, a paisagem comeou a tornar-se 
mais verdejante. O deserto era incrivelmente rido. Mas Idaho era mais convidativo. A viagem prosseguiu como anteriormente. As duas leram, conversaram e dormitaram. 
Tanya ligou para o escritrio e fez mais alguns telefonemas. Mas por uma vez no havia qualquer problema. Ningum queria coisa alguma nem havia novos traumas ou 
processos contra ela.
      
      - Que aborrecido - disse Tanya a Jean, gracejando, quando a secretria lhe disse que no havia novidades. Recebera apenas uma mensagem de Zoe, confirmando 
a hora a que o avio aterrava. Chegaria a Jackson nesse dia, pouco depois delas. Uma carrinha do hotel iria esper-la ao aeroporto. Tanya nada disse a Mary Stuart 
sobre o assunto. Calculava que chegassem a Jackson Hole por volta das cinco e meia, a tempo de mudarem de roupa para irem jantar. Tanya hesitava em contar a Mary 
da chegada de Zoe. A amiga estivera to descontrada durante a viagem que Tanya detestava estragar a sua boa disposio. Por isso calou-se. Durante as ltimas horas 
da viagem ambas dormiram, e quando acordaram as Tetons encontravam-se na sua frente. Eram as montanhas mais espectaculares que qualquer delas alguma vez vira. Mary 
Stuart ficou sentada, a olh-las. Tanya, sem se aperceber do que fazia, comeou a cantarolar e depois a cantar.
      
      Foi um momento que nenhuma delas esqueceria durante toda a vida. Tanya cantava e Mary Stuart deu-lhe a mo, enquanto passavam por Jackson Hole em direco 
a Moose, Wyoming.








Captulo 11
      
      - Vais ter de verificar constantemente o nosso stock de AZT - avisou Zoe enquanto entregava as suas malas para serem pesadas. - No calculas como se gasta 
depressa. E tento ceder o menos possvel a amostras gratuitas. E caro - continuou, dando uma gorjeta ao funcionrio e recebendo o talo para levantar a bagagem. 
- E tens de estar sempre a espicaar o laboratrio, para no levarem um tempo infinito. Ento com as crianas  um desastre. E preciso saber o mais depressa possvel 
o que se passa com os seus glbulos brancos.
      
      Falava constantemente enquanto recebia o bilhete e se encaminhava para a porta de embarque. Falava de testa franzida, tentando lembrar-se de todas as recomendaes 
do ltimo minuto.
      
      - Pode ser que seja um choque para ti - disse Sam com gentileza, enquanto passavam pelo detector de metais e seguiam -, mas estudei medicina, formei-me e tenho 
licena para exercer clnica. E verdade. Juro! - Sam levantou a mo para prestar juramento. Zoe riu nervosamente. - Sei que no consegues, mas precisas de tentar 
descontrair-te, ou tens um ataque de corao aqui mesmo e no chegas a ir para Wyoming. E eu detesto fazer reanimao em lugares como este. Iria parecer um mdico 
importante e no um humilde locum tenens.
      
      Sam gracejava com ela e Zoe queria descontrair-se, mas no era capaz. Tinha tantos remorsos por deixar tudo nas mos de Sam e abandonar Jade, que se sentia 
arrependida por ter aceitado o convite, e, se no fosse por achar que faria figura de parva, no iria. Mas prometera a Tanya ir e sabia que precisava de descansar. 
De outro modo teria ficado e continuado a trabalhar. Fizera exactamente o mesmo em casa com Inge, ditando-lhe mil recomendaes, e, quando o beb comeara a chorar, 
Sam quase tivera de a puxar pela escada abaixo, com a mala.
      - Estou a comear a perceber porque  que nunca vais a parte nenhuma - disse Sam, quando se encontravam sentados na sala de espera. Reparou que Zoe estava 
muito plida e pensou outra vez se ela estaria doente. Ou talvez fosse apenas stress ou cansao. Provavelmente seria um pouco de cada coisa. Estava satisfeito por 
Zoe ir ter urnas frias e agradava-lhe substitu-la na clnica. Gostava de trabalhar com ela, mas estava disposto a sacrificar-se, perdendo essa companhia, pois 
via bem que Zoe necessitava urgentemente de descansar.
      
      Nunca mais tinham voltado a falar da vida pessoal dela. A partir da noite em que haviam sado juntos Zoe limitara-se a falar de assuntos profissionais. Mas 
Sam ainda no desistir.
      
      Prometera preparar um jantar para Zoe e para Jade quando ela regressasse de Wyoming e ela aceitara. Zoe via isso como uma oportunidade para continuarem a sua 
amizade. Ele no.
      
      - No te esqueas de ir ver o Quinn Morrison, est bem? Eu prometi-lhe que o irias visitar todas as tardes depois de sares do consultrio.
      
      Morrison era um dos seus doentes mais queridos, um homem dos seus setenta anos, que apanhara sida depois de uma operao  prstata, e estava a passar muito 
mal.
      
      - Juro - prometeu Sam. Ela tinha-lhe deixado tambm mil instrues na clnica. Sam olhou Zoe com um sorriso meigo e ps-lhe um brao por cima dos ombros. - 
E tambm no me esquecerei de ir ver a tua filha e certificar-me de que Inge no a espanca nem faz amor na tua cama enquanto ela v os desenhos animados.
      
      - Oh!, Deus, no digas isso! - exclamou Zoe, horrorizada com a perspectiva. Nem sequer lhe passara pela cabea que Inge pudesse fazer uma coisa dessas, e Sam 
riu-se da reaco dela.
      - Vou receitar-te um Prozac se continuas assim. Ou, pelo menos, um Valium.
      
      - Que bela ideia - replicou Zoe. A verdade  que comeara nessa semana a tomar AZT como precauo. Era adepta do tratamento profilctico, mesmo antes do aparecimento 
de sintomas, e recomendava-o a todos os seus doentes. Lembrara isso mesmo a Sam, para o caso de lhe aparecerem novos doentes. - Realmente no devia fazer esta viagem 
- disse Zoe, continuando a torturar-se. Sam sugeriu que fossem beber um caf.
      
      - No conheo outra pessoa que merea mais umas frias do que tu - disse Sam, depois de ter pedido dois cappuccinos. - S tenho pena que no vs por duas semanas 
em vez de uma. - Mas ambos sabiam que ela nunca seria capaz disso.
      
      - Talvez para o ano.
      
      - Estou impressionado - gracejou Sam. - Pensas realmente que irs poder fazer isso? Julguei que fosse uma oportunidade que surgia uma vez na vida. - Podia 
ser, mas no pelas razes que ele pensava, mas Zoe no o disse.
      
      - Veremos - murmurou. - Depende de eu gostar muito ou pouco.
      
      - Como  que podes no gostar? - Sam estivera uma vez em Yellowstone Park e gostara imenso.
      
      - Depende de esses cowboys me agradarem. - Zoe gracejava, e Sam sabia-o, mas mesmo assim no lhe agradava; no entanto, mostrou-se disposto a entrar na brincadeira.
      
      - Oh!, linda coisa! Dizes-me que te vais fazer freira e agora queres ir para Wyoming perseguir cowboys. Formidvel! Se ficar a substituir-te outra vez, vou 
dar placebos aos teus doentes.
      
      - No te atrevas! - disse ela, rindo.
      
      - Eu tambm uso botas de cowboy, sabes? E posso comprar um desses chapus idiotas, se  disso que gostas. Mas  estranho, no consigo imaginar Dick Franklin 
a fazer de cowboy - murmurou, fazendo com que ela se risse de novo. Sam gostava de a arreliar por causa do Dr. Franklin. Realmente no gostava dele. Achava-o um 
cretino pomposo. Tinham discordado a respeito do tratamento cirrgico do cancro da mama numa reunio em Los Angeles, e Franklin tratara Sam como um novato. Embora 
ele no fosse cirurgio, tinha, com certeza, opinies vlidas. Mas Dick Franklin no pensava assim.
      
      - Trago-te um chapu de cowboy - prometeu Zoe. Ainda no conseguira convenc-lo da validade do seu celibato e ele tinha a inteno de continuar a persistir 
no assunto.
      
      - Desde que no me tragas um cowboy...
      
      - Eu telefono-te - disse Zoe. Iria de avio a Salt Lake City e depois transferir-se-ia para um avio mais pequeno at Jackson Hole, Wyoming. Marcara a hora 
da viagem para chegar ao mesmo tempo que Tanya.
      
      - D cumprimentos  tua amiga. Gostava de a conhecer um dia. - Pegou na mala dela para a acompanhar at ao porto de embarque.
      
      - Hei-de dizer-lhe para te telefonar - prometeu Zoe. Toda a gente queria conhecer Tanya. Era a rapariga dos sonhos de todos os homens.
      
      Sam ficou subitamente srio quando pegou no saco dela para a acompanhar ao porto de embarque.
      
      - Tem cuidado contigo. Precisas de descansar Miss Zoe. Aproveita estes dias para cuidares de ti. Bem o mereces! - Zoe disse que sim com a cabea, comovida 
pela maneira como ele lhe falava e incapaz de lhe responder. Depois viu-o franzir a testa, como se se tivesse esquecido de alguma coisa. - Lembrei-me agora de uma 
coisa. Levas a tua mala de mdica contigo?
      
      - Sim. Porqu? Meti uma na minha mala da roupa, mas j foi para a bagagem. Porqu? Est algum ferido?
      
      Zoe era a primeira a correr para prestar auxlio se algum tinha necessidade disso. Mas no estava a ver nenhum caso desses ali.
      
      - Ests de frias, pateta. Logo vi que ias ter uma reaco dessas. Quero que deixes a mala de mdica dentro da outra mala.
      
      - Bem, no tencionava andar a passear pelo rancho com a maleta na mo, mas achei que a devia ter por perto, para o caso de suceder alguma coisa. - Zoe olhou-o 
com ar grave e perguntou: - Ests a querer-me dizer que no levas a tua maleta quando vais para qualquer stio? Eu sentir-me-ia perdida sem ela - acrescentou, sabendo 
muito bem que com ele se passava o mesmo.
      
      - Bem, isso  diferente. Eu substituo colegas - respondeu Sam levemente embaraado. - Zoe riu-se e ele abraou-a e puxou-a contra si, mas sabia muito bem que 
ela nunca permitiria que a beijasse. - S te peo que sejas boa para ti mesma. Esquece-nos a todos, se puderes. Se precisar de ti, telefono-te.
      
      - Prometes que o fars? - Zoe parecia genuinamente preocupada e Sam disse que sim com um gesto. Por isso  que ela gostava de entregar os seus doentes nas 
mos dele. Ele ouvia-a, preocupava-se e fazia exactamente o que ela queria. No tentava virar tudo ao contrrio quando ela voltava costas. Alm disso, era realmente 
um grande mdico e Zoe sabia-o. Sempre pensara que era uma loucura limitar-se a fazer locum tenens.
      
      - Prometo telefonar-te se houver algum problema. Mas tu tens de me prometer que descansas e voltas de faces rosadas e um pouco mais gorda, mesmo que passes 
o tempo a perseguir cowboys. Apanha sol e dorme muito.
      
      - Sim, doutor - replicou Zoe, sorrindo e agradecendo-lhe mais uma vez por tomar conta da clnica. Momentos depois encaminhava-se para o avio. Ele ficou a 
acenar at a perder de vista.
      
      Sam continuou parado at o aparelho comear a rolar pela pista e depois saiu lentamente do aeroporto. Pouco depois o seu beeper comeou a tocar e ele dirigiu-se 
para uma cabina telefnica para atender a chamada de um dos doentes de Zoe. Logo a seguir correu para o carro. Zoe estava j no ar, a caminho de Wyoming.
      
      O avio para Salt Lake City levou mais de duas horas e teve de esperar outras duas pelo avio seguinte. Zoe pensou em telefonar para Jade, mas lembrou-se de 
que ela poderia ficar mais triste por ouvir a sua voz sem saber onde ela estava. Resolveu esperar at chegar ao rancho, por isso deixou-se ficar sentada a beber 
um caf e a ler um jornal, perdendo-se de vez em quando nos seus pensamentos. Raramente tinha tempo para isso. Lembrou-se do facto de Dick Franklin lhe ter telefonado 
no dia anterior. Fora uma surpresa. Dissera-lhe ter ficado assombrado e muito comovido ao ler a carta dela. No lhe pedira para a voltar a ver, mas dissera-lhe que, 
se precisasse de alguma coisa, lhe telefonasse. Apreciara a honestidade dela, mas no estava preocupado, e garantira-lhe que o seu segredo ficava bem guardado. Quisera 
saber como lhe sucedera contagiar-se e ela explicara-lhe. Ele afirmara no estar surpreendido. Quando desligaram Zoe ficou com a sensao de ter sido a ltima vez 
que ele a contactara. Mas no se importava com isso. Agora no havia lugar para ele ou para qualquer outro homem na vida dela.
      
      Era um luxo estar ali sentada no avio, se telefones, se beepers, sem doentes, sem ningum que precisasse dela, sem ter de pensar como  que poderia ajudar 
algum. Embora gostasse muito do seu trabalho, sabia que iria gozar as frias. E queria realmente aumentar as suas energias e as suas foras. Sabia que iria precisar 
delas. Tencionava continuar a trabalhar at ao fim. Tomara j a sua deciso. Continuaria a dar aos seus doentes tudo aquilo de que eles precisavam, at isso lhe 
ser possvel. E a Jade tambm. Mas teria de pensar no que iria fazer com a filha. No tinha famlia com quem a deixar nem amigos que se pudessem responsabilizar 
por ela. Outros eram boas pessoas, mas no tinham jeito para crianas. Pensara em falar a Tanya, mas no fazia ideia do que ela pensaria do assunto. Porm, era uma 
possibilidade. Zoe sabia que, eventualmente, teria de fazer qualquer coisa.
      
      O avio para Jackson Hole partiu a horas e Zoe desembarcou dentro do horrio previsto: cinco horas e trinta minutos. No sabia onde se encontraria Tanya nessa 
altura. Sabia apenas que chegaria  tarde. Planeara ir ter com ela ao rancho e o hotel enviaria uma carrinha ao aeroporto para a levar. As suas malas foram as primeiras 
a aparecer, o motorista da carrinha levou-as e correu tudo sem problemas.
      
      O rapaz que conduzia a carrinha usava botas, calas de ganga e chapu de cowboy, como qualquer outra pessoa em Wyoming. Era alto, magro, e tinha cabelo louro, 
cortado muito curto; disse que se chamava Tim e era do Mississipi. Frequentava a Universidade de Wyoming e trabalhava no rancho durante o Vero. Disse que gostava 
de l trabalhar por causa dos cavalos. Enquanto o rapaz falava Zoe olhava as montanhas, fascinada. Era a paisagem mais bonita que j vira. O sol do fim da tarde 
fazia-as brilhar com reflexos rosados e azuis. No cimo havia neve. Zoe achou que lhe recordavam os Alpes suos. Nunca vira nada assim.
      
      - So espectaculares, no so? - disse o rapaz, que era falador. - Quase nos tiram a respirao, no ?
      
      Zoe estava inteiramente de acordo com ele e deixou-o continuar a tagarelar durante a meia hora que levaram para chegar ao rancho. Tim contou-lhe ento que 
tinha um tio que tambm era mdico, um mdico ortopedista que uma vez lhe tratara um brao partido. Fizera um bom trabalho, porque ele tomara parte no rodeo, no 
ano anterior, e o brao no o incomodara nada, mas partira o outro brao e uma perna. Porm, tencionava participar de novo nesse ano. A sua histria tinha, de facto, 
o colorido tpico local.
      
      - Fazem rodeos aqui? - perguntou Zoe com interesse.
      
      - Sim, miss. As quartas e sbados. Montam touros, laam vacas, os rapazes mais novos montam novilhos. J assistiu a algum rodeo
      
      - Ainda no - respondeu Zoe, sorrindo, pensando que Tanya havia de gostar. Lembrava-se dela lhe falar de rodeos no Texas.
      
      - A minha amiga  do Texas - concluiu.
      
      - Eu sei. - O rapaz pareceu ficar um pouco embaraado logo que disse aquilo. Depois explicou: - Sei quem ela , mas no devemos falar disso no rancho. Mistress 
Collins fica furiosa se fazemos com que alguma celebridade se sinta desconfortvel aqui. E de tempos a tempos temos c algumas, sabe? Desde que trabalho no rancho 
temos tido bastantes. - O rapaz fitou-a e Zoe pensou que certamente fora por isso que Tanya escolhera aquele stio. - No damos informaes a ningum - concluiu 
Tim.
      
      - Estou certa de que a minha amiga apreciar isso - respondeu afavelmente Zoe.
      
      - Devem estar a chegar de autocarro a qualquer minuto. Zoe no percebeu por que motivo ele dissera "devem", mas achou que se referisse tambm ao motorista, 
e no pensou no assunto. Cinco minutos depois saam da estrada e passavam por uns largos portes, comeando a descer um caminho sinuoso que parecia nunca mais ter 
fim. Passaram-se mais dez minutos at chegarem ao sop de uns montes. Zoe avistou uma dzia de pequenas casas ali aninhadas e vrias cavalarias cheias de cavalos. 
Viam-se rvores por toda a parte, as casas estavam num estado de conservao impecvel e, pairando sobre tudo, erguiam-se majestosamente as Tetons.
      
      Tim acompanhou-a quando entrou no edifcio principal e na recepo disseram-lhe que Miss Tanya ainda no tinha chegado, mas receberam-na com toda a simpatia. 
A casa do rancho parecia antiga e era muito bonita. Estava decorada com cabeas de antlope, uma grande cabea de bfalo nas paredes, belas peles no cho e tinha 
uma enorme janela envidraada de onde se desfrutava uma vista espectacular das montanhas. A sala possua tambm uma enorme lareira, onde cabia um homem em p. Era 
um stio confortvel para passar um longo sero de Inverno e alguns hspedes conversavam tranquilamente a um canto. A empregada da recepo explicou-lhe que quela 
hora os hspedes se encontravam quase todos nas cabanas, para se vestirem para o jantar, que seria servido s sete horas.
      
      Entregaram a Zoe uma poro de folhas com informaes e uma brochura, e em seguida Tim levou-a na carrinha at  cabana. Tratava-se de um humilde eufemismo 
para o que poderia ser uma bonita casinha para uma famlia de cinco pessoas nos subrbios de qualquer cidade. Tinha uma grande sala confortvel, com uma vasta lareira 
e um fogo bojudo, uma pequena cozinha e sofs cobertos com bonitos tecidos. O ambiente era do Sudoeste e um pouco navajo, mas parecia uma foto da Architectural 
Digest. A casa tinha trs grandes quartos, todos com uma vista esplndida, e estava cercada de rvores.
      
      Era, de facto, um local muito belo e Zoe sentou-se confortavelmente, ainda com o saco na mo, enquanto Tim lhe ia buscar a mala. O rapaz perguntou-lhe qual 
o quarto que ela queria e Zoe disse que iria esperar por Tanya para ser ela a escolher. Um dos quartos era ligeiramente maior do que os outros, mas todos eles eram 
grandes, com enormes camas e moblias rsticas. Cada quarto tinha a sua lareira. Por momentos, Zoe teve vontade de saltar em cima das camas e gritar, como se fosse 
uma criana, e quando Tim saiu ficou a sorrir. Andou um bocado de quarto em quarto, comendo uma nectarina que tirou de uma taa com fruta que se encontrava sobre 
uma mesinha baixa. Havia tambm uma grande lata com biscoitos acabados de fazer e uma caixa de chocolates. Tinham-se informado junto da secretria de Tanya sobre 
as suas preferncias e a sala estava cheia delas. Havia flores por toda a parte, sodas e a sua cerveja preferida. O frigorifico continha tambm os iogurtes que ela 
costumava tomar ao pequeno-almoo. Nas casas de banho tinham posto o seu sabonete preferido e uma grande quantidade de toalhas.
      
      Zoe admirou tudo, encantada, e sentou-se nu dos sofs,  espera. Viu o noticirio na televiso, foi buscar uma Coca-Cola Diet ao frigorfico, e dez minutos 
depois ouviu o rudo do autocarro, que se aproximava lentamente. Tanya chegava pontualmente  hora que indicara. Zoe abriu a porta e ficou no limiar, como se fosse 
ela a dona da casa. Pouco depois a porta do autocarro abriu-se; Tanya saiu e correu para ela logo que a viu. Abraaram-se efusivamente, mas de sbito Zoe viu, por 
cima do ombro de Tanya, que outra pessoa saa do autocarro. Ficou petrificada de espanto, mas no tanto como Mary Stuart, que permaneceu pregada ao cho, sem saber 
se havia de voltar a entrar no autocarro ou avanar. Limitou-se, contudo, a ficar parada a olhar para Tanya. E quando as duas deram um passo atrs, viram que Mary 
Stuart as olhava, furiosa.
      
      - No posso crer que me tenham feito isto - disse, dirigindo-se a ambas, mas era bvio que Zoe estava to admirada como ela.
      
      - A culpa no  dela - replicou rapidamente Tanya, enquanto Tom comeava a tirar as malas do autocarro. - Deixem-me explicar.
      
      
      - No te incomodes - replicou secamente Mary Stuart. - Vou-me embora.
      
      Tom pareceu espantado e olhou para Tanya numa muda interrogao. Mas ela estava demasiado ocupada a resolver a questo para lhe poder responder.
      
      - Isso no  justo, Mary Stuart. Pelo menos d-nos uma oportunidade. H tanto tempo que no estamos juntas... pensei que...
      
      - Bem, no devias ter pensado. Depois do ano que passei, no sei como pudeste fazer-me isto. Foi muito mau e tu devias sab-lo.
      
      Mary Stuart estava lvida e Tanya ouviu-a com os olhos cheios de lgrimas, percebendo que fora egosmo da sua parte. Queria apenas ter as duas amigas consigo, 
mas ficara preocupada com isso desde que as convidara a ambas. Tinham-se passado vinte e dois anos e j era altura de as suas feridas sararem.
      
      - Lamento, Mary Stuart - disse calmamente Zoe. - Eu no devia ter vindo. Tenho muito que fazer em So Francisco. Partirei depois do jantar.
      
      Zoe falou com gentileza, muito calmamente, pois durante os ltimos anos passara grande parte do seu tempo a lidar com pessoas muito doentes, muito infelizes, 
muitas vezes agitadas e dementes, por isso sabia manter-se calma, mesmo quando se encontrava agitada pelas suas prprias emoes.
      
      - No precisas de fazer isso - retorquiu Mary Stuart, tentando recuperar a calma e percebendo subitamente que se mostrara rude, mas ficara demasiado assombrada 
por a ver e o momento no fora oportuno. - Partirei amanh de manh para Nova Iorque.
      
      - So ambas umas parvas - exclamou Tanya com lgrimas nos olhos. - No posso crer que continuem com estes disparates passados vinte anos. Temos quase quarenta 
e cinco anos. No tm mais nada que fazer se no ficarem zangadas com uma coisa que se passou quando ramos umas crianas? Meu Deus, tenho de aturar tantas porcarias 
todos os dias que j nem me lembro do que se passou a semana passada, quanto mais h vinte e dois anos. Tenham pacincia, por favor! - Ficou a fit-las e Mary e 
Zoe entreolharam-se, enquanto Tom trazia as malas para dentro. Tencionava ficar num hotel em Jackson Hole e estaria atento se Tanya o quisesse chamar para alguma 
excurso, mas agora estava sem saber o que iriam fazer. - Podemos ao menos entrar para falar sobre o assunto? - perguntou Tanya, mostrando-se zangada e magoada, 
enquanto Tom levava as mercearias para a cozinha e depois se retirava. 
      
      As trs mulheres ficaram paradas na sala, com ar embaraado. Tanya pensava no que havia de dizer. - Fazem o favor de se sentar? Esto a pr-me nervosa - exclamou, 
comeando a andar de um lado para o outro pela sala, enquanto Zoe a olhava. Ao contrrio das duas, que eram da mesma idade Zoe era um ano mais velha, mas nenhuma 
delas aparentava a idade que tinha. - Pronto - disse Tanya quando se sentaram. - Provavelmente no devia ter feito o que fiz, e peo desculpa. Foi uma coisa estpida, 
infantil, mas sonhava voltarmos a estar as trs juntas. Tenho sentido a vossa falta. No tenho outras amigas como vocs. Mais ningum se interessa por mim, absolutamente 
ningum! No tenho marido, nem filhos, nem enteados. S as tenho a vocs... e o que eu queria era que voltssemos a ser como dantes... nada mais... Talvez seja disparate... 
mas gostava que, pelo menos, tentassem.
      
      - Ambas gostamos muito de ti - retorquiu Mary Stuart, tentando recompor-se. - Eu, pelo menos, gosto, e estou certa de que sucede o mesmo com Zoe. Se assim 
no fosse ela no estaria agora aqui. No viemos por causa da vista ou dos cowboys. - Zoe sorriu ao ouvi-la. Mary Stuart continuou: - O problema  no gostarmos uma 
da outra. Creio que seriam duas semanas muito desagradveis se ficssemos todas aqui.
      Zoe disse que sim com a cabea e Tanya mostrou-se ainda mais desapontada. Esperara uma reaco negativa da parte delas quando se vissem, mas no pensara que 
insistissem as duas em ir-se embora. Percebia agora que a sua ideia fora estpida. Devia ter convidado apenas uma delas e no ter tido planos to ambiciosos.
      
      - No podem ficar apenas esta noite? Fizemos uma longa viagem de carro e estamos estafadas. - Falava de si prpria e de Mary Stuart, mas logo a seguir dirigiu-se 
a Zoe: - Tiveste que apanhar dois avies para chegares aqui e tens um ar cansado... ests com bom aspecto... - corrigiu -, mas cansada, claro. Estamos todas estafadas. 
Afinal, j no somos nenhumas crianas! - Disse a frase para ser um gracejo, mas nenhuma das outras duas sorriu. Estavam ambas a pensar no que deviam fazer. Tanya 
continuou: - Porque  que no passamos aqui a noite e amanh decidem o que querem fazer? Eu nada lhes direi. Se estiverem irritadas e me mandarem ir dar uma volta, 
a culpa ser minha. Mas nessa altura irei tambm. No vou passar duas semanas sozinha aqui. Seria demasiado deprimente!
      
      Na verdade era um stio lindo e era uma pena ficarem com as frias estragadas.
      
      Zoe foi a primeira a falar e olhou para as duas quando o fez:
      
      - Ficarei esta noite. Tens razo. A viagem de regresso  muito longa e eu nem sequer sei se terei avio hoje  noite. Isto no  exactamente o Aeroporto Kennedy 
- sorriu e olhou hesitantemente para Mary Stuart. - Convm-te, Stu? - perguntou, tratando-a naturalmente pelo seu antigo diminutivo.
      
      - Por mim, est bem - declarou delicadamente Mary Stuart. - Mas eu  que irei para Nova Iorque amanh de manh.
      
      - No, no vais - ripostou Tanya, zangada. - Prometeste passar uma semana comigo em Los Angeles.
      
      Achava que Mary Stuart estava a ser pouco razovel, mas sabia tambm como as feridas antigas eram profundas.
      
      - Partirei de manh - disse prosaicamente Zoe, e Tanya resolveu deixar as coisas assim. Passarem ali a noite j era um comeo. E talvez se desse um milagre 
antes da manh seguinte.
      
      - Que quartos  que preferem? - perguntou Tanya, tirando o chapu e atirando-o para o bengaleiro. Os quartos possuam todas as comodidades possveis, at descaladeiras 
para tirarem as botas. Tinham mesmo luvas para calarem, se as manhs estivessem muito frias, e ponchos, nos armrios, para o caso de chover. Tudo era confortvel, 
luxuoso e bem pensado. At Tanya estava admirada. - Gosto disto - disse Tanya com um sorriso tmido. Mas dessa vez as outras duas sorriram tambm. Apesar do assombro 
de se verem juntas, tinham de concordar que o rancho era fabuloso e a casa onde se encontravam ainda melhor.
      
      - Fazem isto apenas para ti, Tan? - perguntou Zoe. - Ou toda a gente recebe este gnero de tratamento?
      
      Duvidava que todos os hspedes fossem recebidos daquela maneira, com tantos detalhes e retoques, incluindo todas as revistas que pudessem querer ler.
      
      - Supostamente todas as casas sero assim - disse Tanya, abrindo uma cerveja. - A semana passada telefonaram  minha secretria para se informarem sobre os 
meus gostos alimentares, para saberem qual o meu sabonete preferido, quantas almofadas e toalhas queria, se desejava um fax no quarto ou linhas telefnicas adicionais. 
Disse-lhes que um telefone me chegava, mas mandei instalar um fax e trs vdeos. Creio que tm tudo o que gostam para comer e para beber. Se quiserem mais alguma 
coisa, digam-lhes.
      
      - Este stio  espantoso - declarou Mary Stuart ao examinar os quartos. E quando voltou quase chocou com Zoe.
      
      - Como tens passado, Stu? - perguntou solicitamente Zoe, e a expresso do seu olhar surpreendeu Mary Stuart, pois viu neles uma grande dor e tristeza.
      
      - Tenho passado bem - respondeu, em voz baixa, Mary Stuart. Queria, por sua vez, perguntar a Zoe como fora a vida dela durante os ltimos vinte anos. Mas sabia 
da clnica pelo que lhe contara Tanya.
      
      - Lamento o que sucedeu ao teu filho - disse ento Zoe, tocando-lhe instintivamente num brao. - Tanya contou-me...  to injusto... lido constantemente com 
ela e nunca a aceito, mas especialmente na idade dele... Tenho muita pena...
      
      - Obrigada, Zoe - respondeu Mary com os olhos cheios de lgrimas, virando-se para ela no as ver. Mas Zoe percebera, mais do que vira, essas lgrimas, e afastou-se 
para no a magoar mais.
      
      - J escolheram os quartos? - perguntou Tanya, voltando  sala e percebendo que Mary estivera a chorar. Pensou se teriam discutido, mas nenhuma das duas parecia 
zangada. Desconfiou que fosse por causa de Todd e ergueu as sobrancelhas para Zoe, que lhe disse silenciosamente que sim.
      
      Por fim escolheram os quartos. O que era ligeiramente maior tinha banheira e Jacuzzi e tanto Zoe como Mary Stuart insistiram para que Tanya ficasse com ele, 
embora Tanya o tivesse cedido de boa vontade a qualquer delas. E quando concordou em ficar com ele disse-lhes que podiam usar o Jacuzzi sempre que quisessem. Ambas 
lhe responderam que partiriam na manh seguinte. Tanya esteve prestes a dizer-lhes que eram ambas teimosas como burras, mas no o fez. Foi para o quarto mudar de 
roupa para o jantar e as outras fizeram o mesmo um momento depois.
      
      Zoe ligou para casa do seu quarto e ficou a saber que estava tudo bem. Inge dava o jantar a Jade nessa altura e deu o telefone  filha, que nem sequer chorou 
quando ouviu a voz da me. Pensou em falar para Sam, mas desistiu da ideia. J lhe bastavam os telefonemas dos doentes dela.
      
      Pouco antes das sete horas estavam todas de novo na sala, vestidas para o jantar. Tanya tinha umas calas de pele pretas, muito justas, e uma blusa de vaqueiro 
com contas. Calara botas de salto alto que comprara para a ocasio e os cabelos louros mantinham-se afastados da cara por meio de uma fita de veludo preta. Zoe 
vestira calas de ganga, uma blusa azul-clara, de um tecido macio, e calava botas de alpinista. Mary Stuart trazia umas calas cinzentas, uma camisola bege e calava 
sapatos Chanel. Ficavam, como sempre sucedera, surpreendentemente bem ao lado umas das outras. Eram compatveis, embora fossem totalmente diferentes. Havia uma espcie 
de fuso entre elas que mesmo agora, com a fenda aberta entre duas, era ainda mais forte do que elas prprias. Tanya sabia que se as suas duas amigas fossem honestas 
consigo prprias admitiriam que sentiam isso mesmo. Ela sentia-o, achava que havia um cordo invisvel entre as trs que as unia. Quando voltou  sala, Mary Stuart 
fazia perguntas a Zoe a respeito da clnica e esta falava animadamente acerca dela, enquanto Mary Stuart a ouvia, fascinada.
      
      - Que grande empreendimento - dizia Mary Stuart com admirao. Mas quando se sentaram  mesa, na sala de jantar, ficaram ambas caladas, como se se tivessem 
lembrado de que no deviam estar a falar uma com a outra. Porm, pouco a pouco, foram tomando parte na conversa. Tanya contou-lhes acerca da sua prxima tourne 
e do filme em que provavelmente iria entrar dentro de pouco tempo. As duas ficaram entusiasmadas. Era bvio que eram verdadeiramente suas amigas e queriam proteg-la. 
A mesa delas ficava a um canto da sala e, apesar de repararem que muitas cabeas se voltavam, ningum se aproximou para pedir autgrafos ou falar com elas, a no 
ser a directora do rancho Charlotte Collins, que lhes foi dar as boas-vindas.
      
      Era uma mulher muito interessante, de sorriso aberto e penetrantes olhos azuis que parecia ver tudo, fazer tudo e observar toda a gente. Sabia exactamente 
o que fazia cada empregado a cada momento e aquilo de que cada hspede necessitava. E conseguia, de certo modo, coordenar as duas coisas ao mais alto grau. Tanya 
estava imensamente impressionada com tudo isso, bem como as amigas, e todas exprimiram a sua admirao.
      
      - Espero que gostem da vossa estada aqui connosco - respondeu ela. - E muito importante para ns.
      
      Claro que nem Zoe nem Mary Stuart tiveram coragem de lhe perguntar os horrios dos avies para a manh seguinte.
      
      - Informar-me-ei na recepo amanh, depois do pequeno-almoo - disse Mary Stuart quando Charlotte Collins se afastou. Havia muito tempo e ela poderia ir de 
avio at Los Angeles e passar uma noite no Beverly Wilshire. Ou ir at Denver. E a viagem de Zoe era bem simples. Regressaria pelo mesmo caminho que a levara ali, 
mas em sentido contrrio.
      
      - No quero falar disso agora - declarou gravemente Tanya. - Quero que as duas pensem bem no que esto a fazer. Tm assim tantas amigas que possam perder uma 
pessoa que conheceram metade da vida?
      
      Mas o que as separara fora brutal e Tanya sabia isso. No entanto, no queria que a zanga entre as duas melhores amigas durasse indefinidamente. Tinham o dever 
de acabar com ela. Todas precisavam umas das outras e no podiam afastar-se para sempre.
      Depois conversaram a respeito de outras coisas, sobre Alyssa, durante um bocado, e sobre Jade, mas no sobre Todd. Nem Tanya nem Mary Stuart falaram dos maridos. 
Conversaram acerca de viagens, de msica, de amigos comuns, de livros, da clnica de Zoe. Depois comearam a falar de reminiscncias da faculdade. Das pessoas que 
mais tinham detestado, das engraadas, dos marres, dos cales, dos cmicos e dos heris. Alguns dos rapazes que tinham conhecido na escola haviam morrido no Vietname 
pouco antes de a guerra terminar. 
      
      Fora especialmente cruel perder entes queridos nas ltimas horas da guerra, mas isso sucedera. Outros tinham falecido mais tarde. Vrios membros da classe 
delas haviam morrido com cancro e Zoe parecia estar ao corrente do assunto. Tivera conhecimento desses casos por intermdio da comunidade mdica ou atravs de amigos, 
ou talvez por viver em So Francisco e muitos dos seus colegas nunca de l terem sado. Fora uma viagem curta e fcil de Berkeley para a cidade. Durante toda a conversa 
nenhuma delas mencionou Ellie. Continuaram a falar de outros amigos at chegarem  cabana, e s quando se encontravam de novo na sala de estar  que Tanya abordou 
o assunto. Sabia que todas pensavam em Ellie e que seria mais fcil se algum falasse nela. E foi o que fez.
      
      -  espantoso, mas depois destes anos todos ainda sinto a falta dela.
      
      Houve um longo silncio e Mary Stuart disse que sim com a cabea, murmurando:
      
      - Tambm eu.
      
      Com efeito, Ellie fora a alma e o corao do grupo formado por elas. Fora sempre a mais meiga de todas e, contudo, era frequentemente quem mais animava uma 
festa. Era uma rapariga divertida e endiabrada, capaz de ir a uma festa vestida apenas com tinta branca. Fizera isso uma vez, e noutra ocasio fora  igreja com 
um abajur enfiado na cabea. Fazia coisas tolas, loucas, que as obrigavam a rir, e logo a seguir era capaz de as pr a chorar. Destroara o corao de todas elas 
quando morrera, especialmente o de Mary Stuart, a sua melhor amiga e companheira de quarto. E ficaram todas sentadas na sala, em silncio, pensando nela, quando 
Zoe quebrou esse pesado silncio.
      
      - Quem me dera saber nessa altura o que sei agora - disse em voz baixa, voltando-se para Mary Stuart, enquanto Tanya as observava. - No tinha o direito de 
te dizer o que disse. Agora at me custa a acreditar como fui estpida. Tenho pensado muitas vezes nisso. Estive at para te escrever uma carta quando um doente 
meu se suicidou. Foi como que uma vingana de Deus por eu ter sido to cruel e to m para ti, como se Ele quisesse dar-me uma lio, ensinar-me que o que sucedeu 
com Ellie no foi culpa de ningum, que no o podamos ter evitado, mesmo que quisssemos. Talvez o consegussemos fazer por algum tempo, mas no fim ela acabaria 
por fazer o que queria. Quando era nova, eu era muito ignorante. Pensava que uma de ns se devia ter apercebido, que tu devias, visto seres mais ntima dela. No 
compreendia como  que no tinhas visto que ela tomava drogas e bebia. Creio que o devia fazer h muito, sem que ningum desse por isso. Talvez pudesse no ter morrido. 
Mas no era isso que ela queria. Ela conseguiu, de facto, realizar o seu desejo. - Ao ouvir as palavras de Zoe, Mary Stuart comeou a chorar. Parecia-lhe que ela 
falava a respeito de Todd, mas Zoe no sabia disso. Tanya passou-lhe um brao por cima dos ombros, carinhosamente. - Devia ter-te escrito, Stu - continuou Zoe com 
lgrimas nos olhos. - Nunca perdoei a mim mesma o que te disse, e acho que tu tambm no me perdoaste. No te censuro - acrescentou, tristemente. A morte de Ellie 
destroara-as e Zoe mostrara-se cruel para com Mary Stuart, acusando-a de no ter percebido que Ellie se queria suicidar. No funeral, recusara-se mesmo a sentar-se 
ao lado dela. Mary Stuart ficara acabrunhada pelas acusaes e acreditara em Zoe. Levara anos a ultrapassar a sensao de ter falhado em salvar a vida da amiga. 
Era quase como se tivesse sido ela a mat-la. E anos mais tarde voltara a suceder-lhe o mesmo com Todd. Aquele horror parecia no mais ter fim. Mas desta vez fora 
ainda pior e fora Bill a acus-la, no Zoe. - Tenho tanta pena - disse Zoe, atravessando a sala e indo sentar-se ao lado de Mary. - Tenho querido dizer-te isto durante 
toda a noite. No me posso sentir bem comigo mesma enquanto no te tiver dito que procedi mal, que fui muito estpida. Tens razo em me teres odiado durante todos 
estes anos. Peco-te que me perdoes.
      
      Zoe disse as ltimas palavras a chorar. Era importante para ela confessar os seus pecados e ficar em paz com as pessoas a quem ofendera. E durante toda a sua 
vida tinham sido muito poucas.
      
      - Obrigada por me dizeres isso. - Mary Stuart abafou um soluo e abraou Zoe. - Mas eu sempre me considerei culpada. Como podia no me ter apercebido do que 
Ellie estava a fazer? Como podia ser to cega?
      
      Eram as mesmas perguntas que fizera a si prpria quando o filho morrera. A morte do filho fora, em certo sentido, muito semelhante  de Ellie. Parecia-lhe 
um pesadelo que se repetia. Apenas nunca acordava desse pesadelo. Ele prolongava-se indefinidamente.
      
      - Ela era muito astuta e queria morrer - disse simplesmente Zoe. O seu contacto com os doentes ensinara-lhe muita coisa nas ltimas duas dcadas. - No a podias 
ter impedido.
      
      - Quem me dera acreditar nisso - murmurou Mary Stuart tristemente, sem saber bem se estava a falar do filho ou da sua antiga companheira de quarto.
      
      - Eu sei - afirmou Zoe com a mesma determinao que vinte anos antes revelara. - Ela no queria que tu soubesses o que andava a fazer. Se quisesse, tu podias 
t-la impedido, mas assim era impossvel.
      
      - Quem me dera t-lo feito - murmurou Mary Stuart olhando para as mos entrelaadas, enquanto Zoe e Tanya a fitavam. Esta ltima tinha uma expresso preocupada. 
- Quem e dera poder faz-lo - repetiu. - Das duas vezes.
      
      Ergueu os olhos para as amigas e estas viram a angstia profunda que se estampava neles.
      
      - Ambas as vezes? Que queres dizer com isso, Mary Stuart? - Zoe ficou confusa. Mary Stuart no disse nada e as outras ficaram caladas,  espera. Ento, Mary 
Stuart fitou-a e Zoe compreendeu. Compreendeu o tormento que Mary Stuart tinha sofrido. A morte do filho fizera-a reviver tudo o que se passara com Ellie, mas agora 
era muito pior. Ao perceber o que havia sucedido Zoe comeou a soluar. - Oh!, meu Deus - sussurrou, abraando a amiga e chorando as duas. - Oh!, Deus... Stu... 
perdoa...
      
      - Foi terrvel - murmurou Mary Stuart por entre os soluos... - Terrvel... E Bill disse-me as mesmas coisas que tu e mais ainda... - Mary Stuart soluava 
de tal maneira que parecia que o seu corao se ia partir. Mas ela sabia que isso no sucederia, pois se o corao se pudesse partir, isso j lhe teria acontecido 
h muito tempo. - Bill continua a culpar-me - explicou. - Odeia-me. Est agora em Londres sozinho, porque no pode suportar olhar para mim, e no o censuro. Pensa 
que fui eu que matei o nosso filho, ou, pelo menos, que o deixei morrer... exactamente o que tu pensaste a respeito de Ellie.
      
      - Eu era uma tola nessa altura. Tinha vinte e dois anos e era totalmente ignorante e estpida. Bill devia compreender melhor - replicou Zoe, ainda abraada 
a Mary.
      
      - Ele acha que eu o podia ter impedido...
      
      - Ento  preciso que algum lhe conte a verdade a respeito dos suicdios. Stu, se ele estava realmente disposto a matar-se, nada nem ningum o poderia deter. 
Se ele se queria matar no te daria qualquer aviso.
      - E no deu - disse tristemente Mary, assoando-se ao leno de papel que Tanya lhe entregou.
      
      - No podes culpar-te. Tens de tentar aceitar o que se passou. E algo que no podes alterar. No o podes fazer agora e no o podias ter feito ento. Podes 
apenas seguir em frente, continuar a viver, antes que te destruas e destruas tudo  tua volta.
      
      - Na verdade, quanto a isso temos feito um bom trabalho - murmurou, limpando os olhos e sorrindo por entre as lgrimas. - Do nosso casamento no resta nada. 
Absolutamente nada!
      
      - Se Bill te culpa, algum tem de falar com ele - disse Zoe.
      
      - Sim, provavelmente o meu advogado - retorquiu Mary Stuart com um sorriso triste. Parecia um pouco mais aliviada e segura de si. - Decidi desistir de me atormentar. 
Vou-lhe dizer isso mesmo quando ele voltar de Londres.
      
      - Que est ele a fazer em Londres? - quis saber Zoe, curiosa. Achava que no era l que eles viviam.
      
      - Tem um julgamento importante em Londres e vai l estar dois ou trs meses, mas no quis que eu o acompanhasse.
      
      Zoe ergueu uma sobrancelha e pareceu a rapariga desconfiada que fora vinte anos antes. Tanya pensou que abrandara bastante com a idade, mas ainda havia nela 
muito do seu antigo temperamento.
      
      - Andar metido com outra pessoa?
      
      - Na verdade, creio que no. H um ano que no fazemos amor. Desde a vspera da noite em que Todd morreu. Desde ento nunca mais me tocou. E um castigo, uma 
punio que me d. Penso que se sente to revoltado que no  capaz de me tocar. Mas no acredito que haja outra pessoa. Isso seria mais fcil de compreender do 
que o que se tem passado.
      
      - No concordo - retorquiu Zoe, mostrando o seu lado clnico. - H pessoas que ficam geladas depois de grandes traumas. E um comportamento tpico. J ouvi 
falar disso. No entanto, no  boa teraputica para um casamento.
      
      - Realmente, no - concordou Mary com um leve sorriso. - Mas, de qualquer modo, acho que j sei o que devo fazer. Ele no mais me perdoar e eu talvez consiga 
ultrapassar o meu sentimento de culpa. No entanto, viver com ele  viver todos os dias com a minha culpa, e eu no posso fazer isso.
      
      - Nem deves - replicou calmamente Zoe. - Ou ele fala sinceramente contigo, ou  melhor deix-lo. Creio que pensas bem - concluiu. - E a tua filha?
      
      Mary Stuart suspirou.
      
      - Provavelmente vai achar que sou eu a culpada pelo divrcio. No creio que possa compreender como o pai tem sido mau para mim. Acha apenas que tem muito trabalho. 
Eu tambm pensei isso, ao princpio. Mas ele tomou bem claro o que sentia. No posso continuar a viver l em casa. Deixei de ser a mulher dele. No falamos, no 
vamos a lado nenhum, ele no quer estar comigo. S de ver a expresso com que me olha, sinto-me agredida.
      
      - Ento sai - afirmou decididamente Zoe. No se viam h vinte anos, mas parecia que o tempo tinha voltado para trs e estavam no princpio.
      
      - Se Bill te faz to infeliz, ficas melhor sem ele - disse gentilmente Tanya. - Eu sobrevivi. Tu tambm sobrevivers. Sobrevivemos todas!
      - Somos casados h vinte e dois anos. E doloroso ver desaparecer assim uma to grande parte da nossa vida!
      
      - Parece que isso j sucedeu h um tempo - disse Zoe com a sua habitual franqueza. Mary Stuart concordou com um gesto e Tanya tambm no pde discordar.
      
      Depois de ter partido para Londres, Bill raras vezes lhe telefonara. E quando o fazia estava sempre com pressa, sem saber o que dizer. Ultimamente, Mary Stuart 
decidira enviar-lhe faxes, como fizera nessa noite, apenas para confirmar o local onde se encontrava. Mas mesmo assim ele no lhe respondia.
      
      - Ainda s nova - disse Tanya encorajadoramente. - Podes encontrar algum que queira estar junto de ti e tens uma vida inteira  tua frente.
      
      Mary Stuart disse que sim com a cabea, desejando poder acreditar. No imaginava que algum pudesse querer estar com ela, depois do modo como Bill a via.
      
      - Parece-me que  chegada a altura de avanares - disse Zoe. Mary Stuart tinha de concordar com elas, mas lamentava que isso lhe tivesse acontecido tantos 
anos depois de casada. Detestava ter de dizer a Bill que se ia embora, fazer as malas, contar a Alyssa que se iam divorciar. Era tudo to difcil! E estremecia s 
com a perspectiva de sair com outro homem. Era uma ideia quase insuportvel. Mas estava na mesma situao de Tanya. S que ela era Tanya Thomas e Mary Stuart disse 
isso mesmo.
      
      - Ests a brincar? - exclamou Tanya. - Ainda no sa com ningum desde que Tony se foi embora. Todos tm medo de num. Ningum me quer convidar para sair, a 
no ser algum cabeleireiro, para depois se poder gabar de ter sado com Tanya Thomas. Sou um bocado como o monte Evereste. Ningum l quer viver, mas todos gostam 
de dizer que o escalaram!
      Riram todas com as palavras de Tanya e Mary Stuart ficou sem saber se se sentia melhor ou pior. S por ter falado nos seus planos, dava-lhe a sensao de que 
eram definitivos. De certo modo parecia-lhe uma traio a Bill, que nem sequer sabia o que ela estava a sentir e a pensar fazer no fim do Vero. Pelo menos tinha 
tempo de pensar no assunto, enquanto ele estava em Londres.
      
      As trs mulheres ficaram sentadas na sala a conversar durante muito tempo. Nada foi resolvido, mas a amizade entre elas ficou restaurada e nenhuma voltou a 
falar em ir embora na manh seguinte. O pedido de desculpas de Zoe fora muito importante para Mary Stuart. E Zoe ficara profundamente comovida por saber como as 
suas palavras tinham angustiado a amiga durante tantos anos e que a situao se tornara ainda pior por o filho se ter suicidado,  semelhana de Ellie. A vida era 
muito cruel, por vezes. Isso sempre a preocupara, sobretudo por ser to afortunada para outras pessoas. De manh, quando o telefone tocou, s seis horas, foi Zoe 
quem atendeu. Estava habituada a despertar imediatamente quando o telefone tocava durante a noite. As outras duas ainda dormiam.
      
      - Est?
      
      - Zoe?
      
      Era Sam, e ela pensou logo em Jade e ficou apavorada... seria uma apendicite?... Teria havido um tremor de terra?
      
      - Jade est bem? - Foram as primeiras palavras que pronunciou. Era como se Jade fosse sua filha natural. Gostava dela como se a tivesse tido e sentia as preocupaes 
de qualquer me.
      
      - Est ptima. Lamento ter-te assustado, mas vim telefonar-te para te dizer uma coisa que sei que gostarias de saber, embora seja uma notcia triste. Quinn 
Morrison morreu h uma hora. Morreu pacificamente, rodeado pela famlia. Foi pena no estares aqui com ele, mas eu fiz tudo quanto pude. O corao no aguentou mais. 
- Sam sabia que Zoe ficaria aborrecida com ele se no lhe contasse. A morte de Quinn acabara por ser misericordiosa, e ela sabia-o, mas tinha sempre pena das pessoas 
que morriam, das velhas, das novas e especialmente das crianas. Quinn Morrison tinha setenta e quatro anos, tivera uma vida cheia e a sida s lhe estragara um ano 
da sua existncia, que acabara por no ser muito mais curta do que a de muitas pessoas que tinham doenas diferentes. Mas, de qualquer maneira, ela ficava sempre 
triste, com uma sensao de perda e de ter sido derrotada. Era um sentimento que lhe era familiar, pois perdia muitos doentes devido  terrvel doena. - Ests bem? 
- perguntou Sam, preocupado.
      
      - Estou. S tenho pena de no ter estado junto dele.
      
      - Eu sei. Por isso  que te estou a falar. Mas Quinn disse-me que estava contente por teres ido para Wyoming.
      
      Zoe sorriu. Ele era mesmo assim. Tinha passado o ano todo a dizer-lhe para se casar e ter filhos.
      
      - E os outros, esto todos bem?
      
      - Peter Williams passou uma noite bastante m. Tem outra vez pneumonia. Vou intern-lo na clnica amanh de manh.
      
      Williams tinha trinta e um anos, mas tambm j entrara na fase terminal da doena. O seu caso era mais perturbador por ser to novo.
      
      - Parece que tiveste uma noite bem ocupada...
      
      - O costume - respondeu Sam, sorrindo. Mas gostava do que fazia. Para isso  que estudara medicina. - E tu? Ests a gostar? J encontraste muitos cowboys
      
      - S um. Parecia ter doze anos e dois metros de altura, um rapazinho do Mississipi. E incrvel isto aqui. Mas estou a gostar muito.
      
      - Como est a tua amiga?
      
      - ptima. E fez-me uma surpresa. Outra das nossas companheiras de quarto de Berkeley. E uma longa histria. Eu e ela no nos falvamos h vinte anos. Quando 
me viu quis ir-se embora no avio seguinte para Nova Iorque. Mas creio que fizemos as pazes a noite passada. Eu fui realmente m para ela h vinte anos. Nunca tinha 
perdoado a mim prpria por isso. E foi realmente bom pr tudo para trs das costas.
      
      - Bem, acho que tambm estiveste muito ocupada - disse afectuosamente Sam.
      
      - Sim, creio que sim.
      
      - Vai dormir outra vez. Desculpa ter-te acordado to cedo.
      
      Para ele eram apenas cinco e meia e esperava poder ir deitar-se um bocado. Mas quisera contar-lhe o que sucedera a Quinn Morrison logo aps a sua morte. Sabia 
que Zoe gostaria que ele o fizesse.
      
      - Obrigada por telefonares, Sam. Fico-te muito grata. Sei que fizeste tudo o que era possvel por ele. Eu nada mais teria podido fazer.
      
      Zoe estava a ser amvel ao dizer aquelas palavras e Sam sentiu-se reconfortado. Zoe era uma boa pessoa.
      
      - Obrigado, Zoe. E cuida de ti. Mais tarde telefono-te outra vez.
      
      Sam desligou, sentindo-se triste ao pensar nela. Admirava-a e gostava muito dela, mas parecia no conseguir aproximar-se mais. E, ao mesmo tempo, apercebia-se 
da solido dela. Havia em Zoe uma vulnerabilidade especial, dava a sensao de que se escondia atrs de qualquer coisa e que ele nunca a conseguiria encontrar.
      
      No preciso momento em que Sam se estava a deitar, Zoe encontrava-se de p na sala, vendo o Sol despontar atrs das Grand Tetons. As lgrimas corriam-lhe lentamente 
pelas faces ao presenciar a beleza daquele espectculo. Pensou em Quinn Morrison e na vida que ele tivera. Tinha pena que tivesse morrido, tinha pena de todos eles. 
Havia tanta dor na vida...
      
      Ellie... Todd... e todos os desgostos que presenciara. Mas, ao mesmo tempo, havia aquela beleza esmagadora. E, subitamente, ficou satisfeita por estar ali. 
Sucedesse o que sucedesse, vira uma vez na vida o Sol nascer por detrs daquelas belssimas montanhas. Era impossvel no saber que havia Deus ao ver tal maravilha. 
Voltou em bicos dos ps para o seu quarto e estendeu-se na cama, pensando em Sam e olhando para as montanhas.















Captulo 12
      
      Depois do telefonema de Sam, nessa manh Zoe deitou-se e voltou a adormecer mais um bocado, mas acordou outra vez no momento em que Mary Stuart saa do seu 
quarto. Apercebeu-se de que algum se levantara e saiu da cama. As duas mulheres encontraram-se na cozinha, onde Mary Stuart fazia caf. Quando viu Zoe, sorriu-lhe. 
A mdica parecia mais descansada e com um aspecto surpreendentemente jovem.
      
      - Queres que te faa um caf? - perguntou Mary Stuart. - Tambm h ch, se preferires.
      
      Ambas encheram as respectivas canecas com caf fumegante.
      
      - Tanya ainda no se levantou? - perguntou Zoe, e sorriram as duas. - Acho que h coisas que nunca mudam...
      
      Estavam ambas em camisa de noite e Mary Stuart olhou para a sua velha amiga com ar srio. Haviam estado afastadas durante tantos anos... Depois disse:
      
      - No, no mudam. Estou satisfeita por ter vindo. Muito satisfeita - concluiu, fitando-a nos olhos.
      
      - Tambm eu, Stu. Quem me dera no ter sido to estpida como fui! Tenho pena de no nos termos encontrado durante tantos anos, mas sinto-me feliz por esta 
sombra entre ns ter desaparecido.
      
      Ellie morrera havia mais de vinte anos e as antigas desavenas deviam ter desaparecido tambm. Olhando agora para trs, tudo isso lhe parecia uma tolice e 
uma pattica perda de tempo.
      
      - Ela  uma espertalhona, no ? - disse Mary Stuart, rindo. - Viemos todo o caminho juntas e nunca me deu a entender absolutamente nada. Antes de eu concordar 
em vir, reparei que ela disse vrias vezes "ns", mas pensei que se referisse aos garotos. E a secretria tambm falou no plural e em trs quartos, mas nunca me 
passou pela cabea que ela tivesse convidado outra pessoa, por isso, quando Alyssa cancelou a viagem e fiquei sem nada que fazer, resolvi aceitar o convite de Tanya.
      
      - Para mim tambm foi bom - murmurou Zoe. Lembrou-se do sol a iluminar as montanhas nessa manha, quando Sam lhe telefonara a dizer-lhe da morte de Quinn Morrison. 
Contou isso a Mary Stuart enquanto as duas bebiam vagarosamente o caf, sentadas ao balco da cozinha.
      
      - O teu trabalho deve ser deprimente - disse, por fim, Mary Stuart. - Admiro-te por o fazeres, mas  um combate que nunca podes vencer.
      
      Pensou em como foi horrvel quando Todd morrera e disse para consigo que no poderia suportar aquilo todos os dias. Mas  claro que Todd era seu filho, no 
um doente seu.
      
      - Podemos vencer durante uns tempos. As pequenas vitrias que conseguimos ensinam-nos a sermos mais determinados na nossa luta. Outras vezes perdemos.
      
      Perdia muitas vezes. Era inevitvel. Mas, frequentemente isso tinha que ver com as circunstncias e com o facto de o paciente e a famlia estarem preparados. 
No caso de Quinn era chegada a altura. O que mais lhe custava era perder crianas e jovens, aqueles que ainda tinham muito para viver, aprender e dar. Como ela prpria. 
Ainda no aceitara bem essa ideia.
      
      - Tiveste sorte em ter encontrado o caminho certo para ti h tanto tempo - disse Mary Stuart, invejando-a, mas sentindo-se bem na companhia de Zoe. Era fcil 
recordarem como tinham sido to amigas. O que se passara entre elas parecia-lhe agora sem importncia. Com toda a honestidade, achava que isso desaparecera para 
sempre. - Em Nova Iorque fao trabalho voluntrio em hospitais, trabalho para obras de caridade e fao parte de vrios comits, mas estou a pensar em arranjar um 
emprego. Ainda no sei bem o que poderei fazer. At agora tenho sido sobretudo mulher e me.
      
      - Isso no  mau... - Zoe sorriu, apercebendo-se de como sentira a falta de uma amiga como Mary Stuart. E, no inesperado crepsculo da sua vida, compreendia 
como precisava das duas amigas agora. As circunstncias eram ainda mais dramticas por ela sempre haver pensado que tinha muito tempo  sua frente, e de repente 
saber que no teria. Depois acrescentou em voz alta: - Ser mulher e me tambm  um emprego.
      
      - Bem, nesse caso, creio que o meu est praticamente terminado - retorquiu Mary Stuart. - Alyssa  uma adulta, Todd desapareceu, e nem sequer sou j uma esposa 
para Bill. Vivemos apenas na mesma casa e o meu nome continua nos impressos dos impostos. Subitamente sinto-me intil.
      
      - Mas no s. Talvez seja chegada a altura de te mudares.
      
      Zoe tinha razo, mas Mary Stuart pensara muito no assunto e o problema era no saber para onde ir ou o que fazer.
      
      - Tenho perguntado a mim mesma o que hei-de dizer a Bill quando ele voltar, onde irei viver, o que irei fazer. Agora nem sequer me apetece falar com ele. Mas 
ele tambm no quer falar comigo. Raramente telefona. Deve estar a sentir o mesmo que eu e no o quer dizer. Deve ter percebido que est tudo acabado.
      
      - Talvez seja melhor perguntares-lhe - aconselhou Zoe, olhando para o relgio e pensando a que horas se iria levantar Tanya. - Sabes a que horas  que  o 
pequeno-almoo?
      - Creio que  s oito horas. - Eram sete e meia e elas ainda tinham de se vestir. Mary Stuart olhou para a amiga com uma expresso intrigada e perguntou afectuosamente: 
- Vais-te hoje embora?
      
      Houve uma longa pausa e Zoe abanou a cabea:
      
      - S vou se tu preferires que eu v. Mas  contigo. Tu  que vieste de mais longe. Se algum tiver de partir, devo ser eu.
      
      - Eu quero que fiques Zoe - respondeu Mary Stuart com um sorriso meigo. - E tambm gostaria de ficar. Esqueamos tudo o que se passou. ramos ambas amigas 
de Ellie e ela gostaria que estivssemos todas juntas. De ns todas era ela a mais meiga, a mais bondosa e altrusta. Ficaria com o corao destroado se soubesse 
que no nos falvamos h vinte anos por causa dela.
      
      Era verdade e ambas o sabiam. Zoe pensava nela, de testa franzida.
      
      - Merecia ficar com o corao destroado, depois do que nos fez. Acho que fui to m para ti por estar furiosa com ela e no poder dizer-lho.
      
      - Passei pelo mesmo com Todd. Durante os primeiros seis meses sentia-me zangada com toda a gente. Com Alyssa, com as amigas dela, comigo prpria, com a empregada, 
com o co, com Bill - disse tristemente. - E Bill ainda est zangado. Creio que ir continuar assim toda a vida.
      
      - Talvez ele esteja petrificado - replicou afectuosamente Zoe. - Eu estive. Senti-me assim durante vrios meses e quando voltei a mim cada uma de ns tinha 
ido para seu lado. Tu tinhas casado, eu estava na Faculdade de Medicina e fui deixando o tempo passar. Achei que era mais fcil. Talvez se esteja a dar o mesmo com 
Bill.
      
      - Talvez. - Era uma avaliao possvel e Mary Stuart concordou com um gesto. - Acho que ele saiu pela porta fora h uns tempos e que eu no me apercebi - disse 
em voz baixa. Depois sorriu e olhou novamente para o relgio. Eram agora sete e quarenta e tinham de se arranjar para o pequeno-almoo. - Que dizes a irmos acordar 
a Bela Adormecida?
      
      Sorriam. Foram em bicos dos ps at ao quarto de Tanya e colocaram-se uma de cada lado da grande cama. Tanya tinha uma camisa de cetim branco e uma mscara 
de beleza na cara. Quando quiseram acord-la, parecia que a estavam a despertar do mundo dos mortos.
      
      - Oh! Acabem com isso... detesto-as... parem com isso... - Zoe fazia-lhe ccegas nos ps e Mary Stuart atirava-lhe almofadas. Pareciam duas midas e Tanya 
ficou irritada quando tentou esconder-se debaixo da roupa da cama e no conseguiu. - Parem... parem... Estamos a meio da noite... que disparate  este?
      
      Tanya sempre fora difcil de acordar de manha e elas tinham-na arrancado muitas vezes  fora da cama, para no faltar s aulas.
      
      - Tira a mscara - disse Mary Stuart. - O pequeno-almoo  daqui a quinze minutos e os folhetos que nos deram dizem que temos de estar nas cavalarias s oito 
e quarenta e cinco para escolhermos os cavalos. Tira o rabo da cama e arranja-te!
      
      Mary Stuart parecia ter assumido o comando e Zoe puxava-lhe por um brao para a puxar da cama. Tanya tirou a mscara e olhou para uma e para outra.
      
      - Ouvi dizer que amos s cavalarias? Isso significa que ficam?
      
      - Plos vistos, no podemos fazer outra coisa - respondeu maliciosamente Zoe, olhando para Mary Stuart. - Se nos formos embora tu dormes toda a semana e s 
sais da cama  hora do jantar. Sabemos que detestas cavalos e no queremos que passes as frias sentada no Jacuzi a ver televiso.
      
      - Parece-me uma excelente ideia! - exclamou Tanya, sorrindo, orgulhosa das suas amigas. Passados tantos anos tinham-se reconciliado e restaurado a sua amizade. 
- Porque  que no combinamos encontrar-nos  hora do almoo? Pensei em fazer um tratamento facial.
      
      - Tire-me esse rabo da cama Miss Thomas - ordenou Mary Stuart. - Tem exactamente vinte minutos para lavar os dentes, escovar o cabelo e vestir-se.
      
      - Cus! Que  isto? Vim para o exrcito? Sabia que no as devia ter convidado s duas. Podia ter trazido pessoas simpticas, que me tratassem bem e me deixassem 
dormir. Eu sou uma pessoa muito importante.
      
      - Quem te disse isso? - perguntou Mary Stuart com um grande sorriso. - Sai da cama e j! Mais tarde poders tomar um duche.
      
      - Lindo! Vou passar a cheirar a cavalo. Esperem at que os jornais descubram isso!...
      
      Mary Stuart e Zoe olhavam-na, com as mos nas ancas, enquanto Tanya saa com relutncia da cama espreguiando o belo corpo e bocejando. Depois dirigiu-se para 
a casa de banho, a resmungar.
      
      - Vou-te arranjar uma chvena de caf - disse Zoe, dirigindo-se para a cozinha.
      
      - E melhor injectar-mo nas veias, doutora - respondeu Tanya, acendendo a luz da casa de banho e vendo-se ao espelho. - Oh!, Deus, parece que tenho duzentos 
anos! Chamem depressa um cirurgio plstico!
      
      - Ests fantstica! - replicou Mary Stuart, rindo. Tanya era muito bonita, mas o mais engraado  que no estava convencida disso. Achava-se realmente feia 
e Mary e Zoe sempre tinham rido dela por causa disso.
      
      - Reparem no meu aspecto s oito da manh e sem maquilhagem!
      
      Mary Stuart franziu o sobrolho para a sua imagem no espelho. Escovara o cabelo at ele brilhar, a sua pele era ainda bonita e pusera apenas um pouco de bato 
rosado. Vestira uma camisa de homem de um tecido macio, azul-claro, e umas calas de ganga impecavelmente passadas. As botas eram de pele de lagarto, compradas recentemente 
no Billy Martins's.
      
      - Olha para ti - queixou-se Tanya enquanto lavava os dentes e sujava a camisa de noite de dentifric. - Parece que acabaste de sair das pginas da Vogue.
      
      - Ela faz isto para nos sentirmos mal - disse Zoe, entregando uma chvena com caf a Tanya. Estavam habituadas. Mesmo na universidade, Mary Stuart andava sempre 
impecavelmente arranjada. Era o seu estilo e, de facto, todos gostavam. Era uma inspirao para todas elas. E os rapazes adoravam...
      
      Zoe vestira umas calas de ganga com buracos nos joelhos, urna velha camisola confortvel e umas botas de cowboy que tinha h anos. O seu cabelo de um ruivo-escuro, 
estava puxado para trs. Tinha um aspecto asseado e descontrado e aparentava sentir-se bem assim, mas ambas sorriram quando viram Tanya sair da casa de banho, cinco 
minutos depois. Mesmo sem maquilhagem e depois de ter sido arrancada da cama  fora, o seu aspecto era sensacional. Tanya era, na verdade, uma estrela, mesmo que 
no quisesse parec-lo. O seu espesso cabelo louro caa-lhe naturalmente at aos ombros. No teve tempo de o prender e parecia ter sido propositadamente penteado 
assim. Vestira uma T-shirt branca, muito justa, que no era de modo nenhum indecente, mas to sexy que nenhum homem deixaria de voltar a cabea  sua passagem. As 
calas de ganga eram exactamente da medida certa, nem demasiado justas, nem largas, deixando adivinhar as suas belas pernas, as ndegas arredondadas, a cintura estreita. 
Calara as velhas botas amarelas e pusera ao pescoo um pequeno leno vermelho. Os brincos eram umas simples argolas de ouro. Pegou no bluso de ganga que levara, 
ps os culos escuros, o seu velho chapu e, quando ficou pronta para sair, parecia preparada para fazer um anncio sobre um rancho de luxo.
      
      - Se no gostasse tanto de ti, detestava-te - disse com admirao Mary Stuart, enquanto Zoe sorria. Todas elas eram mulheres bonitas, mas no havia que neg-lo: 
Tanya tinha algo de especial.
      
      - Nunca consegui perceber como fazes isso - declarou Zoe, no mesmo tom afectuoso de Mary Stuart. Nunca houvera a mais leve sombra de inveja entre elas. Vinte 
anos antes, as quatro eram como irms. - Sempre pensei que, se te visse vestir, aprenderia o que fazes - continuou Zoe ao sarem do quarto -, mas  como um desses 
truques de magia que podemos ver milhes de vezes sem conseguirmos perceber como  que o coelho aparece. Es a nica pessoa capaz de entrar numa casa de banho e sair 
de l trs minutos depois parecendo uma estrela de cinema. Eu podia l passar uma semana que continuaria a sair de l igual, bem arranjada, decente, penteada, com 
a maquilhagem bem posta, mas continuando a ser eu. Mas tu apareces como uma princesa de um conto de fadas.
      
      -  o milagre da cirurgia plstica - respondeu Tanya, sorrindo, satisfeita com as palavras das amigas, mas sem acreditar nelas. Porm, eram simpticas em diz-las. 
- Se corrigirmos tudo o que est mal no nosso rosto, nem precisamos de maquilhagem.
      
      - Nada disso - emendou Mary Stuart. - J aos dezanove anos te sucedia o mesmo. Levantavas-te da cama parecendo um caterpillar e logo que os teus ps tocavam 
no solo transformavas-te em borboleta. Sei exactamente o que Zoe quer dizer. Mas tu s demasiado insegura para o saberes e acreditares no teu encanto. Por isso  
que gostamos tanto de ti!
      
      - Oh!, julguei que era por causa do meu sotaque... - declarou Tanya. Com efeito, tinha ainda um ligeiro sotaque do Sul. Os seus admiradores gostavam, sobretudo 
quando cantava. - Nem posso crer que me tiraram da cama a uma hora destas! No pode ser bom para a sade, especialmente a esta altitude. No  bom para o meu corao 
- queixou-se Tanya, enquanto as acompanhava, um pouco ofegante, na subida da encosta de uma pequena elevao, em direco ao edifcio principal.
      
      - Pelo contrrio, faz-te bem  sade - retorquiu Zoe, sorrindo para Mary Stuart. - Logo  noite j estars habituada. Mas no deves tornar bebidas alcolicas.
      
      - Porqu? - perguntou Tanya, admirada. Habitualmente no bebia, mas sentia curiosidade em saber porqu.
      
      - Porque aos primeiros trs goles vais ficar toldada e fazes figura de parva - explicou Zoe, rindo e recordando uma ocasio em que ela ficara inconsciente, 
num baile, e a tinham levado para casa, onde vomitara para cima da cama de Zoe, que ficara furiosa com ela. Mary Stuart e Zoe riam e Tanya mostrava-se um tanto envergonhada, 
embora j tivessem passado mais de vinte anos.
      
      Tanya ainda tentou dizer-lhes que nessa altura estava com gripe, mas elas responderam-lhe que estava apenas bbada, quando entraram as trs na sala de jantar 
do rancho, como uma viso de beleza.
      
      Havia pessoas sentadas s mesas e outras a servirem-se no bufete. Estavam todos calados e com aspecto sonolento, exceptuando alguns hspedes aqui e ali, que 
pareciam mais animados e eram obviamente pessoas habituadas a levantar-se cedo. Corriam rumores de que Tanya Thomas se encontrava no rancho, mas ningum estava preparado 
para a ver em pessoa. Rindo com as amigas, Tanya estava to descontrada, to bonita e to espantosamente jovem que toda a gente parou para a olhar. Zoe teve subitamente 
pena dela. Ela e Mary cerraram fileiras em tomo da amiga e foram ocupar uma mesa distante, a um canto. Mary Stuart ficou sentada  mesa, com Tanya, enquanto Zoe 
foi buscar o pequeno-almoo, mas a sala inteira ficou subitamente a olhar para a mesa delas, ao mesmo tempo que se ouvia sussurrar. Ambas perceberam que aquilo no 
devia ser fcil para a amiga.
      
      - O que  que pensas que sucederia se eu de repente me levantasse e cantasse para eles? - sussurrou Tanya, de costas voltadas para a sala e com os culos escuros 
postos. Colocara o chapu nas costas da cadeira e, mesmo vista por detrs, era espectacular. Era uma verdadeira estrela e toda a gente o sabia.
      
      - Acho que causarias uma grande impresso - respondeu Mary Stuart.
      
      Conversaram tranquilamente at Zoe chegar com um tabuleiro com trs iogurtes, carnes frias e bacon.
      
      - Mandei fazer ovos mexidos e cereais para as trs - declarou Zoe. Tanya ficou horrorizada.
      
      - Depois disto terei de passar seis meses numa clnica de emagrecimento. No posso comer isso tudo ao pequeno-almoo!
      
      - Faz-te bem - afirmou Zoe com toda a calma. - Ests a adaptar-te  altitude e vais fazer exerccio. Come um pequeno-almoo substancial. Ordens da mdica!
      
      
      Zoe estava a seguir esse conselho para si prpria. Tanya pegou num dos iogurtes.
      
      - No tenciono engordar cinco quilos aqui - insistiu Tanya. Mas a verdade  que tinha mais fome do que julgava e minutos depois serviu-se de uma salsicha. 
Zoe voltara ao bufete para ir buscar mais e Tanya olhou-a sombriamente quando ela voltou para a mesa. Sabia, mesmo sem ver, o que estava a suceder  sua volta. - 
E muito mau?
      
      - O qu? A comida? Creio que  boa - respondeu Zoe, surpreendida. Achava que todos os alimentos tinham um excelente aspecto: o bacon, os pastis e os ovos 
que acabavam de chegar tinham um cheiro delicioso. Mas Tanya no se referia aos alimentos. Referia-se s pessoas.
      
      - No estou a falar de comida, tola.
      
      - Oh! - Zoe compreendeu e olhou para Mary Stuart, enquanto comeava a comer os ovos. No tencionava contar a Tanya a reaco dos outros hspedes. - Oh!, isso! 
Talvez se preparem para fazer uma corrida.
      
      - Digam-me o que se passa, para eu saber com o que posso contar. As pessoas parecem amigveis?
      
      Esperava que os hspedes se desinteressassem dela. s vezes sucedia isso, mas outras vezes tinha de ir embora para outro stio, e agora no tencionava faz-lo. 
Esperara no dar nas vistas e passar despercebida entre as outras pessoas, mas j vira que era impossvel.
      
      - Bem, vejamos - disse Zoe, admirada com a reaco das pessoas quando estavam perto de Tanya. - Quatro mulheres querem saber se o teu cabelo  verdadeiro, 
dois dos maridos discutiam se fizeste ou no alguma coisa ao peito, ou se  mesmo assim. Outro gosta do teu rabo. Trs mulheres afirmam que fizeste uma cirurgia 
plstica  cara, mas outras cinco acham que no. H um grupo de adolescentes mortinhas por te pedirem um autgrafo, mas as mes dizem que as matam se elas o fizerem. 
Alm disso, todos os criados esto j apaixonados por ti e acham que s lindssima. Creio que  tudo. Oh!, esqueci-me do cozinheiro mexicano que fez estes ovos, 
que gostaria de saber se s de origem hispnica. Disse-lhe que pensava que no, e ele ficou verdadeiramente desapontado.
      
      Tanya ouvia-a, sorrindo. Zoe estava a exagerar um bocadinho, mas provavelmente no andava muito longe da verdade. Era sempre assim. Contudo, desde que se mantivessem 
 distncia, talvez no ficassem com as frias estragadas.
      
      - Diz ao tipo que gosta do meu rabo que ele  verdadeiro e se quiser posso enviar uma cpia  secretria dele.
      
      - E a respeito dos seios? - perguntou Zoe com ar srio. - Ests preparada para fazer um depoimento acerca deles?
      
      - Diz-lhes para lerem a revista People. Aparecerei l na edio da prxima semana.
      
      - Est bem. E h uma mulher que quer saber o teu signo. Jura que s Peixes, como a irm dela. Diz que parecem gmeas. Quer mostrar-te uma fotografia.
      
      - No posso crer! - exclamou Mary Stuart, admirada.
      
      - Como  que suportas isto?
      
      - No suporto. Sou um pouco louca - disse Tanya com um sorriso, comendo um bocadinho de papas de aveia. - Dizem que nos habituamos, e talvez tenham razo. 
No sei.
      
      A verdade  que ela estava disposta a aceitar muita coisa, s quando a perseguiam ou a atacavam cruelmente  que ficava magoada. E o problema era quase sempre 
esse. As perguntas, os signos, os pedidos de autgrafos eram inofensivos.
      
      - Eu dava em doida - disse com sinceridade Zoe. - Ficava sempre com pena de ti quando via o teu nome nos jornais.
      
      - Tambm eu - afirmou, por sua vez, Mary Stuart. - As vezes agarro num monte desses jornais, no supermercado, e escondo-os.
      
      Tanya sorriu para as duas amigas. Era espantoso que, depois de estar h duas dcadas em Holywood e conhecer tanta gente, ainda fossem aquelas duas mulheres 
as pessoas de quem mais gostava no mundo, junto das quais se sentia melhor e mais protegida.
      
      - No sei como se aprende a viver com isto - declarou Tanya com um suspiro. - Ainda me custa muito ver as mentiras que escrevem a meu respeito. Faz-me ter 
vontade de fugir, de me esconder. As vezes penso em voltar para o Texas. Mas o meu agente diz-me que agora  impossvel escapar  notoriedade. Sou demasiado conhecida, 
e h muito tempo. Acha que se eu me retirasse continuavam a assediar-me durante muito tempo, por isso penso que no vale a pena faz-lo. Pelo menos assim posso cantar 
e ganhar algum dinheiro.
      
      - Algum dinheiro? - exclamou Mary Stuart, rindo. Algum dinheiro, para Tanya, era uma fortuna para os outros. Tanya viu as amigas rirem e riu tambm.
      
      - Pronto, posso ganhar muito dinheiro. Que diabo, tenho que ter algumas compensaes!
      
      - Esta  uma delas - murmurou Zoe olhando  sua volta, agradecida por se encontrar ali. - Sabes, se no fosses tu, provavelmente no teria mais frias durante 
onze anos. Foi uma deciso inesperada, mesmo para mim.
      
      - O que  que te fez decidir vir? - perguntou Tanya, pois esquecera-se de lhe perguntar. Zoe hesitou apenas uma fraco de segundo.
      
      - Tive uma gripe e sentia-me muito em baixo. Alm disso, arranjei um mdico excelente para me substituir. Costuma faz-lo ocasionalmente. Ganha a vida assim, 
a substituir outros mdicos, durante folgas ou frias. No tem clientela prpria. Mas  um ptimo mdico. Foi ele que me incitou a vir. Como me tinhas convidado...
      
      - Deve ser boa pessoa - disse Tanya. -  casado?
      
      - No, mas no anda a passear com os meus doentes. Trata-os.
      
      Tanya sempre fora casamenteira. J na universidade gostava de arranjar encontros entre duas pessoas que achasse compatveis.
      
      - No me estou a referir aos doentes. E tu? Tens sado com ele?
      
      O radar infalvel de Tanya captara qualquer coisa.
      
      - No. Andei com um cirurgio durante algum tempo. Mas no era nada de srio e acabou.
      
      Mary Stuart soubera do caso de Zoe com Adam, mas desde ento no tivera conhecimento de mais nenhum amor na sua vida. Perguntara a Tanya se havia algum homem 
na vida de Zoe e ela dissera-lhe que no.
      
      - As mdicas nunca saem com ningum a no ser com mdicos? - perguntou Tanya. - So como os actores. Falam sempre das mesmas coisas. Deve ser montono...
      
      - No , no. Fora da profisso  difcil entenderem-nos. As nossas horas de trabalho, as presses. Na verdade, os nossos interesses so muito limitados.
      
      - Ento que tal  esse tipo que te substitui de vez em quando. E giro? - quis saber Tanya.
      
      - Oh!, deixa-te dessas coisas - replicou Zoe. - E apenas um mdico.
      
      - Mas tu coraste! - acusou Tanya, enquanto Mary Stuart se ria. - Ah!, deve ser giro e no  casado. Qual  o aspecto dele?
      
      - Parece um urso de pelcia. E grande e corpulento, com cabelo e olhos castanhos. Ests satisfeita? Jantmos juntos uma vez e no tenciono andar com ele, o 
que, de resto, ele sabe.
      
      Zoe respondeu desembaraadamente  sua velha amiga, mas Tanya no estava disposta a dar o interrogatrio por findo.
      
      - Porqu? Ele no ... Bem... em So Francisco podia ser...
      
      Tanya falou hesitantemente, como que a desculpar-se, e Zoe soltou um gemido.
      
      - s insuportvel. No ... o que insinuaste. Tem bom aspecto. E solteiro e eu no estou interessada. Est bem? Ponto final!
      
      Zoe mostrou-se firme com a amiga, mas ela no quis saber. Tanya achava que Zoe gostava dele, apesar de protestar tanto.
      
      - Porqu? Por que motivo no ests interessada? Tem algum defeito grave? Mau hlito? Modos grosseiros? Cadastro prisional? Algo que devemos saber para concordar 
com a tua atitude, ou ests apenas a ser difcil?
      
      - No tenho tempo para andar com ningum. Trabalho o dia todo e tenho uma filha.
      
      - Isso  uma atitude terrvel - ralhou Tanya. - No podes viver sozinha toda a tua vida. No  saudvel.
      
      - No acredito nisso. Sou uma mulher de meia-idade e posso fazer o que quero. Sou demasiado velha para namorar. E, alm disso, no quero.
      
      - Obrigada por me avisares - replicou Tanya, afastando o prato. Tinha comido tudo, at mesmo os ovos. - Tens s mais um ano do que eu, por isso j sei que 
daqui a um ano estar tudo acabado para mim. E a propsito, se te atreveres a dizer a algum que tenho a tua idade, mato-te.
      
      - No te preocupes - retorquiu Zoe, sorrindo. - No acreditariam em mim.
      
      - Podia ser que acreditassem, mas nessa altura eu dizia que eras uma mentirosa compulsiva. Bem, quero saber como se chama esse mdico substituto. Deve ser 
formidvel!
      
      - Sam. E tu ests louquinha.
      
      - Diz aos tablides. Gosto dele. Parece-me ptimo.
      
      - No sabes nada sobre ele - replicou Zoe com firmeza, tentando manter-se calma. No sabia porqu, mas Tanya tinha a habilidade de a enervar. Sempre fora capaz 
de o fazer.
      
      - Sei que ests assustada com ele, o que significa que deve ser um relacionamento srio. Se fosse um pateta no te importarias. Creio que sabes que seria perfeito 
para ti. H quanto tempo o conheces?
      
      - Desde a Faculdade de Medicina. Andmos juntos em Stanford.
      
      Zoe no percebia como estava a responder s perguntas dela e Mary Stuart sorria, retocando o baton. Era como nos velhos tempos. Costumavam ter discusses daquelas 
ao pequeno-almoo em Berkeley. Tanya estava to apaixonada por Bobby Joe que achava que toda a gente devia estar apaixonada, noiva ou para casar. No tinha mudado 
muito.
      
      - Conhecem-se desde a Faculdade de Medicina? Porque  que no houve nada entre vocs at agora? - Tanya parecia quase ofendida.
      
      - Porque estivemos ambos envolvidos com outras pessoas, outras vidas. Deixei de saber dele durante uns tempos e agora trabalha ocasionalmente para mim. E uma 
pessoa simptica, mas nada mais. E agora vamos ver os cavalos, ou ficamos todo o dia a falar sobre Sam?
      
      - Penso que devias sair com ele e dar-lhe uma oportunidade - resmungou Tanya, levantando-se da mesa. Havia muitos anos que no se divertia tanto, nem as outras. 
- Voto por Sam. Temos de voltar a falar disto noutras ocasies.
      
      - Sem falta! - respondeu Zoe, erguendo os olhos para o cu, enquanto se dirigiam para as cavalarias. Foram as ltimas a chegar e o aparecimento de Tanya causou 
novamente sensao. Houve murmrios, pessoas a olharem-nas, garotos a acotovelarem-se e a apontarem de dedo espetado. Algumas pessoas tentaram fotograf-la, mas 
ela esquivou-se habilmente. No se importava de ser fotografada com admiradores, de tempos a tempos, mas no estava disposta a permitir que se intrometessem na sua 
vida particular, e ali estava decididamente "fora de servio". "A estrela est fora", cantarolou ao ouvido de Zoe. Mas as suas duas amigas eram hbeis em bloquear 
a passagem, e as trs encontraram-se finalmente num canto afastado, enquanto a empregada que dirigia o servio ia chamando plos nomes das pessoas, para indicar 
quais eram os seus cavalos. Na noite anterior todos tinham preenchido formulrios que desresponsabilizavam o rancho por qualquer acidente e explicavam os seus conhecimentos 
ou desconhecimento relativamente a cavalos.
      
      Tanya escreveu: "Sei montar/ Tenho receio/ S montarei em nvel intermdio na companhia de amigas." Tanto Mary Stuart como Zoe montavam bastante bem. Mary 
Stuart tinha mais experincia, mas havia anos que no montava e s o fizera em Inglaterra. Zoe montara vrias vezes, mas no recentemente. E nenhuma delas estava 
ansiosa por provar fosse o que fosse. Queriam apenas passear por trilhos fceis. A empregada do rancho explicara-lhes que se encontravam ali muitos hspedes na altura 
e que seria difcil mand-las acompanhar separadamente das outras pessoas, mas Tanya dissera-lhe que no se importava de ir com um grupo. Se comeassem a incomod-la 
ou a querer tirar-lhe fotografias, poderia optar por deixar de fazer esses passeios a cavalo. Mas estava disposta a tentar.
      
      Os nomes delas foram os ltimos a ser chamados e na altura s faltavam outros trs hspedes. A directora da cavalaria foi falar pessoalmente com Tanya, enquanto 
um rapaz alto, de cabelo escuro, conduzia o cavalo para junto dela.
      
      - Quisemos que partissem primeiro os grupos mais numerosos - explicou Liz Thompson. Era uma mulher alta e magra, com um aperto de mo vigoroso e um rosto de 
quem vivia a maior parte do tempo ao ar livre. Devia ter pouco mais de cinquenta anos. - Pensei que no gostasse de ter cinquenta pessoas a tirarem-lhe fotografias 
enquanto montava - disse sensatamente. Tanya agradeceu-lhe. - Reparei que no tem grande paixo por cavalos - continuou Liz, sorrindo -, mas creio que temos aqui 
um velho amigo para si.
      
      Tanya no percebeu bem se ela se referia ao cavalo, se ao homem que o trazia, mas era bvio, olhando para o homem, que no se referia a ele. Com efeito, devia 
ter cerca de quarenta anos, era alto, de ombros largos e bem constitudo. Alm disso, tinha um rosto bronzeado, interessante. Olhando-o mais de perto reparou que 
era at bem-parecido. As mas do rosto eram talvez um pouco largas e o queixo demasiado proeminente, mas o conjunto era harmonioso. Tanya viu que ele a olhava com 
interesse, mas sem agressividade. Quando lho perguntou, ele disse-lhe que era texano e, de facto, falava de uma maneira levemente arrastada, um pouco semelhante 
 dela. Mas tinham nascido em lados opostos do estado e ele no se mostrou inclinado a falar mais sobre o assunto. A maior parte das pessoas tentava encontrar algo 
de comum com ela. Ele parecia apenas interessado em selar o cavalo, ajustar os estribos e fazer com que os outros montassem. E assim que Tanya se sentou em cima 
de Big Max, que era o nome do cavalo dela, ele afastou-se. Tanya s ficou a saber o seu nome quando outro cowboy o chamou. Era Gordon.
      
      A Zoe coube uma gua malhada cheia de vivacidade, mas Liz garantiu-lhe que era amigvel e Zoe parecia surpreendentemente confortvel sobre a sela. Mary Stuart 
montava um palomino. Big Max era um cavalo preto, grande, de longa crina e cauda quase a roar pelo solo. Tanya vira-o agitar-se um pouco, na cavalaria, e receava 
que ele no fosse to manso como Liz dissera. No queria andar a lutar contra um cavalo selvagem por aquelas montanhas. Liz explicara-lhe que Big Max se aquietaria 
logo que sasse dos estbulos, pois no gostava de l estar. 
      
      A directora da cavalaria mostrava-se muito atenciosa para com Tanya, muito mais do que Gordon, que se ocupava dos outros trs hspedes que tinham ficado em 
ltimo lugar, um casal de meia-idade, que se apresentou como Dr. Smith e Dr. Wyman, mas que pareciam ser casados. Eram at parecidos um com o outro, o que divertiu 
Tanya, que murmurou qualquer coisa ao ouvido de Zoe. E havia tambm um homem sozinho. Parecia ter uns cinquenta e cinco anos e Mary Stuart no conseguia deixar de 
olhar para ele. Tinha a sensao de o conhecer. Era alto, magro, e possua uma abundante cabeleira grisalha e penetrantes olhos azuis. Era um homem bem-parecido 
e at Tanya teve de admitir que tinha um ar distinto. Reparou que ele notara a presena dela e sorriu ao descobrir de quem se tratava, mas no se aproximou. Parecia 
igualmente interessado nas outras. S quando j iam a caminho  que Mary Stuart aproximou o seu cavalo do de Tanya e murmurou:
      
      - Sabes quem ? - Finalmente lembrara-se. Tinha-o visto uma vez, mas parecia-lhe diferente. Tanya no o conhecia. Olhou-o mais uma vez e abanou a cabea, em 
resposta. -  Hartley Bowman.
      
      Tanya levou um instante a recordar-se, forando-se a no virar a cabea para o olhar de novo.
      
      - O escritor? - sussurrou. Foi a vez de Mary Stuart dizer que sim com a cabea. Dois dos livros dele encontravam-se agora na lista dos best-sellers. E tinha 
uma carreira altamente respeitada.
      
      -  casado? - quis saber Tanya. Mary Stuart ergueu os olhos para o cu. A amiga era incorrigvel.
      
      - Vivo.
      
      Mary Stuart lembrava-se de ter lido que a mulher dele morrera de cancro na mama, um ou dois anos antes. Lera na revista Time ou na Newsweek. Como escritor 
era extremamente considerado. Mary Stuart achava-o interessante e gostaria de conversar com ele, mas no queria comportar-se como as pessoas que incomodavam Tanya.
      
      Mary Stuart e Tanya seguiram lado a lado durante um bocado. Zoe comeara j a conversar com os dois mdicos de Chicago. Tanya tinha razo. Os mdicos gostavam 
muito de conversar uns com os outros. Eram ambos oncologistas e a mulher j tinha ouvido falar na clnica de Zoe. Conversavam animados, enquanto os cavalos percorriam 
tranquilamente o caminho habitual atravs do vale. Em tomo deles estendiam-se campos salpicados de flores azuis e amarelas e as enormes montanhas, com os seus picos 
cobertos de neve, pareciam olh-los com complacncia.
      
      - E incrvel, no ? - Mary Stuart ouviu uma voz atrs de si e sobressaltou-se. Tanya passou por ela em direco ao cowboy que acompanhava o grupo. Big Max 
cansara-se de andar a passo de caracol e ela dera-lhe rdea solta por alguns minutos, o que fizera com que Mary Stuart ficasse sozinha, mas no por muito tempo. 
Hartley Bowman encontrava-se ao seu lado. - J tinha aqui estado? - perguntou com ar casual, como se fossem conhecidos de h muito. A verdade  que o ambiente no 
rancho era bastante informal.
      
      - No, nunca - respondeu calmamente Mary. - E um stio encantador.
      
      Mary no pde deixar de olhar de relance para ele enquanto cavalgava a seu lado. Era, com efeito, um homem bem-parecido. Tinha um aspecto agradvel e impecvel. 
Possua bonitas mos, reparou Mary ao v-lo segurar as rdeas. E uma maneira de montar muito inglesa. Disse-lhe isso e ele riu.
      
      - Nunca me sinto perfeitamente  vontade com selas ao estilo do Oeste. Costumo montar em Connecticut - declarou. Mary Stuart disse que sim com a cabea. Ento 
ele perguntou: - E da costa ocidental?
      
      Sentia-se intrigado com ela e com as suas companheiras. Reconhecera imediatamente Tanya e achava que Mary Stuart estava de certo modo deslocada no grupo. Mas 
no quis fazer perguntas.
      
      - Sou de Nova Iorque. Vim passar aqui duas semanas.
      
      - Tambm eu - retorquiu ele, sorrindo, perfeitamente  vontade. - Venho todos os anos. Eu e a minha mulher gostvamos muito disto, mas  a primeira vez que 
venho desde a morte dela. - Mary Stuart suspeitava de que lhe custava muito estar ali sem a mulher, mas ele no disse nada sobre isso. Mary imaginava que, estando 
habituado a estar ali com algum, se devia sentir muito s. - Vem muita gente do Leste para aqui. Vale realmente a pena fazer a viagem. Eu venho por causa das montanhas. 
H nelas algo de curativo. No tencionava voltar c mais, e o ano passado no vim, mas este ano senti-me compelido a vir. Precisava de estar aqui. - O escritor disse 
estas palavras com ar pensativo, como se se sentisse surpreendido consigo mesmo por ali estar. - Normalmente prefiro o ar, mas existe algo de mgico em Wyoming e 
nestas montanhas.
      
      Mary sabia exactamente o que ele queria dizer. Desde o dia anterior que sentia o mesmo. Talvez fosse por isso que Jackson Hole comeara a ser to popular nos 
ltimos tempos. Era como a atraco por Meca.
      
      -  engraado ouvi-lo dizer isso - confessou Mary, sentindo-se estranhamente  vontade com ele, dado serem dois estranhos. Mas ele era uma pessoa to aberta... 
- Eu tambm senti o mesmo. Senti-o ontem, quando chegmos. E como se as montanhas estivessem aqui  nossa espera... como se lhes pudssemos contar os nossos problemas 
e elas quisessem abraar-nos.
      
      Mary receou ser tomada por tola, mas ele concordou com um simples baixar da cabea.
      
      - Deve ser difcil para a sua amiga o gnero de ateno que lhe dispensam - disse ele afectuosamente. - Reparei na transformao que se deu nas pessoas que 
se encontravam na casa de jantar quando vocs ontem entraram. Sem se aperceberem disso, as pessoas tomam atitudes perfeitamente idiotas. No consegue passar um momento 
sem que as pessoas queiram aproximar-se dela, tirar-lhe fotografias, tentarem tomar parte da sua aura.
      
      Era uma anlise interessante e verdadeira. Mary Stuart ficou intrigada por ele a fazer to claramente.
      
      - Deve ser difcil para qualquer pessoa que seja muito conhecida - respondeu Mary, sem lhe querer dizer que o reconhecera, que lera os seus ltimos livros 
e que gostara bastante. No queria que julgasse que falava com ele por se tratar de uma pessoa conhecida. Convivendo com Tanya h tantos anos, sabia bem o que as 
pessoas na situao deles sentiam.
      
      - Tem as suas desvantagens - retorquiu. Depois olhou para Mary Stuart com um sorriso. Percebera perfeitamente que ela sabia quem ele era. - Mas eu no estou 
na situao dela. Poucos esto. S muito poucas pessoas no mundo tm de suportar o que ela suporta. Mas parece aceit-lo de bom grado.
      
      - Pois  - respondeu firmemente.
      
      - Trabalha com ela?
      
      No queria mostrar-se curioso, mas tentava descobrir se as duas mulheres que se viam constantemente ao lado de Tanya Thomas eram suas assistentes.
      
      - Fomos companheiras de quarto na universidade - explicou Mary com um sorriso.
      
      - E ainda so amigas? E espantoso. E uma verdadeira histria, mas... - acrescentou apressadamente, antes que ela se assustasse - para um livro, no para os 
jornais.
      
      - Obrigada. Ela  constantemente injuriada. E to injusto!
      - Logo que algum se torna uma estrela, certa imprensa deixa de a encarar como um ser humano. E tratado como lixo - concluiu tristemente.
      
      Mary Stuart concordou com um gesto.
      
      - Ela costuma afirmar que " passar a vida como um objecto". Diz que a transformam numa coisa e que depois tudo quanto lhe possam fazer  permitido. Ela suporta 
muita coisa. No sei como o consegue!
      
      - Deve ser forte - replicou, sorrindo para Mary Stuart e admirando a sua aparncia impecvel. Gostava do estilo dela, mas no se atrevia a dizer-lho. - E tem 
a sorte de possuir boas amigas.
      
      - E ns temos sorte por a ter como amiga - disse Mary Stuart, sorrindo de novo. - Foi inteiramente ocasional termos vindo. Foi tudo decidido no ltimo minuto.
      
      - Que sorte para ns - disse ele. - Vocs as trs melhoram visivelmente a paisagem. - Olhou para Tanya, que ia mais adiante, cavalgando airosamente ao lado 
do cowboy. Mary Stuart reparou que eles no iam a conversar. - E uma mulher fantasticamente bonita.
      
      Era evidente que no podia deixar de a admirar e Mary Stuart concordou, com um sorriso, sem qualquer sombra de inveja.
      
      - Tenho todos os CD's dela - confessou, mostrando-se ligeiramente embaraado. - Gosto realmente da msica dela.
      
      - E eu tenho todos os seus livros - retorquiu Mary, corando.
      
      - Tem? - Ele ficou obviamente satisfeito e estendeu-lhe a mo, apresentando-se, o que no era necessrio, mas apenas uma questo de boas maneiras. - Hartley 
Bowman.
      - Eu sou Mary Stuart Walker.
      
      Apertaram as mos por cima dos pescoos dos cavalos e continuaram o caminho, conversando afavelmente. Tanya e o acompanhante do grupo iam mais  frente e os 
mdicos tinham ficado para trs, discutindo artigos, questes de pesquisa e novas descobertas feitas recentemente em oncologia em Mast General.
      
      Mary Stuart e Hartley conversaram durante um bocado a respeito de livros, de Nova Iorque, de outros autores e da Europa. Quando Mary Stuart disse que a filha 
estudava em Paris, isso foi o ponto de partida para inmeros outros assuntos, e ficaram ambos surpreendidos quando o acompanhante voltou lentamente para trs e os 
conduziu de novo para a cavalaria. Estava quase na hora do almoo. Hartley e Mary Stuart continuavam ainda a conversar quando desmontaram e ela reparou numa expresso 
estranha no rosto de Tanya enquanto entregava as rdeas ao cowboy.
      
      - Ests bem? - perguntou quando Tanya se aproximou dela. Depois de ser apresentada a Hartley Bowman, Tanya disse:
      
      - Eu estou bem. Mas este homem que nos acompanhou  uma pessoa estranha. No foi capaz de me dizer uma nica palavra durante todo o caminho e procedeu como 
se eu tivesse peste bubnica ou coisa semelhante. Deve detestar-me!
      
      Mary Stuart riu da avaliao da situao. Nunca conhecera um homem que detestasse Tanya. Pelo menos no primeiro encontro.
      
      - Talvez seja tmido - lembrou Mary Stuart. - Pareceu-me bastante agradvel. No  conversador, pronto!
      
      - Muitos deles so assim - explicou Hartley. - Nos primeiros dias mal nos falam, e quando nos vamos embora  como se fssemos irmos. No esto habituados 
aos modos das pessoas das grandes cidades e no so to faladores como ns.
      
      Tanya sorriu-lhe.
      
      - At pensei que tinha dito alguma coisa que o ofendesse - Tanya parecia ligeiramente preocupada.
      
      - Suspeito de que Liz lhe tenha recomendado para ter cuidado na maneira de tratar consigo. Deve ser impressionante para estes rapazes estarem junto de uma 
grande estrela como voc. - Hartley sorriu, o que o rejuvenesceu, apesar do cabelo grisalho. Depois acrescentou: - Tenho todos os seus discos Miss Thomas. E gosto 
imenso deles.
      
      - Tambm j li os seus livros e gosto deles. Gosto mesmo muito - respondeu Tanya com um sorriso. Ficava sempre surpreendida quando uma pessoa importante se 
mostrava impressionada com ela. Nunca compreendia bem isso. Sentia uma certa timidez diante de Hartley. Ambos estavam pouco confortveis com os seus respectivos 
sucessos. O escritor parecia muito mais  vontade com Mary Stuart do que com Tanya. Depois, quando Zoe foi ter com elas, dizendo que passara uma ptima manh e que 
gostara muito de falar com os dois mdicos, Mary Stuart apresentou-a a Hartley.
      
      - Qual  a sua especialidade? - perguntou-lhe o escritor enquanto se dirigiam vagarosamente para as cabanas para se arranjarem para o almoo.
      
      - Sida - respondeu simplesmente Zoe - e problemas relacionados com a doena. Tenho uma clnica em So Francisco.
      
      Ele disse lentamente que sim com a cabea. Pensava h muito em escrever um livro sobre esse assunto, mas ainda no se decidira a iniciar a necessria pesquisa. 
Porm, ficou visivelmente fascinado com o trabalho dela e fez-lhe inmeras perguntas. Ficou com pena de as deixar em frente da casa, e disse que se encontrariam 
 hora do almoo. Tanya viu-o afastar-se lentamente, de cabea baixa e ar meditativo.
      
      - Que homem interessante - comentou, enquanto tirava o leno que tinha ao pescoo. O tempo aquecera desde manh.
      
      - E doido pela tua msica - disse Mary Stuart encorajadoramente. Gostaria de ver Tanya com algum como Hartley, embora tivesse de admitir que tinham pouco 
em comum. Hartley era muito delicado e muito ocidental, intelectual, mas ao mesmo tempo mundano, e muito educado. Tanya era muito mais exuberante e sensual, no 
selvagem, mas cheia de vida. Precisava de um homem mais forte para a dominar, ou, pelo menos, faz-la feliz.
      
      - Pode ser doido pela minha msica - replicou sensatamente Tanya -, mas est interessado  por ti. Est-lhe escrito na cara. No tirava os olhos de ti!
      
      - Que disparate! Est intrigado com as trs. Acha-nos uma espcie de Anjos de Charlie.
      
      - Aposto o teu dinheiro em corno ele vir ter contigo antes de sares daqui - declarou Tanya completamente segura de si, o que fez com que Zoe, que lavava 
as mos na cozinha, erguesse os olhos para o tecto.
      
      - Vocs as duas so insuportveis. No pensas em mais nada, querida?
      
      - No - respondeu Tanya com um sorriso malicioso. - Sexo. S sexo. L os jornais! - Mas elas sabiam que no era assim. Tanya sempre fora e continuava a ser 
uma rapariga cheia de moralidade. Talvez ainda mais do que as outras. E sempre fora mongama. - S estou a dizer o que vejo - insistiu Tanya. - O homem est doido 
por Mary Stuart!
      
      - Como  que pode estar doido por mim? Foi a primeira vez que o vi!
      
      - Bem, a mulher dele morreu h dois anos, no foi? Por isso ele deve estar doido de todo. Tem cuidado com ele, Stu. Poder ser violento...
      
      Mary Stuart e Zoe riram com gosto, enquanto Tanya prendia o forte cabelo louro no alto da cabea, ficando com um ar ainda mais sexy do que tinha de manh.
      
      - Porque  que no usas um saco enfiado na cabea, ou coisa assim? - exclamou Mary Stuart, fingindo-se irritada. - No sei porque me dou ao trabalho de me 
pentear, se tu ficas assim, sem sequer olhares para o espelho.
      
      - Sim. E v l para que me serve isso: o homem que nos acompanhou no pronunciou uma nica palavra. Oh!, at pensei que tinha os lbios selados. No disse 
nada, absolutamente nada. Que antiptico!
      
      - Agora tambm andas a tentar laar cowboys? - perguntou Zoe com ar severo.
      
      Tanya mostrou-se ofendida.
      
      - Eu s queria algum com quem conversar. Esse tal escritor, seja ele quem for, conversava animadamente com Mary; os mdicos falavam contigo de assuntos repugnantes, 
que s de pensar neles me faz dar a volta ao estmago, e eu fiquei s com aquele Roy Rodgers. Bem, digo-lhes que merece um zero em conversao.
      
      - Sempre  melhor do que se se mostrasse atrevido contigo - replicou sensatamente Zoe. - Ou se fosse um dos teus loucos fs a fazer-te perguntas estpidas.
      
      - Sim - concordou Tanya. - Mas, de qualquer modo, foi aborrecido.
      
      Ouviram tocar o sino para chamar para o almoo e quando se preparavam para sair o telefone tocou. Olharam as trs umas para as outras, tentadas a no atenderem, 
mas sabiam que tinham de o fazer, e Zoe disps-se a faz-lo. Podia ser Sam, por causa de algum doente, ou por causa de Jade. Mas era a secretria de Tanya. Precisava 
de falar com ela sobre um contrato. Ia enviar-lhe os originais para ela assinar, por causa da tournee; um exemplar do Federal Express, a pedido do advogado, que 
queria falar com ela logo que Tanya o tivesse lido. Quando a ouviu, Tanya ficou logo nervosa.
      
      - Est bem, quando chegarem dou-lhes uma vista de olhos.
      
      - Ele quer que lhos devolva logo que os leia.
      
      - Est bem. Eu mando. Mais alguma coisa importante que eu deva saber? - perguntou Tanya. Uma das empregadas que despedira concordara em no a processar, o 
que era bom. A Vogue e a Harper's Bazaar queriam ambas entrevist-la, e uma das revistas de cinema andava a fazer perguntas para escrever um artigo sobre ela. - 
Obrigada pelas boas notcias - disse Tanya, detestando ouvir aquilo. As palavras de Jean tinham-lhe feito recordar o feio mundo de que queria fugir, ali, em Wyoming. 
Estava ansiosa por desligar e ir ter com as amigas.
      
      - Est tudo bem? - perguntou Mary Stuart, olhando-a com ar apreensivo. Tanya parecia outra vez preocupada e Mary Stuart detestava v-la assim.
      
      - Mais ou menos. Por agora no tenho mais ningum a processar-me, e uma revista qualquer procura escrever uma histria feia sobre mim. Nada de muito importante, 
creio.
      
      Mas era como se lhe partissem a alma de cada vez que a caluniavam ou difamavam. E um dia acabaria por nada lhe restar da sua prpria alma. Mas para os outros 
no faria diferena.
      
      - No lhes ds ateno - sugeriu Zoe. - No leias o que escrevem.
      
      Quando ela fundara a clnica tinham surgido algumas criticas desagradveis a seu respeito, mas no era a mesma coisa, e Tanya sabia isso melhor que ningum.
      
      Os ataques que faziam a Tanya eram pessoais, ofensivos, e magoavam-na profundamente.
      
      - Tenta esquecer - disse Mary Stuart. E saram de casa de brao dado; dirigiram-se para a casa do rancho conversando animadamente. Entraram assim na casa de 
jantar, sem fazerem ideia da impresso que causavam. Eram trs mulheres muito interessantes. Da sua mesa, sem que elas o vissem, Hartley Bowman no tirava os olhos 
de Mary Stuart.













Captulo 13
      
      O passeio que deram nessa tarde foi to agradvel como o da manh. Os grupos foram organizados da mesma maneira, com os mesmos acompanhantes. Seria assim durante 
toda a permanncia ali. Os cavalos tambm seriam sempre os mesmos. Liz, a directora da cavalaria, quis saber se toda a gente estava satisfeita e ningum apresentou 
qualquer reclamao.
      
      Zoe voltou a conversar com o casal de mdicos e Tanya tentou no os ouvir, pois o tpico da conversa centrava-se nos transplantes, o que no era melhor que 
o da amputao de membros, tema da conversa matinal. Tentando distanciar-se de Mary Stuart e de Hartley, que falavam de um livro que ambos tinham lido, Tanya encontrou-se 
de novo ao lado do cowboy que os acompanhava. Mais uma vez percorreram o que lhe pareceu milhas em silncio. Finalmente, sem poder suportar mais aquilo, Tanya olhou-o 
por cima do pescoo do cavalo, mas ele nem voltou a cabea. Era como se no soubesse que ia algum ao lado. Ela ia ali como se estivesse sozinha, pois ele nem parecia 
dar pela presena dela.
      
      - H alguma coisa em mim que o incomode? - perguntou Tanya com uma expresso irritada. Ele comeava a aborrec-la. No estava a divertir-se e nem sequer simpatizava 
com ele.
      
      - No, minha senhora, absolutamente nada - respondeu o cowboy sem mudar de expresso. Tanya pensou que ele ia continuar silencioso e teve vontade de lhe dar 
um pontap. Era o homem mais taciturno que alguma vez conhecera, e no o suportava. Habitualmente as pessoas falavam com ela, ou, pelo menos, olhavam-na. Nunca encontrara 
ningum com as reaces de Gordon. Mas umas centenas de metros mais adiante, quando Tanya debatia consigo mesma se mereceria a pena tentar voltar a meter conversa 
com o seu silencioso companheiro, ele surpreendeu-a, dizendo: - E realmente uma boa cavaleira.
      Ao princpio, Tanya nem podia acreditar que ele tivesse falado, e reparou que a olhou rapidamente, de relance, voltando logo a seguir a desviar o olhar. Era 
quase como se ela irradiasse uma luz ofuscante. Era isso que o incomodava, mas Tanya no sabia.
      
      - Obrigada, eu no gosto muito de cavalos - disse Tanya, acrescentando mentalmente: "Nem de cowboys. Nem de pessoas que no falam comigo."
      
      - Vi isso no impresso, minha senhora. Alguma razo especial? Uma queda?
      
      Tanya desconfiava que era o mximo que ele dissera a qualquer pessoa durante um ano inteiro, mas, pelo menos, estava a tentar falar. Tratava-se, obviamente, 
de um homem de poucas palavras, mas comeava a pensar que Hartley talvez tivesse razo e ele fosse apenas tmido e no estivesse habituado s pessoas da cidade. 
"Ento devia ter arranjado trabalho a fazer sapatos, e no a acompanhar hspedes de um hotel", pensou Tanya, observando-o.
      
      - No. Nunca ca. Mas acho os cavalos estpidos. Em criana andei muito a cavalo, mas nunca gostei.
      
      - Eu cresci em cima de um cavalo - retorquiu ele prosaicamente. - A laar novilhos. O meu pai trabalhava num rancho e eu trabalhava ao lado dele. - Mas no 
disse que o pai morrera quando ele tinha dez anos e que fora ele quem sustentara a me e quatro irms at elas casarem, e que continuava a sustentar a me. Tambm 
no disse que tinha um filho em Montana, a quem ajudava sempre que podia. Apesar do que Tanya pensava a respeito dele, Gordon Wahsbaugh era um homem bom e inteligente. 
- A maior parte das pessoas que aqui vem diz que sabe montar, acha que sim, mas no faz ideia do que est a fazer. Quase todos acabam por morder o p e so perigosos, 
porque se podem magoar gravemente. - Era uma constatao evidente e ela sabia-o. Tanya olhou-o de lado e viu que ele sorria. - Nunca andei a cavalo ao lado de uma 
pessoa famosa. Isso toma-me um pouco nervoso.
      
      Gordon mostrava-se to sincero que Tanya se sentiu impressionada e arrependida das observaes que fizera sobre ele ao almoo.
      
      - Porqu? No h razo para tal.
      
      A noo que ele tinha sobre ela divertia-a. Era raro ver-se sob tal perspectiva. Nunca compreendera por que razo as pessoas se sentiam fascinadas ou intimidadas 
por ela.
      
      - No queria dizer nada que lhe desagradasse ou a pudesse fazer zangar.
      
      Tanya soltou uma gargalhada, no preciso momento em que entravam numa clareira. A luz iluminava os montes que os rodeavam, tomando-os ainda mais belos, e ao 
longe via-se um coiote.
      
      - Fiquei aborrecida por no ter falado comigo esta manh - confessou Tanya com um sorriso, vendo que ele a olhava de soslaio, cautelosamente. Gordon no sabia 
se poderia falar descontraidamente com ela. Percebia isso muito bem. - Pensei que me detestasse, ou coisa assim.
      
      - Porque havia de a detestar? Aqui toda a gente a quer conhecer. Compraram os seus CDs, querem pedir-lhe autgrafos. At compraram um vdeo seu. Fomos informados 
de que no devamos fazer-lhe perguntas nem aborrec-la. Achei que era melhor no lhe dizer coisa alguma. No queria ma-la. Os outros fazem figura de idiotas. 
Tentei que pusessem outra pessoa no meu lugar. No sou muito conversador. - Gordon mostrava-se to sincero que, apesar do que pensara anteriormente a seu respeito, 
Tanya simpatizava com ele. E reparava que era surpreendentemente asseado e educado para cowboy. - Lamento t-la magoado - acrescentou Gordon.
      
      Tanya ia dizer que no a tinha magoado, mas a verdade  que tinha. O facto de ele no falar com ela magoara-a, e isso era algo de novo para Tanya. - Achei 
que seria mais repousante para si se eu ficasse calado.
      
      - Bem, faa um pequeno rudo de tempos a tempos, s para eu saber que ainda respira - retorquiu Tanya com um sorriso, e ele riu.
      
      - As pessoas no a devem deixar em paz. Eu nem podia acreditar quando vi as pessoas ficarem todas loucas quando souberam que vinha para aqui. Deve ser duro 
para si - acrescentou com ar casual, indo ao cerne da questo.
      
      - De facto,  - disse Tanya com sinceridade, enquanto seguiam por um campo coberto de flores silvestres, em direco  encosta da montanha. Era como se procurasse 
a verdade ou tivesse descoberto o nirvana. Havia algo naquele lugar que a comovia profundamente. Inicialmente tivera a ideia de ir para ali para distrair os enteados, 
depois as amigas, mas agora estava a descobrir algo que a sua alma perdera h muito, uma espcie de paz que h muito esquecera. - As pessoas a quererem agarrar-me, 
tirar-me sempre qualquer coisa,  como se me quisessem sugar o esprito, embora sem o saberem... s vezes penso que um dia isso me matar, ou mesmo que algum o 
far. - O pesadelo da morte de John Lennon, assassinado por um admirador, era algo bem vivo na memria de todas as pessoas famosas, que tinham multides de admiradores, 
como ela. Mas havia outros pesadelos igualmente letais a longo prazo, embora menos bvios do que a arma que matara Lennon. - A minha vida  uma loucura - murmurou 
Tanya pensativamente. - De incio no era, mas tomou-se assim. E creio que nunca ir mudar.
      
      - Devia comprar um rancho para viver aqui - disse ele olhando em frente, em direco s montanhas. - Vm c muitas pessoas famosas para se esconderem um bocado, 
para fugirem, recuperarem o nimo. Vm para aqui, ou para o Colorado, ou Montana, com a mesma ideia. E tambm podia voltar para o Texas - concluiu, com um sorriso.
      
      - Creio que j ultrapassei essa fase - confessou Tanya com uma expresso de desagrado. Gordon riu. A gargalhada dele era um som fresco, fcil, que se lhe adaptava 
perfeitamente e que fez com que Tanya sorrisse.
      
      - Tambm acho. O Texas  demasiado quente, poeirento e deserto. Por isso  que vim para aqui. Sinto-me melhor nesta terra - acrescentou, olhando a paisagem 
que o rodeava. Era fcil ver porqu. Quem no se sentiria bem ali?
      
      - Vive aqui durante todo o ano? - perguntou Tanya. Aquela conversa agradava-lhe. Mesmo que no voltasse a v-lo, agora falavam como dois seres humanos. Ele 
sabia alguma coisa a respeito dela e ela acerca dele. Pensou que talvez escrevesse uma cano sobre ele. O Cowboy Silencioso.
      
      - Sim, minha senhora - disse ele.
      
      - E como ? - perguntou Tanya, pensando na cano.
      
      - Frio. - Gordon sorriu e olhou-a novamente de relance. Ela era to bonita que o assustava. Tornava-se mais fcil no a olhar. - As vezes chegamos a ter quase 
um metro de altura de neve. Em Outubro mandamos os cavalos para o Sul. No se pode andar de um lado para o outro, a no ser num carro para fender a neve.
      
      - Deve ser muito solitrio - disse pensativamente Tanya, tentando imaginar como seria. Aquilo ficava a anos-luz da sua manso de Bel Air, dos estdios de gravao, 
dos concertos, dos filmes. Quase um metro de altura de neve, um homem solitrio...
      
      - Eu gosto - disse ele. - Mantenho-me ocupado. Tenho muito tempo para ler, para pensar. Escrevo umas coisas. Ouo msica... - acrescentou cautelosamente, olhando-a 
de relance.
      
      - No me diga que me ouve quando est aqui, rodeado de neve por todos os lados, no Inverno!...
      
      A ideia era-lhe de tal modo estranha que a espantava. No entanto, agradava-lhe.
      
      - As vezes - confessou ele. - Tambm ouo outras coisas. Msica popular. Costumava gostar de jazz, mas agora no ouo muito. Beethoven, Mozart...
      
      Na verdade, aquele homem intrigava-a. Decididamente, tinha-o avaliado mal. Apetecia-lhe perguntar se era casado, se tinha famlia, apenas por curiosidade, 
no por ter qualquer interesse nele, mas achou que seria uma pergunta demasiado pessoal e sentia que ele ficaria ofendido. Gordon era cuidadoso em estabelecer limites 
e em escudar-se bem atrs deles. Mas antes que Tanya pudesse perguntar-lhe fosse o que fosse acerca da vida dele, os outros membros do grupo aproximaram-se.
      
      Hartley e Mary Stuart conversavam animadamente e os mdicos continuavam a falar de antigos doentes, encantados com as suas discusses. Era um grupo surpreendentemente 
bem-disposto e ficaram todos aborrecidos quando o passeio acabou. Eram quatro horas e estavam livres para irem para a piscina, fazer alpinismo ou jogar tnis, mas 
estavam todos exaustos, e o rosto de Zoe revelava isso mesmo. Desde a vspera que Tanya reparara que Zoe estava muito plida. Sempre tivera uma pele muito branca, 
mas essa palidez acentuara-se.
      
      O casal de mdicos de Chicago foi dar um passeio para apanhar flores silvestres, e Hartley acompanhou as trs mulheres at  casa delas. Ficaram surpreendidas 
ao repararem num rapazinho sentado nos degraus da entrada. Quando o viu, Mary Stuart teve uma reaco visceral. O garoto devia ter uns seis anos e parecia estar 
 espera de algum.
      
      - Ol - disse Tanya com familiaridade. - Andaste a cavalo hoje?
      
      - Sim - respondeu ele, puxando o chapu de cowboy vermelho para a nuca. Calava botas de cowboy, pretas, com pequenos bfalos vermelhos, e tinha umas calas 
e um bluso de ganga. - O meu cavalo chama-se Rust.
      
      - E tu, como te chamas? - perguntou Zoe, sentando-se ao seu lado, contente por descansar um momento. A altitude dificultava-lhe a respirao.
      
      - Benjamin - respondeu ele com ar srio. - A minha me vai ter um beb e no pode andar a cavalo. - O garoto estava mais que disposto a dar a informao e Zoe 
e Tanya entreolharam-se, sorrindo. Mary Stuart estava parada a pouca distncia, falando com Hartley, mas tinha a testa franzida, sem se aperceber disso. O rapaz 
parecia-se tanto com Todd quando tinha a mesma idade que o corao se lhe apertou. Tanya pensou isso mesmo, mas no disse nada a Zoe, com receio de que Mary Stuart 
a ouvisse. E o mais estranho era o garoto olhar fixamente para Mary Stuart, como se a conhecesse. Era impressionante. - A minha tia  muito parecida consigo - disse 
finalmente o rapaz, fascinado com Mary Stuart, embora fosse a nica do grupo que no lhe tinha falado, nem quisera faz-lo. No se afastara por causa dele, mas tambm 
no entrara na conversa. E Hartley viu qualquer coisa nos olhos dela que o intrigou.
      
      - Tem filhos? - perguntou. Reparara na aliana que ela trazia no dedo, mas ficara com a impresso de que estava sozinha, devido ao que ela dissera sobre a 
maneira como decidira passar ali as frias. Porm, no sabia exactamente se estava casada ou no. E praticamente o mesmo se passava com a prpria Mary Stuart.
      
      - Sim, tenho... - respondeu vagamente  pergunta dele. - Uma filha... e um filho... que morreu - acrescentou em voz baixa. Hartley queria fazer-lhe mais perguntas, 
mas viu a tristeza nos olhos dela e no insistiu. Mary Stuart voltou as costas ao rapaz e entrou em casa com Hartley. No queria continuar a olhar para a criana.
      
      - Ele era... - Hartley hesitou. Queria chegar at ela, mas no sabia como -... era muito novo quando morreu? - perguntou cautelosamente, pensando se devia 
ter feito a pergunta. Mas queria saber mais coisas a respeito de Mary. Talvez fosse por isso que ela tivesse ido para ali. Talvez tivesse morrido num acidente com 
o pai... ou talvez ela ainda fosse casada. Havia perguntas que lhe queria fazer. Depois de ter conversado com ela durante todo o dia, sentia que eram amigos. Estavam 
to isolados do mundo que conheciam, naquele local impressionante, reunidos por momentos!... Se iam tornar-se amigos, precisavam de saber tudo acerca um do outro 
muito rapidamente.
      
      - Todd tinha vinte anos quando morreu - murmurou Mary Stuart, tentando no olhar para o rapazinho, que podia ver l fora a conversar com Tanya e Zoe. - Foi 
o ano passado - disse, olhando para as mos por um momento.
      
      - Lamento muito - murmurou Hartley, atrevendo-se a tocar-lhe nas mos por um instante. Sabia muito bem o que era perder um ente querido. Ele e Margaret haviam 
sido casados vinte e seis anos e nunca tinham tido filhos. Ela no podia. E ele aceitara o facto. De certo modo, sempre achara que isso os aproximava ainda mais. 
Mas agora olhava para Mary Stuart e mal podia adivinhar aquilo por que ela passara. - Deve ser terrvel perder um filho. No posso imaginar o que seja. J foi muito 
mau quando Margaret morreu. Julguei morrer tambm. Ficava surpreendido ao acordar em cada manh. Esperava morrer de desgosto e fiquei admirado por tal no suceder. 
Falo nisso no livro que escrevi este Inverno.
      
      - Escrever deve ajudar - murmurou Mary, enquanto se sentavam no sof da sala. As duas amigas continuavam l fora a falar com o garoto, mas dali ela no as 
podia ver. - Gostava de poder escrever sobre o que se passou. Mas agora estou melhor. Consegui finalmente pr de parte as coisas dele, antes de vir para aqui. No 
fui capaz de faz-lo mais cedo.
      
      - Eu levei quase dois anos a suavizar o desgosto de perder Margaret - disse Hartley com sinceridade. Desde ento s sara com duas mulheres e ficara a detestar 
ambas por no serem ela. Conhecia bem a dor do reajustamento. Ela, pelo menos, no precisava de passar por isso, pensava ele, embora no soubesse qual era a sua 
situao com o marido. - Tambm deve ter sido muito duro para o seu marido - acrescentou Hartley, tentando obter informaes, mas Mary no se apercebeu. Hartley 
vira a fina aliana no seu dedo, mas o modo como ela falava no confirmava que fosse casada.
      
      - Na verdade - respondeu Mary com toda a franqueza -, tambm foi muito duro para ele. E o nosso casamento no sobreviveu.
      
      Hartley disse que sim com a cabea. Tambm sabia isso, no por experincia prpria, mas por causa de um primo que passara pelo mesmo. No era surpreendente.
      
      - Onde est ele agora?
      
      - Em Londres.
      
      Hartley disse que sim de novo com a cabea. Era o que queria saber. Mas julgou que ele vivesse l. Mary Stuart no percebeu por que motivo ele fizera a pergunta 
e pensava que estava apenas a ser amigvel. Havia muito tempo que um homem no mostrava interesse por ela e no compreendia que fosse esse o caso com Hartley. De 
momento, julgava que eram apenas pessoas que passavam frias no mesmo local, embora se sentisse bem na sua companhia e gostasse de conversar com ele.
      Por fim Hartley perguntou se queriam jantar com ele e Mary disse que perguntaria s outras. Depois ele deixou-a para ir trabalhar um pouco e ler o correio. 
Prometeu encontr-lo  hora do jantar e quando as amigas chegaram, Mary falou-lhes do convite. Como era de prever, ambas gracejaram com ela, especialmente Tanya.
      
      - Que rapidez, Stu! Gosto dele. - Sorria, e Mary Stuart atirou-lhe com uma pequena almofada, fingindo-se zangada.
      
      - Deixa-te de tolices! Ele convidou-nos s trs e no apenas a mim. Perdeu a mulher, sente-se s e no tem ningum com quem falar.
      
      - Parece muito contente a falar contigo - prosseguiu Tanya, impiedosamente, e Mary Stuart chamou-lhe tola.
      
      - E muito simptico, muito inteligente e est muito s.
      
      - E muito interessado em ti. No sou cega, embora tu sejas. Creio que s casada h demasiado tempo e nem te apercebes quando olham para ti.
      
      - Ento e tu com o cowboy - replicou imediatamente Mary Stuart. Pareciam duas colegiais. - Conseguiste desbloquear-lhe a fala. At conseguiste que sorrisse!...
      
      - E um verdadeiro carcter. Vive aqui sozinho durante o Inverno, rodeado de neve.
      
      No lhes contou que ele lhe dissera que ouvia a msica dela. Claro que no existia nada de romntico entre eles. Apenas cavalos.
      
      - Acho que so as duas cegas - declarou Zoe. - Hartley Bowman parece apaixonado por Mary Stuart e aposto que antes de nos irmos embora o teu cowboy vai ficar 
perdido por ti, Tanya. E uma previso que eu fao.
      Ambas riram e Tanya encolheu os ombros. Era um disparate to grande que nem merecia comentrios.
      
      - E tu Zoe? Vais destruir um casamento e fugir com o mdico de Chicago?
      
      Ele era baixo, gordo e careca, e s a ideia dava Vontade de rir.
      
      - Infelizmente, a mulher  mais interessante do que ele, o que  um verdadeiro problema. Teria de fugir com ela, e isso est fora da minha linha, portanto, 
acho que estou a salvo.
      
      - No te esqueas de Sam! - lembrou Tanya. Zoe resmungou. No era recordao que lhe agradasse.
      
      - Mete-te na tua vida. Mal sabe ele que tem aqui uma defensora. Olha, quando fores a So Francisco apresento-te e podero sair juntos. Hs-de gostar dele.
      
      - Combinado. Falemos agora sobre Mary Stuart. - Voltou a sua ateno para ela e Mary Stuart soltou uma exclamao de desagrado, prevendo o que se iria passar. 
- Fala-nos do teu novo amigo.
      
      - No h nada a dizer, j te expliquei.  apenas uma pessoa solitria.
      
      - O mesmo sucede contigo. E comigo. E com Zoe. Que tem isso de especial? - replicou Tanya, estendendo-se no sof. Doam-lhe as pernas. Tinham andado muito 
tempo a cavalo.
      
      - Eu no me sinto s - corrigiu Zoe. - Sou muito feliz.
      
      - J sei, s uma santa. Mas digo-te que apenas no sabes que te sentes s - concluiu Tanya, e todas riram.
      - Esqueam tudo isso - retorquiu Zoe. - Eu vou sair  com Benjamin - declarou Zoe com um sorriso. Era uma criana adorvel e ambas tinham gostado dele.
      
      - Bela ideia - aprovou Tanya. Mary Stuart ficou calada, mas depois perguntou o que decidiam a respeito do convite de Hartley Bowman. Deviam aceitar o convite 
dele? - Porque no? - perguntou Tanya. - Talvez consigamos que ele se aproxime mais de Mary Stuart.
      
      - Calma - exclamou Mary Stuart, gravemente. - Eu ainda sou casada.
      
      - Ele sabe disso? - perguntou Zoe com interesse. Mary Stuart trazia uma aliana de casamento, mas ele podia ter-se interrogado onde estaria o marido e por 
que motivo ela se encontraria no rancho com duas mulheres.
      
      - Ele no me perguntou - respondeu Mary Stuart, o que confirmava a sua convico de que estava apenas interessado na sua amizade. - Perguntou-me uma vez onde 
estava o meu marido e eu disse-lhe que se encontrava em Londres.
      
      - Oh!... Oh!... - exclamou sensatamente Tanya. - E melhor esclareceres isso. Se perguntou pode ter ficado com uma impresso errada com a tua resposta.
      
      - Disse-lhe que o nosso casamento no sobrevivera  morte do nosso filho - explicou Mary Stuart com naturalidade.
      
      - Disseste-lhe isso? - perguntou Tanya, espantada. Era muito para contar a um desconhecido. Mas tinham passado seis horas a cavalgar lado a lado. Era mais 
tempo do que muitos casais passam juntos numa semana e ele mostrava-se muito interessado nela.
      
      - Talvez eu lhe deva dizer que ainda sou casada - acrescentou Mary Stuart, embora no soubesse durante quanto tempo mais. Mas, de certo modo, parecia-lhe presunoso 
fornecer-lhe voluntariamente essa informao. E se ele no estivesse interessado em saber se ela era casada? - No sei. Verei o que  mais apropriado. No creio 
que ele esteja interessado dessa maneira - declarou timidamente Mary Stuart. As outras duas troaram dela. - Vocs so insuportveis! - exclamou Mary. Foi tomar 
um duche, enquanto Zoe telefonava a Sam. Queria saber o que se passava na clnica, mas Sam estava na sala de tratamentos com um doente e Annalee disse-lhe que estava 
tudo a correr sem problemas. Depois disso, Zoe deitou-se e dormiu uma curta sesta antes do jantar. Ficou surpreendida por se sentir to bem ao acordar. O sono fazia 
realmente muita falta.
      
      Nessa noite jantaram as trs com Hartley. Ele era inteligente, interessante e maravilhosamente culto. Viajara por toda a parte, conhecia coisas fascinantes 
e todo o gnero de pessoas. Alm disso, era extremamente delicado, sabendo dividir a sua ateno pelas suas trs convidadas. Nunca deixava ningum fora da conversa 
e as trs sentiram que ficara satisfeito por ter a companhia delas. Mas mais tarde, quando as acompanhou a casa, caminhou ao lado de Mary Stuart e falou com ela 
com uma entoao delicada, que parecia destinada apenas aos ouvidos dela e no das outras. Tanya e Zoe entraram em casa logo que chegaram e Mary Stuart permaneceu 
uns momentos no exterior com Hartley. No sabia bem como tocar no assunto, mas achava que as amigas tinham razo ao dizerem-lhe que devia esclarecer o assunto a 
respeito do seu casamento.
      
      - Sinto-me um pouco tola ao dizer-lhe isto - comeou timidamente. Estavam sentados na varanda, iluminada por um luar muito azul, que fazia brilhar os topos 
das montanhas cobertos de neve. - No fao ideia se o que lhe vou dizer poder ter algum interesse para si, mas no lhe quero dar uma impresso errnea. Para ser 
sincera consigo, quero que saiba que sou casada - concluiu Mary Stuart, surpreendida ao ver uma expresso de desapontamento nos olhos dele. - Tenciono separar-me 
de Bill no fim do Vero. Precisava de algum tempo para decidir o que fazer, mas o nosso casamento morreu com o nosso filho e creio que  chegada a altura de acabarmos 
com a nossa infelicidade.
      
      - O seu marido ficar surpreendido? - perguntou calmamente Hartley, olhando-a com ateno. Mal a conhecia e, no entanto, gostava da honestidade dela, da sua 
doura, da sua franqueza. Ficou com pena de saber que ainda era casada. Talvez a longo prazo isso no tivesse importncia. Ela parecia realmente decidida a acabar 
tudo com o marido. - Acha que o seu marido tem conscincia do que est a sentir?
      
      - No vejo como no possa ter. Durante todo o ano mal me falou. No temos casamento, nem vida, nem amizade. Ele culpa-me pela morte do nosso filho e creio 
que isso nunca se alterar. No posso continuar a viver assim. No quero estar a contar-lhe os meus problemas, desejo apenas que fique a saber que sou ainda casada, 
embora no julgue que o seja por muito tempo.
      
      - Obrigado por ser to sincera comigo - disse Hartley, sorrindo. Ele prprio achava incrvel gostar tanto dela. Era a primeira mulher que lhe agradava desde 
a morte de Margaret e estava apaixonado por ela, apesar de s a conhecer h um dia. Mas o tempo ali parecia triplicar. Era como se estivessem a bordo de um navio.
      
      - Espero que no me julgue tola por lhe falar do assunto. Tenho a certeza de que ser indiferente para si...  apenas...
      
      De repente sentiu-se mortificada por lhe ter dito tantas coisas e comeou a atrapalhar-se com as palavras. Que diferena lhe poderia fazer que ela fosse ou 
no casada? Ficou furiosa com as amigas por a terem influenciado e sentiu-se realmente estpida. Permaneceu sentada, imvel, sentindo-se desconfortvel, mas olhou-o 
e viu que ele sorria.
      
      - No sei o que estou a fazer aqui. Nem sequer queria vir este ano. H dois anos que tenho pena de mim mesmo e no voltei a olhar para urna mulher. E de repente 
encontro-a como um radiante raio de sol iluminando as montanhas e digo-lhe que nunca me senti to atrado por ningum como por si. No fao ideia do que sair daqui, 
nem do que voc far, ou querer, mas digo-lhe que gosto muito de si, apesar de mal a conhecer. Lamento o facto de ter perdido o seu filho - disse Hartley, pondo-lhe 
um brao em volta dos ombros e puxando-a suavemente para si. - Tive pena ao ver a expresso do seu olhar quando encontrou o rapazinho esta tarde e queria poder tirar-lhe 
essa dor. Na verdade, no gosto de saber que no est divorciada, embora no saiba se isso vir a ser importante. No fao ideia se querer voltar a ver-me depois 
da prxima semana, e provavelmente estou a fazer figura de parvo, mas, se assim for, diga-mo e eu apenas a cumprimentarei de longe durante o resto das frias. - 
Os seus olhos procuraram os dela e Hartley viu que estavam cheios de lgrimas. Ouvira todas as coisas que desejara que Bill lhe dissesse e que ele nunca dissera. 
Bill abandonara-a completamente e de repente ali estava aquele desconhecido que era a resposta a todas as suas preces. - Quero apenas estar perto de si, falar consigo, 
conhec-la... e depois veremos o que acontece.
      
      Que mais poderia pedir? Mary Stuart ficou parada a olh-lo, incapaz de acreditar no que estava a ouvir.
      
      - Estarei a sonhar? - perguntou, fitando-o com os olhos cheios de lgrimas e de desejos. Seria possvel encontrar algum como ele?
      
      - Foi assim que eu me senti toda a tarde de hoje. No queiramos ter ainda respostas. Gozemos apenas os momentos presentes - disse ele, sentindo o perfume dos 
cabelos dela. Ficou silencioso, imvel, apenas com um brao em volta dos seus ombros, at sentir que ela estava a tremer. Mary Stuart tremia apenas parcialmente 
de frio, o resto era pura emoo. Chegara na noite anterior e vira-o pela primeira vez nessa manh. Mas lera todos os livros dele e tinha a sensao de o conhecer. 
Haviam falado durante horas, desnudando as suas almas, e partilhavam uma forte atraco. - Est com frio. Vou lev-la para dentro - disse Hartley, desejando no 
ter de a deixar. Ela parou e olhou-o e mais uma vez e ele rodeou-lhe os ombros com os braos.
      
      - Obrigada por tudo - murmurou Mary, sentindo-o perto de si. Depois ele acompanhou-a  porta e despediu-se. Mary entrou rapidamente, desejosa de que as amigas 
se tivessem ido deitar. Ficou satisfeita quando viu que sim. Mas, quando entrou no seu quarto, encontrou um fax de Bill na cama. Era dolorosamente simples: "Espero 
que tudo corra bem. O trabalho aqui em Londres  satisfatrio. Cumprimentos  tua amiga Bill." Mais nada. E, no fundo, com a sua caligrafia solta, Tanya garatujara, 
no fundo da pgina: "Se eu fosse a ti, telefonava ao advogado." O bilhete era, de facto, seco, e subitamente a vida dava-lhe uma nova oportunidade. Fechava-se uma 
porta e abria-se outra. E atravs dela podia finalmente ver a luz do Sol nas montanhas.
















Captulo 14
      
      Na manh seguinte Zoe e Mary Stuart juntara-se para tirar Tanya da cama.
      
      - Ergue-te e brilha! - gritou Zoe, enquanto Mary Stuart destapava a amiga e lhe arrancava a mscara da cara.
      
      - Vocs so umas sdicas - gemeu Tanya, franzindo os olhos por causa da luz. - Meu Deus... o que  isto?... Vou ficar cega... - resmungou Tanya, voltando-se 
de barriga para baixo e recusando a mexer-se, enquanto as outras duas a puxavam para fora da cama, tal como costumavam fazer na universidade.
      
      - Isto chama-se luz solar e h muita l fora - replicou Mary Stuart, obrigando Tanya a sentar-se na cama, com o seu pijama cor-de-rosa. - Se no te conhecesse 
diria que eras bbada, s pela maneira como acordas todas as manhs.
      
      -  da velhice. Preciso de dormir muito... - resmungou ela, cambaleando lentamente em direco  casa de banho.
      
      - No te esqueas que Big Max est  tua espera - lembrou Zoe.
      
      - Digam-lhe que volte para a cama. Sentir-se- muito melhor - replicou Tanya, com um bocejo. Mas vinte minutos depois tinha tomado o seu duche e estava pronta, 
revelando um aspecto to espectacular como habitualmente. Vestia calas num tom rosa-plido, blusa de algodo da mesma cor, calava as suas velhas botas e usava 
uma fita cor-de-rosa a prender-lhe os cabelos louros, que lhe caam pelas costas numa longa trana. Cabelos mais curtos, encaracolados, emolduravam-lhe o rosto, 
dando-lhe um aspecto imensamente sexy.
      - Isso deve atrair as atenes do teu cowboy - disse Mary Stuart ao v-la. Subitamente sentiu-se ansiosa por se encontrar com Hartley. Pensara nele toda a 
noite e sentia-se como uma garota  espera de o ver nessa manh. De momento eram apenas amigos, mas a possibilidade de serem algo mais intrigava-a.
      
      Iam a caminho da casa de jantar quando encontraram outra vez Benjamin. Mary Stuart parecia ter visto um fantasma ao caminhar ao lado dele. O garoto queria 
estar ao p dela e isso enervava-a e emocionava-a ao mesmo tempo.
      
      - Onde est a tua mama, Benjamin? - perguntou Zoe, apercebendo-se do desconforto de Mary Stuart. Era fcil de perceber a razo dessa perturbao. Apesar de 
nunca ter visto Todd, reparara que aquela criana se parecia com Mary Stuart.
      
      - Est a dormir - respondeu ele com naturalidade. - O meu pai disse-me para vir tomar o pequeno-almoo.
      
      - Como  que ela pode estar a dormir e eu no? - quis saber Tanya.
      
      - Ela est grvida de oito meses - explicou Zoe.
      
      - Vou parecer uma velha se continuam a no me deixar dormir. No  bom para a sade uma pessoa levantar-se to cedo!
      
      - Quem disse isso? - perguntou Zoe, com um sorriso.
      
      - Fui eu - declarou Tanya com uma expresso irritada, enquanto entravam na casa do rancho. Chegaram  sala de jantar seguidas de perto por Benjamin. Colava-se 
a elas como uma lapa  rocha e Mary Stuart estava decidida a ignor-lo, mas, quando se sentaram  mesma mesa do dia anterior, ele sentou-se imediatamente com elas. 
Tanya achava-lhe graa e Zoe tambm gostava do garoto, mas nenhuma delas queria perturbar Mary Stuart. Sugeriram-lhe que se fosse sentar junto dos amigos, mas ele 
recusou-se a faz-lo.
      
      - No faz mal - disse, por fim, Mary Stuart. - No tem importncia.
      
      - Ests bem? - perguntou Tanya, e Mary Stuart disse que sim com a cabea.
      
      - Estou bem - disse. No podia proteger-se dessa maneira. Era impossvel criar um mundo sem crianas.
      
      - Belo fax que recebeste do teu marido ontem  noite! Temo e cheio de emoo - comentou Tanya. - Desculpa, mas no pude deixar de o ler. Vais responder-lhe?
      
      - No tenho muita coisa a dizer-lhe - murmurou Mary. Mas, de sbito, lembrou-se de uma coisa. A noite anterior fora quase como um sonho e chegava a pensar 
que imaginara que Hartley a abraara, a apertara contra ele e lhe dissera que gostava de a conhecer melhor. - A propsito, esclareci as coisas com Hartley. Vocs 
tinham razo. Eu no me fizera entender bem. Mas agora est tudo esclarecido.
      
      - E ele importou-se?
      
      - Porque havia de se importar? - retorquiu Mary Stuart, tentando falar com frieza, mas no conseguindo enganar as amigas.
      
      - Porque no creio que ele esteja interessado em oferecer-te um emprego de secretria... - explicou Tanya. - O homem gosta de ti.
      
      - Veremos o que vai suceder - replicou calmamente Mary Stuart, reparando que Benjamin a olhava.
      - Parece-se com a minha me - disse o garoto - e com a minha tia Mary.
      
      - Tambm me chamo Mary - respondeu ela, tentando conversar. - Mary Stuart. E estranho, no ? Stuart era o nome do meu pai e ele queria ter um rapaz, por isso 
deram-me este nome.
      
      - Oh! - exclamou ele, dizendo que sim com a cabea. - Tem filhos? - Via-se que estava mais interessado nela do que nas outras. Era como se se apercebesse de 
algo de diferente nela.
      
      - Sim, tenho uma filha, mas agora  muito grande. Tem vinte anos.
      
      - Tambm tem rapazes? - quis saber o garoto, comendo uma salsicha que Zoe lhe dera.
      
      - No, no tenho - respondeu Mary Stuart. Benjamin era muito pequeno para entender a razo das lgrimas que lhe marejavam os olhos.
      
      - Eu gosto mais de rapazes - declarou Benjamin com naturalidade. - Espero que a minha mam tenha um rapaz quando o beb chegar. No gosto de raparigas. So 
estpidas!
      
      - Algumas no so - disse Mary Stuart, mas ele encolheu os ombros, sem se deixar convencer.
      
      - Choram muito quando as empurramos - retorquiu ele como explicao. Tanya e Zoe sorriram. Talvez fosse bom para Mary Stuart falar com o garoto. Era como uma 
espcie de vacina.
      
      - Algumas raparigas so muito corajosas - replicou Mary Stuart em defesa do seu sexo, mas o garoto perdeu o interesse pelo assunto e dedicou-se a comer uma 
tira de presunto. Da a pouco o pai entrou na casa de jantar e o mido foi ter com ele. Uns minutos depois apareceu a me, em adiantado estado de gravidez. O marido 
explicara a Zoe que a altitude fazia com que ela se sentisse mal.
      
      - Espero que no acabes assistindo a um parto - sussurrou Tanya ao ouvido de Zoe. - Tenho a impresso de que ela vai ter trigmeos.
      
      - No, no o farei. No trago frceps comigo. E no assisto a um parto desde os meus tempos de interna. Alm disso, h aqui um hospital. Assistir a um parto 
 mais assustador do que o que eu fao. Demasiadas coisas podem correr mal, so necessrias decises rpidas e existem muitos elementos que no se podem controlar, 
e eu detesto tratar pessoas em grande sofrimento. Prefiro dermatologia do que obstetrcia - afirmou Zoe.
      
      Mary Stuart achava que devia ser um trabalho alegre, pois o desenlace era geralmente feliz. Tanya disse ento que gostava de saber como era ter um filho. Desejara 
ter muitos, quando era nova, mas as circunstncias da vida no lhe tinham dado essa oportunidade. Mary Stuart tinha uma estranha sensao ao pensar que, das trs, 
fora ela a nica a ter filhos.
      
      - Talvez tenha sido algo de subliminar que nos fosse dito em Berkeley - replicou Zoe, rindo. Sentia-se feliz por ter adoptado Jade.
      
      - Eu teria gostado de ter filhos - disse Tanya. - Gostava dos filhos de Tony, de os ter  minha volta. Eram. umas crianas formidveis!
      
      Pensou se alguma vez voltaria a v-los mais do que durante alguns minutos. Era tudo to injusto, ter perdido o marido e os enteados! Ela cuidara deles, dedicara-se 
aos garotos e ele fora-se embora de um dia para o outro e levara-os. Isso fazia-a pensar que devia ter tido os seus prprios filhos. Nesse caso ningum lhos poderia 
tirar, ficariam com ela para sempre. Ou talvez no, lembrou-se, pensando em Mary Stuart.
      
      Acabaram de tomar o pequeno-almoo mesmo a tempo de se dirigirem para as cavalarias. Hartley j ali se encontrava e parecia satisfeito por ver Mary Stuart. 
Os seus olhos encontraram-se e fitaram-se durante um longo momento e ele ficou perto dela enquanto esperavam para montar os cavalos. Os mdicos de Chicago tambm 
ali estavam e todos formaram os mesmos grupos que no dia anterior. Zoe seguiu ao lado deles e Hartley colocou-se junto de Mary Stuart, o que fez com que Tanya e 
Gordon ficassem de novo sozinhos  frente, e dessa vez ele tentou fazer um esforo para se mostrar agradvel.
      
      - Est muito bonita hoje - disse, olhando em frente e parecendo um rob a falar. Tanya reparou que ele corara levemente ao dizer essas palavras. Viu que estava 
verdadeiramente embaraado e tentou p-lo  vontade, mas levou um certo tempo a consegui-lo. Passado um bocado, Gordon fez-lhe algumas perguntas a respeito de Hollywood 
e das pessoas que ela l conhecia. Quis saber se encontrara alguma vez Tom Cruise e Kevin Costner ou Cher, e disse-lhe que vira Harrison Ford em Jackson Hole nesse 
Vero. Tanya declarou que os conhecia a todos e que entrara num filme com Cher. - E estranho - disse Gordon, olhando para Tanya com os olhos franzidos -, mas voc 
no se parece com esse gnero de pessoas...
      
      - Que significa isso? - perguntou Tanya, confusa.
      
      - Quero dizer que  uma pessoa verdadeira, no parece uma grande actriz ou uma grande cantora. E uma mulher normal. Anda a cavalo, gosta de falar, ri, tem 
sentido de humor. - Olhou-a de novo, esboando um ligeiro sorriso, e dessa vez sem corar: - Passadas as primeiras impresses,  difcil acreditar que seja a mesma 
pessoa dos CD's e dos filmes.
      
      - Se isso  um cumprimento, obrigada. Se me est a querer dizer que o desapontei, tambm no me importo. A verdade, afinal,  que sou uma rapariga do Texas.
      
      Tanya disse isto sorrindo, enquanto ele admirava a blusa cor-de-rosa.
      
      - No. - Gordon abanou a cabea, observando-a com ar atento. - E muito mais do que isso, e sabe-o muito bem. A verdade  que no soa a falso, como a maior 
parte deles.
      
      - Deles quem?
      
      - Outros actores e actrizes que tenho encontrado aqui. Nem sequer montam a cavalo. Temos tido no rancho gente de todo o gnero: polticos, actores, at mesmo 
cantores. A preocupao deles  exibirem-se e esperam sempre um tratamento especial.
      
      - E eu pedi muitas toalhas e uma cafeteira para o caf - confessou Tanya, rindo. - E escrevi no formulrio que os cavalos no me agradavam.
      
      - Eu no acreditei - replicou Gordon, mais descontrado do que na manh anterior, o que era bastante melhor. Quando ele falava, Tanya at gostava de cavalgar 
ao seu lado. - Nasceu no Texas e isso significa alguma coisa. As pessoas do Texas gostam de cavalos. E voc  uma mulher como outra qualquer - concluiu Gordon.
      
      A verdade  que ela era justamente isso e ele sabia-o. Fora uma mulher como qualquer outra ao casar com Bobby Joe, mas Hollywood estragara tudo. Mais tarde 
quisera voltar a ser uma mulher vulgar com Tony. Mas Tony queria ser casado com uma estrela de cinema sem ter de suportar os problemas que da advinham. Queria algo 
que, mesmo com as melhores intenes, ela no lhe poderia dar.
      
      - Sou uma mulher como qualquer outra, mas o mundo em que vivo no me d muitas hipteses. A minha vida no tem privacidade e, para lhe dizer a verdade, acho 
que nunca vir a ter. Os mdia nunca me deixaro ter privacidade. Nem sequer as pessoas que me conhecem a podem ter! Eles querem que eu seja aquilo que julgam que 
sou e quando se aproximam de mim  para me magoarem.
      
      S pensar naquilo j era terrvel.
      
      - Parece-me horroroso - retorquiu Gordon, olhando-a com interesse. Sentia-se surpreendido por a achar to simptica. De facto, Tanya era muito diferente daquilo 
que ele julgara. Fizera o possvel para no ser o seu acompanhante e agora estava satisfeito por Liz no lhe ter dado ouvidos. Era realmente agradvel estar com 
ela.
      
      - E terrvel - confirmou calmamente Tanya, abanando a cabea. - Penso que um dia isso ainda me h-de matar. Ou talvez um f o faa.
      
      - Como  que consegue viver assim? Seja o que for que lhe paguem, no merece a pena - disse Gordon, enquanto os dois cavalos comeavam a galopar.
      
      - No  pelo dinheiro.  pelo que fao. A minha vida  cantar. No se pode voltar para trs. No nos podemos esconder. Se quero fazer o que fao, tenho de 
sofrer as consequncias.
      
      - No me parece justo...
      
      - E no . Mas  a realidade! - Tanya no gostava dessa realidade, mas nada podia fazer para a alterar. - H outras pessoas que tm todos os trunfos.
      
      - Deve haver alguma maneira de mudar isso ou de viver uma vida decente. Outras actrizes afastam-se, compram ranchos ou vo para stios onde possam viver uma 
vida normal. Devia fazer o mesmo Miss Tanya. - Gordon falava com sinceridade e Tanya sorriu-lhe. Os cavalos diminuram o andamento e Gordon olhou-a com admirao. 
- E uma grande cavaleira Miss Tanya.
      
      - No me trate assim - ralhou ela. - Tanya chega. Eram agora quase amigos. Tanya sentia com Gordon aquilo que Mary Stuart sentia com Hartley. Conversavam sobre 
os temas mais diversos. Dos sonhos, das esperanas, dos desapontamentos. Era como se as montanhas exercessem uma influncia estranha e fizessem com que tudo avanasse 
rapidamente.
      
      Hartley tambm falava com toda a sinceridade com Mary Stuart nesse momento. Pedira-lhe desculpa por ter ultrapassado os limites na noite anterior. Ao regressar 
a casa, sentira receio de a ter assustado por ter sido to ousado. Mal se conheciam e, no entanto, sentia-se perto dela. Mas Mary tinha exactamente a mesma sensao 
e, ao contrrio de ter ficado assustada, sentira-se confortada. Havia um ano que ningum a abraava e ela tinha fome disso. No lho disse exactamente, mas ele compreendia 
bem que Mary Stuart no ficara de modo algum ofendida com o seu procedimento. Foi um grande alvio para ele v-la sorrir-lhe quando os cavalos pararam para beber 
gua de um pequeno riacho. S o facto de ali estarem tinha magia, e ambos o sentiram.
      
      - Quando me levantei, hoje de manh, no conseguia pensar noutra coisa seno em v-la - declarou com um sorriso juvenil. - H vinte anos que no me sentia 
assim. Nem sequer me apetece trabalhar. E isso  raro suceder-me, pode crer.
      
      Escrevia todos os dias, estivesse onde estivesse ou fosse quais fossem as condies da sua vida. A nica altura em que no escrevera fora quando Margaret estava 
a morrer. Descobrira que no o conseguia fazer.
      
      - Sei exactamente como se sente. E estranho. Quando pensamos que a nossa vida est acabada ela renasce outra vez. A vida engana-nos sempre, no ? Quando julgamos 
ter tudo, perdemos tudo, e quando julgamos que tudo est perdido, encontramos algo de infinitamente precioso - murmurou pensativamente Mary Stuart, olhando para 
as montanhas.
      
      - Tenho a sensao de que Deus tem um grande sentido de humor - disse ele, enquanto os cavalos se punham novamente em movimento. - O que  que gosta de fazer 
em Nova Iorque? - perguntou Hartley, continuando a querer saber tudo a seu respeito. Estava excitado por saber que ela regressaria a Nova Iorque depois de passar 
uma semana com Tanya em Los Angeles. Tinha uns assuntos a tratar em Seatle depois de sair do rancho. Em seguida iria uns dias a Boston e regressaria a Nova Iorque 
mais ou menos na mesma altura que ela. - Gosta de teatro? - quis saber. Ficaram a falar sobre teatro durante muito tempo. Tinha vrios amigos que eram dramaturgos 
e queria apresent-los a Mary. Com efeito, queria apresent-la a todos os seus amigos. Havia tanta coisa que queria mostrar-lhe, partilhar com ela, perguntar-lhe! 
Era impossvel estar quieto. Os dois conversavam constantemente, riam, partilhavam ideias, e ambos ficaram surpreendidos ao voltarem  cavalaria  hora do almoo. 
Nem sequer tinham reparado no caminho que percorriam. Tanya e Gordon j haviam chegado e os mdicos fechavam a marcha, sem pressas. Mary Stuart estava justamente 
a desmontar quando um cavalo passou velozmente por eles. Havia um pequeno vulto agarrado a ele, que Gordon vira primeiro que os outros. O cavalo passou pela porta 
da cavalaria em direco ao celeiro e ele seguiu-o imediatamente a galope, tentando det-lo, mas antes que o pudesse alcanar o pequeno vulto voou plos ares e 
foi cair sobre o caminho pedregoso. Ao princpio nem conseguiam ver quem era, mas Mary Stuart soube, mais por instinto do que por ver, de quem se tratava. Foi como 
se tivesse sentido antes de ver. O pequeno chapu de cowboy vermelho estava cado tambm junto do corpo inanimado de Benjamin. O cavalo fugira com ele. Sem pensar, 
Mary Stuart saltou para o solo, logo seguida por Hartley. Quando chegou junto da criana, viu que estava inconsciente, e, quando se inclinou para ele, notou que 
mal respirava. Olhou para Hartley, horrorizada.
      
      - V buscar Zoe - gritou-lhe, voltando-se para o garoto outra vez, receosa de lhe mexer, com medo de que ele tivesse o pescoo ou a espinha partida. Teve a 
impresso de que Benjamin parou de respirar nessa altura, mas no momento seguinte Zoe encontrava-se ajoelhada junto dele.
      
      - Pronto, Mary Stuart... eu cuido dele.
      
      Zoe pouco podia fazer e, tal como a amiga, teve o cuidado de no o mover. Bateu-lhe suavemente no peito, o garoto comeou a respirar outra vez e ela ergueu-lhe 
as plpebras. Percebeu que Benjamin no via nada e reparou que na parte da frente das calas do garoto havia uma larga mancha hmida, o que significava que ele estava 
mergulhado numa profunda inconscincia e que perdera o controlo das funes corporais.
      
      - Tm o cento e doze aqui? - perguntou Zoe a Gordon. Ele disse que sim com a cabea. - Chame-os. Diga-lhes que tenho aqui uma criana inconsciente, com traumatismo 
craniano e fracturas possveis. Respira, mas as pulsaes so irregulares. Est em estado de choque. Venham o mais rapidamente possvel!
      
      Olhou-o, para ver se ele tinha compreendido bem como o caso era urgente, enquanto os outros dois mdicos se aproximavam com pressa, depois de terem desmontado, 
e Mary Stuart continuava ajoelhada junto da criana, segurando-lhe a mo. Zoe observava Benjamin com ar preocupado. J tinha a certeza de que no fracturara o pescoo 
nem a coluna, e apalpava-lhe os membros quando, de repente, ele abriu os olhos e comeou a chorar.
      
      - Quero a minha mam! Mam! - gritou, engolindo o ar a grandes golfadas. Zoe ficou mais satisfeita ao ver aquela reaco.
      
      - Isto agrada-me - disse Zoe para os outros dois mdicos, que concordaram. Zoe tocou-lhe no brao esquerdo e Benjamin soltou um grito. Estava partido. Mas 
podia ter leses piores. Ento, no meio dos soluos, Benjamin viu Mary Stuart junto dele, chorando em silncio.
      - Porque chora? - perguntou, por entre soluos. - Tambm caiu do cavalo?
      
      - No, patetinha - disse ela, aproximando-se ainda mais. - Tu  que caste. Como te sentes agora?
      
      Tentava distrair a ateno da criana, pois Zoe fazia-lhe uma tala com uns paus que pedira a Gordon. Hartley tambm no se afastara e Tanya sentia-se abalada. 
Todos estavam.
      
      - Di-me o brao... - gemeu Benjamin, e Mary Stuart aproximou-se um pouco mais dele, tentando no incomodar Zoe. Alisou-lhe os cabelos e fechou os olhos. Se 
no olhasse, podia pensar que era Todd que ali estava escondido a seu lado. Quem lhe dera que fosse, que se tratasse de uma questo de membros fracturados ou mesmo 
traumatismo craniano. Estava vivo, coberto de terra, chorava... mas Todd desaparecera.
      
      - Ests bem, queridinho - disse Mary Stuart com a mesma doura que teria usado para com o seu prprio filho. - Vo-te tratar, pem-te gesso e vais ver que 
toda a gente o assina e faz bonitos desenhos nele.
      
      - Promete que faz isso? - S ligava a Mary Stuart e ignorava as outras pessoas. Ningum sabia porqu, mas talvez isso no tivesse importncia. Talvez ele estivesse 
ali para a comover, para lhe lembrar como fora Todd, ou que existiam outras crianas como ele. Mas de que lhe servia isso?... ela perdera o seu filhinho... e, contudo, 
de certo modo, aquela criana comovera-a. Era como que uma visita do filho, ou, pelo menos, do esprito dele. - Vai comigo para o hospital? - perguntou Benjamin.
      
      - Claro que sim. Mas vamos ver se encontramos a tua mam. Aposto que ela  que vai querer ir.
      
      - Oh!, ela s se preocupa com o beb - exclamou o garoto, comeando outra vez a chorar estendido na estrada poeirenta,  espera que a ambulncia chegasse. 
Ento Mary Stuart compreendeu-o melhor. Ela parecia-se com a me dele, por isso o garoto sentira-se atrado por ela, pois ao mesmo tempo estava zangado com a me 
por causa do beb. Mary Stuart no podia deixar de pensar se os seus caminhos se teriam cruzado para que ela o pudesse ajudar ou para que ele a pudesse ajudar a 
ela. Existia, obviamente, uma razo para se terem encontrado.
      
      - Benjamin - disse Mary Stuart, sentando-se no cho ao seu lado, para poderem falar melhor, e nessa altura j estava to suja como ele. - Aposto que a tua 
mama gosta mais de ti do que de qualquer Outra pessoa... os bebs no so assim to excitantes. Claro que ela vai ficar feliz com o beb, e tu tambm. Mas tu s 
especial. Foste o primeiro a nascer. Eu tive tambm um rapazinho como tu e tambm ele era especial para mim... sempre. Porque foi o primeiro de quem gostei. A tua 
mam nunca ir gostar mais de ningum do que gosta de ti. Prometo.
      
      - Para onde foi o seu rapazinho? - perguntou o garoto. Estava intrigado com as palavras dela e compreendera-a perfeitamente.
      
      Mary Stuart hesitou apenas um momento.
      
      - Foi para o cu... e eu sinto muito a falta dele... ele era muito especial, tal como tu.
      
      - Ele morreu? - Mary Stuart detestou ter de lhe responder, mas disse que sim com a cabea. - O nosso co morreu - declarou Benjamin com ar grave, fitando Mary 
Stuart e querendo partilhar com ela informaes importantes. E de repente, sem qualquer aviso, vomitou por cima dela. Zoe no ficou surpreendida e disse a Mary Stuart, 
em voz baixa, que ele tinha sofrido um violento abalo.
      
      - Ests bem, Benjamin, ests bem, querido? Mary Stuart limpou-o com uma toalha que algum lhe entregou e ficou junto dele, como todos, at a ambulncia chegar 
com os paramdicos.
      
      Recuperara a conscincia e Zoe sentia-se menos preocupada com ele. Estava convencida de que escapara com um brao partido, uma pancada na cabea, alguns arranhes 
e ndoas negras. Tivera muita sorte. No momento em que a ambulncia chegou apareceu a me, caminhando o mais depressa que podia. Gordon mandara algum cham-la. 
Logo que viu o filho comeou a chorar, mas Zoe e os outros dois mdicos apressaram-se a tranquiliz-la. Zoe explicou-lhe que pensava que os ferimentos tinha sido 
mnimos, apesar da gravidade da queda e de ele no usar capacete.
      
      - Oh!, Benjie! - exclamou, ajoelhando-se junto dele e beijando-o. - Gosto tanto de ti, meu filhinho!
      
      Estava muito assustada e nervosa e agradeceu a todos terem-no socorrido. Mary Stuart olhava-o, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, querendo lembr-lo do que 
lhe dissera antes, que a me dele nunca gostaria mais de algum do que dele. Ela nunca amara ningum mais do que Todd. Amava apaixonadamente a filha desde o instante 
em que ela nascera, mas nunca gostaria mais dela do que do filho. Nem menos, tambm.
      
      Quando o levaram para a ambulncia tocou-lhe na mo. Depois inclinou-se e beijou-lhe a face. Isso destroou-lhe o corao, pois fez-lhe lembrar o toque suave 
de uma criana. Apesar do vomitado, da terra e do cheiro a cavalo, ele continuava a ter o cheiro de um rapazinho, pouco mais do que o cheiro de um beb.
      
      - Gosto muito de ti, rapazinho - sussurrou-lhe. Era quase como se o estivesse a dizer a Todd e causou-lhe grande sofrimento, embora tambm a reconfortasse. 
Parecia-lhe que aquela criana fora at junto dela para lhe abrir as comportas dos seus sentimentos. - At breve.
      
      A me agradeceu-lhe de novo, a chorar, e entrou na ambulncia ao lado do filho. Esta partiu e Mary Stuart ficou parada a chorar, quando de repente sentiu dois 
braos fortes abraarem-na. Sabia quem era e voltou-se para ele, encostando a cabea no seu peito, sem conseguir parar de chorar.
      
      - Sofro tanto... tanto...
      
      Mary Stuart estava suja do vomitado da criana, chorosa, mas aquele homem que ela mal conhecia no se importava. Queria estar ali, junto dela.
      
      - Oh!, pobrezinha... tenho tanta pena... gostava de ter estado junto de si para a ajudar.
      
      Mary olhou-o e sorriu por entre as lgrimas, pensando como pudera subitamente ter tido aquela sorte. Talvez Deus achasse que ela sofrera bastante, ou talvez 
fosse um acaso, ou talvez estivesse a sonhar.
      
      - Ele parece-se tanto com o meu filho... - tentou explicar. Mas no precisava de o fazer. A me do garoto era to parecida com Mary Stuart que era fcil perceber 
a semelhana.
      
      - Que desgosto terrvel deve ter tido - disse ele, enquanto os outros os deixavam ss. Mary Stuart sentou-se num tronco para recuperar a compostura. A verdade 
 que s o facto de estar junto dele fazia com que se sentisse melhor. Talvez por Hartley tambm ter sofrido muito. A mulher dele morrera com grande sofrimento e 
ele acompanhara-a a cada momento. Mas, finalmente, ela morrera em paz e ele aceitara perd-la. O mdico dissera-lhe que devia faz-lo para ela ficar espiritualmente 
livre e poder morrer em paz. E falecera nos seus braos, na manh do dia de Natal.
      
      - Lamento ter ficado neste estado. Aquela criana conseguiu tocar-me no corao. No sei como isso aconteceu...
      
      - H coisas que acontecem no se sabe porqu - disse Hartley docemente, tentando imaginar como teria morrido o filho. E ela adivinhava o que ele estava a pensar.
      
      - O meu filho suicidou-se - disse ela, como se respondesse a uma pergunta. Nunca dissera aquilo a ningum anteriormente, a no ser a Zoe. E nunca ningum lhe 
fizera a pergunta. - Ele estava em Princeton... E Mary Stuart comeou a contar-lhe tudo, como era Todd, o choque que ela sofrera, a angstia, o funeral, a reaco 
do marido. Era uma histria terrvel.
      
      - Que pesadelo horroroso para todos vocs. No sei como conseguiu sobreviver - disse ele, olhando-a com admirao.
      
      - No sobrevivemos. O meu marido  um zombi, o nosso casamento morreu h um ano. Penso que a minha filha ficaria feliz se nunca mais voltasse a casa, e eu 
no sei se a hei-de censurar. Tambm eu quero sair de l agora, para deixar tudo para trs das costas.
      
      - Tem a certeza? - perguntou cautelosamente Hartley, duvidando, depois de ter ouvido a histria. Estavam todos em estado de choque. Mas se conseguissem ultrapassar 
isso? Ela e o marido estavam juntos havia muito tempo...
      
      - Creio que tenho a certeza - respondeu ela com sinceridade. - Queria o Vero para pensar bem no assunto. Nunca esperei que uma coisa destas pudesse acontecer-me 
- acrescentou, com um sorriso. Nem sequer sabia se algo sucedera, ou se viria a suceder. Talvez no mais voltasse a ver Hartley depois daquelas duas semanas no rancho. 
Era uma possibilidade. No ia deixar Bill por causa dele. Fazia-o porque sentia necessidade de o fazer. - Quero caminhar com cuidado. Quero fazer o que for certo 
para todos, e creio saber o que isso , agora.
      
      
      Hartley disse que sim com a cabea e ficou calado, abraando-a. Poucos minutos depois acompanhou-a at casa. Zoe e Tanya bebiam caf e convidaram Hartley para 
tomar uma chvena. Mary Stuart foi tomar um duche rpido. A campainha para o almoo acabara de tocar e Zoe e Tanya resolveram ir andando para a casa de jantar. Deixaram 
Hartley  espera de Mary Stuart. Os acontecimentos da manha tinham-nas entristecido. Mary Stuart ficou surpreendida quando saiu do quarto e encontrou Hartley  sua 
espera. Agradeceu-lhe a ateno, olhou-o afectuosamente e, de sbito, ficou preocupada com ele. Tambm ele sofrera muito e estava a ser muito generoso com ela. No 
tinha o direito de o fazer sofrer por sua causa.
      
      - No quero fazer nada que o possa magoar - disse, encaminhando-se lentamente para ele. Estivera a pensar no assunto. Sentia-se atrada por ele, mas no queria 
ser egosta. Ainda no conseguira decidir o que faria relativamente a Bill, embora estivesse mais ou menos segura do que queria. Mas precisava de mais algum tempo 
antes de tomar uma deciso. - Tem sido extremamente bom para mim, embora mal nos conheamos. Tem sido melhor para mim do que qualquer outra pessoa que eu conhea, 
exceptuando Tanya.
      
      - Obrigado - respondeu Hartley, sentando-se num brao do cadeiro, enquanto a olhava. Ela vestia uma camisola de algodo vermelha e umas calas de ganga e, 
ao v-la, o seu corao comeou a bater mais depressa. - No se preocupe comigo, Mary Stuart. Sou um homem adulto. Ambos sofremos muito e no quero que nenhum de 
ns sofra ainda mais. Compreendo quais so os riscos. Deixe-me fazer isto. Quero estar aqui consigo.
      
      Mary Stuart nem acreditava no que ouvia. Ele queria uma oportunidade de estar junto dela, queria ver o que se iria passar, saber se ela deixaria Bill. Ento, 
sem mais uma palavra, Hartley deu dois passos para ela, tomou-a nos braos e beijou-a. Mary cheirava a sabonete, a pasta de dentes e a perfume, um aroma agradvel 
e atraente, e ele passou-lhe as mos plos cabelos enquanto a apertava contra si. Havia tanto tempo que no beijava uma mulher que quase esquecera como era, mas 
nenhum era suficientemente velho para desistir do que j tinham tido. Eram como duas pessoas que houvessem atravessado o canal entre a Frana e a Inglaterra a nado 
e tivessem finalmente chegado  margem. Tinham frio, estavam cansados e esfomeados, mas sentiam-se contentes por terem sobrevivido e por estarem juntos. Ele sorriu, 
fitando-a; beijou-lhe outra vez os lbios e ela sentiu a suavidade dos lbios dele. Suspeitava, mesmo sem o querer saber, que ele seria um amante maravilhoso. No 
fazia ideia de como aquilo iria acabar, e ele tambm no, mas de momento estavam ali os dois, em Wyoming, juntos, e era tudo de que precisavam.






















Captulo 15
      
      No terceiro dia em Wyoming, Zoe estava estendida na cama e espreguiava-se sonolentamente. Ainda no eram sete horas e ia levantar-se da a poucos minutos. 
Ouvia algum na cozinha. Mary Stuart acabara de se levantar e bocejava, enquanto se dirigia para a cozinha para fazer caf, e quase deu um salto quando viu Tanya.
      
      - Que fazes aqui? - exclamou Mary Stuart, assombrada. Ela nunca se levantara quelas horas, nem mesmo quando andavam na universidade.
      
      - Parece-me que vivo aqui - respondeu Tanya. Tinha feito caf, aquecido os muffins e tirara um iogurte do frigorfico. Alm disso, estava penteada e lavada. 
Quando saiu do quarto Zoe ficou tambm surpreendida.
      
      - Passa-se alguma coisa? - perguntou, preocupada. Tinha de haver uma verdadeira emergncia para que Tanya se levantasse da cama to cedo e nem podia acreditar 
no que via.
      
      - Por amor de Deus, que se passa com vocs as duas? Apenas me quis levantar mais cedo... - retorquiu Tanya. Mas as outras no aceitaram a explicao.
      
      - Eu sei o que  - disse Zoe com um largo sorriso. Agora era a sua vez. Tanya gracejara com ela por causa de Sam e com Mary Stuart por causa de Hartley. - 
E Gordon.
      
      - No sejas estpida - retorquiu Tanya. - Ele  apenas um empregado do rancho!
      
      - Que diferena faz isso? - replicou Zoe com naturalidade. - Ele olha para ti como se andasses sobre a gua.
      - Que disparate! - disse Tanya, andando de um lado para o outro na pequena cozinha. E havia mais verdade nas suas palavras do que ela dizia. 
      
      Na tarde anterior tinham falado de muitas coisas enquanto passeavam a cavalo. O acidente do pequeno Benjamin abalara-os a todos e fizera-os abordar assuntos 
mais srios. Gordon falara-lhe do filho. Era crescido, e Gordon j no o via h dois anos, mas gostava visivelmente dele. Tanya falou do seu fracassado casamento 
com Bobby Joe, que considerava o nico verdadeiro e lamentava ainda que Bobby no tivesse suportado os rigores da carreira dela, embora admitisse que provavelmente 
no se dessem muito bem se ainda vivessem juntos, mas de vez em quando ainda tinha saudades dele. E agora que se encontrava de novo sozinha perguntava a si mesma 
se valia a pena. Qual iria ser o seu futuro? Ficaria com um monte de discos de ouro, uma pilha de dinheiro, uma grande casa?! Mas no tinha marido, nem filhos, ningum 
que cuidasse dela quando fosse velha, ningum que lhe fizesse companhia, que partilhasse as suas vitrias e derrotas. Tudo lhe parecia intil e vazio. Ela tinha 
o que todos em Hollywood queriam e a verdade  que isso nada significava para si. Haviam conversado sobre questes muito srias, mas ele falara com bastante senso 
e reconfortara-a. Gordon era inteligente, tinha sentido prtico e era simples como ela. De certo modo, havia muito de comum entre os dois. Gordon teria gostado de 
falar um pouco mais com Tanya, mas tiveram de regressar e os acompanhantes s eram autorizados a comer com os hspedes aos domingos, a no ser que fosse dia de folga, 
o que era o caso de Gordon. Tanya tambm gostava de falar com ele. Na verdade, gostava de muitas coisas nele e no se importava com a sua simplicidade e a sua ocasional 
rudeza. Nunca era antiptico ou indelicado, no havia nele nada de cruel ou ganancioso e era muito inteligente. Alm disso, apreciava o facto de serem ambos texanos, 
mas no estava preparada para o dizer s amigas.
      
      - Tens segredos para ns? - gracejou Mary Stuart e Zoe tambm riu. Mas Tanya ignorou-as e foi acabar de se arranjar. Nesse dia apareceu especialmente espectacular, 
com umas calas de ganga desbotadas e uma camisola de algodo cor de pssego. Calara at um par de botas novas, num tom semelhante ao da camisola, bordadas  mo, 
que comprara pouco tempo antes, no Texas.
      
      Quando entraram na casa de jantar para tomar o pequeno-almoo Hartley esperava-as. Tinha um aspecto jovial e agradvel, cheirando a sabonete e a aftershave, 
com umas calas de ganga e uma camisa branca. Cumprimentou-as afavelmente e passou um brao plos ombros de Mary Stuart. Tanya no pde deixar de pensar que formavam 
um belo par. Pareciam feitos um para o outro, como disse mais tarde a Zoe, que concordou com ela.
      
      O pequeno Benjamin estava  espera delas nas cavalarias e pedia a toda a gente que lhe assinasse o gesso. Tanya deu-lhe um grande beijo e um autgrafo e um 
grupo de raparigas pediu-lhe tambm um, e as mes deixaram-nas. As pessoas mostravam-se mais descontradas com ela, mas ningum tentava fotograf-la s escondidas, 
o que Tanya apreciava. Quando Gordon a viu acenou-lhe. Estava a selar os cavalos. Como de costume, faziam parte dos ltimos grupos a partir, e Mary Stuart sentou-se 
num banco com Benjamin ao colo, acariciando-lhe o pescoo e falando-lhe. Ele era agora uma ddiva.
      
      - Pregaste-nos um grande susto ontem, rapazinho - disse Mary, recordando a queda que ele dera, voando literalmente de cima do cavalo e indo embater na estrada 
rochosa.
      
      - O mdico disse que eu podia ter partido o pescoo, mas no parti.
      
      - Foi uma sorte.
      
      - A minha mama chorou - disse o garoto, olhando para Mary Stuart com ar srio. - Tinha razo. Ela disse que nunca iria gostar do beb como gosta de mim. Contei-lhe 
que me tinha dito isso.
      - ptimo.
      
      - Ela disse que eu seria sempre especial. - Depois fez-lhe vir outra vez as lgrimas aos olhos com um gesto que a atingiu como um soco no estmago. Beijou-a 
e murmurou: - Tenho pena do que sucedeu ao seu rapazinho.
      
      - Tambm eu - disse ela, enquanto os olhos se lhe enchiam de lgrimas e os lbios lhe tremiam. Hartley observava-a. - Ainda gosto muito, muito dele - disse 
com voz trmula. - Continua a ser muito especial para mim.
      
      - Consegue v-lo s vezes? - perguntou Benjamin, perplexo perante a morte. Era o gnero de perguntas que Todd lhe fazia com a idade dele, e Mary tentaria responder-lhe 
com honestidade.
      
      - No. No posso. Nunca mais. S no meu corao. Ele est sempre no meu corao. E vejo-o nas fotografias.
      
      - Como  o nome dele?
      
      - Todd. 
      
      Benjie disse que sim com a cabea, corno se essa apresentao lhe bastasse. Passado um bocado levantou-se, foi olhar para os cavalos e saiu, para ir ter com 
a me. Parecia satisfeito com a sua visita. Depois Tanya, Mary Stuart e os outros partiram com Gordon. Hartley olhava para Mary Stuart. Ela sorriu. Ainda lhe era 
doloroso estar junto de Benjamin. O garoto era muito directo nas suas perguntas, mas talvez isso fosse bom para ela. No era com certeza fcil, e Hartley apertou-lhe 
com fora a mo antes de ela montar a cavalo e disse-lhe que era fantstica.
      
      - No sei o que fiz para ter tanta sorte - respondeu Mary.
      - Uma vida limpa - retorquiu ele, com um sorriso. Zoe estava cansada e seguiu vagarosamente ao lado de Hartley e de Mary Stuart. O casal de mdicos fora numa 
expedio de barcos de borracha ao longo do rio. Gordon e Tanya iam  frente. Ele convidou-a para um rodeo nessa noite. Era um dos participantes.
      
      - Est a brincar? O que  que vai montar?
      
      - Touros e cavalos selvagens. Desde o Texas que o fao.
      
      - E doido? - Tanya assistira a esses rodeos quando era garota. Os homens eram pisados e arrastados pelo solo. Muitos deles tinham leses cerebrais antes dos 
trinta anos e outros ficavam com tantos ossos partidos que caminhavam como velhos aos vinte e poucos. - Isso  realmente uma coisa estpida - continuou ela, zangada. 
- Voc  um tipo esperto e arrisca a vida por umas centenas de dlares ou por uma fivela de prata?
      
      Gordon tinha dez fivelas dessas em casa, mas de que lhe serviriam se ficasse aleijado?
      
      - So como os seus discos de platina - retorquiu ele calmamente, sem se surpreender com a reaco dela. A me e as irms diziam o mesmo. As mulheres no percebiam 
aquilo. - E equivalente ao que voc tem de passar para conseguir um disco de ouro ou um Oscar. A tortura dos ensaios, as ameaas, os maus modos, as histrias dos 
jornais. E muito mais fcil montar um cavalo selvagem durante noventa segundos!...
      
      - Sim, mas eu no sou arrastada pelo solo sobre a porcaria dos cavalos at o meu crebro ficar paralisado. Sou contra isso - concluiu severamente.
      
      Gordon ficou desapontado. Afinal, talvez ela fosse uma rapariga das grandes cidades e no uma texana.
      
      - Isso quer dizer que no ir esta noite? Gordon parecia desiludido. Tanya abanou a cabea, mas sorriu.
      
      - Claro que irei. Mas continuo a pensar que  doido. Gordon acendeu um cigarro e sorriu tambm.
      
      - Que ir montar esta noite?
      
      - Cavalos selvagens com sela. E fcil.
      
      - No diga isso.
      
      Tanya estava excitada com a perspectiva de assistir ao rodeo. De qualquer maneira, j tencionava ir. Ele convidou-a para o ir ver s cavalarias e ela prometeu 
que iria, se o conseguisse encontrar. Nem sempre era fcil para ela movimentar-se. Se as pessoas a reconheciam, os seus movimentos ficavam condicionados e podia 
at ter de sair de certos stios, se as pessoas a cercavam. Nunca ia a eventos pblicos sem um guarda-costas, mas dessa vez no queria nenhum. Iria no seu autocarro 
com Tom, Zoe e Mary Stuart. E Hartley, se tambm quisesse acompanh-las. Tanya estava ansiosa por ir assistir ao rodeo. E tinha justamente o traje apropriado para 
isso.
      
      Parecia uma criana a arranjar-se para ir  feira quando se foram vestir, antes do jantar. Saiu do quarto envergando umas calas de camura bege com franjas 
dos lados, um casaco do mesmo material, tambm com franjas, e um leno para o pescoo, tambm da mesma camura. O seu chapu de cowboy era exactamente da mesma cor. 
Parecia tudo muito texano, mas fora comprado em Paris, e a camura era to macia que parecia veludo em contacto com o corpo.
      
      - Oh! Vocs, as texanas! - queixou-se Mary Stuart. Ela vestira umas calas de um tom azul-esmeralda, uma camisola a condizer, e calara botas de pele de crocodilo 
pretas, compradas na Billy Martin's. E Zoe usava calas de ganga elstica e um casaco militar Ralph Lauren. Como de costume, formavam o grupo mais elegante do rancho 
e Hartley comeara a chamar-lhes as Hartley's Angels, o que as divertia.
      
      Foi um jantar muito animado, o dessa noite. Benjamin corria de um lado para o outro, na sala, e a me estava prestes a entrar em trabalho de parto. Dizia que 
fora uma semana traumatizante e estava ansiosa por regressar a casa, em Kansas City. Mary Stuart no podia censur-la. No fora urna semana apropriada para uma mulher 
grvida de oito meses, mas sentia-se feliz por ter conhecido Benjie. O garoto pediu-lhe que assinasse o seu gesso pela segunda vez. Logo aps o jantar meteram-se 
no autocarro de Tanya e partiram para Jackson Hole. Hartley concordara em acompanh-las e estava encantado com o autocarro.
      
      - Nem posso acreditar - disse ele. - E eu a julgar que fazia um figuro com o meu Jaguar.
      
      - Pois eu conduzo uma carrinha Volkswagen com dez anos - confidenciou Zoe, o que o fez rir. Mas no caso dela era por uma boa causa. Todo o dinheiro que tinha 
era aplicado na clnica, para comprar remdios e equipamento.
      
      - O mundo literrio no pode competir com Hollywood - declarou. - Vocs batem-nos em toda a linha, Tanya.
      
      - Est bem, mas veja as porcarias que temos de aturar! Vocs trabalham com gente civilizada. As pessoas com quem eu lido so selvagens, por isso mereo isto.
      
      Todos riram da justificao, mas sem qualquer ressentimento. Ela trabalhava duramente para ganhar o seu dinheiro.
      
      No confortvel autocarro, o tempo que demorou o percurso de Moose para Jackson Hole passou rapidamente. Pouco tempo depois estavam no local do rodeo, quase 
com meia hora de avano. O rancho arranjara-lhes bilhetes excelentes. Tudo aquilo tinha para Tanya algo de familiar, que lhe fazia recordar a infncia. Costumava 
montar o seu potro e assistir ao espectculo. Mais tarde chegara a montar a cavalo, mas o pai dizia que era muito dispendioso e ela no era uma grande apreciadora 
de cavalos. Gostava apenas da excitao. Era como o circo.
      
      Sentaram-se e compraram pipocas e Coca-Colas. Logo a seguir um dos organizadores do rodeo aproximou-se de Tanya. Ela ficou preocupada, pensando se haveria 
algum problema grave, alguma ameaa de morte ou uma questo de segurana. O homem que se aproximou tinha um ar extremamente nervoso e Hartley levantou-se imediatamente 
e colocou-se ao lado dela, em p, quando o homem pediu para falar com Tanya.
      
      - Posso saber o que se passa? - perguntou delicadamente Hartley, julgando tratar-se de algum pedido ou de qualquer imposio.
      
      - Gostava de falar com Miss Thomas - respondeu o homem com um sotaque que Tanya reconheceu facilmente como sendo texano e no de Wyoming. - Temos um favor 
a pedir-lhe - olhou-a por cima do ombro de Hartley -, como nossa conterrnea.
      
      - Que deseja? - perguntou Tanya, aproximando-se, por sua vez. Achava que o homem era inofensivo, embora maador.
      
      - Pensvamos se... - Transpirava incontrolavelmente. Tinham delegado nele aquela tarefa e ele desejava que estivesse outro no seu lugar. O guarda-costas dela 
assustava-o um bocado. Algum se lembrara de comprar um bilhete para Tom, mas Tanya no sabia onde ele se encontrava sentado. - Sei que provavelmente no faz isto, 
e ns no lhe podemos pagar coisa alguma... mas pensmos se... enfim, seria uma grande honra... - Tanya tinha vontade de o sacudir, para as palavras lhe saltarem 
da boca -... se cantasse o nosso hino agora.
      
      Tanya ficou to espantada que por momentos no respondeu. J o fizera noutras ocasies e havia algo de comovente naquele pedido. Era uma cano difcil de 
cantar, mas, de certo modo, at seria divertido cant-la ali, ao ar livre, com as montanhas em torno deles. Era uma ideia to delicada que Tanya sorriu para o homenzinho, 
imaginando o que diria Gordon se a visse cantar. De certo modo, iria cantar para ele, para lhe desejar sorte no seu nmero.
      
      - Ser uma honra - respondeu com seriedade. - Onde  que querem que eu cante?
      
      - Importa-se de me acompanhar?
      
      Tanya hesitou um instante, sempre um pouco receosa da multido e do que lhe poderia suceder sem ningum que a protegesse. As amigas olhavam-na com uma expresso 
preocupada, mas at ento ningum a reconhecera e era tentador acompanhar o homem e ir cantar.
      
      - Quer que eu v consigo? - perguntou Hartley, preparado para a seguir e proteger.
      
      - Creio que no haver perigo - respondeu ela em voz baixa. - Vou ficar num stio aberto. Se vir algo de estranho, ou uma multido a aglomerar-se, chame a 
Polcia o mais depressa possvel, e a segurana.
      
      Mas podiam no ser suficientemente rpidos, e ela sabia-o.
      
      - No devia fazer isto - comentou prudentemente Hartley.
      
      - No entanto,  uma ideia simptica e significa muito para eles. - Ao mesmo tempo, era um presente que ela queria oferecer a Gordon. Queria fazer aquilo por 
ele e pela gente de Jackson Hole. 
      
      - No se preocupe - disse Tanya a Hartley, dando-lhe uma palmadinha no brao e olhando de relance para as amigas. 
      
      Depois seguiu o homem, que transpirava, desceu um lano de escadas e deu a volta  arena. Encontrava-se agora num stio onde toda a gente a podia ver. Propuseram-lhe 
que se colocasse sobre um pdio, no meio da arena, com um microfone na mo e cantasse. Se preferisse, poderia cantar montada a cavalo. Era um cenrio que ela preferia. 
Seria um alvo fcil tanto a p como a cavalo, mas, no ltimo caso, tinha mais mobilidade e montava suficientemente bem para conseguir fugir, se lhe dessem um cavalo 
capaz de o fazer. 
      
      Os organizadores do rodeei ficaram mais que encantados por ela querer cantar sentada num cavalo e deram-lhe um bonito palomino, que condizia com o cabelo e 
as roupas dela. De qualquer modo, era mais teatral dessa maneira. S esperava no ser um alvo fcil para um louco qualquer com uma arma. O seu agente teria um ataque 
de nervos se soubesse o que ela ia fazer sem qualquer proteco e, ainda por cima, gratuitamente. Se, quando era criana, lhe dissessem que um dia iria cantar o 
hino num rodeo, no acreditaria. Mas ela era ainda uma rapariga do Texas e sempre sonhara fazer aquilo mesmo. Olhou  sua volta, pensando se conseguiria ver Gordon, 
mas no o viu. Ningum parecia ter dado pela presena dela. Ningum sabia que ela se encontrava entre a assistncia, embora a rapariga que comprara os bilhetes para 
o rancho dissesse que sabiam para quem eram, o que a aborrecera um pouco, mas isso era impossvel de controlar. Havia sempre algum que dizia qualquer coisa. Porm, 
a multido que assistia ao rodeo no estava de modo algum preparada para o anncio que foi feito no incio, e Gordon tambm no.
      
      - Minhas senhoras e meus senhores - disse ao microfone o director do rodeo, sentado a meio da arena num grande cavalo negro. - Temos uma ptima surpresa para 
vos apresentar esta noite e para vos agradecer terem vindo aqui para verem os nossos touros, os nossos cavalos selvagens e os nossos cowboys. Vamos apresentar-lhes 
uma linda senhora que vai cantar o nosso hino. E uma rapariga do Texas e est familiarizada com os rodeos. Encontra-se de visita em Jackson Hole... - Quando ele 
disse aquilo, Tanya rezou mentalmente para que no se lembrasse de dizer onde ela estava, e as amigas tiveram a mesma preocupao, mas felizmente tal no sucedeu. 
      
      -Meus senhores e minhas senhoras... - Houve um rufar de tambores na banda que ia tocar e o homem concluiu: - Apresento-vos Tanya Thomas!
      
      E logo que ele acabou de pronunciar estas palavras, um cowboy abriu a cancela que dava para a arena e Tanya galopou para o centro da mesma, montada no bonito 
palomino. Tanya causava uma impresso fantstica, com os seus longos cabelos louros a aureolarem-lhe a cabea. Segurava o microfone numa das mos e as rdeas na 
outra. O cavalo era mais vivo do que ela pensara e estava com receio de cair antes de acabar de cantar. Segundo o plano, Tanya deu uma volta  arena e depois parou 
no meio, sorrindo para a multido e acenando, enquanto a assistncia gritava e aplaudia. As pessoas tinham-se posto de p, sem poderem acreditar na sua boa sorte. 
Por urna fraco de segundo, Tanya receou que se lanassem sobre ela. E tambm gostava de ver Gordon, mas no podia v-lo. Ele encontrava-se por detrs dela, sentado 
numa cancela da cavalaria, sem poder acreditar no que estava a ver nem na reaco da multido. Estava surpreendido por ela no o ter avisado, mas ficou a ver a 
multido a gritar, a chamar pelo seu nome e a bater os ps ritmadamente. Ento ela ergueu a mo e as pessoas sossegaram, para a poderem ouvir.
      
      - Okay. Vamos l... Tambm estou excitada por os ver, mas isto no  um concerto.  um rodeo... e vamos cantar o nosso hino, por isso peo silncio. E uma 
grande honra para mim estar aqui - concluiu com tal seriedade que todos se aquietaram e prepararam para a ouvir. - E uma cano muito especial para ns, americanos 
- continuou ela, chamando-os ao corao. - Quero que pensem todos no que ela diz e que cantem comigo.
      
      Tanya inclinou a cabea durante um minuto, fez-se silncio e a banda comeou a tocar, melhor do que qualquer orquestra profissional que ela j tivesse ouvido. 
Tocavam para ela e Tanya cantou com toda a sua alma para o povo de Jackson Hole, para os turistas, para os texanos... e para Gordon. Cantou sobretudo para ele, e 
esperava que ele o soubesse. Compreendia que o rodeo era para ele o mesmo que tinha sido para ela prpria quando era uma rapariguinha que vivia no Texas. Era o ponto 
alto da sua existncia. Pelo menos sempre fora. Mas, nesse momento, ele apenas pensava nela, naquilo que estava a ouvir e a ver. Nunca vira nem ouvira nada mais 
bonito do que Tanya a cantar o hino e desejava ter podido grav-lo, para o poder ouvir sempre. Sentiu as lgrimas virem-lhe aos olhos, e o mesmo se passava com todos 
os presentes. 
      
      Quando Tanya acabou de cantar, a multido aplaudiu freneticamente. Ela fez um ltimo aceno e galopou para fora da arena, antes que pudessem saltar para cima 
das barreiras e cerc-la. Antes que algum se pudesse mexer j ela se encontrava fora da arena e colocava o microfone nas mos do homem que a contactara. O homem 
beijou-a na face com tanta fora que quase a fez cair do cavalo, mas logo a seguir Tanya desmontou e dirigiu-se rapidamente para as cavalarias, para ver se conseguia 
encontrar Gordon. Tremia de excitao.
      
      Ningum viu para onde ela se dirigia, pois Tanya afastara-se velozmente, desaparecendo por entre as inmeras pessoas que ali se encontravam. Passado um bocado 
viu Gordon, que ainda se sentia atordoado, encostado  cancela da baia nmero cinco. Como se se tivesse apercebido da sua presena, ergueu os olhos e viu-a. Saltou 
imediatamente por cima da cancela, como um macaco, e parou junto dela. Tanya olhou-o e sorriu.
      
      - Porque no me disse que ia cantar? Mostrava-se magoado por ela no o ter avisado, mas, por outro lado, estava ainda comovido.
      
      - Eu tambm no sabia. Quando me sentei, um dos organizadores do rodeo foi pedir-me para cantar.
      
      - Foi inacreditvel - disse orgulhosamente Gordon. Mal podia acreditar que a conhecia. Os ltimos dias tinham sido corno um sonho para ele e agora encontrava-se 
ali a falar com ela, como se sempre a tivesse conhecido. Usava uns safes verdes e prateados e botas feitas  mo a condizer, uma camisa de um verde-forte e um chapu 
cinzento. As esporas de prata tilintavam. - Nunca ouvi ningum cantar assim - continuou com assombro, enquanto as pessoas passavam de um lado para o outro junto 
deles. Ainda ningum parecia ter percebido com quem ele estava a falar.
      
      - E uma tolice o que eu vou dizer - murmurou Tanya, sentindo-se subitamente tmida -, mas fi-lo por si. Pensei que pudesse dar-lhe sorte... que pudesse gostar...
      
      O olhar que ele lhe lanou era uma verdadeira caricia, mas sentia-se to tmido como ela.
      
      - No sei o que hei-de dizer... Tanya... Tanya Thomas... - Apetecia-lhe beliscar-se. Aquilo estaria realmente a acontecer-lhe? Estaria ela a falar com ele? 
Teria andado a cavalo ao lado dela desde segunda-feira? Era uma loucura e devia estar a sonhar.
      
      - Foi um presente meu... agora d-me tambm um. - Gordon sentiu-se assustado com o que ela poderia pedir-lhe, mas naquele momento teria feito fosse o que fosse 
que ela lhe pedisse. - No se magoe. Tenha cuidado consigo. Mesmo que isso signifique ficar desclassificado. E s o que lhe peo. No vale a pena ser de outro modo, 
Gordon. A vida  demasiado importante.
      
      Tanya vira tantas pessoas entrarem e sarem da sua vida, tantas coisas estpidas sucederem, tanta gente que tudo arriscava por uma coisa que nada significava! 
No queria que ele se matasse por setenta e cinco dlares, montando um cavalo estpido. De certo modo, os rodeos eram semelhantes s touradas. Era muito o que estava 
em jogo e s vezes era preciso saber perder.
      
      - Prometo - respondeu ele com voz rouca, sentindo os joelhos perderem as foras.
      
      - Tenha cuidado - repetiu Tanya, tocando-lhe num brao. Gordon sentiu o toque aveludado do casaco dela na sua mo e logo a seguir Tanya desapareceu literalmente. 
Reparara que os observavam e, antes que algum lhe pudesse tirar uma fotografia ou os cercasse, quis voltar para o seu lugar na assistncia. Poderia ser impossvel 
permanecer ali, pois agora j sabiam onde ela estava, mas Tanya estava desejosa de ver Gordon actuar. Levou bem uns cinco minutos a voltar ao lugar, mas conseguiu 
faz-lo sem problemas. O seu corao batia aceleradamente, mas por causa de Gordon, no devido a ter cantado ou a recear a multido. Nunca se sentira to atrada 
por ningum como por ele, mas sabia que isso poderia ser perigoso para ambos. No lhe agradava dar motivos para outro escndalo, nem ele podia ficar com a vida toda 
alterada por causa de uma cantora que se iria enfiar no seu autocarro e deixar a cidade da a menos de duas semanas.
      
      - Onde diabo te meteste? - perguntou Zoe quando Tanya se sentou ao seu lado. Estava preocupada, assim como Mary Stuart e at Hartley. Preparavam-se j para 
chamar a segurana quando ela aparecera.
      
      - Peo imensa desculpa - disse Tanya. - No queria afligi-los, mas levei um certo tempo a passar por entre as pessoas e depois encontrei Gordon.
      
      
      Todos aceitaram a explicao, mas um minuto depois Mary Stuart inclinou-se para ela e disse-lhe:
      
      - s uma grande aldrabona. Foste procur-lo. Os olhos de Mary Stuart brilhavam maliciosamente e Tanya evitou fit-la. No queria confessar o que fizera. Estava 
realmente mais apaixonada por ele do que queria admitir.
      
      - Claro que no fui - retorquiu, fingindo interessar-se pelo primeiro nmero do rodeo, que era apanhar gado a lao, e que sempre a aborrecera.
      
      - Eu vi-te - afirmou Mary Stuart, olhando-a de frente. A amiga sorria. - Tem cuidado - sussurrou ao ouvido de Tanya. Mas nesse momento aproximaram-se umas 
doze pessoas, pedindo-lhe que assinasse autgrafos. 
      
      Visto que se tinha voluntariamente exposto aos olhos da multido, Tanya achou que no podia recus-los. E a cena repetiu-se durante todo o espectculo, os 
laos, a corrida de barris, as tentativas para dominarem cavalos selvagens em plo, os touros, at que finalmente foi a vez de Gordon. Montava um fogoso cavalo selvagem 
com sela. O que Tanya mais detestava naquilo era que os cavaleiros tinham de pr uma das mos debaixo da sela. Tinham de saltar especificamente de um lado e ser 
capazes de libertar a mo. E se no o fizessem podiam ser arrastados de cabea para baixo durante dez minutos, at os companheiros o irem apanhar. Tanya assistira 
a alguns acidentes terrveis, em criana, no Texas. Ficou horrorizada ao ver Gordon aparecer na arena montado num grande cavalo castanho, que fazia tudo quanto podia 
para se livrar do cavaleiro. Os seus ps estavam no ar como deviam estar, as pernas estendidas para a frente, o dorso e a cabea inclinados para trs, e no tocou 
na sela com a mo livre. Montou at a campainha tocar, sem um falha, e saltou impecavelmente para o solo. Aguentara-se em cima do cavalo mais tempo do que qualquer 
outro e a sua pontuao foi quase perfeita. Quando a viu acenou-lhe com o chapu e afastou-se em direco s cavalarias. Fora uma grande vitria para Gordon. E 
fizera-o por Tanya.
      Os quatro ficaram at ao final do espectculo, constitudo por uma recolha de touros e por rapazes de catorze anos que montavam novilhos, o que fez com que 
se admirassem por os pais autorizarem tal coisa.
      
      - Essa gente devia ser presa por deixar os filhos fazerem isto! - No seria realmente to perigoso como se se tratasse de touros, mas quase, e Mary Stuart 
sentia-se indignada. Com efeito, um dos rapazes, um garoto de doze anos, fora pisado, mas pouco depois j estava de p outra vez. Eles no o tinham perdido de vista.
      
      Mas, apesar do barbarismo e primitivismo de tudo aquilo, Tanya confessava que gostara do espectculo; fora uma coisa de que sempre gostara em criana. E quando 
se prepararam para partir, imensas pessoas comearam a pedir-lhe autgrafos, a tirar-lhe fotografias e a tentar tocar-lhe. Mas o director do rodeo tivera a amabilidade 
de mandar a segurana e a Polcia proteg-la, e Tanya pde chegar ao seu autocarro sem grandes problemas. Quando entrou e o autocarro partiu ficaram ainda umas cinquenta 
pessoas a acenar, a gritar e a correr ao lado do veculo. Era um fenmeno espantoso, o da adorao, que surgia sempre antes do dio. Se tivesse ficado ali tempo 
suficiente seriam capazes de a esquartejar, para ficarem com um pedao dela, ou algum louco poderia realmente fazer-lhe mal. Esse ambiente fazia com que Tanya se 
sentisse sempre nervosa quando se encontrava no meio da multido, em lugares pblicos.
      
      - Voc  espantosa, Tanya - disse-lhe Hartley, enquanto o autocarro se afastava. Mostrara-se graciosa com toda a gente, conservando, no entanto, a sua dignidade, 
tentando dar-lhes o que eles queriam, mas mantendo, ao mesmo tempo, a distncia. Porm, sentia-se constantemente como o equilbrio da multido era precrio. - Eu 
ficaria horrorizado mesmo com uma pequena aglomerao como esta - continuou Hartley. - Sou um cobarde inveterado. - Mas Tanya estava habituada a realizar concertos 
perante setenta e cinco mil pessoas. No entanto, mesmo com uma multido como a dessa noite, algum louco poderia facilmente descontrolar-se e mat-la. E ela sabia-o. 
- Alm disso, voc tem uma voz de ouro - continuou Hartley. - A nossa volta toda a gente chorava.
      
      - Eu tambm chorei - disse Mary Stuart, sorrindo.
      
      - Eu choro sempre quando tu cantas - declarou Zoe com naturalidade, e Tanya sorriu, comovida com todos eles. Fora uma noite memorvel; Hartley ficou um bocado 
com elas depois de chegarem ao rancho e em seguida ele e Mary Stuart foram dar um passeio. Por volta das onze e meia ele levou-a a casa. Tinham-se beijado,  luz 
do luar, e Tanya e Zoe achavam-nos incrivelmente romnticos.
      
      - O que  que pensas que suceder? - perguntou Tanya a Zoe, quando estavam na sala.
      
      - Acho que seria bom para ela se as coisas resultassem com Hartley, mas  difcil de saber. Tenho a sensao de que num stio destes  um pouco como um romance 
a bordo. E no sei se ela decidiu realmente separar-se de Bill - declarou astutamente Zoe.
      
      - Ele foi um verdadeiro sacana para ela durante todo o ano. Espero que Mary o deixe - declarou Tanya, mostrando-se mais dura do que habitualmente, mas estava 
zangada com Bill e tinha pena de Mary Stuart.
      
      - Mas ele tambm tem sofrido - lembrou-lhe Zoe, mais familiarizada com a tenso que a morte de um familiar provoca, mesmo nas melhores pessoas. Algumas transformavam-se 
em santas e outras em monstros. Bill Walker pertencia decididamente ao ltimo grupo.
      
      Zoe ia dizer alguma coisa a respeito do apaixonado de Tanya, mas Mary Stuart entrou nesse momento, sorridente.
      
      - Podemos ver se ests arranhada pela barba? - perguntou Tanya, lembrando-se do que costumava dizer na universidade, e todas desataram a rir.
      
      - Oh!, j me tinha esquecido do que isso  - retorquiu Mary Stuart, rindo. Depois voltou-se para Tanya. - Foste inacreditvel esta noite Tan. Fantstica! Nunca 
te tinha ouvido cantar assim!
      
      - Foi divertido. Essa  a parte boa. Gosto sempre de cantar.
      
      - Bem, deste um grande prazer a uma quantidade de gente - disse afectuosamente Mary Stuart.
      
      Conversaram durante mais algum tempo, at que Mary Stuart e Zoe se foram deitar, e Tanya decidiu ficar na sala a ler. Estava ainda excitada com o rodeo e a 
sua exibio. Passava pouco da meia-noite quando ouviu uma leve pancada na janela. Ao princpio julgou tratar-se de algum animal, mas foi espreitar e viu de relance 
uma camisa verde e depois um rosto que lhe sorria como um garoto divertido. Era Gordon, Tanya sorriu tambm, ao v-lo. Pensou se uma parte de si no teria instintivamente 
querido ficar  sua espera. Ocorreu-lhe essa ideia enquanto saa silenciosamente de casa para ir ter com ele. L fora estava frio e ela tinha ainda vestido o seu 
traje de camura e estava descala.
      
      - Chiu! - Gordon levou um dedo aos lbios, a pedir silncio, mas ela no ia dizer o nome dele. Calculava que podia arranjar grandes problemas se fosse encontrado 
ali quela hora com ela. Os alojamentos dele ficavam a uma certa distncia, nas traseiras da cavalaria.
      
      - O que est a fazer aqui? - sussurrou Tanya. Gordon sorriu. Estava to excitado como ela.
      
      - No sei. Creio que sou louco. Quase to louco como a Tanya.
      
      Era como se a tivesse conhecido toda a vida. E nunca esqueceria o que ela fizera por ele nessa noite, nem a voz que tinha escutado.
      
      - Voc foi formidvel - disse Tanya. - Venceu.
      
      - Obrigado - respondeu orgulhosamente Gordon. Disse-lhe tambm que fizera aquilo por ela. Fora um presente para Tanny, como ele lhe chamava. Isso fazia com 
que ela se sentisse menos Tanya Thomas.
      
      - Eu sei...
      
      Estavam a falar junto de uma rvore e de repente ele inclinou-se e atraiu-a para si.
      
      - No sei o que estou a fazer aqui. Sou doido. Posso ser despedido por causa disto.
      
      - No quero que seja prejudicado - murmurou Tanya, mantendo-se encostada a ele, esperando que ningum os visse.
      
      - Eu tambm no quero que lhe suceda nenhum mal - disse Gordon, olhando-a. Nunca tivera tanto medo como nessa noite, ao ver a multido rode-la depois de ela 
sair de junto dele. - Senti-me aterrorizado... com receio de que algum lhe pudesse fazer mal.
      
      - Pode ser que um dia faam - murmurou Tanya tristemente. Para ela era algo que estava sempre presente e que aceitava. Ou quase. - Podia suceder - acrescentou, 
querendo mostrar-se calma, mas sem estar.
      
      - No quero que lhe acontea qualquer mal. Nunca. - Depois surpreendeu-se a si prprio, acrescentando: - Gostava de poder estar junto de si para a proteger.
      
      - No pode faz-lo a toda a hora. Posso ser atacada ao sair de minha casa uma manh, ou no palco, durante um concerto. Ou no supermercado.
      
      - Devia ter sempre guardas  sua volta...
      
      Ele gostaria de a ter fechada em casa, s para a proteger.
      
      - No quero viver assim. S quando  absolutamente necessrio - sussurrou Tanya. - A multido no me assusta, a no ser quando enlouquece.
      
      - A Polcia disse que havia mais de cem pessoas atrs de si quando se meteu no autocarro esta noite... Isso assustou-me.
      
      - Estou ptima - respondeu Tanya, sorrindo. - E voc tambm corre perigo a montar aqueles cavalos selvagens. Talvez seja melhor pensar nisso, em vez de se 
preocupar com os meus fs.
      
      Tanya sentiu que ele a puxava mais para si e no tentou resistir-lhe. Queria fundir-se com ele, fazer parte dele. E Gordon via o rosto, os olhos dela, a mulher 
que ele descobrira por detrs da lenda.
      
      - Oh!, Deus, Tanya... - murmurou, roando os lbios plos cabelos dela. - No sei o que estou a fazer... - Receara a sua presena, deixara-se atrair por ela, 
ou impressionar, mas nunca esperara aquela avalanche de sentimentos. E quando ela lhe ps os braos em volta do pescoo, beijou-a como nunca beijara outra mulher. 
Tinha quarenta e dois anos e durante toda a sua vida nunca sentira por outra mulher o que sentia por aquela. E da a menos de duas semanas ela ter-se-ia ido embora 
e ele ficaria a pensar se aquilo teria alguma vez acontecido. - Diga-me que no estou louco - pediu Gordon, olhando-a intensamente depois de a ter beijado. - Mas 
a verdade  que sei que sou!
      
      Gordon sentia-se simultaneamente infeliz e extasiado, vitorioso e derrotado, mas ela estava to loucamente apaixonada como ele.
      
      - Somos ambos - murmurou docemente. - Tambm no sei o que me sucedeu...
      
      Era como uma vaga gigantesca que no podia deter. Gordon beijou-a e voltou a beij-la repetidamente, e Tanya s sabia que queria fazer amor com ele, mas ambos 
sabiam que no deviam faz-lo.
      
      - Que estamos ns a fazer? - perguntou Gordon de sbito. E ento quis saber uma coisa que nem sequer se lembrara ainda de lhe perguntar: -  casada? Tem algum... 
um namorado?
      
      Se tivesse, ia parar nesse momento, mesmo que isso o matasse, mas ela disse que no com a cabea e beijou-o de novo.
      
      - Estou a divorciar-me. J assinei os papis. E no tenho mais ningum.
      
      Olhou-o com a sensao de que nunca tivera. E suspeitava de que, se se tivesse casado pela primeira vez com Gordon e no com Bobby Joe, ainda estariam juntos.
      
      - Era s o que eu queria saber. O resto poderemos resolver mais tarde. Talvez no venha a haver "resto". Mas no queria brincadeiras consigo se fosse casada 
ou coisa assim.
      
      - Eu no fao isso... nunca fiz antes o que estou a fazer agora... no me interessa o que dizem das cantoras ou das actrizes... nunca me apaixonei desta maneira. 
- Com efeito, Tanya casara com homens de quem gostara. Era, na realidade, bastante puritana. Mas o que sentia agora por Gordon era difcil de dominar. Porm, pensou 
na situao dele e nas possveis consequncias que aquilo poderia ter na sua vida. - Tem de ser muito cuidadoso, para ningum saber. No quero que se meta em sarilhos.
      
      Gordon disse que sim com a cabea, sem realmente se importar. Trabalhava, mas renunciaria de bom grado a tudo isso por ela, se ela lho pedisse.
      
      - Tanny - murmurou, apertando-a mais contra si, acariciando-lhe o cabelo e beijando-a insaciavelmente. - Amo-a!
      
      - Eu tambm o amo - sussurrou ela, sentindo-se mais do que um pouco louca. Nenhum deles tinha a mais pequena ideia do que iria fazer, ou se faria alguma coisa, 
mas, de momento, o sentimento que os atraa era avassalador. Gordon nem sequer queria pensar no que estava a fazer.
      
      - Ir novamente ao rodeo, no sbado?
      
      - Sim - respondeu ela, desejando poder estar junto dele nas cavalarias.
      
      - No cante outra vez. No quero que lhe faam mal - sussurrou ele.
      
      - No o farei - concordou ela, ainda encostada  rvore com ele.
      
      - Falo a srio!
      
      Gordon mostrava-se genuinamente preocupado com ela. Tanya entrara no seu corao trs dias antes, como se fosse ali o seu lugar.
      
      - Ento no monte aqueles cavalos selvagens - disse Tanya, mas sem convico. Sabia que ele tinha de o fazer, de momento. Talvez mais tarde deixasse de o fazer. 
Se houvesse um "mais tarde" entre eles. Mas como poderia ser isso? Ambos sabiam que seria impossvel.
      - Agora vou estar sempre preocupado consigo - disse Gordon, com ar infeliz.
      
      - No esteja. Confiemos um pouco no destino. Foi ele que nos aproximou. S por acaso  que vim para aqui... Porque no nos limitamos a ver o que acontece? 
A vida assim  divertida.
      
      - A Tanny  divertida e eu amo-a - disse ele, sorrindo e beijando-a.
      
      Permaneceram ali durante um grande bocado, conversando e beijando-se. Gordon tinha o dia livre no domingo e queria ir passear com el. Tanya ofereceu-se para 
irem no autocarro, mas ele queria era lev-la no camio, para lhe mostrar locais de que gostava, e ela concordou em o acompanhar. Precisava de pensar no que iria 
dizer s amigas, pois no tinha vontade de lhes contar o que se passava entre ela e Gordon. Era algo de to maravilhoso que queria guardar segredo.
      
      - At amanh - disse finalmente Tanya. Gordon no podia pensar que no dia seguinte no lhe seria permitido beij-la, nem abra-la, mas ambos sabiam que isso 
era impossvel. Talvez pudesse voltar ali na noite seguinte e dar um passeio com ela, mas Tanya receava que ele se metesse em sarilhos com a direco do rancho. 
Os romances entre hspedes e trabalhadores do rancho eram mal vistos, embora todos soubessem que algumas vezes podiam acontecer. Gordon jurou que era a primeira 
vez que isso lhe sucedia. Nunca fizera nada que se parecesse com aquilo. Sabia apenas que perdera a cabea com ela.
      
      Tanya ficou  porta, a v-lo afastar-se. Gordon desapareceu na escurido, rpido e silencioso. J passava das duas da manh e eles tinham estado l fora quase 
duas horas. Quando entrou em casa, Tanya sobressaltou-se ao ouvir um rudo. Julgara que as amigas estavam a dormir, mas Zoe encontrava-se na cozinha e punha a chaleira 
ao lume. Tinha-se embrulhado num cobertor e estava terrivelmente plida, de um tom esverdeado. No disse nada a Tanya, mas tinha uma diarreia horrorosa.
      
      - Ests bem? - perguntou Tanya, sem saber como explicar a sua permanncia l fora; mas no foi preciso faz-lo. Zoe calculara, porm, no falou no assunto. 
- Pareces doente.
      
      - Estou bem - disse sem convico, e Tanya reparou que ela tremia dos ps  cabea e ficou verdadeiramente preocupada.
      
      - Zoe? - Tanya olhou-a com uma expresso preocupada nos seus grandes olhos e Zoe abanou a cabea. No queria falar no caso. - Vai-te deitar. Eu fao o ch. 
- Zoe ficou grata por poder ir deitar-se, e uns minutos mais tarde Tanya levou-lhe uma chvena com ch de hortel. Zoe continuava a tremer, mas parecia um pouco 
melhor. Tanya entregou a caneca a Zoe e sentou-se na beira da cama. - Que se passa? - perguntou, preocupada.
      
      - Deve ser uma virose - disse Zoe. Mas Tanya no acreditou.
      
      - Queres que chame um mdico?
      
      - Claro que no. Eu sou mdica. Tenho aqui tudo quanto preciso.
      
      Tinha o AZT uma poro de outros medicamentos, e podia at dar uma injeco a si prpria, se a diarreia sasse do controlo outra vez. Quase no tivera tempo 
de chegar  casa de banho. Isso teria sido terrvel e exigiria uma quantidade de explicaes.
      
      Permaneceram um bocado silenciosas, mergulhadas nos seus pensamentos, enquanto Zoe bebia o ch, recostada nas almofadas. Olhou para a amiga e achou que precisava 
de lhe dizer qualquer coisa.
      
      
      - Tanny... tem cuidado... e se ele no for o que tu pensas que ?... Se ele vende a sua histria a algum... ou te magoa de qualquer outra maneira. No o conheces...
      
      Tanya estava admirada com a percepo de Zoe. Era muito esperta, realmente. Sorriu ao ouvir as palavras cautelosas da amiga. Nada do que ela dizia era impossvel, 
mas o seu instinto dizia-lhe que Gordon era sincero, e habitualmente s se metia em sarilhos quando ignorava os seus instintos.
      
      - Penso que ele  honesto Zoe. Sei que  uma loucura, porque mal o conheo, mas faz-me lembrar Bobby Joe. Zoe tambm sorriu melancolicamente.
      
      - Tem graa que tambm a mini ele me faz lembrar Bobby Joe. Mas a verdade  que no  ele. E outra pessoa. E pode fazer muitas coisas que te magoem.
      
      O preo que os tablides davam pela cabea dela era muito alto. Pagariam centenas de milhares de dlares por uma histria a seu respeito. Especialmente aquela. 
Para no falar de fotografias...
      
      - Sei disso - respondeu cautelosamente Tanya. - A verdade  que  espantoso que eu ainda esteja disposta a acreditar em algum, mas estou. Posso ser louca, 
mas confio nele.
      
      - Pode ser que tenhas razo - disse Zoe imparcialmente. Sempre fora imparcial, mesmo quando eram novas. Era uma das muitas qualidades que Tanya apreciava nela. 
- Mas no ds o teu corao depressa de mais. S temos um, e  muito difcil de reparar quando fica partido.
      
      As duas mulheres trocaram um demorado sorriso. Nada seria mais agradvel a Zoe do que ver Tanya encontrar o homem certo e v-la amada e protegida.
      - E o teu corao? - perguntou Tanya. - Porque tens estado tanto tempo sozinha? Est destroado?
      
      - No - respondeu com franqueza Zoe, pousando a chvena. Parecia estar agora um pouco melhor. - Apenas tem estado cheio com as histrias das outras pessoas. 
Nunca tive tempo suficiente... e agora tenho a minha filha. No preciso de mais do que isso.
      
      - No acredito - respondeu Tanya. - Todos precisamos.
      
      - Talvez eu seja diferente - disse Zoe. Mas parecia triste, sozinha e doente, e Tanya desejou poder fazer algo mais por ela. Sempre gostara dela como de uma 
irm e Zoe fazia tanto por tanta gente! Era uma espcie de santa, e Tanya preocupava-se por ela estar to triste e to exausta. Normalmente no havia ningum que 
cuidasse dela, que fizesse por ela o que ela fazia plos outros. Mas Zoe parecia agora sonolenta e Tanya apagou a luz e deu-lhe um beijo na testa.
      
      - V se dormes. Se de manh no estiveres melhor chamo um mdico.
      
      - Vou estar melhor - respondeu Zoe, fechando os olhos, e j estava quase a dormir antes de Tanya fechar a porta. Tanya saiu do quarto e ficou parada no limiar 
durante um instante. Zoe adormecera e sorriu.
      
      Quando se dirigia para o seu quarto, os pensamentos de Tanya voltaram-se de novo para Gordon. Sabia que Zoe tinha razo. Ele podia fazer-lhe coisas terrveis 
e mago-la de verdade. Sabia que era a figura mais vulnervel que existia e percebia que no se podia dar ao luxo de ter emoes como as outras pessoas. Gordon podia 
escrever uma biografia no autorizada, ou dar uma entrevista a qualquer tablide, podia fotograf-la e fazer chantagem com ela, se ela deixasse; podia fazer tudo, 
desde extorquir-lhe dinheiro a mat-la. Mas como  que ela podia viver constantemente preocupada com coisas dessas? Habitualmente era circunspecta e cuidadosa, mas 
agora, em trs dias, apaixonara-se perdidamente por um cowboy. Era uma loucura, e, contudo, na sua vida nada lhe parecera mais certo e saudvel. Quando se deitou, 
depois de ter escovado os dentes e vestido a camisa de noite, s conseguiu pensar no seu rosto quando lhe dissera que cantara o hino para ele. A nica coisa que 
lhe importava era voltar a estar com ele na manh seguinte. E quando adormeceu estava a ver o seu rosto, os olhos dele enquanto montava o cavalo selvagem... Os safes 
verdes e prateados voavam... a mo dele erguia-se ao alto... ela cantava para ele... e ele sorria.
























Captulo 16
      
      No dia seguinte ao rodeo, quando Mary Stuart acordou, ouviu um rudo junto da porta do quarto. Vestiu o roupo e foi ver o que era. Encontrou Tanya na sala, 
completamente vestida e parecendo muito preocupada.
      
      - Passa-se alguma coisa? - perguntou, sem sequer gracejar com ela por a ver levantada quela hora, pronta para sair, j de botas caladas.
      
      - E a Zoe. Creio que esteve a p toda a noite. No me quer dizer o que tem. Acha que deve ser um gnero de gripe, mas est realmente com um aspecto terrvel. 
- Ocorriam-lhe mil possibilidades pavorosas, desde lceras a cancro. - Acho que devia ir para o hospital, mas no quer.
      
      - Vou v-la - disse calmamente Mary Stuart, mas quando chegou ao quarto, ficou chocada e silenciosa. O rosto de Zoe estava to plido que tinha um tom esverdeado, 
fluorescente, e ela dormitava. Mary e Tanya ficaram um momento paradas e depois saram as duas do quarto.
      
      - Meu Deus! - murmurou Mary Stuart, horrorizada. - Est com um aspecto horrvel. Se no quer ir para o hospital, acho melhor chamar algum para a vir ver - 
declarou. E Tanya sentiu-se aliviada por a ouvir dizer aquilo.
      
      Tanya telefonou para a direco e perguntou se havia algum mdico nas proximidades que pudesse fazer uma visita domiciliria. Perguntaram-lhe de que se tratava 
e ela disse que uma das suas amigas se encontrava extremamente doente, que no sabiam o que era, mas que podia ser apendicite ou qualquer outra coisa que necessitasse 
de tratamento imediato.
      
      Charlotte Coins, a proprietria, telefonou-lhe da a momentos, e disse-lhe que dentro de meia hora estaria l um mdico em casa.
      - No achas que seja algo de grave, pois no? - perguntou Tanya a Mary Stuart enquanto esperavam, e esta limitou-se a abanar a cabea, preocupada.
      
      - Quem me dera saber! Espero que no!... Mas ela trabalha imenso. Esperemos que no seja nada.
      
      Charlotte Collins cumpriu a sua promessa e s oito e meia o Dr. John Kroner batia-lhes  porta. Era um homem novo, de aspecto atltico e bem-parecido. Devia 
ter jogado futebol na universidade. Quando entrou era bvio que sabia que ia ver Tanya Thomas. Tentou no se mostrar impressionado, mas no o pde evitar, e Tanya 
sorriu-lhe afavelmente e tentou falar-lhe de Zoe.
      
      - O que  que acha que ela tem? - Sentou-se, olhou-a atentamente e ficou a ouvi-la.
      
      - No sei. Acho-a sempre plida e cansada, mas tem andado bem at ontem. Disse que estava com gripe e que no se sentia bem do estmago. A noite passada tinha 
uma cor esverdeada e tremia violentamente. Esteve a p at s duas da noite e hoje parece estar pior e tem febre.
      
      - Tem tido dores?
      
      - Ela no disse. Mas tinha um aspecto terrvel. Deve ser alguma coisa...
      
      - Vmitos? Diarreia?
      
      - Creio que sim.
      
      Tanya sentiu-se inusitadamente estpida e momentos depois o mdico foi ver Zoe. Fechou a porta e estiveram l dentro muito tempo, at que ele saiu. Fora uma 
reunio muito interessante para si. Logo que ela disse o nome, ele soube de quem se tratava. Lera tudo o que Zoe escrevera. E, para ele, era maior honra conhec-la 
a ela do que conhecer Tanya.
      
      O mdico disse a Zoe que achava que ela se iria sentir melhor dentro de dias, mas ela foi honesta e contou-lhe o seu segredo. Ele sugeriu-lhe que descansasse, 
ficasse na cama, bebesse lquidos claros e fizesse o possvel para no se desidratar e para tentar recuperar as foras. Tinha a certeza de que segunda-feira ela 
se sentiria melhor. Mas achava que precisava de mais uma semana de descanso e no queria que ela se fosse embora no domingo. Zoe ficou muito desanimada. Nem sequer 
sabia se Sam poderia ficar a substitu-la mais uma semana... Tinha de lhe telefonar. Queria ir ver a filha, regressar ao trabalho, e receava que aquela doena fosse 
j um sinal do que a esperava, mas o Dr. Kroner disse-lhe que no achava que fosse. Seria atreita a ter incidentes isolados como aquele, mas, se fosse cuidadosa 
e os tratasse adequadamente, no seria um sinal do completo colapso das suas defesas.
      
      - Claro que sabe muito mais sobre isto do que eu - concluiu ele. - Leio os seus artigos para ajudar os meus doentes. O seu trabalho tem sido muito importante 
para os pacientes com quem lido. O que tem graa  que sempre quis escrever-lhe...
      
      - Bem, agora j no precisa de o fazer - respondeu afavelmente Zoe, embora o seu aspecto ainda fosse pssimo. O mdico oferecera-se para a pr a soro, mas 
ela recusara. No queria perturbar Tanya e Mary Stuart. Pensava conseguir o mesmo efeito bebendo lquidos.
      
      - Contudo, se no conseguir conservar os lquidos no estmago, eu venho pr-lhe o soro.
      
      - Est bem, doutor.
      
      O mdico sugeriu tambm que a altitude poderia ter agravado a sua situao. Zoe considerou isso uma boa coisa. De cada vez que adoecia, ficava aterrorizada 
com receio de que isso significasse uma degenerao assinalvel, mas at agora tinha tido sorte e sempre recuperara rapidamente.
      
      Tanya e Mary Stuart esperavam o mdico mesmo junto da porta, profundamente preocupadas com a demorada visita.
      
      - Como est ela?
      
      - Vai ficar bem - respondeu calmamente. Zoe avisara-o de que as amigas nada sabiam do problema dela e de que no tencionava dizer-lhes. Ele no concordava, 
mas a deciso era dela, claro. Ela era simultaneamente a doente e a mdica.
      
      - O que  que levou tanto tempo? - Tanya estava verdadeiramente assustada. Eram nove e meia quando o mdico saiu do quarto de Zoe. Hartley estivera ali uma 
hora antes, e Mary Stuart dissera-lhe que nessa manh no iam passear. Tanya pediu-lhe que informasse Gordon. Hartley disse que iria sozinho com ele e  tarde, se 
Zoe estivesse melhor, j poderiam ir os trs.
      
      - Receio que a culpa tenha sido minha - disse o jovem mdico, explicando a demora. - Sou um grande admirador da doutora Phillips. Leio todos os artigos que 
ela escreve. - Era divertido ver um admirador de outra pessoa e Tanya sorriu para ele, achando graa. - Creio que aproveitei a oportunidade para lhe fazer perguntas 
que dizem respeito a doentes meus.
      
      Kroner era, na realidade, o nico mdico conhecedor dos problemas da sida naquela zona, e tinha milhares de perguntas a fazer.
      
      - Gostava que tivesse vindo c fora avisar-nos que ela se encontrava bem - disse secamente Tanya. - Estvamos verdadeiramente assustadas!
      
      - Desculpem - respondeu ele. Depois lembrou-lhes que voltaria no dia seguinte. - Faam-na estar na cama e beber muitos lquidos - recomendou, antes de partir, 
mas Tanya compreendeu, ao entrar no quarto, que no precisavam de insistir para que Zoe ficasse na cama. Ela estava j a comear a beber uma grande garrafa de gua 
mineral, mas o seu aspecto era terrvel.
      
      - Como vai isso? - perguntou Mary Stuart, e ela encolheu os ombros.
      
      - No muito bem. Ele diz que amanh devo estar melhor. Apanhei algum vrus.
      
      - Tenho muita pena.
      
      Tanya sentia-se responsvel e Mary Stuart tornou-se imediatamente maternal, entalando-lhe a roupa da cama, indo buscar bolachas de gua e sal e uma garrafa 
de ginger ale, para o caso de lhe apetecer outra coisa alm de gua, e uma banana, para restabelecer o potssio perdido com a diarreia.
      
      - Vocs so maravilhosas para mim - murmurou Zoe com as lgrimas nos olhos. Sentia-se comovida e com saudades da sua filhinha. - Tenho realmente de regressar 
- disse, comeando logo a seguir a soluar e ficando furiosa consigo mesma por isso. No queria chorar. - Ele acha que eu devo ficar aqui mais uma semana - declarou, 
mais como se se tratasse de uma sentena de morte do que de um prolongamento das frias. Mas a verdade  que ela chorava devido  situao em que se encontrava. 
Falar com o mdico fizera-a recordar mais vivamente o seu estado. Infelizmente Zoe sabia mais sobre o assunto do que Kroner. E sabia qual era o prognstico. Lidava 
com isso diariamente e, de repente, no conseguiu deixar de chorar. As duas amigas olhavam-na, estupefactas. O facto de elas serem to boas para consigo fizera com 
que o conhecimento da sua situao se tornasse ainda ais penoso. Estava ainda a adaptar-se  realidade do seu futuro.
      
      - Zoe, h alguma outra coisa que te preocupe? - Mary Stuart sentou-se na beira da cama, com ar preocupado. Zoe no costumava ser to emotiva e isso assustava-a.
      
      - Estou bem - disse ela, assoando-se outra vez e bebendo um pouco de gua. Mas era tudo to difcil! Iria morrer, eventualmente, e no tinha com quem deixar 
a filha! Nos ltimos dias pensara nas suas duas amigas, mas Tanya nunca tivera lhos e Mary Stuart parecia achar que j passara a idade de os ter. Elas eram ainda 
suficientemente novas para terem mais um filho, por isso no era uma coisa inteiramente fora de questo, mas receava perguntar-lhes. E isso significava ter de lhes 
dizer que contrara sida e, apesar do que o mdico lhe dissera a respeito de se abrir com as amigas para ter o apoio delas, no o queria fazer. O que Kroner lhe 
dissera era exactamente o mesmo que ela dizia aos seus doentes. - Apenas tenho trabalhado demasiado - explicou.
      
      - Bem - disse Tanya, parecendo mais calma do que na realidade estava, pois sentia-se profundamente preocupada com Zoe. - Talvez esta doena seja uma lio 
importante. Quando voltares, deves abrandar um pouco o ritmo de trabalho. Provavelmente devias arranjar um scio. - Zoe tambm j pensara nisso, mas a nica pessoa 
que gostaria de ter como scio era Sam, e achava que ele no aceitaria. Sam nunca mostrara qualquer interesse em ter clientela prpria. Preferia fazer locum tenens.
      
      - No me pregues sermes! - replicou, irritada, dirigindo-se a Tanya. E depois acrescentou: - Tu ainda trabalhas mais do que eu!
      
      - No, no trabalho. E cantar no causa tanto stress como tratar de doentes moribundos. - Mas quando Tanya disse isso Zoe comeou a chorar outra vez, sentindo-se 
completamente idiota. Sentia-se infeliz e lamentava at ter vindo para Wyoming. No queria que a vissem assim. No as queria perturbar com a sua tristeza. - Ento, 
Zoe - pediu Tanya. - Sentes-te mal, por isso tudo te parece pior. Porque no ficas na cama a descansar? Ficarei junto de ti, se quiseres, e vers que  noite te 
hs-de sentir melhor.
      
      - No, no ficarei - retorquiu obstinadamente, revoltada contra a sua pouca sorte e com o que isso significava para o seu futuro.
      
      - Eu vou ficar em casa - declarou Mary Stuart com firmeza. As duas amigas discutiam para ficar junto dela e Zoe sorriu por entre as lgrimas ao ouvi-las.
      
      - Quero que saiam ambas e se divirtam. Eu apenas estou com pena de mim mesma. Fico bem... sinceramente. - Comeava a acalmar e Tanya sentiu-se aliviada. - 
Alm do mais, ambas tm namorados - gracejou, assoando-se outra vez. De certo modo, as vidas delas eram mais normais que a sua.
      
      - Eu no iria to longe - disse Mary Stuart com um sorriso. - Estou certa de que Hartley ficaria encantado se lhe chamassem meu namorado.
      
      - E Gordon ficava maluco se algum soubesse que ele me tinha dito mais que duas palavras - acrescentou Tanya.
      
      - Vocs estiveram a conversar l fora durante horas - disse Zoe, mostrando-se mais sossegada, mas cansada, e recostando a cabea nas almofadas. - Mas deves 
ter cuidado - avisou novamente, e Mary Stuart fez um gesto de concordncia. Ambas sabiam que Tanya era habitualmente sensata, mas s vezes deixava-se guiar pelo 
corao e no pelo seu radar.
      
      - Porque no dormes um bocado? - sugeriu Mary Stuart meigamente. Zoe disse que sim com a cabea, mas, ao mesmo tempo, no queria que as amigas a deixassem. 
Era quase como se elas fossem os seus pais.
      
      - Preciso de falar com Sam - disse, sonolenta. - Nem sequer tenho a certeza se ele poder ficar a substituir-me mais uma semana. Se no puder, terei mesmo 
de voltar a casa, para ver pelo menos alguns dos meus doentes.
      
      - Isso seria verdadeiramente estpido - declarou Tanya. - Com efeito - acrescentou, olhando para Mary Stuart -, ns no te deixaremos ir. Es nossa refm.
      
      Zoe riu, mas os seus olhos encheram-se de lgrimas e Mary Stuart inclinou-se para a beijar.
      
      Zoe estava muito acabrunhada. Mary Stuart olhou-a nos olhos e viu neles algo de irremediavelmente triste e assustador. Enquanto se encontrava inclinada, fez-lhe 
uma ltima pergunta:
      
      - Ests realmente a contar-nos a verdade? H alguma coisa que nos queiras dizer?
      
      Mary no sabia o que a levara a fazer a pergunta, mas apercebia-se de que Zoe estava no limite das suas foras e lhes queria dizer qualquer coisa, embora receasse 
faz-lo. Ao princpio no respondeu, mas Tanya, que se encontrava  porta do quarto, voltou-se e insistiu:
      
      - H, Zoe? - Ambas sabiam que Zoe lhes escondia alguma coisa. No imaginavam o que fosse, mas sabiam que era importante. - Tens alguma doena grave? - De repente 
passou-lhe pela cabea que Zoe tinha um cancro. Quando Zoe ergueu os olhos para elas, viram que estavam cheios de lgrimas e foi com uma voz quase imperceptvel 
que respondeu:
      
      - Tenho sida.
      
      O silncio encheu o quarto depois desta declarao. Sem dizer uma palavra, Mary Stuart inclinou-se e abraou-a. Nessa altura tambm ela chorava. Se fosse cancro, 
ainda se poderia curar, mas a sida no.
      
      - Oh!, meu Deus! - exclamou por fim Tanya, saindo da sua imobilidade e indo sentar-se na cama ao lado de Zoe. - Oh!, meu Deus... porque no nos disseste?
      
      - S descobri h pouco tempo. No queria dizer a ningum. Como hei-de tratar dos meus doentes se sabem que estou doente? Tenho de ser forte por eles e por 
muitas pessoas. Tenho pensado bastante no assunto, no que isso significa para a minha vida, para a minha carreira... para a minha filha. Nem sequer sei o que h-de 
ser dela quando eu morrer ou quando ficar gravemente doente... - Olhou para uma e para a outra, aterrorizada. - Ficaro com ela? - Eram as suas melhores amigas e 
gostaria de saber que Jade estava com elas.
      
      - Eu ficarei - declarou Tanya sem hesitar. - Gostaria de ficar com a tua filha.
      
      - E, se por qualquer razo, Tanya no puder, ficarei eu - acrescentou decididamente Mary Stuart. Mas Zoe mostrava-se ainda preocupada.
      
      - E se estiveres com Bill e ele no quiser?
      
      - De qualquer modo, vou deix-lo - disse com voz clara e segura, e Zoe acreditou nela. - Mas se, por qualquer razo, no o deixasse e ele no me permitisse 
ficar com ela, ento deix-lo-ia de certeza - disse convictamente.
      
      - Eu no tenho ningum que me diga o que devo fazer - declarou Tanya com um sorriso meigo, apertando a mo da amiga. Era pequena, frgil e estava gelada. - 
Mas tens de cuidar de ti. Podes viver muito tempo. E aquele mdico que ficou a substituir-te? J lhe disseste? Vais precisar da ajuda dele para no te cansares demasiado.
      Fora exactamente o que o Dr. Kroner lhe dissera nessa manh. Mas no queria contar tambm a Sam. J chegava que Tanya e Mary Stuart soubessem. Agora iam preocupar-se 
com ela e dizer-lhe o que no devia fazer. Mas, por outro lado, apoi-la-iam e am-la-iam. Era o mesmo dilema que ela via com os seus doentes. Pensando bem, estava 
satisfeita por lhes ter dito. Sabia agora que Tanya ficaria com Jade e podia tratar dos papis. Tinha esperana de que no fossem precisos durante muito tempo, mas 
nunca se sabia.
      
      - No quero mesmo dizer-lhe - declarou Zoe, referindo-se a Sam. - A notcia espalhar-se-ia como um fogo, e eu no quero isso. Diminuiria o meu impacte sobre 
os doentes.
      
      - Pelo contrrio - replicou gravemente Mary Stuart. - Eles ficaro a saber que tu sentes realmente os seus problemas. Como  que apanhaste a doena? - perguntou 
depois, quase embaraada por fazer a pergunta.
      
      - Foi com a agulha de uma seringa de uma pequenita infectada com sida. Ela agitou-se e eu arranhei-me. Foi pouca sorte. Na altura pensei se teria consequncias, 
mas decidi aceitar o facto filosoficamente. Quase me tinha esquecido, quando comecei a sentir-me doente. Quis negar a mim prpria que pudesse ter contrado a doena, 
mas finalmente fiz anlises. Soube o resultado pouco antes de te telefonar - disse, voltando-se para Tanya, que se encontrava sentada na beira da cama a segurar-lhe 
uma das mos e a chorar.
      
      - Nem posso acreditar! - murmurou Tanya, muito abalada.
      
      - Isto vai passar. Sentir-me-ei melhor quando os meus intestinos acalmarem - disse Zoe, parecendo um pouco mais forte. As duas amigas mostravam-se to consternadas 
que ela se sentia mal por lhes ter contado. Agora pareciam estar piores do que ela. - Quero que saiam as duas e vo  vossa vida. No as quero ver aqui sentadas 
todo o dia - disse com firmeza. Eram quase horas do almoo.
      
      - Iremos se prometeres descansar - respondeu Tanya.
      
      - Vou dormir todo o dia e espero  noite sentir-me outra vez humana.
      
      - Tens de estar boa amanh  noite - disse Mary Stuart -, para que possamos aprender o two step. Precisamos de atender s prioridades.
      
      Todas riram atravs das lgrimas e estiveram as trs de mos dadas durante um longo momento. Zoe agradeceu  sua boa estrela encontrar-se ali em Wyoming. Estar 
com as amigas era a coisa mais importante que lhe acontecera nos ltimos tempos e possibilitara-lhe ficar descansada quanto ao futuro da filha. Fizera as pazes com 
Mary Stuart e estava at a resignar-se com o facto de ter sida. Detestava pensar nisso, mas sabia que, se fizesse o que devia fazer, talvez pudesse prolongar a sua 
vida e melhorar a sua qualidade. Era o melhor que podia fazer. Depois Zoe obrigou as duas amigas a prometerem no dizer a ningum que ela tinha sida. Se algum perguntasse, 
queria que dissessem que tinha uma lcera, ou mesmo cancro no estmago. Podiam dizer o que quisessem, excepto que ela tinha o vrus da sida e estava a morrer. E 
as amigas concordaram em fazer o que ela queria.
      
      Finalmente Zoe mandou-as embora e quando saram do quarto tanto Mary Stuart como Tanya comearam a chorar, mas no falaram at se encontrarem afastadas, de 
modo que Zoe no as pudesse ouvir.
      
      - Meu Deus, que dia horrvel! - disse Mary Stuart quando iam a caminho da cavalaria. Nem sabiam para onde se dirigiam; caminhavam abraadas e a chorar. - 
Nem posso acreditar!
      
      - Sabes que eu a tenho achado muito plida?... Ela sempre teve aquela pele translcida das pessoas que tm cabelos ruivos, mas desde que chegou achei-a mais 
plida do que nunca - disse Tanya pensativamente. - E cansa-se com muita facilidade.
      
      - Est explicada a razo desse cansao - acrescentou Mary Stuart, sentindo-se acabrunhada com o que soubera, mas satisfeita por terem feito as pazes.
      
      - Graas a Deus que ela nos contou. E um fardo terrvel para transportar sozinha. Espero que possamos fazer qualquer coisa para a ajudar.
      
      - Zoe precisa de contar ao mdico que ficou a substitu-la. Ele tem realmente de a ajudar, ou ela ter de arranjar outra pessoa que o faa - disse Tanya com 
o seu sentido prtico, pensando no futuro.
      
      - Creio que isso explica a razo que a leva a no sair com nenhum homem - acrescentou Mary Stuart.
      
      - No sei porque no o possa fazer, se for cuidadosa - observou Tanya. - Tenho a certeza de que outras pessoas o fazem. Ela no se pode isolar completamente. 
No  saudvel.
      
      As duas assoaram-se ao mesmo tempo, precisamente na altura em que Hartley e Gordon se dirigiam para elas, trazendo os cavalos pelas rdeas. Quase chocaram 
com elas e perceberam imediatamente que tinham estado a chorar, ficaram ambos surpreendidos.
      
      - Que sucedeu? - perguntou Hartley. Ficara muito preocupado quando Mary Stuart lhe dissera que no podia ir andar a cavalo nessa manh. E Gordon sentia-se 
aterrorizado. Receava que Tanya tivesse visto a confuso em que se estava a meter e no quisesse sequer falar-lhe. Mas era bvio que algo de mais grave se passara. 
De incio nenhuma delas respondeu.
      
      - Est bem? - perguntou cautelosamente Gordon.
      
      - Eu estou - murmurou Tanya, tocando com os dedos na mo dele. Isso fez com que Gordon tivesse a sensao de que uma corrente elctrica passasse pelo seu corpo. 
- Como est a sua amiga?
      
      Tanya no respondeu e reparou que Mary Stuart falava com Hartley e estava novamente a chorar. Sabia que Mary Stuart era demasiado discreta para quebrar a sua 
promessa, dizendo que Zoe tinha sida, mas suspeitava de que ela estivesse a dizer que tinha cancro, que era o que haviam decidido contar a Hartley e a Gordon. Tanya 
resolveu fazer o mesmo. Gordon ficou muito chocado quando Tanya lhe disse que Zoe tinha cancro e percebeu como elas eram amigas.
      
      - Conheo-a desde os meus dezoito anos. H vinte e seis anos - disse com tristeza, e ele desejou poder abra-la. Mas no se atreveu. Estava a trabalhar.
      
      - No parece - murmurou, e Tanya sorriu.
      
      - Obrigada. Provavelmente tenho mais dez anos que voc - declarou Tanya. - Oficialmente tenho trinta e seis, mas, na realidade, j fiz quarenta e quatro.
      
      Gordon riu daquela complicao.
      
      - Bem, eu tenho realmente quarenta e dois anos, sou realmente um cowboy do Texas e estava a comear a ficar assustado. Imaginei que depois de acordar tinha 
recuperado o bom senso e no me queria ver mais.
      
      Sentira-se em pnico durante toda a manh e mal pudera prestar ateno a Hartley. Felizmente mais ningum aparecera para montar a cavalo.
      - Levantei-me s seis e meia para estar pronta para o ver. Sentia-me muito excitada. Parece que tenho novamente catorze anos e estou apaixonada pela primeira 
vez. - Era como quando se apaixonara por Bobby Joe, no oitavo ano, ou ainda mais. - No pensei noutra coisa toda a noite... mas esta manh Zoe esteve muito mal. 
Tivemos que chamar o mdico, que esteve horas com ela... e depois soubemos..
      
      - Vai ficar boa? Por agora, claro. Ou ter de ir para o hospital?
      
      - O mdico pensa que no - explicou Tanya. - A no ser que piore aqui. Mas ela quer regressar a casa e recomear a trabalhar.
      
      - E uma mulher espantosa! - Gordon olhou para Tanya, que sofria por causa da amiga. Porm, no podia avaliar bem a profundidade do desgosto dela. Tanya recordava-se 
da morte de Ellie, que as deixara a todas destroadas. E com Zoe seria ainda pior, quando ela viesse a falecer. - Tambm a Tanya  uma mulher espantosa - disse ele 
docemente. - Nunca conheci ningum assim. Nunca esperei que assim fosse. Julguei-a frvola, caprichosa, e afinal  humana, simples e natural. - As palavras dele 
eram um cumprimento e ela sabia-o. - Acha que poderemos sair no domingo? - perguntou ento Gordon.
      
      - Tentarei sair. Mas primeiro verei como ela est - respondeu Tanya. Sabia que seria a nica oportunidade que teriam de estar juntos. Ele trabalhava todos 
os dias da semana e no domingo seguinte, quando estivesse novamente livre, partiriam.
      
      - Isto  verdade, Tanny? - perguntou-lhe repentinamente, quando Hartley e Mary Stuart se afastaram. Ele queria acreditar que sim, que era tudo como ele pensava, 
mas receava que ela, uma estrela de cinema famosa, quisesse brincar um pouco e depois se fosse embora e o esquecesse. No entanto, no lhe parecia que ela fosse assim. 
Nem sequer se atrevia a diz-lo.
      
      - E verdade - murmurou docemente Tanya. - No sei quando  que isto sucedeu nem como - disse com um sorriso. - Sei que fiquei muito aborrecida quando vi que 
no queria falar comigo no primeiro dia. Talvez fosse nessa altura. Mas, fosse como fosse, nunca me sucedeu nada como isto. E verdade, Gordon, acredite - concluiu 
Tanya, olhando-o amorosamente.
      
      - No falei porque tinha receio e quando vi que no era como eu julgava apaixonei-me sem querer.
      
      - Que vamos fazer agora? - Tanya queria v-lo, falar-lhe  vontade e estar junto dele, para terem a certeza do que realmente sentiam, mas no queria faz-lo 
perder o emprego nem arranjar-lhe sarilhos.
      
      - Posso ir outra vez falar consigo logo  noite? - perguntou Gordon em voz baixa, para que ningum o ouvisse. Tanya disse que sim com a cabea e sorriu-lhe.
      
      - Amanh daremos o nosso passeio. Creio que hoje ficaremos a fazer companhia a Zoe, a no ser que ela esteja a dormir. Depois do almoo irei ver como est. 
E amanh  noite ir ensinar-me o two step O folheto diz que os nossos acompanhantes nos ensinaro, e eu quero que fique desde j comprometido comigo. - Apesar da 
manh horrvel que passara, Tanya gracejava com ele e Gordon gostava disso. Os seus olhos estavam to cheios de amor e de excitao como os dela. Era realmente uma 
pena no poderem estar juntos. Mas, por outro lado, o facto de se encontrarem em segredo criava maior excitao. - Ensinar-me-, Mister Washbaugh?
      
      - Sim, minha senhora. L estarei. - Era uma ocasio em que ele poderia comparecer, e esperava tirar o maior partido disso. - E no sbado estarei de novo no 
rodeo.
      
      - L estarei - sussurrou Tanya.
      - Ir cantar outra vez?
      
      - Talvez - respondeu, sorrindo. - Foi divertido. Mas tambm um pouco assustador. Verei qual o aspecto da assistncia.
      
      - Ficava lindamente montada no palomino. - Tanya gostaria de passear plos montes montado nele, ao lado de Gordon. - E o domingo  nosso. Veremos como corre 
a prxima semana.
      
      - Isso parece-me ptimo - concordou Tanya, sorrindo. Aquilo era algo de novo para ambos e por vezes um pouco assustador. Dirigiram-se para Hartley e Mary Stuart 
e Gordon roou a mo pela dela. Tanya sentiu um n no estmago por estar to perto dele e nada poder fazer. Morria por o beijar.
      
      - Como foi o seu passeio? - perguntou a Hartley.
      
      - Bastante mais agradvel do que a vossa manh. Mary Stuart acaba de me contar o que se passa com Zoe. O cancro pancretico  terrvel. Tive um primo que morreu 
disso, em Boston. - Tanya baixou a cabea, percebendo que a amiga contara o que fora combinado, e Hartley acrescentou: - Lamento muito.
      
      Tanya e Mary Stuart entreolharam-se e a primeira disse:
      
      - Ela poder passar algum tempo sem grandes problemas, mas eventualmente poder haver complicaes. - Era aborrecido mentir, mas Hartley concordou com um acenar 
de cabea.
      
      - Foi exactamente o que aconteceu com o meu primo. S o que podem fazer  dar-lhe o maior conforto possvel, deix-la fazer o que quer e ajud-la, se ela precisar.
      
      
      As palavras de Hartley lembraram a Tanya que se esquecera de dizer a Gordon que poderia vir a adoptar a filha de Zoe. Queria que ele soubesse por vrias razes. 
E queria ver qual seria a sua reaco. No podia crer que estava a pensar num possvel futuro com Gordon trs dias depois de o conhecer, mas, mesmo que se tratasse 
de uma possibilidade remota, queria ver como ele reagiria a uma poro de coisas, e uma delas era a filha de Zoe.
      
      Hartley acompanhou-as  casa de jantar e falaram sobre Zoe, a sua sade, a sua carreira, a sua clnica, a filha, o futuro, a sua inteligncia. Enquanto conversavam 
sobre ela, a destinatria da sua simpatia e admirao encontrava-se sentada na cama, a pensar. Sabia que unha de telefonar a Sam, mas estava a adiar. Precisava de 
lhe perguntar se no se importaria de ficar a substitu-la durante mais uma semana, mas receava que ele se apercebesse de mais qualquer coisa na voz dela, e no 
queria que isso sucedesse. Porm, enquanto estava a meditar no assunto, sem saber se devia apenas deixar-lhe uma mensagem, o telefone tocou, porque Sam, providencialmente, 
lhe queria fazer uma pergunta a respeito de um dos seus doentes. Precisava de uma grande alterao na medicao e Sam queria ter a certeza de que Zoe concordava. 
Ficou surpreendido por a encontrar no quarto. Pensara deixar-lhe uma mensagem, mas resolvera experimentar se ela l estaria de momento.
      
      - Ainda bem que te apanho - disse Sam, mostrando-se satisfeito. Em seguida fez-lhe a pergunta e ela respondeu. Zoe gostou que ele tivesse querido saber a sua 
opinio. Qualquer outro teria procedido  modificao sem ter essa delicadeza.
      
      - Agradeo muito teres perguntado - disse-lhe Zoe. Por isso  que gostava que fosse Sam a substitu-la. Alguns mdicos que o tinham feito ocasionalmente alteravam 
a terapia sem avisar, prejudicando, por vezes, os doentes.
      
      - No tens que agradecer. - Sam parecia apressado e disse que estava a fazer um breve intervalo para almoar. - Por aqui no h perigo de engordar. Acho que 
no corria tanto desde que sa da faculdade. - Sam costumava ficar a substitu-la  noite, para ela ir jantar fora, ir ao teatro ou ir beber um copo com amigos sem 
estar preocupada com a clnica. - Tens aqui uma casa exemplar - continuou Sam - e todos os teus doentes te adoram. E muito difcil conseguir estar  tua altura.
      
      - Provavelmente agora nem perguntam por mim - replicou Zoe, sorrindo. - Vo passar a perguntar s pelo doutor Warner.
      
      - No tenho essa sorte... - disse Sam, calando-se de repente. Enquanto a ouvia, achou-a um pouco estranha, como se tivesse acordado naquela altura, ou tivesse 
chorado, ou estivesse cansada. E perguntou-lhe o que tinha. Era apenas um instinto, e Zoe ficou to surpreendida por ele lhe perguntar se estava realmente bem que 
permaneceu calada durante uns momentos e depois comeou a chorar outra vez, sem conseguir responder. Ele tambm ouviu isso e subitamente soou o alarme na sua cabea. 
- Sucedeu alguma coisa s tuas amigas? - perguntou meigamente. - Ou a ti? - Sam era uma pessoa extraordinariamente intuitiva e isso assustava-a.
      
      - No, no, elas esto ptimas - disse Zoe, lembrando-se ento que tinha de lhe falar da semana seguinte enquanto estavam ao telefone, e decidiu tentar. - 
Na verdade, eu tencionava telefonar-te. Temos passado um tempo to agradvel que pensei se... se te fosse possvel estar a mais uma semana, eu... - a voz fraquejou, 
mas ela esforou-se por concluir. - Enfim, se puderes... iria s deste domingo a oito dias. Tem-me custado pedir-te e tambm no sei se ests livre ou...
      
      - Terei muito gosto em ficar mais uma semana - respondeu calmamente Sam. Mas percebera a entoao de cada uma das suas palavras e estava convencido de que 
ela chorava. - Mas acho que se passa alguma coisa, e quero saber o que  para te poder ajudar.
      
      - No se passa nada - continuou ela a mentir. - Podes realmente estar mais uma semana na clnica?
      
      - Com certeza. Isso no  problema. Mas que se passa, Zoe? Que aconteceu? H sempre uma pea do puzzle que tu no me mostras. O que  que ests a esconder? 
Que se passa, querida? Por favor, no me afastes... sei que ests a chorar... deixa-me ajudar-te...
      
      Sam estava quase a chorar e Zoe soluava.
      
      - No posso, Sam... por favor, no me perguntes...
      
      - Porqu? Que coisa  essa to terrvel que tenhas de esconder e carregar com todos os fardos sozinha? - Ento, ao fazer a pergunta, Sam compreendeu. Era a 
mesma coisa que ela via todos os dias e que ele estava agora a ver. A vergonha, a humilhao, o desgosto. Ela tinha sida. Zoe no lho dissera, mas ele sabia. - Zoe? 
- Ela percebeu pela voz dele que algo se passara. E do seu lado da linha ficou calada. Aquilo explicava muitas coisas, a razo porque ela no queria relacionamentos, 
porque tivera um aspecto to doente antes de partir. Sucedia a muitos mdicos que tratavam doentes com sida. Tentavam ser muito cuidadosos, mas sucedia. Fazia-se 
um erro, um gesto irreflectido, bastava mesmo uma picadela ao injectar uma criana e o resultado era o desastre. - Zoe - repetiu, com uma voz muito meiga. Tinha 
pena de no estar junto dela para a poder abraar. - Picaste-te? Quero saber... por favor...
      
      Houve um prolongado silncio e depois um suspiro. Era difcil lutar contra ele. O seu segredo estava agora descoberto.
      
      - Sim... o ano passado... era uma garotinha muito mexida.
      
      - Oh!, Deus... Eu sabia! Porque no me disseste? Tenho sido to estpido... e tu tambm. Que andas a fazer? Porque me ocultaste isso? Ests doente agora? - 
Sam parecia estar a entrar em pnico. Ela tinha sida e ele nada fizera para a ajudar, a no ser tomar conta da clnica para ela descansar uns dias. O seu crebro 
e o seu corao trabalhavam desordenadamente. - Ests doente agora? - perguntou pela segunda vez, de modo mais imperioso.
      
      - Sim, mais ou menos. No  nada de grave, mas o mdico daqui quer que eu descanse durante mais uns dias. Acho que na segunda-feira estarei boa, mas ele diz 
que devo descansar mais uma semana, para evitar nova infeco.
      
      - Faz o que diz o mdico. O que  que tens? - De sbito ele falou como mdico, e ela sorriu. - Trata-se de um problema respiratrio?
      
      No lhe parecia. Alm de se perceber que tinha chorado, a voz dela parecia-lhe normal.
      
      - No. E o horror habitual que vem com esta doena. Uma diarreia terrvel. A noite passada julguei que ia morrer. Estou admirada de no ter morrido.
      
      - No vais morrer por enquanto. No deixarei que isso acontea!
      
      - Eu j passei por isso, Sam - respondeu tristemente Zoe. - No queiras que te suceda o mesmo. Lembra-te que foi assim que eu comecei. O homem com quem eu 
vivia apanhou sida devido a uma transfuso. Fundei a clnica por causa dele. Foi a coisa mais difcil que fiz at hoje, v-lo morrer, e j tinha passado muitos anos 
bons com ele. No quero fazer isso a ningum e tu no queiras comear assim. Isso  comear pelo fim. No o farei!
      
      - Lamentas o que fizeste? Desejarias no ter estado com ele?
      
      - No! - respondeu claramente Zoe. Amara Adam at ao fim. Mas no queria que Sam sofresse o que ela sofrera.
      
      - E se ele tivesse dito que no te deixava estar com ele? Se tentasse mandar-te embora?
      
      - Ele f-lo, mais do que uma vez - replicou Zoe, sorrindo. - Mas eu no fui. No lhe dei ouvidos. Nunca o poderia deixar! - Ao dizer aquelas palavras Zoe pensou 
no que elas significavam, e depois murmurou: - Mas isso era diferente. Sentir-me-ia ludibriada se no estivesse ali. O nosso caso  diferente.
      
      Zoe achava que, por um lado, mal conhecia Sam, mas, por outro, parecia que sempre o conhecera.
      
      - Porque  que ests a querer enganar-me? - perguntou Sam, sem permitir que ela continuasse a afast-lo ou a for-lo a ocultar os seus sentimentos. - Estou 
apaixonado por ti. H anos que te amo. Creio que em Stanford j te amava, mas nesse tempo era demasiado estpido para o saber. E desde que me apercebi disso, nunca 
me deste a mais pequena oportunidade de to dizer. Mas agora no vou deixar que me impeas. Quero estar junto de ti... no me importa do que essa miservel doena 
te possa fazer... no me importo que tenhas diarreia ou feridas no rosto. Quero manter-te viva, quero ajudar-te no teu trabalho. O facto de teres sida no faz com 
que te ame menos, pelo contrrio, torna o nosso amor ainda mais precioso. No permitirei que o deites fora. Ele significa demasiado para mim... - Sam chorava e Zoe 
estava to comovida que no conseguia falar, lavada em lgrimas. - Zoe... amo-te... se no estivesse a substituir-te aqui metia-me no prximo avio para ir ter contigo, 
mas provavelmente matavas-me se eu fizesse isso e deixasse a loja... - Riu ao proferir as ltimas palavras e Zoe fez o mesmo.
      
      - Sim,  verdade. No te atrevas a abandonar a clnica.
      
      - No o farei, mas, se no fosse isso, estaria a esta noite. Tenho saudades tuas. H muito tempo que te foste embora... - queixou-se.
      
      - Como podes ser to louco, Sam? Como podes fazer isso a ti prprio?
      
      - Porque na vida estas coisas no se podem escolher. Apaixonamo-nos se olhar a raciocnios. Amanh poderia estar apaixonado por qualquer mulher horrorosa e 
ela ficar debaixo de um comboio. Pelo menos, no nosso caso, sabemos com o que contar. Teremos algum tempo, talvez muito, talvez pouco. Estou disposto a aproveitar 
o que puder. E tu? Queres desperdiar esta oportunidade?
      
      - Teremos de ser muito cuidadosos - disse Zoe, ainda a tentar desencoraj-lo. Mas ele no lhe dava ouvidos. Desejava absolutamente estar junto dela.
      
      - Ser cuidadoso no  um grande preo a pagar, pois no? Vale a pena. Sinto tanto a tua falta Zoe! S quero ajudar-te, fazer-te feliz...
      
      - Ficars a trabalhar comigo? A tempo inteiro, ou durante umas horas, pelo menos?
      
      Aquilo era muito importante para Zoe, talvez mais do que tudo o resto. Sentia-se responsvel perante uma poro de pessoas, mais ainda do que perante si mesma. 
E precisava de Sam para a ajudar. Mas ele estava mais do que disposto a faz-lo.
      
      - Trabalharei dia e noite contigo, se quiseres. Mas tu fars um pouco menos, por favor. E tiremos algum tempo para ns. No quero que te canses demasiado. 
Precisamos de cuidar de ti. Est bem? Faremos o que costumamos dizer aos nossos doentes. E neste caso o mdico sou eu e ters de fazer o que eu disser.
      
      - Sim, senhor.
      
      Zoe sorriu e limpou outra vez os olhos. A manh fora cheia de emoes. Contara o seu segredo s suas melhores amigas e a Sam e nenhum deles a desapontara, 
pelo contrrio. Eram trs pessoas extraordinrias. E, de sbito, Sam deixou-a novamente perplexa.
      
      - Vamo-nos casar - disse ele. Zoe nem podia acreditar no que estava a ouvir. Ele era realmente louco, mas ela amava-o por isso. Respondeu, sorrindo:
      
      - s completamente doido! No te deixarei fazer tal coisa.
      
      Sentia-se horrorizada, mas profundamente comovida com a proposta dele.
      
      - Quero casar contigo e no me importo que tenhas sida ou no.
      
      E era verdade.
      
      - Mas importo-me eu e tu no precisas de fazer isso a ti prprio - acrescentou tristemente.
      
      - E se se tratasse de um doente teu? Dir-lhe-ias que fizesse o que lhe parecesse bem e o fizesse feliz.
      
      - E como  que sabes que isto est bem?
      
      - Porque te amo - respondeu Sam, rezando para que ela o ouvisse.
      
      - Eu tambm te amo - retorquiu cautelosamente Zoe -, mas no apressemos as coisas. Vamos devagar.
      
      Sam gostou do que ela disse, porque indicava que pensava ter ainda algum tempo para tomar decises e isso significava que estava optimista, o que era importante. 
Desejava realmente casar com ela, mas sabia que seria mais fcil convenc-la pessoalmente.
      
      - Estou muito satisfeito por te ter telefonado hoje - disse ele, feliz. - Soube o que queria a respeito de um doente, arranjei emprego, de preferncia a tempo 
inteiro, e mulher. Foi uma conversa muito frutuosa - concluiu Sam. Zoe riu.
      
      - No posso acreditar que deixei um louco como tu a tomar conta da minha clnica.
      
      - Eu tambm no. Mas os teus doentes gostam de mim. Creio que ficaro contentes quando formos o doutor e a doutora Warner.
      
      - Tambm vou ter que ficar com o teu nome? - perguntou Zoe, rindo. Realmente amava-o. Gostava dele h muito tempo, mas nunca permitira a si prpria que os 
seus sentimentos fossem mais alm. Estivera sempre muito ocupada a cuidar dos seus doentes para poder ser mais do que mdica e me.
      
      - Se casares poders chamar-te como quiseres - replicou. - Sou uma pessoa muito aberta - disse ele magnanimamente.
      
      - s doido - retorquiu, ficando de repente muito sria. - Obrigada, Sam. Acho que s verdadeiramente maravilhoso. E eu amo-te. Assustava-me gostar tanto de 
ti, mas estava decidida a no te deixar entrar nesta confuso. E tu vieste meter-te em cheio nela. Podes ainda mudar de ideias, se quiseres.
      
      - Estou aqui para sempre - declarou Sam com voz calma.
      
      - Quem me dera poder dizer o mesmo... - murmurou com tristeza Zoe.
      
      - Pode ser que estejas. Se eu puder fazer algo para isso, estars.
      
      - Pelo menos o meu trabalho... a minha clnica... Jade... e as minhas amigas.
      
      - Se queres saber, acho muito para uma pessoa s.
      
      - Farei tudo o que puder, Sam. Prometo.
      
      - ptimo. Ento descansa muito enquanto a estiveres e volta mais saudvel. E vai ao hospital se a diarreia no parar.
      
      - J parou - respondeu Zoe, tranquilizando-o.
      
      - Bebe muitos lquidos.
      
      - Bebo, sim. No te preocupes. No te esqueas de que tambm sou mdica. Vou ficar boa. Juro!
      
      - Amo-te!
      
      Era estranho, mas subitamente Sam sentia-se muito feliz. Ela amava-o. Tinha sida e a notcia fora terrvel. No entanto, de uma maneira absurda, Sam sentia-se 
feliz e o mesmo se passava com Zoe. Sorria quando Tanya e Mary Stuart foram v-la, depois do almoo.
      
      - Que te sucedeu? - perguntou Mary Stuart. - Pareces o gato que engoliu o canrio.
      
      - Falei com Sam. Ele vai ficar a trabalhar na clnica a tempo inteiro.
      
      - Oh!, isso  formidvel - exclamou, entusiasmada, Mary Stuart, pois sabia que alvio isso era para Zoe.
      
      - No, no, espera... ela est  mentir - afirmou Tanya, franzindo a testa e fitando a sua velha amiga. - H mais coisas que no nos quer dizer.
      
      - No, no h - replicou Zoe, rindo ao mesmo tempo. Estava muito diferente da mulher profundamente triste dessa manh.
      
      - Que mais disse ele?
      
      Zoe sorriu, tentando fugir  pergunta de Tanya.
      
      - Nada. Eu  que lhe disse - hesitou, agora mais sria -, eu  que lhe contei que era seropositiva. - Detestava dizer aquelas palavras, mas olhava para as 
amigas com uma expresso que denotava incredulidade, sentindo-se ainda incapaz de crer no que ele lhe dissera  hora do almoo.
      
      - Que te disse ele? - insistiu docemente Mary Stuart. Zoe voltou-se para ela, sorrindo.
      
      - Pediu-me para casar com ele. No  inacreditvel? As duas amigas ficaram boquiabertas, olhando-a com assombro. Tanya foi a primeira a recuperar a fala.
      
      - Tens que te pr boa depressa para voltares para junto desse homem antes que outra o apanhe. Acho-o formidvel!
      
      - Realmente .
      
      Zoe no sabia ainda o que iria fazer, mas Sam trabalharia com ela e iria gozar tudo o que a vida tivesse para lhe oferecer. Se ele quisesse realmente casar, 
talvez ela casasse. Mas, quer casasse quer no, sabia que o amava, e isso era o mais importante.
      
      - Fantstico! - exclamou Mary Stuart, muito impressionada com o Dr. Sam Warner.
      
      Falaram mais um bocado sobre o assunto e depois Tanya e Mary Stuart saram para o passeio da tarde, visto Zoe parecer muito melhor. Hartley e Mary Stuart foram 
fazer alpinismo e falaram a respeito de um grande nmero de coisas, especialmente de Zoe e de um homem suficientemente corajoso para casar com a mulher que amava 
e que ele sabia que estava a morrer. Ambos achavam que era um gesto extraordinrio e admiravam Sam por isso.
      
      Tanya foi passear a cavalo com Gordon. Nesse dia tiveram sorte. Mais ningum do grupo deles quis passear. Mary Stuart e Hartley andavam a fazer alpinismo, 
os mdicos de Chicago tinham ido pescar, e eles ficaram realmente ss, sem o terem planeado. Gordon levou-a at junto de uma queda-d'agua nas montanhas e desmontaram 
durante um bocado, estendendo-se na relva alta, no meio das flores silvestres, e ele beijou-a. Foi-lhes preciso um esforo sobre-humano para no irem mais longe. 
Queriam avanar o mais lentamente possvel, embora tivessem o tempo limitado. Sentiam-se j como se estivessem num comboio rpido. Tanya pensava que era a mais bela 
tarde da sua vida, enquanto se encontrava estendida ao lado de Gordon, no meio das flores, olhando para as montanhas. Caminharam durante um bocado, de mos dadas, 
conduzindo os cavalos pelas rdeas, falando acerca da infncia de ambos. Depois falaram tambm de Zoe e do grande amor de Sam por ela. Eram pessoas corajosas num 
mundo difcil. E,  sua maneira, Tanya tambm o era. Percorrera um longo caminho na sua vida e agora, subitamente, tinha algum slido e meigo ao seu lado. Receava 
um pouco o que a imprensa lhe poderia fazer e tentava avis-lo dos estragos que poderia provocar, a mgoa que podia infligir, mas ele no parecia preocupado e disse 
a Tanya para observar o que a rodeava.
      
      - Como pode estar preocupada, quando temos tudo isto? Isso  to pouco importante! O que importa somos ns e aquilo que somos um para o outro.
      
      - E se j no tivermos isto? - perguntou Tanya, observando a paisagem que a cercava e pensando no seu regresso  Califrnia.
      
      - Teremos - afirmou calmamente Gordon -, temos de ter. Enquanto tivermos alguma coisa aqui, um stio para onde possamos voltar para retemperarmos as foras, 
talvez todas essas loucuras deixem de ter importncia.
      
      Era uma ideia interessante e agradava a Tanya. Talvez ele tivesse razo e ela devesse comprar um terreno em Wyoming. Tinha posses para isso. At poderia vender 
a casa de Malibu, demasiado grande e onde raramente ia.
      
      - Sinto-me como se estivesse  beira de uma nova vida - disse Tanya quando pararam num outeiro sobranceiro ao vale. Dali podiam ver bfalos, bois, cavalos 
e alces. Era um espectculo fabuloso e Tanya compreendia bem por que motivo ele gostava daquilo.
      
      - Est  beira de uma nova vida - disse Gordon calmamente, virando-a para si, rodeando-lhe o corpo com os braos e beijando-a.









      
Captulo 17
      
      Na sexta-feira de manh Zoe dormia ainda quando Tanya entrou em bicos dos ps no quarto para a ir observar. Parecia descansar pacificamente, comera bem na 
vspera e Mary Stuart concordou em que estava com melhores cores.
      
      Preparavam-se para sair quando ela se levantou e apareceu na sala em camisa de noite. As duas amigas ficaram satisfeitas por ver que tinham razo. Zoe estava 
realmente muito melhor.
      
      - Como te sentes? - perguntou solicitamente Mary Stuart. Estavam ambas muito preocupadas com ela.
      
      - Como nova - respondeu Zoe, lamentando quase haver-lhes dito. Pensava se teria feito bem em revelar-lhes que tinha sida, mas agora nada havia a fazer e significava 
muito para ela ter o apoio das duas amigas. - Lamento t-las incomodado tanto ontem. - Tanya teve vontade de lhe dizer que lamentava que ela se tivesse picado no 
ano anterior e contrado sida, mas calou-se.
      
      - No sejas tola! - Olharam-se e compreenderam-se mutuamente. Entre elas havia verdadeira amizade, compaixo e carinho. Eram o gnero de amigas que s se tem 
uma vez na vida. - Queremos que tenhas cuidado contigo. Fica na cama ainda hoje e tenta descansar o mais possvel. A hora do almoo viremos ver se precisas de alguma 
coisa - disse Tanya, abraando-a. Ficou surpreendida ao verificar que Zoe, por baixo da camisa de noite de flanela, era incrivelmente magra, mais do que parecia 
quando estava vestida. Quase no tinha carne.
      
      - Queres que fiquemos contigo? - perguntou generosamente Mary Stuart. Zoe disse que no.
      - S quero que se divirtam. Ambas o merecem. Todas tinham passado maus bocados nas suas vidas, de diferentes maneiras, morte, divrcios, todos os traumas de 
que a vida  feita e que pem em causa a sobrevivncia de uma pessoa.
      
      - Todas ns merecemos uns bons momentos - declarou Mary Stuart. - Tu tambm.
      
      - S quero regressar ao trabalho - disse Zoe. Comeava a sentir remorsos por estar a ser preguiosa, e uma segunda semana longe dos seus doentes parecia-lhe 
um verdadeiro pecado. Mas sabia que precisava de recuperar da crise que sofrera.
      
      - S boa rapariga e continua preguiosa - disse Tanya com um dedo em riste para ela. Minutos depois, ela e Mary Stuart saam para ir tomar o pequeno-almoo.
      
      Hartley perguntou por Zoe e estiveram a falar dela durante o pequeno-almoo. Todos achavam que era muito corajosa e Tanya sentia-se grata por Sam a apoiar 
tanto.
      
      - Deve ser um excelente homem - disse Hartley com admirao quando Mary Stuart lhe contou a reaco dele ao saber da doena de Zoe. No tinham revelado a Hartley 
que Zoe tinha sida e no tencionavam faz-lo. Ele julgava que Zoe tinha cancro.
      
      - Pode ser que ela se cure - disse esperanadamente, mas era bvio que achava que seria pouco provvel e elas pensavam o mesmo.
      
      - Tambm conheci um casal que fez algo semelhante, casou ao ter conhecimento de uma doena terminal. Foram as pessoas mais fantsticas que j conheci e provavelmente 
as mais felizes, e creio que ela viveu bastante mais tempo por causa disso. Ele recusava-se a deix-la morrer, ela lutava corajosamente, e creio que o amor que sentiam 
um pelo outro lhe deu anos de vida. Nunca os esqueci. Creio que ele no voltou a casar depois de ela morrer. Escreveu um livro sobre ela, sobre o amor deles, e foi 
a coisa mais comovente que eu alguma vez li. Chorei do princpio ao fim e fiquei a admir-lo. Ele amou-a mais do que qualquer homem ser capaz de amar uma mulher.
      
      Havia lgrimas nos olhos de Mary Stuart ao escut-lo, e desejava mais do que nunca que sucedesse a Zoe algo de semelhante. Sam ligou para Zoe nessa tarde e 
conversaram durante um grande bocado. Queria que ela lhe prometesse que casaria com ele e Zoe continuava a chamar-lhe doido.
      
      - No podes querer casar comigo - dizia ela, comovida mas lisonjeada -, nem sequer me conheces bem...
      
      - Conheo-te h vinte e dois anos e tenho trabalhado contigo ocasionalmente h cinco. Provavelmente estou apaixonado por ti h vinte, e se fornos ambos to 
estpidos que no demos por isso, o problema no  meu. Tens andado toda a vida to atarefada a tratar de toda a gente que nem deste pelo que se passava mesmo a 
teu lado. Quero estar sempre pronto a ajudar-te Zoe - disse com voz meiga, rouca e sex.
      
      - Tu j ests a ajudar-me, Sam - replicou docemente Zoe. Ele era espantoso.
      
      - Estarei aqui sempre enquanto tu me quiseres - disse Sam. - Alm disso, ainda nem comemos a andar juntos...
      
      - Pois no. Ainda nem sequer provaste a minha lasanha...
      
      Tinham muitas coisas a fazer juntos, muito a descobrir a respeito um do outro.
      
      - Sou um excelente cozinheiro. Que gnero de comida preferes?
      
      Sam no sabia esse tipo de coisas a respeito dela e queria saber tudo agora. Queria estrag-la com mimos e tomar conta dela. Desejava faz-la recuperar. Mas, 
se ela no conseguisse melhorar, no deixaria de lhe dar todo o seu apoio at ao fim. Sabia agora que seria esse o seu destino e nada do que Zoe lhe pudesse dizer 
o dissuadiria ou poderia alterar a sua deciso.
      
      - O meu gnero de comida preferido? - repetiu Zoe. - Bem... acho que qualquer desses pratos de comida rpida me serve. Come-se em trs garfadas no intervalo 
de dois doentes.
      
      - Isso  repugnante. Nunca mais vais comer essas porcarias. Talvez seja prefervel eu cozinhar do que ver doentes. - Mas ele ia trabalhar ao lado dela a tempo 
inteiro e a ideia agradava a ambos. Sam gostava de poder estar sempre ao seu lado e, alm disso, poderia tomar conta dela e no a deixar exagerar. - Ah!,  verdade 
- lembrou Sam -, temos de procurar um substituto. No poderemos substituir-nos um ao outro, se trabalharmos lado a lado. - Zoe assumira j a noo, tal como ele, 
de que estariam sempre juntos e a ideia tambm lhe agradava. Tinha a impresso de que o relacionamento entre os dois ia ser melhor do que esperavam. Por momentos 
sorriu e pensou em Dick Franklin. Nunca poderia fazer aquilo com ele. Nunca se disponibilizaria para a ajudar. Tivera muita sorte em conhecer Sam Warner, e bem o 
sabia. - Uma vez por outra poderemos substituir-nos um ao outro - continuou Sam, de forma prtica - e vou comear a perguntar se algum conhece um mdico que seja 
bom. H um tipo com quem trabalhei e que me pareceu bom, e h tambm uma mdica que trabalhava com doentes de sida no hospital.  nova, mas sabedora. Creio que havias 
de gostar dela.
      
      -  bonita? - perguntou Zoe, preocupada, e ele riu.
      
      - No tem de se preocupar com isso, doutora Phillips - respondeu Sam, parecendo satisfeito. - No sabia que eras ciumenta!...
      
      Aquilo era to louco e to maravilhoso que parecia terem feito alguma magia para eles ficarem juntos.
      
      - No sou. Sou apenas esperta e cuidadosa.
      
      - ptimo. Anunciarei que procuramos um mdico que nos possa substituir, mas s aceitaremos homens ou mulheres feias... Amo-te, Zoe!
      
      A voz dele tinha uma inflexo to tema que os olhos de Zoe se encheram de lgrimas.
      
      - Tambm te amo, Sam - retorquiu Zoe, e ele prometeu telefonar-lhe de novo ao fim da tarde, quando acabasse o trabalho.
      
      - Os doentes esto a amontoar-se. E melhor voltar ao trabalho antes que a clnica seja encerrada. At logo.
      
      - Talvez eu v hoje jantar - disse Zoe, olhando para o tecto enquanto conversavam. Estava realmente a sentir-se muito melhor.
      
      - No te esforces. Descansa bastante, para teres foras para sares comigo quando vieres. H um restaurante novo em Clement que eu quero experimentar.
      
      Zoe sentia-se cheia de vivacidade e de esperana e foi isso mesmo que disse ao Dr. Kroner quando ele a foi ver, nessa tarde. Mas ele no precisava que Zoe 
lho dissesse, percebeu isso logo que a viu. Estava ainda um pouco desidratada e recomendou-lhe que continuasse a beber muitos lquidos, mas parecia outra mulher. 
Sabia que ela iria ter momentos terrveis e episdios de doena e desespero, e que depois melhoraria. Com o tempo, os maus momentos seriam mais que os bons, mas 
no necessariamente dentro de pouco tempo. Poderia contar com um perodo prolongado antes de piorar, ou poderia piorar muito rapidamente. Ningum poderia prever 
isso, e ela sabia-o melhor que ele.
      
      - O mdico que a substitui no poder ficar mais um tempo? - perguntou Kroner, sentando-se perto da cama, depois de a examinar.
      
      - Sim, pode - respondeu Zoe, rindo, pensando em todas as coisas que Sam lhe dissera desde a vspera. - Pode ficar muito mais tempo. Concordou em me ajudar 
a tempo inteiro - disse Zoe, sorrindo.
      
      - Isso  ptimo - respondeu o mdico, satisfeito por ela e surpreendido por se mostrar to feliz. O episdio do dia anterior parecia t-la deixado quase em 
xtase. Era uma reaco inusitada para algum que estava to gravemente doente como ela. - Que parte do trabalho est disposta a entregar-lhe? - quis saber Kroner. 
- Tem que deixar que ele faa grande parte do trabalho, doutora Phillips - continuou o mdico. Zoe no conseguia parar de sorrir.
      
      - Na verdade, penso que ele se encarregar da maior parte. - Fez uma pausa para o olhar. - Ele quer casar - disse, sentindo-se uma garota outra vez, e nem 
sequer uma garota doente. Nem sabia se se casariam, mas o facto de ele o desejar comovia-a profundamente. Saber que ele queria estar ao seu lado significava tudo 
para ela, com ou sem casamento. O casamento era apenas a cobertura do bolo, o essencial era ele querer estar ao seu lado na sade e na doena, para o bem e para 
o mal. Era isso que importava.
      
      O Dr. Kroner felicitou-a, mostrando-se contente por ela. As coisas pareciam realmente estar a correr-lhe bem, e isso era muito importante. Zoe disse-lhe que 
contara tambm s amigas, o que causara grande emoo a ambas, mas sentia um grande apoio da parte de todas as pessoas que realmente significavam algo para ela.
      
      - Sabe bem como isso  importante - lembrou-lhe o mdico. O doente no se devia tomar vulnervel falando da sua doena s pessoas erradas, aos que fugiriam 
dele, horrorizados, mas a maior parte tinha um pequeno grupo que os apoiava e agora o mesmo sucedia com Zoe.
      
      Falaram durante algum tempo a respeito dos planos dela, do trabalho, da clnica, de Jade e das coisas que ela queria fazer quando voltasse para casa. O Dr. 
Kroner avisou-a novamente de que no devia exagerar e Zoe prometeu que no o faria, mas ele no acreditou.
      
      - Provavelmente tem razo - retorquiu Zoe, rindo. Estava ansiosa por voltar a ver os seus doentes, mas tambm estava a gostar de estar em Wyoming e achava 
que estar ali lhe fazia bem. Como as outras, tambm Zoe se sentia atrada pelo local. Havia algo quase mgico nas montanhas.
      
      E ento ele perguntou-lhe uma coisa que a surpreendeu. Disse-lhe que queria que ela lhe fizesse um favor, e Zoe no podia imaginar o que seria, mas ficou profundamente 
comovida quando ele lhe pediu para ver alguns dos doentes dele. Sabia tanto e tinha uma experincia to grande que seria precioso para ele que ela visse alguns dos 
seus doentes. S tinha cerca de meia dzia, mas lia tudo quanto podia, e possua uma vasta biblioteca sobre a sida e sobre as investigaes em curso. Tinha exemplares 
de todos os artigos escritos por ela, mas se Zoe consentisse em observar os doentes dele, seria a maior ajuda que lhe poderia dar.
      
      - No sem primeiro se sentir mais forte, claro... talvez dentro de alguns dias...
      
      Olhou-a, esperanado e Zoe disse-lhe que gostaria muito de o fazer. Na verdade, sentia-se honrada com o pedido.
      
      - Que espcie de servios domicilirios  que tem? - perguntou Zoe, interessada.
      - No so maus - respondeu com modstia o mdico, sentindo-se grato pelo interesse dela. - Temos um grupo maravilhoso no hospital e algumas enfermeiras fantsticas. 
Eu vejo todos os que posso, vou a casa das pessoas, tento mentalizar as famlias e os amigos para os ajudarem. Estamos a tentar organizar uma pequena cozinha central 
dirigida por alguns amigos, um pouco como o projecto Mos Abertas, em So Francisco, mas em pequena escala. Espero nunca termos de vir a servir tanta gente... Felizmente, 
por agora, no temos muitos casos, mas com o afluxo de pessoas vindas das reas urbanas, gente do mundo do espectculo, escritores, pessoas que querem fugir ao stress 
citadino, creio que acabaremos por ter aqui mais gente com sida e a precisar de tratamento. Agradeo toda a ajuda que me puder dar.
      
      Zoe disse que sim com a cabea, gravemente. Prometeu enviar-lhe mais uns livros, que lhe haviam sido teis a ela, e mesmo alguns recomendados por Sam. Comearam 
a discutir medicinas alternativas e quase ao fim da tarde descobriram que tinham estado a falar da doena durante aproximadamente duas horas. Zoe sentia-se cansada 
e ele sugeriu que ela dormisse um pouco antes do jantar. Zoe queria ir  sala de jantar para assistir  lio de dana que se seguiria. Devia ser divertido. Sabia 
que as amigas iriam e queria estar com elas.
      
      - Dentro de dias irei visit-lo ao hospital, ou, se preferir, farei visitas domicilirias consigo - disse Zoe. - Farei qualquer coisa. Deixe-me uma mensagem.
      
      Eram agora mais mdica e aluno do que mdico e doente, e ele sabia bem que ela tinha conscincia do que precisava. Zoe agradeceu-lhe as visitas e, logo que 
ele saiu, deitou-se e adormeceu. Quando as amigas chegaram dormia profundamente. A tarde fora agradvel para elas. Tinham montado a cavalo ao lado dos seus pares 
habituais Hartley com Mary Stuart e Tanya com Gordon. Tanya sentia-se feliz por saber que ele iria participar na dana dessa noite, no salo da casa de rancho. Era 
uma das raras ocasies em que os cowboys que ali trabalhavam eram no s autorizados a participar, como convidados a faz-lo. E Gordon era particularmente popular, 
porque todos disseram que danava muito bem.
      
      Zoe acordou a tempo de se vestir e foi conversando com as amigas. Como se sentia muito melhor, apesar de saberem que tinha aquela doena terrvel, estavam 
todas surpreendentemente alegres. Falavam dos seus romances com gargalhadas e risinhos e isso fez-lhes recordar os velhos tempos de Berkeley.
      
      - Parecemos estudantes outra vez, no ? - exclamou Tanya, ainda admirada com o que lhes estava a suceder. - Acham que ser da gua daqui?
      
      Havia muito tempo que no tinha tanto a dizer a algum como a Gordon, e Mary Stuart e Hartley pareciam ter passado toda a vida juntos. Sentiam-se extraordinariamente 
bem um com o outro e tinham pontos de vista idnticos, ou, pelo menos, compatveis em quase todos os assuntos.
      
      - Nunca conheci ningum coo ele - disse Mary. Isso f-la pensar na sua vida com Bill, mesmo antes de Todd morrer. Houvera sempre uma considervel divergncia 
de opinies entre ambos, mas ela achava isso interessante e mesmo nos melhores tempos tinham muitas discusses amigveis. Ela pensava que isso dava substncia s 
coisas e que lanava uma nova luz sobre uma variedade de assuntos. Mas com Hartley era tudo mais fcil. Mary Stuart via agora o que era viver com uma pessoa que 
tinha as mesmas ideias a respeito das coisas, partilhar os mesmos pontos de vista. Era como danar com Fred Astaire e ser Ginger Rogers. Ela e Bill nem sequer estavam 
na mesma sala de baile.
      
      Ia j a sair de casa, nessa noite, com umas calas vermelhas, camisola a condizer e baton exactamente da mesma cor, com o cabelo escuro penteado para trs, 
quando o telefone tocou. Zoe e Tanya j tinham sado e ela demorara-se um pouco para acabar de calar as botas vermelhas que comprara no Billy Martin's. Esteve tentada 
a no atender. Mas no lhe pareceu leal para com as outras. Podia ser um telefonema para Zoe, por causa da filha ou de algum dos seus doentes, ou algum a avisar 
Tanya de qualquer perigo ou de um problema potencial. Entrou a correr na sala, com o seu xaile de caxemira na mo, e levantou o auscultador, um pouco ofegante.
      
      - Est?
      
      - Mistress Walker est a?
      
      Ao princpio no reconheceu a voz. Era um homem e ela no podia imaginar quem estava a falar.
      
      - E a prpria. Quem fala? - perguntou formalmente, e ficou surpreendida com a resposta.
      
      - Mary Stuart? No parecias tu...
      
      Era Bill e aquilo s mostrava como se tinham distanciado. Nenhum deles reconhecera o outro. Havia muitos dias que no se falavam. Correspondiam-se geralmente 
por meio de faxes breves e desinteressantes.
      
      - Tambm no me parecias tu. Ia agora a sair para jantar.
      
      - Desculpa se  m altura - disse Bill secamente. Para ele eram trs da manh, e Mary Stuart no fazia ideia da razo que o levara a telefonar-lhe.
      
      - Alyssa est bem? - perguntou logo a seguir, sobressaltada. Era o nico motivo que lhe parecia provvel.
      
      - Est ptima - respondeu ele calmamente. - Falei ontem com ela. Ia a um baile a Viena. Tinha acabado de chegar de Salzburgo. Andam por toda a parte, mas creio 
que acham divertido. No me parece que a voltemos a ver durante todo o Vero. 
      
      Mary Stuart sorriu ao ouvir a descrio do que a filha andava a fazer. Era mesmo dela! 
      
      - Se voltares a falar-lhe diz-lhe que gosto muito dela. No me telefonou. Provavelmente a diferena horria torna isso muito difcil. Que ests a fazer a p 
a estas horas?
      
      Pareciam dois colegas a trocar impresses. No havia nada de pessoal entre eles.
      
      - Estive a trabalhar at tarde e fui suficientemente estpido para beber um caf esta noite, por isso aqui estou, acordado a esta hora avanada, e lembrei-me 
de te telefonar. As diferenas horrias tambm no funcionam comigo. - O nosso casamento tambm no funciona, esteve para acrescentar Mary, mas no o fez.
      
      - Fizeste bem em telefonar - disse, sem convico. Nem sequer lhe apetecia tentar. No queria mostrar-se afectuosa para com ele. Tomara a sua deciso. Queria 
separar-se do marido. E no era por causa de Hartley Bowman. Era por causa de William Walker.
      
      - Que fazes a? Nos teus faxes no me dizes nada. Com efeito, creio que no tenho notcias tuas h vrios dias. Ou tive? - Nem sequer sabia... Mas isso j 
no interessava a Mary Stuart.
      
      - Tambm no me dizes grande coisa... - replicou.
      
      - No h nada a dizer. Estou a trabalhar. Nem sequer fui ao Annabel's ou ao Harry's Bar. Passo os dias e as noites sentado  secretria, a preparar-me para 
este caso. No  muito divertido, mas creio que vamos ganhar. Estamos muito bem preparados.
      
      - Isso  bom - retorquiu Mary Stuart, olhando para as suas botas vermelhas e pensando no marido. Mas, enquanto o ouvia, percebeu que estava a compar-lo com 
Hartley e Bill ficava a perder com a comparao. No podia imaginar aquela conversa com Hartley Bowman, ou ter passado ao lado dele o ano que passara com Bill. No 
podia imaginar nada disso, nem queria ou podia continuar a viver como vivera durante um ano.
      
      - E tu? - Bill estava a pression-la e ela parecia no querer falar. Ele reparou nisso e ficou a pensar.
      
      - Andamos a cavalo todos os dias. Isto aqui  lindssimo. As Tetons so espectaculares. E melhor que a Europa.
      
      - Como esto as tuas amigas?
      
      Porque estaria ele subitamente to interessado? No compreenda.
      
      - Esto ptimas. Com efeito, esto  minha espera para irmos jantar.
      
      No lhe contou nada sobre a lio de dana que se seguiria nem sobre Zoe. No lhe apetecia contar-lhe coisa alguma. Estava tudo acabado!
      
      - Ento no te demoro. D-lhes cumprimentos meus. - Mary preparava-se para agradecer e despedir-se, quando houve uma pausa embaraosa da parte de Bill. Era 
tarde para ele e havia semanas que no se viam. - Stu... estou com saudades tuas.
      
      Depois de ele dizer estas palavras fez-se um silncio que parecia no ter fim. Mary no queria iludi-lo, nem sabia qual o motivo que o levava a fazer aquilo. 
Aps um ano de silncio e de dor, porque o faria? Talvez sentisse remorsos ou lamentasse perder o que tinha havido entre eles. Mas Mary no queria continuar a viver 
como vivera e no ia permitir que ele voltasse a mago-la. J a fizera sofrer bastante. As portas estavam agora fechadas. Devido  hora tardia e ao seu tom de voz, 
pensou se ele teria bebido. No era coisa de Bill, mas era tarde e ele estava sozinho. Era possvel. Porm, fosse qual fosse a razo, ela no acreditava nele.
      
      - No trabalhes de mais - foi tudo quanto disse. Um ano antes... seis meses antes... ter-se-ia sentido um monstro por no acrescentar mais nada, mas nesse 
momento no sentiu coisa alguma ao despedir-se dele e desligar o telefone, antes de correr para a porta para ir ao encontro das amigas.
      
      A lio de dana foi ainda mais divertida do que tinham previsto. Todos os hspedes compareceram e Zoe ficou sentada, envolta num bonito xaile de caxemira 
azul, por cima de um fato de camura macia. Estava encantadora e o seu rosto branco era realado por uns belos brincos com turquesas. Tanya estava espectacular, 
como de costume, com um vestido de renda branca, de estilo vitoriano, que lhe dava um aspecto simultaneamente sexy e inocente. Gordon ficou deslumbrado quando a 
viu. Ele usava calas e uma bonita camisa de cowboy e calava botas pretas, reluzentes. Tanya disse-lhe que parecia ter sado de um filme do Oeste. Charlotte Collins 
pediu a Gordon que fizesse a demonstrao do two step. Ele tinha ganho vrios prmios por isso.
      
      - No tem ganho prmios s por montar cavalos selvagens e touros, embora ele no o diga - declarou Charlotte. Era uma mulher sensata e esperta. Olhava maternalmente 
para Zoe, que continuava sentada num sof. No se sentia ainda com foras para danar, mas conversava animadamente com John Kroner, que fora ali jantar e assistir 
 dana. Charlotte convidava-o frequentemente e ele fora ali nessa noite apenas para ter oportunidade de conversar com a sua herona.
      
      - J algum danou o two step - perguntou Charlotte quando Gordon se adiantou. Vrios hspedes ergueram as mos, de um modo embaraado, e Tanya no pde deixar 
de rir.
      
      - No o fao desde os catorze anos Miss Charlotte.
      
      - E isso mesmo - disse Charlotte, rindo. - Temos aqui uma rapariga do Texas. - Quer experimentar? - perguntou, como se lhe estivesse a pedir um favor, e os 
hspedes aplaudiram imediatamente. J que no podiam ouvi-la cantar, ao menos que a vissem danar o two step.
      
      - Receio ir fazer m figura - disse, rindo. - E obrig-lo a si a fazer m figura tambm. - Mas a tentao de danar com Gordon era demasiado grande, a atraco 
que sentia por ele era demasiado forte, e ele deu-lhe a mo para se dirigirem para o meio da sala. Comearam a deslizar ao som da msica, enquanto Charlotte ia explicando 
como se procedia. Gordon executou todos os passos com Tanya, primeiro lentamente e depois fazendo-a rodopiar em volta da sala, enquanto todos aplaudiam. Formavam 
um par fantstico. Parecia uma exibio de profissionais e Gordon tinha a sensao de morrer de alegria quando Tanya rodopiou levemente  sua volta e ele a tomou 
nos braos, no fim da cano.
      
      - E uma verdadeira texana - murmurou ao ouvido dela, sorrindo. - Melhor do que eu. No me diga que no dana isto h muito tempo!...
      
      - No dano - retorquiu ela, tambm em voz baixa. Mas continuaram a danar alegremente e os outros pares juntaram-se a eles, tentando fazer o melhor possvel. 
Muitos atrapalhavam-se e tropeavam, mas todos se divertiram imenso. As pessoas admiravam Tanya, mas no a maavam. J se tinham habituado  sua presena e deixavam-na 
em paz. Tanya sentia-se confortvel ali e mais ainda em companhia de Gordon.
      
      Quando a msica acabou, Gordon deixou-se ficar na sala e os outros cowboys tambm. Depois de passarem cinco dias perto uns dos outros, todos se tinham tornado 
amigos. Estabelecera-se um relacionamento amigvel entre todos, embora nenhum to forte como o que havia entre Tanya e Gordon. Mas, para grande alvio de ambos, 
ningum parecia desconfiar.
      
      - Gostei muito de danar consigo - disse Gordon, sorrindo, e ela fitou-o com os olhos cheios de riso e de excitao.
      
      - Eu tambm gostei de danar consigo. E um excelente bailarino, Mister Washbugh.
      
      - Obrigado, minha senhora - respondeu ele, exagerando o seu sotaque arrastado e fazendo uma vnia. Charlotte Collins aproximou-se deles.
      
      - Vocs os dois deviam entrar no concurso d feira do Estado - disse, com um sorriso. - E uma dana bonita quando  bem executada.
      
      - Creio que estou bastante enferrujada - retorquiu modestamente Tanya. Mas a verdade  que ela e Bobby Joe costumavam entrar em todos esses concursos e ganhavam 
sempre.
      
      - Est tudo bem? - perguntou Charlotte. Sentia-se muito preocupada com Zoe. O Dr. Kroner no lhe dissera de que se tratava, mas afirmara que o estado dela 
era grave e isso preocupara-a. - A doutora Phillips parece um pouco mais animada - concluiu.
      
      Mas achava-a ainda muito plida e com um ar frgil.
      
      - Sente-se uni pouco melhor esta noite - respondeu Tanya, que ficou imediatamente sria. Quando olhava para Zoe a alguma distncia  que via bem como ela estava 
magra e plida. Era difcil no dar por isso, mas, quando se falava com ela Zoe mostrava-se to cheia de vida e de animao que fazia com que as pessoas esquecessem 
o seu aspecto.
      
      - J sei que vai amanh ao rodeo - disse ento Charlotte. Vira que Tanya e as amigas tinham reservado bilhetes antes do jantar. - Vai cantar outra vez? Na 
cidade toda a gente fala nisso.
      
      - Gostaria de o fazer - respondeu Tanya com um sorriso, afastando os compridos cabelos louros para os ombros. Pelo canto do olho reparou que Gordon franzia 
a testa. - Veremos se me pedem e qual o aspecto da assistncia. - Se visse muitos bbados e pessoas com um aspecto muito rude, no cantaria.
      
      - Oh!, certamente que lhe vo pedir para cantar de novo. Foi o ponto alto do ano em Jackson Hole. Talvez da dcada. Foi muito simptica.
      
      Charlotte sorriu e afastou-se em direco a outros hspedes. Gordon continuava de sobrolho franzido.
      
      - No quero que faa isso - disse ele, aproximando-se. - No gosto da maneira como as pessoas se comportam quando est perto. No palco, com segurana,  diferente. 
No lhe podem fazer mal.
      
      - Sim, podem - respondeu com franqueza. E sabia que um dia isso poderia suceder. Num concerto nas Filipinas usara um colete  prova de bala por baixo do vestido 
e jurara no mais voltar a usar tal coisa. Sentira-se tremer dos ps  cabea e com vontade de vomitar durante todo o concerto. - Por isso  que escolhi cantar montada 
a cavalo na outra noite - afirmou. - Sabia que poderia fugir dali, se fosse preciso.
      
      - No gosto que corra perigo - disse ele, sem querer impor-se, mas genuinamente preocupado.
      
      
      - Tambm no gosto que monte cavalos selvagens - respondeu Tanya, olhando-o directamente. Ela conhecia bem a vida de um cowboy. As suas origens estavam a. 
E conhecia o preo a pagar e os perigos que se corriam. Mas conhecia tambm o mundo em que ela prpria vivia. Melhor do que ele.
      
      - Vou propor uma coisa - comeou a dizer Gordon, com sinceridade. - Se desistir de correr esses riscos, eu desisto tambm dos cavalos.
      
      - Est combinado - respondeu docemente Tanya, mas quis ser tambm franca com ele. - Eu no posso desistir de cantar, Gordon. E o meu modo de vida.
      
      - Bem sei. E no esperaria que o fizesse. S no quero que facilite as coisas para ser agradvel. Pode sair magoada. O pblico no o merece!
      
      - Eu sei. - Tanya suspirou, olhando-o. Era difcil imaginar que estavam a ter uma conversa daquelas, a negociar o seu futuro, dizendo aquilo em que cederiam 
e no cederiam. Mas no teriam nada a perder se isso sucedesse. - As vezes gosto de cantar s pelo prazer de o fazer, sem pensar em contratos ou em promotores e 
todas essas tretas. E bom cantar.
      
      - Ento cante para mim - murmurou Gordon, sorrindo.
      
      - Gostaria muito. - Havia uma velha cano do Texas que ela gostaria de cantar para ele. Cantara-a muitas vezes nas festas da escola secundria e tornara-se 
muito popular desde ento. Mas Tanya sempre a considerara a sua cano. - Um dia cantarei.
      
      - Lembre-se de que  uma promessa...
      
      Havia uma poro de promessas a flutuar em torno deles... Todos os convidados conversaram durante mais um bocado e depois Tanya e Mary Stuart retiraram-se 
com Zoe. Gordon prometera a Tanya ir ter com ela mais tarde, se pudesse. Dissera-lhe que daria uma pancadinha na janela e ela avisara-o de qual era a do seu quarto. 
Hartley acompanhou-as at casa e ficou sentado na varanda com Mary Stuart. Tanya e Zoe entraram e ficaram a conversar.
      
      Mary Stuart contou a Hartley que Bill lhe telefonara antes do jantar e ele ouviu-a, olhando-a pensativamente.
      
      - Ele est provavelmente a aperceber-se do que perdeu durante todos estes meses - murmurou, fitando-a. - Que pensa fazer se ele tentar remediar o mal?
      
      - No fao ideia - respondeu com sinceridade Mary Stuart -, mas quando falei com ele percebi que no queria voltar para trs. O que se passou no ltimo ano 
no pode ser desfeito, nem o que sucedeu a Todd. No creio poder perdoar-lhe o que ele fez. Pode ser que eu esteja a ser m e mesquinha, mas, para ser sincera, acho 
que ele matou o nosso casamento.
      
      - E se no o fez? Se voltar e lhe disser que a ama muito e lhe pedir perdo? Que far?
      
      Queria que ela pensasse no caso antes de cometerem um erro. Estavam ambos extremamente atrados um pelo outro, mas eram muito cautelosos e era o que Hartley 
queria. Receava ficar destroado. 
      
      - No sei Hartley. No tenho a certeza. Julgo saber. Julgo estar tudo acabado entre ns, mas suponho no haver garantias antes de me encontrar de novo com ele. 
Nessa altura terei a certeza.
      
      - Porque espera at Setembro para isso? Era uma pergunta que ela fizera a si prpria ultimamente. Primeiro pensara precisar de tempo, e ficara satisfeita por 
ter todo o Vero para pensar, mas desde que ali chegara apercebera-se de que estava preparada para enfrentar o marido. 
      Ocorrera-lhe que poderia ir a Londres falar com ele e disse isso mesmo a Hartley.
      
      - Acho uma boa ideia - concordou o escritor - se se sente pronta para isso. No quero de modo algum influenci-la.
      
      Conheciam-se h cinco dias e fora uma experincia extraordinria para ambos, mas era possvel que no passasse de um sonho, de uma iluso; porm, talvez fosse 
algo real e muito especial. S o tempo o diria. Mas primeiro Mary Stuart tinha de enfrentar o marido. Antes disso nenhum deles queria fazer algo de que tivesse de 
se arrepender. E, por mais tentador que fosse irem para a cama um com o outro, ela sabia que no o fariam.
      
      - Quando sairmos daqui vou passar uns dias a Los Angeles com a Tanya. Devia l estar uma semana, mas ela tem muito que fazer. Ficarei poucos dias e em seguida 
irei a Londres. Vim para aqui para pensar e decidir. E soube o que faria no momento em que c cheguei.
      
      Quando sara do seu apartamento de Nova Iorque j decidira que no voltaria a viver l da mesma maneira. Dissera adeus  sua antiga vida quando deixara a casa, 
e afirmou isso a Hartley.
      
      - H qualquer coisa nestas montanhas que nos d respostas a muitas questes. Depois de Meg ter morrido no fui capaz de aqui vir, mas senti a falta disto - 
murmurou, sorrindo para Mary Stuart e segurando-lhe na mo. - Seria espantoso se viesse a descobrir aqui a minha nova vida, se tivesse vindo aqui para a encontrar. 
- Olhou-a ento com tristeza e continuou: - Mas, mesmo que isso no suceda, quero que saiba como me fez feliz. Fez-me ver que no estou s como pensava, que ainda 
pode existir algum que me faa amar outra vez. Voc  uma bela ddiva inesperada,  uma viso daquilo que pode ser a vida quando duas pessoas se amam e so felizes.
      
      Hartley significava exactamente o mesmo para ela. Era a prova viva de que havia algum no mundo que se preocupava com ela, algum com quem podia falar com 
facilidade e que podia am-la. E no queria desistir disso agora. Ele no lhe pedia, mas queria que ela tivesse a certeza do que desejava antes de se aproximarem 
mais. Mary Stuart achava que a sua deciso j estava tomada.
      
      - No creio que o facto de o ver v alterar seja o que for - murmurou docemente Mary Stuart, apertando a mo de Hartley nas suas e beijando-a. Ele era-lhe 
to querido, tornara-se to amiga dele em to pouco tempo, que sentia necessidade de o proteger, e o mesmo se passava com ele. Mas sabiam tambm que ela precisava 
de ter a certeza do que sentia ou no sentia por Bill. Hartley no queria pression-la e Mary insistiu em que ele no o estava a fazer. - Quando Bill me telefonou 
esta noite - disse Mary Stuart - falei com ele como se fosse um estranho. Ao princpio nem eu o reconheci, nem ele a mim, e no percebi o que o levou a falar-me. 
E muito triste sentir-me to afastada de uma pessoa que amei. Nunca pensei que isso nos pudesse suceder.
      
      - Vocs sofreram um dos mais rudes golpes que a vida nos pode desferir - disse Hartley com simpatia. - A maior parte dos casamentos no sobrevive a uma coisa 
dessas. As estatsticas so bem reveladoras. Creio que noventa e sete por cento dos casais que perdem um filho acabam divorciados.
      
      - E preciso ser incrivelmente forte para aguentar isso - disse Hartley.
      
      - E ns no fomos.
      
      - Gosto de estar consigo, Mary Stuart - disse Hartley, sorrindo e mudando de assunto. Queria ir para Nova Iorque com ela, ir  Europa com ela, partilhar com 
ela os seus amigos, a sua vida, a sua carreira. Havia tanta coisa que queria fazer com ela e estava ansioso por comear! Havia dois anos que estava sozinho, mas 
sabia que precisava de esperar um pouco mais. Ela tinha de ir a Londres falar com o marido. Depois disso, se Mary tivesse a certeza de querer deixar Bill, as possibilidades 
eram ilimitadas. Nada mais havia que os pudesse afastar um do outro, embora sentisse um certo receio da reaco da filha dela. Nunca tivera filhos e no sabia se 
Alyssa o antagonizaria, se lhe atribuiria as culpas do divrcio e decidiria odi-lo, para ser leal para com o pai. Com efeito, o divrcio seria por causa do pai, 
mas seria difcil para ela aceitar isso. Falara com Mary Stuart sobre o assunto nessa tarde e ela achava que teria de ter uma conversa muito sria com a filha a 
esse respeito. Mas, por outro lado, Mary tambm no estava disposta a ficar com o marido por causa da filha. Segundo ela, Alyssa teria de ter a sua prpria vida 
e, quanto a si, era a ltima oportunidade de refazer a sua vida com uma pessoa de quem gostava e que a amava. No ia perder essa oportunidade por lealdade, algo 
que j no sentia em relao a um homem que no a amava. Queria estar com Hartley.
      
      Ficaram sentados durante muito tempo, falando acerca do passado, do presente e do futuro. E combinaram tudo. Ela iria a Londres na semana seguinte a deixarem 
Wyoming. S ficaria em Londres alguns dias, possivelmente ainda menos, se Bill no quisesse discutir o assunto. Tentaria tambm encontrar-se com Alyssa. No sabia 
se diria j  filha que se iam divorciar. S o faria se o marido achasse que deviam faz-lo, caso contrrio, achava que poderiam esperar at Setembro. Mas, se conseguisse 
descobrir a pista da filha atravs da Europa, queria v-la, nem que fosse apenas por um dia. Em seguida voltaria a casa e organizaria a sua vida. No fazia ideia 
do que Bill tencionava fazer em relao ao apartamento, se quereria conserv-lo ou vend-lo, se quereria viver nele ou se pensaria que Mary quisesse. Mas ela tambm 
j tomara a sua deciso a esse respeito. No queria l viver. Era demasiado doloroso, uma recordao constante da tragdia de cada vez que passava pelo quarto de 
Todd. O facto de as coisas estarem l ou no era indiferente. Ela sabia que ele ali vivera, conhecia exactamente o stio onde se encontravam os trofeus ganhos por 
ele, a bandeira de Princeton e o ursinho de pelcia sobre a cama quando era pequeno. As coisas dele tinham sido tiradas dali e era chegada a altura de ela tambm 
tirar as suas. Todos deviam comear novas vidas, e ela tinha a sorte de poder refazer a sua junto de algum como Hartley.
      
      - Gostaria de ir comigo para Fisher's Island quando regressar? - perguntou cautelosamente Hartley. - Possuo l uma casa antiga bastante engraada. Tenho l 
ido pouco desde a morte de Margaret, mas pensei em passar algum tempo ali em Agosto.
      
      Mary Stuart olhou-o e disse que sim com a cabea. Tambm ele tinha os seus fantasmas, os seus desgostos, as suas rotinas. Ambos os tinham.
      
      - Gostava muito. - Realmente no sabia o que havia de fazer sozinha. Pensava ir at East Hampton visitar uns amigos.
      
      - Venha ento comigo - disse Hartley, acariciando-lhe o pescoo. Nada mais queria do que acordar todas as manhs ao seu lado, ouvir o mar e fazer amor com 
ela toda a tarde, toda a noite e toda a manh, e conversar com ela, partilhar com ela os seus livros preferidos... Descobrira j que Mary era uma leitora inveterada 
e que gostavam ambos dos mesmos autores. Possua algumas primeiras edies maravilhosas, que gostava de lhe poder mostrar. Queria caminhar com ela pela praia, de 
mos dadas, e partilhar todos os seus segredos. Mas isso j sucedera, enquanto galopavam atravs dos campos cobertos de flores silvestres dos vales de Wyoming. Era 
j maravilhoso e podia ser ainda melhor.
      
      J era tarde quando finalmente Hartley conseguiu separar-se de Mary Stuart. Estavam satisfeitos com os seus planos. Mary iria a Londres na semana seguinte 
e depois passaria algum tempo com ele em Fisher's Island. A viagem a Londres era muito importante. Antes de se despedir Hartley fez-lhe uma pergunta dolorosa.
      
      - E se ele a reconquistar?
      - Isso no suceder - respondeu ela, beijando-o.
      
      - Ser um tolo se o no fizer - murmurou Hartley, beijando-a, por sua vez. Se isso acontecesse, Hartley sabia que teria de recomear a vida se ela. - Talvez 
seja melhor combinarmos um sinal - disse ele - para eu saber se a minha vida acabou ou se est a recomear.
      
      - Deixe de se preocupar - disse Mary Stuart. Beijaram-se outra vez, mas ele no podia deixar de se preocupar. Desejava-a terrivelmente. - Amo-o - disse Mary 
Stuart com toda a sinceridade. Mal o conhecia e, no entanto, sabia que poderia passar o resto da vida junto dele, sem o lamentar nunca. Era completamente diferente 
de Bill, mas ela sabia que poderia ter casado com ele e ter vivido feliz. O seu tempo com Bill acabara. E o seu tempo com Hartley estava apenas a comear.


















      
Captulo 18
      
      No dia do rodeo estavam todos bem-dispostos. Zoe decidira no ir. Disse que se sentia com foras, mas que queria poupar-se, e resolveu ficar em casa a ler 
o ltimo livro de Hartley, que ele lhe oferecera. E queria tambm telefonar a Sam e falar com a filha.
      
      Tanya e Mary Stuart foram em companhia de Hartley. Ele levava um chapu de cowboy novo que comprara na cidade nessa tarde e comprara outro para Mary Stuart. 
Tanya disse-lhes que pareciam mascarados de rancheiros texanos. Os chapus tinham sido passados a ferro segundo o gosto deles. A copa do de Mary fora um pouco levantada 
e as abas de ambos alisadas. Formavam um par interessante. Era engraado que se tinham vestido ambos de azul-escuro sem saberem um do outro. Era uma coisa que os 
casais s vezes faziam inconscientemente quando estavam particularmente em sintonia um com o outro. Tanya ficou feliz ao v-los.
      
      - Vocs esto os dois muito bem arranjados - disse Tanya, sentando-se num sof no seu autocarro e cruzando as pernas. Sentia-se ansiosa por ver Gordon. Hartley 
encontrava-se a par da situao, mas era extremamente discreto e Tanya sabia que guardaria segredo. Porm, tal como Gordon, Hartley preocupava-se com a segurana 
dela.
      
      - No devia ter alguns seguranas consigo? - perguntou sensatamente, e Mary Stuart concordou com um gesto. Tambm achava que o rodeo seria perigoso para Tanya. 
Mas ela insistia que no.
      
      - Em Los Angeles normalmente teria, num evento deste gnero, mas as pessoas aqui so diferentes. No me vo fazer mal. O pior que me podero fazer ser pedirem-me 
que assine uma poro de autgrafos, e isso no tem importncia. Parece-me exagero levar uma quantidade de guarda-costas para um rodeo de uma cidade pequena. Isso 
 bom para Hollywood. Sentir-me-ia embaraada se o fizesse.
      - Mas talvez fosse mais sensato - insistiu Hartley. - Pelo menos tenha cuidado - avisou. Tanya sorriu. Simpatizava com ele por ser to bom para Mary Stuart. 
Nunca gostara muito de Bill Walker. Sempre o achara demasiado duro e a exigir de mais de Mary Stuart. Na opinio de Tanya, ele tratara-a sempre como propriedade 
sua. Tinha uma casa perfeita, uma esposa perfeita e uns filhos perfeitos. E esperava que fosse sempre assim; mas no sabia se ele apreciaria realmente isso e se 
alguma vez lhe agradeceria. Tinha a certeza de que Bill iria ficar estupefacto quando Mary Stuart lhe dissesse que estava tudo acabado. At os faxes dele a irritavam. 
Eram frios, distantes e nada amigveis. Hartley era o oposto de Bill, afectuoso, amvel e solcito, preocupado com todos os que o rodeavam. Parecia-lhe que ele era 
realmente perfeito para Mary Stuart e ficavam lindamente juntos. At os achava um pouco parecidos, exceptuando o facto de o cabelo dele ser grisalho e de ter mais 
dez anos do que ela.
      
      Hartley obrigou Tanya a prometer ser cautelosa e pedir auxlio  Polcia ao menor problema.
      
      - Mantm-te perto de ns. No andes de um lado para o outro - disse Mary Stuart, como se estivesse a falar com Alyssa.
      
      - Sim, mam - respondeu Tanya, rindo. Estava to excitada que no conseguia estar sentada. Quando o autocarro parou no parque de estacionamento, evitando os 
inmeros garotos a cavalo que ali se encontravam, j vrias pessoas a esperavam. Eram no s admiradores como tambm o director da corrida que a contactara no rodeo 
de quarta-feira. Vinham pedir-lhe que cantasse outra vez o hino, como s ela o sabia cantar, diziam eles. Eram to acanhados que Tanya teve pena deles e acedeu. 
Enquanto falavam, Tanya assinou meia dzia de autgrafos. Mary Stuart e Hartley estavam preocupados, mas sabiam que era aquela a vida dela. O director do rodeo perguntou-lhe 
se queria montar o mesmo cavalo e ela respondeu que sim. Disse-lhes ento que gostaria de cantar outra cano, antes ou depois do hino. Sugeriram que o fizesse a 
seguir ao hino, e ela disse que cantaria God Bless America. Os rodeos faziam-na pensar sempre nesta msica.
      
      - E se cantasse uma das suas canes Miss Thomas? - sugeriu o director, mas Tanya disse-lhe que no. No cantaria uma cano sua com a banda da escola, sem 
ensaio e num stio que no era apropriado para isso. Era a cano escolhida por ela ou nada, e eles aceitaram.
      
      Tanya ocupou o seu lugar junto de Mary Stuart e de Hartley e olhou para o lado onde ficavam as cavalarias, mas no viu Gordon. Alguns minutos depois vieram 
cham-la. As pessoas olhavam-na e ela sabia que a tinham reconhecido, mas ningum ousou aproximar-se, a no ser alguns garotos. Tanya foi cantar, com a sua camisa 
vermelha e as botas vermelhas, que Mary Stuart lhe emprestara para a ocasio, e estava, como sempre, muito bonita. Tinha o cabelo solto e um leno vermelho em torno 
do pescoo. As cabeas voltavam-se  sua passagem. Bastava olhar para ela para ficarem a saber que era algum especial.
      
      -  uma rapariga espantosa - disse Hartley com admirao ao v-la afastar-se por entre as pessoas, calma e graciosa. Possua uns modos afectuosos e delicados, 
que atraam. No havia nela nada de prima donna. - Estou preocupado com a segurana dela - prosseguiu Hartley. - H qualquer coisa na mentalidade dos as das pessoas 
como Tanya que me enerva. Eu tenho por vezes de assinar alguns livros, mas as pessoas parecem enlouquecer quando a vem.
      
      - Eu tambm me preocupo sempre com ela - disse Mary Stuart, sem deixar de seguir a amiga com o olhar. Tanya estava agora do lado mais afastado da arena e vrios 
cavaleiros exercitavam as suas montadas.
      
      - Acha que aquilo entre ela e Gordon  srio? - perguntou Hartley em voz baixa, olhando  sua volta para se certificar de que ningum o ouvira. Mas atrs deles 
no se encontrava ningum que conhecessem ou que trabalhasse no rancho.
      
      - No sei - respondeu Mary Stuart. - Porqu? - perguntou, receando que Hartley soubesse algo que ela desconhecesse.
      
      - Apenas porque me parece uma estranha combinao. Ela  to sofisticada e ele pertence a outra classe. A vida dela parece bastante complicada. Creio que s 
uma pessoa muito especial a suportaria.
      
      - Isso  verdade - concordou Mary Stuart. Porm, Gordon fazia-lhe lembrar Bobby Joe, mais velho e mais sensato. E tinha a certeza de que Tanya, mesmo inconscientemente, 
se apercebia disso. - Mas Gordon parece-se muito com o primeiro marido de Tanya. E ela no  to sofisticada quanto isso. De certo modo, Tanya faz parte de tudo 
isto. O resto da vida dela apenas sucedeu. No mais fundo do seu corao,  apenas uma rapariga do Texas. Quem sabe? Pode ser que resulte...
      
      Quem poderia saber? Tudo dependia da sorte. Talvez o relacionamento entre Tanya e Gordon no tivesse futuro, mas Mary Stuart desejava que tivesse, para bem 
de Tanya. E justamente na altura em que pensou nele, Tanya viu-o. Gordon estava apoiado  cancela de uma das baias e observava Tanya, que nesse momento montava a 
cavalo e falava com o director do rodeo.
      
      E, enquanto a observava, Gordon no podia acreditar na sua boa sorte. Aquilo no podia estar a suceder-lhe, dizia para consigo. As pessoas como Tanya Thomas 
no montavam a cavalo e passeavam com ele at ao pr do Sol. Tentava recordar a si mesmo que provavelmente no passaria de uma brincadeira para ela, um divertimento 
que fazia parte das frias, mas, no entanto, quando falava com ela, sabia que era verdadeira e sincera e acreditava em tudo o que lhe dizia. Haviam estado a conversar, 
a beijar-se e a acariciar-se junto da casa dela at s trs da manh. E estava agora a v-la a dar a volta  arena no palomino que lhe tinham emprestado e apercebeu-se 
de que se fizera silncio. Ouviram-se alguns gritos, algum gritou o nome dela, mas quando Tanya olhou nessa direco todos se calaram. Ela tinha um carisma e uma 
fora espantosos.
      
      Tanya comeou ento a cantar o hino, como prometera, e a seguir entoou lentamente God Bless America, at fazer com que as pessoas gritassem ao ouvi-la. Possua 
uma voz poderosa, que se erguia para os cus e envolvia toda a gente. Gordon limpou os olhos quando ela acabou de cantar. Tanya sorriu abertamente, acenando para 
toda a gente e fazendo o cavalo danar em redor da arena. Depois saiu a galope, soltando um verdadeiro grito texano, e a multido enlouqueceu. Se pudessem segui-la, 
teriam sado dos seus lugares para a cercarem. Mas Tanya foi cuidadosa. Saltou do cavalo e desapareceu antes que algum a pudesse ver. Beijou o director do rodeo 
na face e agradeceu-lhe t-la deixado cantar as duas canes. Depois desapareceu literalmente entre a multido. Tirou rapidamente a camisa vermelha e prendeu-a em 
volta da cintura. Trazia por baixo uma camisola de algodo branca. Com a mesma rapidez, puxou o cabelo para trs e entranou-o. Isso transformou-a, e quando se aproximou 
das baias dos cavalos estava diferente. O prprio Gordon ficou surpreendido quando a viu.
      
      - Que mudana to rpida - murmurou, admirando-a e aproximando-se o mais possvel dela, desejoso de a beijar.
      
      - Era essa a ideia - replicou Tanya, tirando-lhe o chapu e pondo-o na cabea, o que a disfarou ainda mais.
      
      - Muito bem - disse Gordon, satisfeito por a ver ser cuidadosa. - Foi de fazer perder a cabea - comentou, referindo-se  sua exibio.
      
      - Sempre pensei que devia ser aquele o nosso hino, em vez de Star Spangled Banner.
      
      - Gosto de tudo o que canta - murmurou ele, ainda comovido. - Podia cantar Smoky the Bear e fazer-me chorar, Tanny.
      
      - E bom ouvir isso - disse Tanya, acariciando-o com o olhar. Gordon foi buscar uma cerveja e partilhou-a com ela. Tanya bebeu com um p apoiado na trave da 
cancela, o chapu atirado para a nuca, parecendo uma verdadeira cowgirl.
      
      - Tanny, faz-me perder completamente a cabea - sussurrou ele.
      
      - A minha tambm anda bastante perdida - retorquiu Tanya, rindo. Ficaram os dois a ver o rodeo durante um bocado e depois ela foi para junto dos outros, para 
no se preocuparem. - Monte com segurana e diga ao cavalo que tenha cuidado. Se o magoa, dou-lhe um tiro.
      
      - Sim, minha senhora - respondeu Gordon, enquanto ela lhe virava as costas para se afastar. Seria o momento perfeito para a beijar, mas Gordon receava que 
se encontrasse algum fotgrafo por perto e que a fotografia aparecesse em todos os jornais. Tambm no sabia se Charlotte Collins ali estava nessa noite. E os outros 
cowboys certamente comentariam o caso. Era melhor continuarem guardar o seu segredo.
      
      - Tentarei voltar aqui mais tarde - sussurrou Tanya antes de se afastar. - Se no vier, v visitar-me.
      
      Ele prometera-lhe nessa tarde ir outra vez a casa dela. Gostavam de estar sentados a conversar  luz do luar. Combinara ir dar um passeio com ele na manha 
seguinte. Iria no seu autocarro at Moose, onde ele se encontraria com ela para passarem o dia juntos. Gordon queria mostrar-lhe um milho de stios.
      
      Tanya voltou a desejar-lhe sorte e dirigiu-se para o seu lugar, onde Mary Stuart e Hartley a esperavam. Tinham deixado de a ver desde o momento em que ela 
sara da arena, mas quando se aproximou perceberam porqu. Tanya tirara a camisa vermelha e prendera o cabelo.
      
      - Foste esperta - elogiou Mary Stuart, querendo saber a seguir onde ela tinha estado, embora calculasse onde estivera.
      
      - Estive junto das baias dos cavalos - retorquiu Tanya com o seu sotaque texano, o que fez rir Mary Stuart.
      
      - Lembro-me de quando tu falavas sempre assim. E eu gostava.
      
      - J estou h demasiado tempo na grande cidade - murmurou Tanya, sorrindo.
      
      Apesar da alterao no seu aspecto, as pessoas comeavam a apontar para ela e a sussurrar. Mary Stuart deu-lhe o seu chapu novo, azul-escuro, para cobrir 
a cabea, e ela ficou sentada, quieta, com os olhos baixos.
      
      Observou quase todos os nmeros com interesse, at que chegou o nmero de Gordon. Ele ia montar em plo nessa tarde, o que era ainda mais difcil e mais perigoso. 
Tanya detestava tudo aquilo e o seu corao batia desordenadamente ao v-lo ser quase atirado ao ar por um cavalo selvagem, furioso por sentir em cima de si o peso 
do cavaleiro e que fazia tudo quanto podia para o atirar ao cho. Tudo correu bem, at que a determinada altura o cavalo voou literalmente, com o dorso arqueado, 
e Gordon foi lanado para fora. O cavalo arrastou-o uns metros, preso por uma das mos, mas finalmente os outros apanharam-no. Saiu da arena dobrado sobre si mesmo 
e parecendo ter um brao magoado. Porm, no ltimo instante, antes de deixar a arena, ergueu um brao e acenou. Tanya percebeu que esse gesto era para ela, para 
que no se preocupasse. Apeteceu-lhe levantar-se e ir ver se ele estava realmente bem, mas no queria chamar as atenes sobre si e esperou um bocado, ficando a 
observ-lo do stio em que se encontrava. Estava sentado novamente na cancela junto das baias, mas parecia segurar o brao, e o director do rodeo felicitou-o pela 
sua exibio. Teve a segunda pontuao mais alta do rodeo, mas pondo em risco a sua prpria vida.
      
      - Acha que ele est bem? - perguntou Tanya, inclinando-se para Hartley.
      
      - Penso que sim. Se no estivesse, t-lo-iam levado ao hospital ou chamado os paramdicos.
      
      Todos se sentiam chocados por ver quantos cavaleiros deixavam a arena visivelmente feridos. Coxeavam, iam dobrados, arrastavam as pernas, amparavam os braos, 
tinham feridas na cabea, doa-lhes tudo, e trs dias depois voltavam a fazer o mesmo. O director do rodeo chegou mesmo a felicitar um deles por se encontrar de 
novo ali, depois de uma queda m na quarta-feira anterior. Tanya achava que aquilo no era ser valente, era ser estpido. Mas era aquele o mundo em que viviam. At 
as crianas de cinco anos iam para a arena durante os intervalos tentar apanhar rifas e bilhetes para a feira da regio presos s caudas de vitelas e pequenos novilhos, 
o que fazia Mary Stuart ficar aflita, receando que fossem pisadas. Mas era assim que viviam em Wyoming. Era como as touradas em Espanha. Para eles fazia sentido. 
Porm, mesmo para Tanya, que vivera no Texas, tudo aquilo parecia perigoso e meio louco.
      
      - Esta porcaria machista ainda d cabo de mim - disse ela para Hartley ao ver um rapaz que montava um touro ser atirado ao cho e pisado no stio onde deviam 
ser os rins. Chamaram uma ambulncia, mas ele saiu da arena de gatas, apoiando-se sobre os joelhos e as mos. E a assistncia aplaudiu-o. - Isto  muito pior do 
que o que eu fao - declarou, irritada.
      
      Mary Stuart e Hartley riram e pouco depois Tanya levantou-se para ir ter com Gordon.
      
      
      - Est bem? - perguntou, preocupada, quando l chegou. Devolvera o chapu a Mary Stuart, porque no queria suj-lo ou perd-lo se algum tentasse tirar-lho. 
Era uma coisa que j lhe sucedera algumas vezes. As pessoas arrancavam-lhe peas de vesturio e fugiam com elas, para ficarem como recordaes. Era realmente aborrecido 
e assustava-a um pouco. - Como est o seu brao? - acrescentou.
      
      Gordon sorriu da preocupao dela. Tanya viu que ele tinha a mo inchada, mas pusera-lhe gelo e dizia que no doa.
      
      - Est a mentir, seu grande tolo. Se eu agora lhe apertasse a mo, provavelmente batia-me.
      
      - No, mas poderia chorar um bocadinho - gracejou ele, e Tanya foi obrigada a rir.
      
      - Como est o rapaz que foi pisado pelo touro?
      
      - Est bem. No quis ir para o hospital. E rijo! Vai urinar sangue durante uma semana, mas j est habituado.
      
      - Se continuar a fazer isto, mato-o. Faz-me mal aos nervos.
      
      - E voc faz-me bem aos nervos - respondeu Gordon, aproximando-se mais dela, de tal modo que chegava s suas narinas o cheiro do aftershave que ele usava, 
 mistura com o cheiro a cavalos. Gordon reparou ento numas pessoas que a olhavam e colocou-se de modo a impedir que a vissem. Era sbado e havia ali mais gente, 
e muitos homens bebiam. - Quero que tenha muito cuidado quando sair daqui. Ouviu, Tan?
      
      - Sim, senhor - respondeu ela, fazendo continncia. No estava preocupada. Gostava de pensar que era invisvel, ou que no seria reconhecida se no quisesse 
olhar para as pessoas, mas Gordon sabia que no era assim.
      
      - As pessoas sabem que est aqui, Tan. E melhor dizer aos polcias que a ajudem na sada. E sbado e est muita gente embriagada.
      
      - No h problema - garantiu ela. - At logo. - Tocou-lhe na cara ao de leve e desapareceu. Gordon ficou a observ-la dali, durante o resto do rodeo. No a 
viu sair, porque nessa altura conversava com outros homens. Falavam de um cowboy que fora desqualificado e a quem fora proposto montar novamente e recusara. Poltica 
de vaqueiros...
      
      Mary Stuart e Hartley dirigiram-se para a sada com Tanya entre eles. Viam a segurana ali perto, vigiando-os, alm de alguns agentes da Polcia local. Estavam 
rodeados pela habitual multido de ias, agitando canetas e pedindo autgrafos. Outros tiravam-lhe fotografias. Mas tudo isso era inofensivo e Tanya no se sentia 
ameaada. Encontravam-se a vinte metros do autocarro quando dois homens abriram caminho junto dela.
      
      Tanya viu o faiscar do flashes e percebeu que havia um espelho de vdeo mesmo por detrs deles. Pertenciam  imprensa local e queriam saber o que a levara 
a cantar o hino, se tinha sido paga para isso, se j estivera antes nalgum rodeo e se se ia mudar para Jackson Hole. Tanya tentou mostrar-se simptica e continuar 
a avanar, mas eles formaram uma barreira que se entrepunha entre ela e o autocarro, e entretanto iam-lhe tirando fotografias, filmando e fazendo perguntas. E, de 
repente, foi como se tivessem enviado foguetes de sinalizao. 
      
      Todos os seus fs perceberam onde ela se encontrava e o que se estava a passar, sem que Tanya pudesse dirigir-se para a segurana do autocarro. Tom tinha a 
porta do autocarro aberta para ela entrar, mas foi empurrado por uma dzia de homens que se precipitaram para dentro do veculo, procurando-a, tirando fotografias, 
agarrando no que podiam. Tanya foi subitamente puxada para um lado, ficando com a blusa rasgada. Algum lhe puxou o cabelo e um bbado tentou beij-la. A Polcia 
comeou a empurrar toda a gente. Era assustador! Hartley e Mary Stuart tinham sido separados dela pela multido que a cercava, que a puxava, que queria a todo o 
custo ficar com alguma coisa dela. 
      
      A multido no sabia o que fazia, estava enlouquecida e s pensavam em t-la. A Polcia gritava atravs dos altifalantes, avisando a multido para recuar, 
para dispersar, gritando tambm para os homens dos mdia que tinham dado incio quela loucura. Nessa altura encontravam-se umas cinquenta pessoas dentro do autocarro 
e as cortinas estavam a ser rasgadas. Quando viu tudo isso, Tanya percebeu que se encontrava realmente metida em sarilhos. No conseguia fugir s pessoas, que a 
empurravam, a agarravam, a puxavam. No havia fuga possvel, mas, no meio de tudo aquilo, sentiu um brao forte rodear-lhe a cintura e levant-la. 
      
      Tanya viu-se erguida do solo, enquanto um brao se estendia para socar algum, mas no sabia a quem pertencia. Sentia-se elevada no ar, depois meio arrastada, 
e julgava que estava a ser raptada quando viu quem  que a levava. Era Gordon. Este tinha perdido o chapu, a camisa estava rasgada, mas a expresso do seu olhar 
dizia que mataria quem tentasse tocar-lhe. Era apenas ele que se entrepunha entre ela e a destruio. A Polcia ficou muito l para trs.
      
      - Corra, Tan, corra! - gritou ele, dando-lhe a mo e puxando-a para ela correr. Deixara o seu camio estacionado o mais perto possvel da multido, com o motor 
ligado, para poder arrancar instantaneamente. Aproximavam-se quatro polcias a cavalo na altura em que Tanya e Gordon saltaram para dentro do camio, que se ps 
imediatamente em marcha, atropelando quase uma dzia de pessoas e vrios cavalos. Mas nada deteve Gordon. Atrs deles havia agora uma verdadeira multido enfurecida. 
Gordon manteve o p no acelerador e s parou a vinte quilmetros dali. S ento olhou para ela. Ambos tremiam dos ps  cabea.
      
      - Obrigada - murmurou Tanya, tremulamente. Fora um dos momentos mais assustadores da sua vida, porque a multido se descontrolara e ela no tinha segurana 
adequada para a ajudar. Se no fosse Gordon, podia ter sido morta ou ter ficado gravemente ferida, e ambos o sabiam. - Creio que me salvou a vida - disse ela, tentando 
no chorar, enquanto ele respirava fundo e a olhava, desejando desesperadamente proteg-la.
      
      - No me diga que os cavalos selvagens so mais perigosos do que isto. Por mais terrvel que seja um cavalo, no se pode comparar com esta gente. O que  que 
se passa com as pessoas? So indivduos perfeitamente normais a assistirem a um rodeo num sbado  noite. Olham para si e ficam completamente loucos. O que  isto?
      
      - Loucura da multido. No sei! Querem ter-me, mesmo que para isso tenham de me esquartejar. Querem ficar com um bocadinho de num, um pedao da camisa, um 
dedo, uma orelha, um cabelo.
      
      Doa-lhe a cabea de tantas pessoas lhe terem puxado os cabelos para ficarem com um como recordao. Era uma verdadeira loucura. Tanya sorria agora, mas nenhum 
deles achava aquilo engraado. Detestara ter de deixar Hartley e Mary Stuart sozinhos, mas no os podia ajudar. A Polcia f-lo-ia.
      
      - Foram os malditos fotgrafos - disse Gordon, passando-lhe um brao pela cintura e atraindo-a para si. Ela acabara de lhe contar que lhe tinham puxado os 
cabelos e ele nem podia acreditar. - Se a tivessem deixado entrar no autocarro nada disso teria sucedido, mas os cretinos bloquearam a estrada para poderem escrever 
uma histria.
      
      - Pois bem, arranjaram uma. E bastante melhor do que se me tivessem perguntado s se eu tinha sido paga para cantar o hino!
      
      - Bolas! - praguejou ele, abanando a cabea. J estava a imaginar o ttulo: "Tanya Thomas provoca distrbios em Wyoming". Compreendia agora como a vida dela 
podia alterar-se de um momento para o outro. Admirava-se dela suportar tudo aquilo. - Isto vale realmente a pena para si, Tanya? - perguntou, olhando-a. Admirava-se 
sinceramente por ela suportar aquele tipo de situaes.
      
      - No sei - disse ela, encolhendo os ombros. - s vezes acho que sim. J tenho pensado em desistir, mas  o meu modo de vida e no quero deixar que me venam. 
Porque hei-de permitir que me impeam de fazer o que quero s para no me tomarem a vida num inferno?
      
      - Sim, isso  verdade. Mas deve pensar no assunto e arranjar maneira de se proteger.
      
      - E fao-o. Em casa tenho segurana e arame farpado, portes electrnicos, cmaras, ces, todas essas coisas - respondeu Tanya, como se se tratasse de algo 
normal.
      
      - Essa descrio faz-me lembrar a priso do Texas. Refiro-me a outra coisa, algo que impea que lhe arranquem os cabelos quando sai para comer um gelado.
      
      Gordon ficara impressionado com o que vira e sentia uma profunda simpatia por ela. Considerava o procedimento para com ela quase desumano.
      
      - Pode levar-me a um stio onde haja um telefone? - perguntou Tanya, parecendo preocupada. Queria ligar para o autocarro para falar com Tom, no fosse ele 
pensar que fora raptada por um desconhecido. Fora salva por um amigo. Tanya sorriu e contou a Gordon o que pensara quando se sentira agarrada plos braos dele. 
Fora um aperto to forte que percebera que no lhe podia resistir.
      
      - Pobrezinha. Eu quis apenas tir-la dali o mais depressa possvel.
      
      - E conseguiu - respondeu Tanya com gratido. Parara finalmente junto de uma cabina telefnica ao lado de um barzinho. Enquanto Tanya telefonava, Gordon vigiava, 
para ver se ningum a reconhecia. Tom atendeu ao primeiro toque. Hartley, Mary Stuart e a Polcia estavam junto dele. Sabiam que se Tanya estivesse bem, ligaria 
para o autocarro e Hartley desconfiara que fora Gordon quem levara Tanya, mas no quisera diz-lo. Afirmou apenas que ela tinha amigos no rodeo e que esperava que 
tivesse ido com eles. Mary Stuart sentiu-se imensamente aliviada quando a ouviu.
      
      - Ests bem? - perguntou, ainda a tremer dos ps  cabea. Fora uma experincia horrvel mesmo para eles e fez-lhe lembrar como a vida de Tanya era difcil.
      
      - Estou ptima. Encontro-me numa lstima, mas no tenho nada partido. Apenas me assustei. E tu ests bem, Stu? Hartley ficou zangado?
      
      Fora uma experincia muito desagradvel. Antes de casar com Tony, havia muitos homens que no queriam sair com ela, porque diziam que tentar ir com ela a um 
cinema era o mesmo que praticar luta na universidade.
      
      - Claro que no est zangado, pelo menos contigo. Est furioso com a imprensa pelo que fizeram. Diz que vai telefonar para o proprietrio do jornal e da estao 
de rdio local, para apresentar os seus protestos.
      
      - Diz-lhe que no se incomode. Nem sequer tenho a certeza de se tratar da imprensa local. Algum pode ter dado uma indicao  televiso. No vi de onde eles 
eram. Tambm no faz qualquer diferena. De qualquer modo, no faro nada. O autocarro ficou muito estragado?
      
      Mary Stuart olhou  sua volta, ainda perplexa com o que via. Tinham levado cinzeiros, almofadas, partido pratos, rasgado cortinas, mas nada que fosse irreparvel. 
O motorista disse-lhe qualquer coisa que ela repetiu a Tanya.
      
      - Tom diz que est como em Santa F, mas muito menos do que em Denver ou Ls Vegas. Isto costuma suceder-te regularmente?
      
      Mary Stuart ficou ainda mais assombrada ao ouvir aquela lista. Pobre Tanya. Que pesadelo!
      
      - Sucede - respondeu calmamente Tanya. - At logo. Gordon tocou-lhe num brao, ao de leve, e murmurou, corando ligeiramente:
      
      - No faa promessas.
      
      Gostaria de sugerir que fossem a qualquer stio para beber um copo e conversar, mas no se atrevia a faz-lo. Na verdade, o que queria realmente era lev-la 
a casa dele para descansar, ficarem a conversar ao p do lume. No lhe apetecia ficar sentado fora de casa, nessa noite. Ela ficara abalada e queria abra-la. Quem 
sabe o que poderia suceder? Tanya olhou-o e percebeu o que ele estava a pensar; fez um gesto de assentimento, sorrindo.
      
      - No se preocupem comigo. Posso chegar tarde a casa. Estou em boas mos.
      
      Mary Stuart sabia que Tanya se encontrava com Gordon.
      
      - Ento at amanh, no? - perguntou Mary Stuart, em tom malicioso. Tanya riu.
      
      - D beijos a Zoe e diz-lhe que escolheu uma boa noite para ficar em casa. E diz a Hartley que lamento o que aconteceu.
      
      - No tens de te desculpar. Ns  que lamentamos o que te sucedeu. E agradece por mim ao nosso amigo. Fez um bom trabalho!
      
      -  um bom homem.
      
      - Tambm acho que sim. Tem cuidado contigo. Gostamos muito de ti.
      
      - Eu tambm gosto muito de vocs, Stu. Boa noite. Tanya desligou e sorriu para Gordon. Ele abraou-a e conduziu-a de novo para o camio, para se dirigirem 
para casa dele. Conduziu em silncio e ficaram os dois sentados no camio, com as luzes apagadas, durante um bocado. Fora uma noite agitada para ambos e Tanya ainda 
se sentia abalada. Ter montado o cavalo selvagem em plo no fora nada comparado com o que viera depois.
      
      - Est bem, Tanny? - perguntou meigamente.
      
      - Sim, creio que sim, embora estas coisas me deixem sempre trmula.
      
      Estavam a curta distncia da casa dela, mas Tanya no tinha vontade nenhuma de se dirigir para l.
      
      - Quer entrar? - perguntou, por fim, Gordon. Compreenderia se Tanya recusasse. Podia ter vontade de ir para casa e deitar-se. Mas desejava ficar com ela, e 
sempre era prefervel estar ali do que ser visto a sair da casa dela. - No tem que fazer nada que no queira, Tanya - murmurou docemente. - Se quiser, levo-a j 
a casa.
      
      - Gostava de entrar - respondeu Tanya em voz baixa. Queria saber onde ele vivia, o que tinha, do que gostava. E sobretudo queria estar com ele.
      
      - Creio que est tudo deserto, mas, em todo o caso, devemos ser cuidadosos.
      
      Tanya sabia que ele ficaria metido em sarilhos se algum os visse e preocupava-se com isso. As casas dos outros empregados do rancho ficavam perto, mas a dele 
era menos acessvel do que a maior parte das outras. Contudo, no queria que os vissem.
      
      - Isto est bem para si? - quis saber, preocupada. Mas ele sorriu de uma maneira que dizia tudo.
      
      - Para mim est bem - respondeu Gordon, saindo rapidamente do camio e indo abrir a porta da casa. Tanya seguiu-o e ele fechou a porta  chave, correu as persianas 
e acendeu as luzes. Tanya ficou surpreendida ao ver-se numa sala muito confortvel e bem arrumada. Esperara ir encontrar um ambiente menos requintado e mais desarrumado. 
A sala tinha um conjunto de sofs, estantes com livros e revistas, fotografias do filho, dos pais, de um cavalo de que ele muito gostara. A um canto, numa caixa, 
viam-se algumas ferramentas e uma estante inteira cheia de discos e CDs. Ficou surpreendida ao ver a poro de lbuns dela que ele possua, mas gostou tambm dos 
restantes.
      
      Alm da sala, havia uma grande cozinha com uma rea para as refeies, tudo muito asseado, mas o frigorifico encontrava-se praticamente vazio. Via-se bem que 
os alimentos que ali existiam eram comprados por um homem solteiro. Manteiga de amendoim, um abacate, dois limes e um tomate, cervejas, Coca-Colas e uma diversidade 
de bolinhos e bolachas.
      
      - Deve cozinhar muito - disse Tanya, rindo.
      
      - Como na sala do pessoal do rancho - respondeu ele, ao mesmo tempo que tirava do frigorifico uma caixa com ovos, presunto, manteiga, compota e muffins.
      
      - Estou impressionada - disse Tanya, enquanto ele se preparava para fazer caf. Tambm tinha vinho e usque e ofereceu as duas coisas a Tanya, mas ela recusou, 
embora dizendo que, depois da experincia que tivera, um usque lhe pudesse fazer bem. Ao sair da cozinha com uma chvena de caf na mo, Tanya viu de relance o 
quarto de Gordon. Era pequeno e escassamente mobilado. Uma cama, uma cmoda e um confortvel cadeiro. Gordon fez notar que passava l pouco tempo. Tanya sentia-se 
confortvel ali, naquela pequena casa, no meio das coisas dele. Era muito mais agradvel do que muitas das casas que conhecera at ento.
      
      - Esta casa  quase to grande como aquela em que eu cresci - murmurou Gordon, sorrindo. Havia dois quartos. Os meus pais ocupavam um deles e ns, os seis 
filhos, ocupvamos o outro.
      
      - Eu cresci numa casa semelhante - replicou, Tanya, sorrindo. - Provavelmente ainda l estaria se no tivesse tido uma bolsa de estudo para ir estudar msica 
em Berkeley. Foi isso que mudou a minha vida.
      
      - E voc mudou a minha - disse ele em voz baixa, enquanto se sentavam no sof e lhe passava um brao por cima dos ombros. Alguns minutos depois ps um CD a 
tocar. Tanya sentia-se tranquila ali, sentia que nenhum mal lhe podia suceder ao lado dele. Sentia-se totalmente segura e protegida. Da a pouco comearam a beijar-se, 
e todo o terror por que ela tinha passado nessa noite pareceu desaparecer nos braos dele. Beijaram-se durante muito tempo e depois ele olhou-a. Gordon no queria 
fazer nada que ela no quisesse ou que viesse a lamentar mais tarde. T-la-ia levado para junto das amigas em qualquer altura que ela quisesse. - Tanny? - A voz 
dele soava docemente no escuro. Gordon apagara as luzes e acendera a lareira. A msica embalava-os enquanto eles se mantinham abraados. - Tanny? No quero fazer 
nada que tu no desejes - sussurrou ele.
      
      - Estou bem - murmurou Tanya, entregando-lhe todo o seu corao, toda a sua alma, enquanto ele lhe despia devagar a camisola rasgada. E, ao tirar-lhe a roupa, 
Gordon sentia-se admirado com a beleza do seu corpo. Parecia uma rapariguinha nas mos dele, a sua pele era macia e dourada e as suas pernas bem torneadas e longas. 
Por fim, ficaram ambos estendidos lado a lado, nus, enlevados um no outro. Gordon nunca se sentira to feliz nem nunca amara tanto uma mulher. Tanya passou-lhe os 
braos em torno do pescoo e entregou-se ao abrao dele, como Gordon desejara quase desde o primeiro instante em que a vira.
      
      Depois foram para o quarto e ela adormeceu nos seus braos. Quando acordou, de madrugada, Gordon olhou-a e pensou se estaria a sonhar, se tudo aquilo seria 
imaginao sua e acabaria de manh. Ela voltaria para Hollywood e esqueceria que o tinha conhecido. Mas, enquanto ele pensava em tudo isso, Tanya abriu os olhos, 
fitou-o e disse-lhe que o amava muito.
      
      - Sinto-me assustado - murmurou ele  luz suave da madrugada. Nunca dissera isso a ningum, mas disse-lhe a ela, tal como ela lhe contou todos os seus segredos. 
- E se isto nunca tiver acontecido?... Se tudo desaparecer... se...
      
      - Cala-te... eu amo-te... - murmurou ela. - No vou a parte alguma. Sou apenas uma rapariga do Texas - disse, sorrindo. - No esqueas isso.
      
      Gordon riu, fizeram amor outra vez e eram dez horas quando acordaram de novo e ela se dirigiu completamente nua para a sala.
      
      - Oh!, meu Deus - exclamou Gordon, olhando-a. - Como  que isto me sucedeu?
      
      Estava sentado na beira da cama com uma expresso de assombro e ela riu, feliz.
      
      - Creio que ambos achmos que era uma boa ideia. Penso que por volta da meia-noite. Ou estarias embriagado? - gracejou.
      
      - No me refiro a isso... refiro-me a ti. Olha para ti... Tanya Thomas, a famosa Tanya Thomas, nua na minha sala e tendo na mo uma chvena de caf feito na 
minha cozinha!
      
      Tanya riu do modo como ele falou, e ele riu tambm. Tudo aquilo era uma loucura! Ele, ela, o lugar a que a vida a levara e como o facto de as pessoas lhe quererem 
puxar os cabelos e rasgar a roupa a conduzira at ali.
      
      - Tambm no me pareces nada mal - replicou Tanya, provando-lho em seguida, mesmo ali no cho da sala, no sof e em seguida de novo na cama. Gordon no sabia 
se deveria passar o resto do dia a fazer amor com ela ou se iria mostrar-lhe tudo quanto gostaria que ela visse. Era uma deciso difcil, mas decidiu que a melhor 
altura para sarem seria quando todos tivessem ido almoar. Por isso, ao meio-dia deixaram sossegadamente a casa e ficaram satisfeitos por no ver ningum. Ela vestira 
as calas que usara na vspera, um velho chapu e uma camisa dele, que amarrara por baixo do peito. Estava espectacular e Gordon abanou a cabea, com ar assombrado, 
ao pensar na sua sorte, enquanto ligava o rdio e escolhia a msica.
      
      Tanya deixara uma mensagem s amigas dizendo que voltaria  noite. Queria passar o dia inteiro com ele, e f-lo. Foram ver urna queda-d'agua e subiram no alto 
das montanhas. Dali a vista era maravilhosa e passearam de mos dadas, enquanto ele lhe falava da sua infncia, da famlia, dos seus sonhos. Tanya nunca se sentira 
to bem com algum em toda a sua vida. No caminho de regresso pararam num velho rancho. Gordon contou-lhe que fora em tempos um dos melhores da regio, mas que o 
proprietrio morrera e o stio no era suficientemente opulento para atrair as pessoas que habitualmente iam a Jackson Hole. Alguns actores tinham-no ido ver, assim 
como um alemo qualquer. Gordon conhecia a empresa encarregada da venda. Vendiam-no por um bom preo, mas precisava de algum trabalho de restauro e a maior parte 
das pessoas achava-o demasiado rstico e afastado da cidade. Ficava a cerca de quarenta minutos de Jackson Hole e Tanya achou que parecia sado de um velho filme 
do Oeste. Andaram  volta do rancho e espreitaram para dentro. Tinha uma boa casa, cavalarias, que precisavam de ser reparadas, um belo celeiro e trs ou quatro 
casinhas para o pessoal. Precisava de obras, mas o principal estava ali e era bvio para Tanya que o local agradava a Gordon.
      
      - Eu prprio gostava de comprar um stio destes, um dia - disse ele, olhando para as montanhas. De onde estavam podiam ver o vale, que se estendia l em baixo. 
Havia tambm bons pastos para os cavalos.
      
      - Que farias com um rancho destes? - perguntou Tanya.
      
      - Consertava-o. E criava cavalos, provavelmente. Pode ganhar-se bom dinheiro com isso, as  preciso algum capital inicial.
      
      Achava uma pena ningum ter comprado aquele velho rancho e que no se apercebessem do seu verdadeiro valor. Tanya concordou com ele. Gostava daquele local 
escarpado, um tanto isolado, e podia-se imaginar a passar sossegadamente os Invernos ali. A casa do rancho prestava-se a grandes alteraes.
      
      - Com a neve poder-se-ia entrar e sair daqui? - quis saber Tanya.
      
      - Sim, com um carro limpa-neves pode-se sair e entrar facilmente. A estrada  boa. Provavelmente seria preciso enviar alguns cavalos para sul, mas talvez se 
pudessem conservar alguns aqui, com as cavalarias aquecidas.
      
      Gordon riu por estar a fazer planos para um rancho que no era seu, mas Tanya ficou satisfeita por ele ter falado com ela sobre o assunto. Depois passearam 
durante mais um bocado e ele levou-a a jantar a um velho restaurante a meia hora de distncia da cidade, onde se encontravam alguns cowboys. Havia outros stios 
onde ele gostaria de a levar, mas receava que a reconhecessem e que houvesse mais distrbios. Mas ela gostou do velho restaurante e depois do jantar voltaram para 
casa dele. Tinham passado um dia maravilhoso e Tanya devia voltar para casa, mas no tinha vontade de o fazer. Ficou sentada no sof, ouvindo msica. Ento ele ps 
o seu CD favorito, cantado por ela. Tanya comeou tambm a cantar e ele mal podia crer no que ouvia. Julgava estar a sonhar e disse-lho. Tanya sorriu.
      
      - No, no ests - murmurou, comeando a despi-la.
      
      - Sim, estou a sonhar - teimou ele, rindo -, isto  uma fantasia, vejam s o que eu estou a sonhar... estou a ouvir Tanya Thomas a cantar e ela est a despir-me...
      
      - No, no est - negou ela, enquanto ele a despia -, e tu tambm no a ests a despir... - Continuaram assim a beijar-se, a acariciar-se e a brincar um com 
o outro. Gordon nem podia acreditar como a amava e como ela o excitava. Minutos depois estavam outra vez na cama. E j passava da meia-noite quando olharam para 
o relgio. - Talvez seja melhor eu trazer as minhas coisas para aqui - disse sonolentamente Tanya, com voz rouca e sex que o punha doido. Gordon ouviu-a, sorrindo 
e pensando no que ela lhe fizera e de como gostara.
      
      - Tenho a certeza de que Mistress Collins gostaria de nos ajudar. Vou-lhe dizer que te ofereci a minha casa para passares o resto da semana.
      Riram ambos.
      
      - Ou podes mudar-te para junto de ns.
      
      - Isso seria bom - aprovou ele, enquanto Tanya comeava a fazer amor com ele outra vez, e ele gemia e se agitava debaixo da lngua e dos dedos dela. - Oh!... 
Oh!... Isso  bom, Tanny... - Ficaram juntos at de madrugada e nessa altura Tanya percebeu que precisava de ir para casa, antes que algum a visse. Mas detestava 
ter de o deixar. - No quero que te vs embora - disse tristemente Gordon enquanto ela se vestia, depois de terem tomado duche juntos na pequena casa de banho. E 
isso quase fizera com que tudo recomeasse de. novo, mas agora sabiam que no podiam.
      
      - Que vou eu fazer quando te fores embora? - perguntou ele, parecendo uma criana perdida. Tanya sorriu. Tambm ela desejava desesperadamente ficar com ele. 
Sabia que Gordon se referia  partida dela para Los Angeles, onde ela iria continuar as suas lutas.
      
      - Porque no vens comigo? - perguntou Tanya, sabendo que era uma ideia louca. Mas ela tambm no queria deix-lo. Porm, Gordon era muito mais sensato do que 
ela.
      
      - E quanto tempo iria durar isso? Que faria eu? Atenderia o telefone? Levar-te-ia as flores que te enviassem? Responderia s cartas que te escrevessem? Seria 
o teu guarda-costas? Dentro de pouco tempo detestar-me-ias, e eu a ti. No, Tanny - disse tristemente -, o meu lugar no  l.
      
      - Nem o meu... - respondeu ela, infeliz, sem saber como resolver o problema.
      
      - Mas  a tua vida, no a minha. Passado pouco tempo no nos entendamos...
      
      Gordon era inteligente. Fora exactamente o que sucedera com Bobby Joe. Quando a deixara e regressara ao Texas j no a podia ver.
      
      - Ento que nos ir acontecer? - perguntou ela, em pnico.
      
      - No sei. Diz-me tu. Eu poderia ir visitar-te de tempos a tempos e ficaria contigo at poder suportar o teu gnero de vida, ou tu poderes suportar a minha 
presena. Tu podes vir aqui. Poderias comprar uma casa aqui. Seria bom para ri. Um stio pra onde pudesses vir descansar da loucura que presencimos outro dia. 
Se c vivesses seria diferente. Podias passar aqui parte do ano Tan... e eu estarei sempre  tua espera. Se vivesse contigo aqui, as minhas visitas a Los Angeles 
fariam sentido. Farei tudo o que quiseres, ficarei, irei, esperar-te-ei, desaparecerei. S no quero ir para Los Angeles, desistir de toda a minha vida e ver-te 
acabar por me detestares.
      
      - Nunca faria tal coisa - disse Tanya com sinceridade. Tambm nunca detestara Bobby Joe.
      
      - Eu detestar-me-ia a mim mesmo, e tu saberias isso. Volta para aqui - insistiu, prendendo-a nos braos e apertando-a tanto contra si enquanto a beijava que 
ela mal podia respirar. - Estarei  tua espera. Para sempre, se quiseres.
      
      - Serias realmente capaz de ir algumas vezes a Los Angeles? - Estava preocupada com Gordon. E se no mais voltasse a v-lo? Se ele a esquecesse e se mudasse 
para outra cidade, para outro rancho, para outra cantora? Estava, de facto, to assustada como ele.
      
      - Claro que sim - tranquilizou-a ele. - Desde que seja apenas de visita. Que dizes a viver aqui pelo menos parte do ano?
      
      - Nunca pensei numa coisa dessas - respondeu francamente Tanya, meditando no assunto. - Mas a ideia agrada-me.
      
      - Creio que ias adorar.
      
      - Se eu comprasse um rancho, poderias dirigi-lo por mim?
      
      - Sim - respondeu pensativamente Gordon, sentado na beira da cama. - Mas no quero ser teu empregado.
      
      - Que quer isso dizer? - perguntou ela, perplexa.
      
      - Quer dizer que no quero que me pagues - respondeu calmamente Gordon. E Tanya viu na expresso dos olhos dele que falava com sinceridade.
      
      - Como  que vais ento viver? Tanya ficou preocupada com o assunto. Devia haver uma soluo, uma maneira de conseguirem harmonizar as coisas.
      
      - Tenho algum dinheiro de lado. No trabalhei durante todos estes anos para nada. Podia comprar alguns cavalos, fazer criao e trabalhar tambm aqui no rancho. 
Podia trabalhar no teu em troca de quarto e alimentao. Podemos pensar bem no caso - retorquiu Gordon, atraindo-a novamente para si. - No estou preocupado com 
isso.
      
      Sentia-se outra vez melhor. Amava-a muito e sabia que poderia fazer qualquer coisa com ela, desde que estivessem em p de igualdade e ele no acabasse por 
se sentir um dos seus empregados. Mas gostava das ideias dela e pensava nisso enquanto a beijava.
      
      - No quero deixar-te - disse outra vez Tanya. Gordon sabia que ela se referia  partida para Los Angeles e no a esse dia.
      
      - Ento no deixes - respondeu ele com voz rouca, desejando-a de novo. Nunca nenhuma mulher o fizera sentir-se assim. Ansiava pela companhia dela e fisicamente 
punha-o doido. - No vs...
      
      - Tenho de ir. Sou obrigada a cumprir contratos durante as prximas semanas e tenho um disco para gravar. - Lembrou-se ento da tournee que concordara em fazer. 
Falou-lhe disso enquanto se vestia e ele escutou-a com ateno. - Sers capaz de vir comigo? - perguntou. Isso significaria exp-lo s atenes dos mdia, mas ambos 
sabiam que, mais cedo ou mais tarde, seria inevitvel e tinham de se preparar para isso.
      
      - Irei, se quiseres realmente que eu v - replicou Gordon. De certo modo, achava que gostaria de ir, mas, por outro lado, a ideia no lhe era muito agradvel. 
Queria estar com ela e proteg-la de todos os dissabores, mas sabia tambm que, se a acompanhasse, teria de fazer um pouco parte do mundo em que ela vivia. No podia 
esperar que Tanya passasse a vida escondida em Wyoming com ele. - Irei, se quiseres - repetiu. - A tua vida  muito complicada, mas havemos de arranjar uma soluo. 
- Depois fez-lhe outra pergunta. - E filhos? Porque  que nunca tiveste filhos? - Desde que a conhecera que pensava nisso. Ela era uma pessoa to carinhosa, to 
meiga, que lhe parecia estranho nunca ter tido um filho.
      
      - Nunca se proporcionou. Estive sempre casada com a pessoa errada no momento errado, fui sempre empurrada para aqui e para ali plos meus agentes e empresrios. 
Provavelmente dariam cabo de mim se eu ficasse grvida.
      
      Gordon disse que sim com a cabea. Compreendia-a, mas tinha pena dela. Achava que teria sido uma boa me.
      
      - Ainda gostarias de ter um filho? - perguntou Gordon, olhando-a pensativamente, e Tanya ficou surpreendida com a pergunta.
      
      - No sei - respondeu com sinceridade. - H uns anos atrs quis. - Tentara convencer Tony a ter um filho, mas ele no quisera. J tinha filhos e achava que 
seria uma grande complicao. - O meu mdico achou que na minha idade seria preciso muito cuidado. - Mas s o facto de ele lhe fazer a pergunta levou-a a pensar 
nisso de novo. Ento riu-se. Gordon estava a querer dar uma volta  vida dela. Estava a tentar convenc-la a mudar-se para Wyoming, a viver num rancho e a ter um 
filho. Disse-lhe e ele riu-se. - Sinto-me uma verdadeira Heidi. - Depois olhou-o com franqueza e murmurou: - Poderei querer ter um filho. Mas ter importncia se 
no quiser?
      
      - Ser como desejares - respondeu Gordon, inclinando-se para ela e beijando-a. Ia comear a tirar-lhe a blusa, mas ambos sabiam que ela tinha de se ir embora 
antes de o rancho despertar e toda a gente comear a trabalhar. - Mas acho que seria bom termos um filho - acrescentou.
      
      Gordon nunca se sentira assim, nunca desejara tanto mulher alguma. Subitamente, Tanya falou-lhe da filha de Zoe e perguntou o que  que ele pensava de vir 
um dia a ficar com ela. J tencionava fazer-lhe a pergunta, mas ainda no houvera oportunidade. Gordon no via qualquer problema nisso. Em sua opinio, era um assunto 
que s ela poderia resolver.
      
      Tanya precisou de toda a sua fora de vontade para se arrancar dos braos dele e acabar de se arranjar. Finalmente ficou vestida, mas ainda descala. Ele abraou-a, 
sem vontade de a deixar ir nem por um minuto. Eram seis da manh e da a trs horas iriam montar a cavalo, mas Tanya no tinha vontade de sair dali.
      
      - No sou capaz de te deixar por trs horas - murmurou Tanya, fitando-o com os seus grandes olhos azuis. - Como hei-de deixar-te no domingo?
      
      - Tambm no sei responder a isso - murmurou Gordon, fechando os olhos e apertando-a contra si -, mas  melhor agora ires - acrescentou, olhando para o relgio. 
Sabia que da a pouco todos os seus colegas sairiam de casa para comear a trabalhar e tomar o pequeno-almoo. - Voltas logo  noite? - perguntou com ar preocupado. 
Ela sorriu.
      
      - O que  que achas?
      
      Tanya beijou-o e saiu rapidamente, acenando-lhe de longe, enquanto os primeiros raios de sol iluminavam o cimo das montanhas. Tanya caminhava rapidamente, 
pensando nele e nas horas que haviam passado juntos. Gordon era tudo o que ela sempre desejara e nunca esperara encontrar. Tinha muita coisa em que pensar, muito 
que planear, que decidir. A nica coisa que sabia era que, no espao de uma semana, um cowboy do Texas mudara a sua vida para sempre.





























      
Captulo 19
      
      Quando Tanya chegou a casa Zoe j estava levantada e preparava uma chvena de caf. Sentia-se bem outra vez, menos cansada do que estivera antes de chegar 
a Wyoming. Quando viu Tanya entrar apontou-lhe um dedo acusador.
      
      - Ento de onde vens? Deixa-me adivinhar... J sei... vens de um retiro religioso!
      
      Era uma mentira que Zoe uma vez dissera aos pais de Tanya para a encobrir quando ela foi passar um fim-de-semana com um namorado.
      
      - Como  que adivinhaste? - perguntou Tanya, com um sorriso de orelha a orelha, no s devido s fantasias que ela e Gordon tinham partilhado nas ltimas trinta 
e seis horas como tambm pelo sentimento que ele despertara nela.
      
      - Isso quer dizer que vais deixar Hollywood e mudar-te para Wyoming?
      
      - Por enquanto no... - retorquiu Tanya, servindo-se de uma chvena de caf.
      
      - Trata-se de um caso passageiro, ou irei ouvir os sinos do casamento?
      
      Decorrera apenas uma semana e aquela frase parecia um tanto prematura, mas o rancho parecia ter um efeito estranho sobre as pessoas que se conheciam ali.
      
      - Creio que  demasiado cedo - respondeu ajuizadamente Tanya -, e ele  mais sensato que Bobby Joe. Mas  claro que tambm  muito mais velho... Disse-me que 
no iria para Los Angeles a no ser de visita.
      - Acho muito bem - aprovou Zoe. - Davam cabo dele em menos de cinco minutos. Ainda bem que  suficientemente esperto para o perceber. No quero dizer que ele 
no fosse capaz de suportar essa vida, mas creio que no lhe agradaria.
      
      - Ele tambm pensa o mesmo. Experimentou na outra noite, e creio que ficou vacinado para toda a vida.
      
      - Mary Stuart contou-me - afirmou Zoe. -  verdade, Tom telefonou a noite passada e disse que estava tudo arranjado no autocarro, menos as cortinas.
      
      - Podes imaginar uma coisa destas? - perguntou Tanya, aborrecida, no momento em que apareceu Mary Stuart, ainda com ar sonolento.
      
      - Imaginar o qu? Ol, Tan, como vai a tua vida sexual?
      
      - No te ponhas a querer saber, est bem? - retorquiu Tanya, rindo. Gostava da franca amizade que as unia e sentia-se feliz por estarem novamente juntas.
      
      - Ento como  ele? - perguntou com interesse Mary Stuart.
      
      - Es capaz de parar? - exclamou Tanya, ameaando-a com uma almofada. Mas Mary Stuart riu maliciosamente. Queria saber todos os detalhes.
      
      - Olha, h um ano que no durmo com o meu marido. Agora estou envolvida com um homem que acha que no devemos dormir juntos at eu ter a certeza do que quero 
fazer em relao ao Bill, portanto, que me resta a no ser delegando nas minhas amigas? - Voltou-se depois para Zoe e acrescentou: - Isto tambm te diz respeito. 
Quero saber de tudo o que se passar com Sam quando regressares!
      - Nessa altura tambm j deves ter resolvido a tua situao - retorquiu Zoe. E todas riram.
      
      - Cus, as nossas vidas so um caos! - exclamou Mary Stuart, olhando para as amigas, mas a verdade  que sabiam que no era assim. Haviam tido vidas boas mas 
difceis, enormes vantagens mas desgostos tremendos, tinham pago um alto preo por todas as bnos recebidas, e agora no era diferente. Cada uma delas tinha, de 
certo modo, de saltar atravs de um arco de fogo para obter o que queria.
      
      - Na verdade, acho que somos ptimas - declarou Tanya, olhando com orgulho para as suas duas amigas. - E gosto muito de vocs, no caso de quererem saber.
      
      - Oh!, o amor pela humanidade, prprio do desejo satisfeito - disse Mary Stuart, o que fez com que Tanya lhe atirasse com uma almofada.
      
      - Vocs so terrveis! - exclamou Tanya com uma gargalhada, olhando para as amigas e querendo partilhar com elas a sua felicidade. - Podem crer que estou apaixonada 
por ele!
      
      - J calculvamos... - retorquiu Zoe com um sorriso.
      
      - No estou a dizer apenas que o desejo. Digo que o amo.
      
      As duas amigas ficaram caladas a observ-la e depois Mary Stuart falou docemente:
      
      - A tua vida  terrivelmente complicada Tan. Certifica-te de que ele a pode tomar melhor e no pior. Certifica-te de que  capaz de a suportar antes de saltarem 
os dois da penedia, de mos dadas.
      
      - F-lo-ei - respondeu Tanya. Mas Gordon  que estava a ser verdadeiramente cauteloso. - Ele tem receio disso. E inteligente.
      
      - Ainda bem - murmurou Mary Stuart. Em seguida contou-lhe os planos que fizera com Hartley.
      
      - Vou a Londres!
      
      - Vais voltar para o Bill? - perguntou Tanya, admirada, imaginando o que se teria passado na sua ausncia.
      
      - No. Vou apenas falar com ele - explicou Mary. - Tencionava esperar at ao fim do Vero, mas mudei de ideias. Creio que j sabia o que queria fazer quando 
sa de Nova Iorque. De facto, no vale a pena esperar.
      
      - Tens a certeza? - perguntou calmamente Tanya. Estavam todas a tomar decises importantes.
      
      - Creio que sim.
      
      - Ele sabe que tu vais? Mary Stuart abanou a cabea.
      
      - Penso telefonar-lhe daqui a uns dias.
      
      - E se ele te disser para no ires?
      
      - No lhe vou permitir qualquer opo - replicou Mary Stuart. - Esses dias esto acabados.
      
      - Amen - disse Zoe, sempre independente.
      
      - Como est Sam? - perguntou Tanya, preparando-se para se ir vestir.
      
      - Continua louco - respondeu Zoe com um largo sorriso. Depois disse-lhes que ia nessa tarde  cidade ver alguns dos doentes de John Kroner.
      
      - Julguei que estavas em frias... - ralhou Mary Stuart.
      
      - No  grande trabalho. E eu gosto de o ir fazer.
      
      - Quando  que vais? - perguntou Tanya com interesse.
      
      - Pensei em passear com vocs hoje, almoarmos juntas e ir depois para a cidade. Charlotte Collins disse que algum poder dar-me uma boleia.
      
      - Eu levo-te no autocarro. Vou  cidade esta tarde tratar de uns assuntos.
      
      Perguntou a Mary Stuart se tambm queria ir, mas ela disse que ficaria com Hartley. Depois foram todas arranjar-se. Era quase como quando se preparavam para 
ir para as aulas, todas as manhs. Chegaram s cavalarias cerca de uma hora mais tarde, frescas e bem-dispostas. Gordon ficou desapontado por saber que Tanya tinha 
projectos para essa tarde. Disse que precisava de ir  cidade com Zoe.
      
      - Vais ter comigo logo  noite? - perguntou Gordon num sussurro, quando se afastaram dos outros.
      
      - Se me quiseres... - replicou ela, e trocaram um olhar pelo qual os jornais pagariam milhes.
      
      - Amo-te - disse Gordon. Tanya respondeu-lhe e lanaram-se a galope plos campos, lado a lado, em perfeita harmonia. Parecia que nos ltimos dois dias as suas 
almas se tinham fundido. Tanya sentia-se ligada a ele e Gordon seria capaz de a seguir para o fim do mundo. "Para toda a parte, excepto para Los Angeles", afirmou 
Tanya, gracejando, quando j se aproximavam do grupo.
      
      - J te disse que irei l de visita.
      
      - Quando? - quis saber Tanya, prendendo-o  sua palavra e sabendo que estaria muito ocupada durante o ms seguinte. Mas ele explicou-lhe que at ao fim de 
Agosto s poderia deixar o rancho um dia por semana.
      
      - Quando poders voltar aqui? - perguntou Gordon, querendo saber datas, mas Tanya tambm no teria muito tempo livre. Recordou mentalmente os seus compromissos 
e achou que talvez tivesse a primeira semana de Agosto livre.
      
      - Posso estar de volta dentro de trs semanas - declarou Tanya. Hartley aproximava-se e Gordon limitou-se a dizer que sim com a cabea. Os mdicos de Chicago 
tinham-se ido embora nesse fim-de-semana, assim como Benjamin e os pais.
      
      - Isso parece-me uma eternidade - sussurrou Gordon antes de Hartley chegar junto deles. Tambm a ela lhe parecia, mas nada podia fazer para o remediar. Teria 
mais algum tempo livre em Setembro e ele poderia ir passar uns tempos a Los Angeles com ela. Ia ser interessante mudar-se para Moose, Wyoming.
      
      - Est um dia lindo, no est? - disse Hartley, olhando para um cu que parecia pintado por Wedgwood, enquanto Tanya e Gordon sorriam um para o outro, concordando.
      
      Deram um passeio muito agradvel at ao meio-dia e em seguida foram almoar. Gordon no os acompanhou. O seu cavalo perdera uma ferradura e ele tinha papelada 
a tratar. Tinham chegado novos hspedes no dia anterior e, embora no tivesse de os acompanhar, pois j fora designado para o grupo de Tanya, devia assegurar-se 
de que os outros cowboys executavam convenientemente as suas tarefas e no havia problemas com os cavalos. Afinal era bom que Tanya tivesse que fazer nessa tarde, 
visto duas mulheres vindas de Nova Iorque terem cado dos cavalos durante uma lio de lanamento do lao nessa tarde e ele ter de levar ao veterinrio uma gua 
que deslocara uma anca.
      
      Tanya foi deixar Zoe no hospital, onde John Kroner a esperava. Depois foi tratar dos seus afazeres. Marcara um encontro nessa manh e correu tudo perfeitamente. 
Ficou despachada a tempo de ir ainda fazer umas compras. Comprou um par de botas de cowboy cor de turquesa, foi buscar Zoe e chegaram ao rancho a tempo para o jantar. 
Zoe e o Dr. Kroner estavam  porta  espera do autocarro e o mdico acenou quando partiram. Zoe parecia cansada, mas satisfeita, quando se sentou num confortvel 
cadeiro, em frente de Tanya.
      
      - Como passaste a tarde? - perguntou Tanya com um sorriso afectuoso.
      
      - Foi interessante - respondeu Zoe. - John Kroner tem uns doentes muito simpticos. - Na verdade, tinham-se mostrado muito gratos por ela os ir ver. Sentira-se 
quase embaraada, pois receberam-na com todas as honras. Simpatizava realmente com John Kroner. Convidara-o a ir jantar com elas uma noite, a ele e ao seu amigo, 
um jovem radiologista que viera de Denver no ano anterior. Eram ambos muito simpticos e tinham sido extremamente amveis para com Zoe. - Gosto realmente dele.
      
      - Ser um concorrente para Sam? - perguntou Tanya, erguendo as sobrancelhas. - Ou  demasiado novo para ns? - acrescentou, querendo arreliar a sua velha amiga. 
Zoe riu-se do comentrio.
      
      
      - Nem uma coisa nem outra, grande tola. No reparaste que ele  gay.
      
      - Na verdade, no - retorquiu Tanya, olhando pensativamente para a amiga. - Bem, tu tens o Sam. Que mais queres?
      
      Estava muito bem-disposta e conversaram animadamente de regresso ao rancho.
      
      - s impossvel. Que fizeste hoje?
      
      - Fiz umas compras e tratei de uns assuntos. Comprei umas botas de cowboy cor de turquesa.
      
      Havia ptimas lojas e todas elas tinham comprado botas e fatos de cabedal em excurses anteriores, mas Zoe respondeu:
      
      - Estou certa de que faro figura no Spago. J ests aqui h muito tempo. Uma vez fiz isso em Aspen. Comprei botas de camura cor-de-rosa at aos joelhos. 
Convenci-me de que faria boa figura com elas no hospital. Ainda as tenho, novas em folha, pois nunca as calcei. Esto guardadas no fundo do armrio.
      
      Quando chegaram, foram encontrar Mary Stuart e Hartley a conversar na sala. Pareciam nunca esgotar os assuntos de conversa e quando entraram perceberam que 
se tinham estado a beijar. Era como se tivessem interrompido um casal de adolescentes a beijarem-se dentro de um automvel. Mary Stuart corou ao ver que Tanya erguia 
as sobrancelhas.
      
      - Acaba com isso - murmurou entre dentes para Tanya, quando se levantou para ir buscar um refresco para Hartley.
      
      - Que foi que eu fiz? - perguntou Tanya, fingindo-se inocente. Parecia que tinham voltado aos seus tempos de juventude e isso era fantstico. Necessitavam 
imenso desse contraponto aos graves traumas que todas haviam sofrido nas suas vidas, desde o suicdio aos divrcios,  sida e aos ataques dos jornais sensacionalistas. 
E um pouco de divertimento, de graa e de romance entre elas era no s inofensivo como teraputico.
      
      - O que  que vamos fazer logo  noite? - perguntou Zoe, cansada da tarde passada a ver doentes, mas contente com a conversa que tivera com John Kroner. - 
Lies de tango? Dana da cobra? Algo de excitante?
      
      O rancho proporcionava aos seus hspedes bastantes divertimentos, mas Tanya e as amigas nem sempre assistiam, sobretudo para que Tanya pudesse manter-se  
distncia.
      
      - Creio que h apenas um jantar normal - explicou Mary Stuart, olhando para Tanya e sorrindo. - Janta connosco, Miss Thomas?
      
      - Claro que sim - respondeu Tanya. - Porque no havia de jantar?
      
      - Queres mesmo que eu responda? - perguntou maliciosamente Mary Stuart.
      
      Tanya mostrou-se surpreendida. Claro que iria ter com Gordon depois do jantar, mas elas no o sabiam.
      
      O jantar foi agradvel. Mary Stuart e Hartley decidiram ir  cidade, ao cinema, e Zoe deitou-se logo que chegou a casa, visto sentir-se cansada. Eram oito 
horas e j Tanya seguia pela estrada que ia dar  casa de Gordon, vestida com umas calas de ganga e um camisolo branco e calada com as suas velhas botas amarelas. 
Pareceu-lhe sentir cheiro a fumo no ar e pensou que algum devia estar a cozinhar ao ar livre.
      
      Pusera um velho chapu de cowboy na cabea, para que no lhe vissem to facilmente a cara, e quando chegou  porta da casa de Gordon deu uma leve pancada e 
entrou. No queria ficar muito tempo l fora, para no a verem. Gordon estava sentado no sof a ver televiso e  espera dela.
      
      - Porque  que te demoraste tanto? - perguntou, como um mido  espera do Pai Natal. Tanya riu e Gordon deu a volta  chave. Tinha j fechado as persianas 
e corrido as cortinas, para ningum os poder ver.
      
      - Porque demorei tanto tempo? O jantar foi s sete, e so agora oito e cinco. Julguei que tinha vindo bastante depressa. Quase corri para chegar aqui!
      
      - Para a prxima vez come mais depressa - replicou ele com um sorriso agarotado, e um momento depois Tanya encontrava-se apertada nos seus braos, sem roupa. 
No chegaram sequer  cama, fizeram amor no sof, em frente da televiso, sem ligarem ao que o locutor dizia. S um pouco mais tarde, quando se encontravam ao lado 
um do outro conversando calmamente,  que repararam que estavam a falar de um fogo em Shadow Mountain e se sentaram para ouvir.
      
      - Fica perto? - perguntou Tanya, reparando na expresso preocupada do rosto dele.
      
      - Mesmo por cima de ns.
      
      Gordon ouviu atentamente o que o locutor dizia e de sbito Tanya lembrou-se de ter julgado sentir cheiro a fumo no ar quando se dirigia para ali.
      
      O locutor disse depois que o fogo se encontrava confinado a uma pequena rea, mas que havia algum vento e que o pessoal do departamento de parques estava preocupado. 
Fez referncia a um incndio havido em Yellowstone anos antes, e mostraram imagens de uma devastao total. Depois a programao voltou ao normal.
      - Pode ser que nos chamem esta noite - disse calmamente Gordon, olhando-a. Estava preocupado com o rancho e com os cavalos.
      
      - Preferes que eu no fique aqui esta noite? - perguntou Tanya. Teria compreendido se ele lhe dissesse que era prefervel ela voltar para junto das amigas.
      
      - No vejo motivo para isso - retorquiu Gordon, sorrindo. - Ningum precisa de saber que aqui ests. No evacuaro o rancho, a no ser que o incndio se transforme 
num fogo de grandes propores.
      
      Saiu de casa uns momentos para olhar para o cu. Via fumo no ar, mas no se avistava qualquer claro de incndio e no ficou preocupado. Quando voltou para 
dentro, mostrou-se mais interessado em Tanya do que em Shadow Mountain.
      
      Da a pouco Gordon pegou na guitarra e comeou a tocar algumas das suas msicas preferidas. Tanya cantou baixinho, s para ele, de modo que ningum os pudesse 
ouvir. Gostava de cantar com ele.
      
      - E como estar a gravar um disco - murmurou ela. Gordon riu-se e acariciou-lhe meigamente a face.
      
      Por volta da meia-noite estavam na cozinha a comer sandes. Ele fora fazer compras nessa tarde, enquanto acompanhara Hartley e Mary Stuart num passeio  cidade, 
e disse a Tanya que simpatizava muito com eles.
      
      - H alguma coisa entre os dois, no h? - perguntou, sorrindo. Logo na primeira manh reparara nisso. - Ela  divorciada?
      
      - Vai divorciar-se. Vai deixar o marido. Creio que ir a Londres na prxima semana para lho dizer.
      
      - Ele  ingls?
      
      Tanya abanou a cabea. Via que Gordon estava interessado nas amigas dela, na sua vida. Mostrava-se interessado em tudo o que estivesse relacionado com Tanya.
      
      - Est a trabalhar l temporariamente - explicou Tanya.
      
      - Porque  que ela o vai deixar? Tanya suspirou ao pensar no assunto.
      
      - O filho deles suicidou-se o ano passado. No conheo todos os detalhes, mas creio que ele a censura por isso. Mary nada fez que o pudesse levar a isso, mas 
acho que o marido no sabe quem h-de culpar e arranjou um bode expiatrio. O casamento deles desmoronou-se depois de isso acontecer.
      
      - Talvez j antes disso no fosse muito slido.
      
      - Talvez - murmurou Tanya, embora no estivesse de acordo com ele -, mas creio que era. Penso  que foi um choque demasiado grande para ambos e agora ela est 
muito magoada com o que o marido lhe fez. Acho que o casamento deles no tem salvao possvel.
      
      - Achas que ela e Mister Bowman vo ficar juntos?
      
      - Espero que sim. - Tanya sorriu e pousou meigamente a mo no brao de Gordon. - E ns? Achas que vamos?
      
      -  bom que isso acontea - disse Gordon, aproximando-se mais dela e olhando-a nos olhos. - Se tentares fugir-me agora, apareo em Boulevard Avenue montado 
num desses cavalos selvagens e vou buscar-te.
      
      
      A imagem era maravilhosa e ela riu-se.
      
      - Julguei que ias desistir de os montar...
      
      - No sem antes te ter ido buscar. - Riram ambos. Tanya estava nua, apenas com uma camisa dele, aberta, e lavava a loia que tinham sujado. Era uma fotografia 
que ele teria gostado de tirar, mas sabia que no seria preciso isso para recordar aquela imagem para sempre. Tanya era exactamente aquilo que dizia ser, uma simples 
rapariga do Texas, embora, na verdade, no parecesse. - Tu enlouqueces-me - disse Gordon aproximando-se por detrs, rodeando-lhe a cintura com os braos e encostando 
o queixo ao ombro dela. - Para a semana vou pensar que tive alucinaes durante todo este tempo.
      
      Tanya ficava triste ao pensar numa altura em que no estaria ali.
      
      - Telefonar-me-s?
      
      - Vou tentar - retorquiu ele. Tanya pousou os pratos, voltou-se e ficaram frente a frente.
      
      - Que queres dizer com isso? Vais telefonar-me ou no? - perguntou, preocupada.
      
      - Telefonar-te-ei. No gosto muito de falar ao telefone, mas f-lo-ei. - Em casa no tinha telefone e no lhe agradava telefonar da casa do rancho, pois as 
conversas ficavam registadas. A maior parte das vezes s pagavam as chamadas ao fim do ms. Era uma situao que desagradava sobremaneira a Tanya, porque nunca lhe 
podia telefonar a ele sem revelar o seu segredo.
      
      - O melhor  tu voltares aqui o mais depressa possvel - disse Gordon.
      
      - Voltarei. Prometo. Dentro de trs semanas, no mximo. Terei de tratar de umas coisas.
      
      J telefonara a Jean e pedira-lhe para o fazer, e agora tinha mais razes do que nunca.
      
      - E tu tens de ir a Los Angeles depois do Vero - avisou com a sua voz sensual, enquanto ele a apertava contra si, distraindo-a do que estava a dizer.
      
      - Irei, juro. Direi a Charlotte que preciso de uns dias livres no fim de Agosto.
      
      Tanya j comeara a pensar nos intervalos que conseguiria ter entre os seus compromissos de maneira a poder vir a Wyoming. Poderia desembarcar em Jackson Hole 
se mudasse de avio em Denver ou em Salt Lake City. Era, sem dvida, uma perspectiva interessante e agradava-lhe muito.
      
      Pouco depois voltavam para a cama e estavam deitados nos braos um do outro, tendo acabado de fazer amor, quando foram sobressaltados por fortes pancadas na 
porta. Gordon enfiou as calas e correu para a porta. S a abriu quando acabou de as vestir e viu um dos trabalhadores do rancho.
      
      - Temos de evacuar o rancho. O servio de parques acabou de telefonar.
      
      - J? - Gordon estava espantado, mas quando olhou para o cu viu um claro alaranjado sobre Shadow Mountain. - Porque no nos avisaram antes?
      
      - Alertaram-nos por volta da meia-noite, mas Charlotte pensou que controlassem rapidamente o incndio. O vento mudou - explicou. Havia um vento forte e em 
todas as casas comeavam a acender-se luzes. - Charlotte est a reunir os hspedes. Ns temos de juntar os cavalos e fazer que desam para o vale. - Havia outro 
rancho nas proximidades e j tinham feito aquilo mais vezes, mas era perigoso movimentar tantos animais com to grande velocidade. As pessoas ou os animais podiam 
magoar-se.
      
      - Dentro de cinco minutos estou a - disse Gordon ao rapaz, voltando a entrar e a fechar a porta para ir contar a Tanya o que se passava.
      
      - Vo mudar as pessoas para outro rancho. Se chamares o teu motorista ele poder vir buscar-te e levar-te. Tenho de ir levar os cavalos. Temos duzentas cabeas 
de gado para tirar daqui o mais depressa possvel. - Ia-se vestindo enquanto falava e a determinada altura parou e beijou-a. - Amo-te, menina do Texas. No te esqueas 
disso. Havemos de conseguir que as coisas resultem, mesmo que seja preciso eu ir a Hollywood para isso. - Sabia que ela estava preocupada e ele tambm o estava, 
mas sentia-se decidido a faz-lo. Contudo, naquele momento precisava de voltar as suas atenes para outras coisas. - Veste-te - avisou antes de sair. - Mantm-te 
afastada da estrada, caminha por entre a relva alta, e ningum te ver. Esto muito ocupados para se preocuparem contigo neste momento. Volta para casa. At logo.
      
      - Podemos fazer alguma coisa para ajudar? Sentia-se estpida, indo apenas meter-se no autocarro e mudar-se para outro rancho, quando havia pessoas e animais 
em perigo.
      
      -  o meu trabalho - replicou Gordon, pondo um chapu na cabea e pegando num velho bluso de ganga. - At logo.
      
      Tanya vestiu-se rapidamente, sentindo-se intil. Enquanto conduzia o seu camio pela estrada, Gordon viu a relva alta agitar-se e sorriu. Sabia exactamente 
o que se estava a passar e mentalmente passou-lhe os braos em volta dos ombros e beijou-a.
      
      
      Quando chegou s cavalarias, comeou imediatamente a trabalhar. Tinha de tirar todos os cavalos das baias, reuni-los na cavalaria central e conduzi-los atravs 
do vale. Era preciso fazer que nenhum deles ficasse ferido ou se perdesse. Precisavam de todo o pessoal disponvel e tinham telefonado j para o rancho mais prximo 
para avisar que iam a caminho. Ali estavam j a arranjar espao para os animais. Se o fogo avanasse at l, teriam de enfrentar grandes problemas, mas, de momento, 
o vento mudara e corria em direco oposta.
      
      Gordon gritava ordens a todos, montado numa velha gua malhada que ele sabia ser boa para aquele trabalho.
      
      Na mesma ocasio, Tanya entrava em casa.
      
      - Meu Deus, onde estiveste? - perguntou Mary Stuart, assustada. Zoe vestia-se. Haviam-lhes ligado nesse momento e Mary Stuart sabia exactamente onde Tanya 
se encontrava, mas no como descobri-la. - Telefonaram a dizer que amos ser evacuadas e no lhes quisemos dizer que te encontravas na rea reservada ao pessoal.
      
      - Obrigada.
      
      Tanya sorriu e ligou para Tom. Pediu-lhe para ir ao rancho e contou-lhe o que se estava a passar. Ia oferecer o autocarro para transportar o maior nmero possvel 
de hspedes. Nesse momento encontravam-se no rancho cerca de cem pessoas.
      
      - Achas que o rancho vai arder? - perguntou ansiosamente Mary Stuart, na altura em que Zoe entrava na sala vestida com calas de ganga e um camisolo grosso. 
Trazia na mo a sua maleta de mdica. L fora estava frio e o vento soprava com fora.
      
      
      - No, no creio que o rancho arda. Gordon disse-me que isto acontece de tempos a tempos e que sempre conseguem controlar o fogo. Onde vais? - perguntou, voltando-se 
para Zoe.
      
      - Vou oferecer-lhes a minha ajuda. Tm pessoas a combater o fogo espalhadas por a.
      
      - Esto a pedir voluntrios? - perguntou Tanya, surpreendida. Gordon no lhe dera a impresso de que os hspedes ajudariam e Hartley entrou nesse preciso momento 
dizendo que eram esperados na casa do rancho o mais depressa possvel. Estavam todos ligeiramente desgrenhados e via-se que se tinham vestido  pressa. Mary Stuart, 
agora mais calma, dirigiu-se para a casa do rancho conversando com Hartley. Este levava na mo uma pasta com o livro em que estivera a trabalhar desde que ali chegara. 
Os outros hspedes transportavam os objectos mais dspares, desde equipamento de pesca, a pastas e a carteiras de senhora. Eram coisas que no queriam perder no 
caso de o fogo chegar at ali.
      
      Charlotte Collins esperava-os. Explicou sucinta e calmamente que tinha a certeza de no ir haver verdadeiro perigo para o rancho, mas que lhe parecia mais 
sensato mudar os hspedes para outro local, para o caso de o vento mudar. No queriam ser apanhados numa situao em que algum pudesse correr perigo ou que tivessem 
de fazer essa mudana  pressa. Iriam ficar instalados num rancho das proximidades. Teriam quartos  disposio, no para todos, claro, mas esperava que as pessoas 
encarassem bem aquela mudana e que voltassem numa questo de horas. Charlotte esperava tambm que, no esprito do rancho, considerassem aquilo como uma aventura. 
Mostrou-se alegre, calma e animada.
      
      Disse que estavam a ser feitas sandes e a ser preparados termos com caf e anunciou que o transporte no seria problema. A sua maior preocupao era a evacuao 
dos cavalos e nessa altura Tanya lembrou-se de Gordon.
      Informou que dentro de meia hora todos seriam mudados e que toda a gente seria mantida a par da situao. A reunio acabou e comeou a ouvir-se o som das vozes 
das pessoas que ali se encontravam e comentavam a situao. Tanya dirigiu-se para Charlotte e avisou-a de que o seu autocarro se encontrava  disposio para transportar 
pessoas para outras localidades.
      
      - Charlotte agradeceu e disse que havia muitos voluntrios a combater o incndio em Shadow Mountain. Nessa altura Zoe entrou na conversa para saber se os podia 
acompanhar. Levava consigo a sua maleta de mdica. Charlotte hesitou um instante e depois concordou em deix-la ir. Era sempre preciso auxlio mdico e a Dr. Phillips 
j se encontrava suficientemente recuperada. Fosse quais fossem os seus problemas de sade, e o Dr. Kroner dera-lhe a entender que eram graves, naquele momento estava 
bastante bem.
      - Agradecemos muito, doutora Phillips - disse Charlotte quando outros dois mdicos se aproximaram, tambm com as suas maletas na mo. Zoe no os conhecia. 
Um deles era ginecologista do Sul e o outro era um cardiologista de St. Louis, mas eram certamente todos capazes de fazer o que fosse preciso. - Um camio vai l 
para cima dentro de alguns minutos - disse Charlotte aos trs mdicos. Estes mostraram uns aos outros o que levavam. Todos eles estavam mal preparados para tratar 
queimaduras, mas Charlotte disse que tinha um estojo e que o mandara buscar. Era grande e muito completo.
      
      As pessoas comearam a entrar nos autocarros que iam aparecendo e dez minutos depois chegou o autocarro de Tanya, e Charlotte comeou a encaminhar vrias pessoas 
para l. Meia hora depois j todos tinham entrado. Hartley e Mary Stuart tinham sido os primeiros a embarcar. Tanya deixou-se ficar para trs para falar com Charlotte.
      
      - Posso ir l acima,  montanha, consigo, Miss Collins? - perguntou em voz baixa, enquanto a outra lhe lembrava que lhe chamasse Charlotte. - Gostava de ajudar, 
se pudesse. Podia auxiliar em qualquer coisa, ou dar assistncia a Zoe.
      
      Charlotte Collins hesitou um instante e depois disse que sim com a cabea. Precisavam de toda a ajuda possvel, mas no queria que os outros hspedes o soubessem. 
Era assustador ver o cu nocturno brilhar por cima deles com um claro vermelho-vivo.
      
      Tanya correu a dizer a Mary Stuart. Gritou para o autocarro onde ela estava. Mary Stuart parecia hesitar e baixou a cabea. Hartley encontrava-se mesmo ao 
seu lado. E, um momento mais tarde Tom partiu com as outras carrinhas, enquanto Charlotte mandava entrar o resto do pessoal nos camies. Entre eles seguiam meia 
dzia de homens, os trs mdicos e Tanya.
      
      Os jipes, os camies e as carrinhas, com dzias de cowboys e outros empregados do rancho, iniciaram a subida da montanha. Formavam um pequeno exrcito eficiente. 
Durante o percurso, Tanya pensou c distantemente se Gordon teria conseguido pr os cavalos a salvo.
      
      A viagem pela encosta da montanha durou aproximadamente meia hora, e quando chegaram s barricadas tiveram de abandonar os camies. Receberam ento indicaes 
para prosseguirem o resto do caminho a p e juntarem-se aos outros que j l se encontravam. Passavam baldes de gua de mo em mo, enquanto os avies sobrevoavam 
o incndio, lanando produtos qumicos sobre a zona. Toda a rea era um braseiro, e ouvia-se um crepitar constante, como se escutassem o som de uma grande catarata, 
e unham de gritar para se ouvirem. Tanya tirou a camisola e amarrou-a em volta da cintura. Por baixo trazia uma das T-shirts de Gordon e nunca tivera tanto calor 
na sua vida. Sentia a pele da cara escaldante e via as falhas voarem em volta deles. Era um espectculo aterrorizador, e ali nem sequer se encontravam nas linhas 
da frente. Lamentava no ter luvas e queimava as mos, sentia o solo quente por baixo das botas, rvores caam, o vento soprava e pequenos animais passavam por eles 
a fugir, descendo a montanha. Mas o incndio fizera j uma grande carnificina. De tempos a tempos, Tanya via Zoe. Ela e os outros mdicos tinham formado um pequeno 
porto com a ajuda de algumas enfermeiras vindas da cidade. Comeavam a chegar cada vez mais pessoas para ajudar e, passado algum tempo, que lhe pareceram horas, 
viu aparecer Gordon. Ele passou quase junto dela e um pouco mais adiante voltou-se com olhar de espanto. Dirigiu-se para Tanya, aparentemente para se certificar 
se tinha visto bem. Ela ali estava, juntamente com todos os outros, trabalhando duramente para combater o incndio. Tanya fez um curto intervalo para lhe falar; 
doam-lhe tanto os braos que mal os podia levantar.
      
      - Que ests a fazer aqui? - perguntou Gordon. Estava sujo e cansado, mas tudo correra bem. Os cavalos encontravam-se em segurana e ele viera para ajudar a 
combater o fogo.
      
      - Zoe e eu oferecemo-nos como voluntrias. Calculei que precisassem de ajuda.
      
      - Tens jeito para te meteres em sarilhos, no tens? - Gordon abanou a cabea; no gostava da ideia de ela se encontrar a combater o fogo. Se o vento mudasse 
algum podia morrer a combater um incndio como aquele. - Eu vou l para a frente- No saias daqui, mais tarde virei buscar-te.
      
      Tanya queria dizer-lhe que no fosse, mas sabia que era o trabalho dele. Tinha de defender o rancho do fogo, juntamente com todos os outros.
      
      Os avies continuaram a lanar produtos qumicos durante toda a noite, e ao meio-dia ainda l estavam. Os pilotos sentiam-se to cansados que julgavam ir cair 
a qualquer momento. Trouxeram colches para a parte de trs dos camies, para que as pessoas pudessem descansar por turnos. Dormiam umas dez pessoas em cada camio. 
Estavam to cansadas que teriam adormecido em qualquer lado. S ao princpio da tarde  que Tanya finalmente viu Zoe. No via Gordon desde essa manh.
      - Ests bem? - perguntou Tanya, preocupada, mas Zoe parecia surpreendentemente bem e muito calma.
      
      - Estou ptima - respondeu a amiga sorrindo. - Fizemos um bom trabalho. Felizmente coisas sem gravidade at agora. Dizem que se o vento no mudar ao cair da 
noite o fogo estar controlado. H pouco vi Gordon. Disse para te dizer ol se te visse.
      
      - Ele est bem? - perguntou Tanya com uma expresso preocupada.
      
      - Est ptimo; chamuscou um pouco o brao, nada de importncia. Creio que a esta hora est a dormir no camio.
      
      As duas mulheres estiveram a beber caf durante um bocado e depois cada uma regressou ao seu trabalho. Para elas era um pouco uma aventura e gostavam do facto 
de estarem a ser teis. E tencionavam arreliar Mary Stuart. Ambas sabiam que a amiga detestava aproximar-se de acidentes ou de coisas potencialmente perigosas. Na 
verdade, sentiam-se satisfeitas por ela ter sido evacuada com Hartley. De facto, no havia nenhuma razo para ali estar. Mas Tanya gostava de ajudar e tambm de 
estar perto de Gordon, embora no o visse. E dessa maneira tambm podia vigiar Zoe.
      
      Eram quatro horas quando o servio de florestas anunciou que o fogo estava oficialmente sob controlo. Julgavam t-lo completamente apagado antes de anoitecer. 
Ouviu-se um hurra! colectivo, e meia hora mais tarde um grupo de cinquenta pessoas, sujas, cansadas mas felizes, comeou a descer a montanha. Iam em camies, em 
carrinhas e em carros, iam a p, conversavam, gracejavam e contavam j histrias sobre o que se havia passado. Todos tinham a sua histria. Tanya seguia a p quando 
Zoe e os outros mdicos passaram de carro. Pareciam cansados, mas bem-dispostos, e viu John Kroner entre eles.
      
      
      Acenou-lhes e eles seguiam o seu caminho, enquanto ela caminhava lentamente em direco ao vale. Sentia-se cansada, mas no se importava de andar. Olhava para 
as montanhas do outro lado do vale. A sua beleza e grandiosidade atraam-na. Tinha sensao de que eram suas amigas e que sempre gostaria delas.
      
      - Quer uma boleia? - perguntou uma voz atrs dela. Voltou-se para ver quem falara. Era Gordon, que conduzia o seu camio. Trazia um capacete, culos que o 
tinham protegido contra as falhas e tinha um brao ligado, certamente devido a uma queimadura.
      
      - Ests bem? - perguntou Tanya. Ele disse que sim com a cabea. Sentia-se exausto. Estavam a oferecer comida, mas ele nem sequer tinha vontade de comer. Entrou 
e instintivamente inclinou-se para ele a beijar. Depois entreolharam-se, chocados com o que tinham feito. - Desculpa, foi sem pensar.
      
      Aquilo tornara-se completamente natural para eles, mas sabiam que tinham de ter cuidado, especialmente ali, no meio de tanta gente.
      
      - Eu tambm no pensei - disse Gordon com um largo sorriso. A nica coisa que queria era ir para a cama com ela, dormir doze horas e acordar ao seu lado.
      
      - O que  que vais fazer agora a respeito dos cavalos? - perguntou Tanya, bebendo um gole de gua do cantil dele. Sabia a fumo, mas ela estava cheia de sede.
      
      - Esta noite vamos lev-los de volta para o rancho. Quando estiver despachado vou-te buscar. - Olhou-a com um sorriso. - Se quiseres...
      
      - Por mim, est bem.
      
      Tanya encostou a cabea, olhou para fora e comeou a cantar. Era uma antiga cano do Texas, uma das suas preferidas. Gordon tambm a sabia e comeou a cantar 
com ela. As pessoas por quem eles passavam sorriam. Ao ouvirem Tanya cantar, comeavam a perceber quem ela era e mostravam-se surpreendidas ao ver que Tanya estivera 
ali com elas. Ficaram impressionadas, especialmente Charlotte Collins. Tanya trabalhara como um co toda a noite. Estivera na montanha durante dezassete horas com 
todos os outros e Charlotte vira-a trabalhar mais do que muitos. E Zoe fizera o mesmo. E, na verdade, passara bem o tempo com os outros mdicos.
      
      Quando regressaram ao rancho, antes de irem buscar os outros hspedes, a sala de jantar encontrava-se aberta a todos os trabalhadores, sendo servidos ovos 
estrelados, omeletas, salsichas, bacon, bifes, tomates fritos e batatas fritas. Havia tambm bolos e gelado.
      
      - A nica coisa que no tm  papas de aveia - disse Tanya, com um sorriso, sentando-se ao lado de Gordon.
      
      - E verdade. Aqui no sabem comer bem - exclamou, rindo tambm. Conversaram acerca do incndio durante uma hora. Zoe sentara-se tambm perto deles, juntamente 
com John Kroner e o amigo. Depois todos foram saindo e voltando para os seus locais habituais. Gordon tinha ainda de ir buscar os cavalos.
      
      - Logo  noite vais estar morto de cansao - disse Tanya em voz baixa a Gordon, quando iam a sair. - Ser melhor eu no ir ter contigo?
      
      - Que  que pensas?
      
      Gordon no precisou de responder. Os olhos dele disseram tudo quanto Tanya precisava de saber.
      
      
      - Acho que s um hombre de barba rija - replicou Tanya, prestes a beij-lo.
      
      - Tem cuidado... - avisou Gordon - ou ainda terei de ir para a estrada de dedo no ar para arranjar emprego noutro rancho.
      
      - Duvido! - Nessa noite vira bem como ele trabalhava e o que fora capaz de fazer. Charlotte com certeza que no o mandaria embora facilmente. No entanto, respondeu: 
- Mas terei cuidado. Prometo.
      
      Sentiam-se demasiado confortveis um com o outro, como se toda a vida tivessem vivido juntos.
      
      Nessa altura chegou a carrinha e viram Mary Stuart.
      
      O autocarro e as outras carrinhas chegaram por volta das sete horas e foi servido um jantar informal a toda a gente, na mesma sala onde anteriormente haviam 
comido os voluntrios. No tinham vontade de comer, mas sentaram-se  mesa com Hartley e Mary Stuart, falando das suas aventuras. Nem sequer tinham tido tempo de 
ir a casa. Zoe estivera a guardar mantimentos e Tanya ficara a ajud-la, depois de Gordon ter ido buscar os cavalos. Desenvolvera-se uma ntida camaradagem entre 
aqueles que haviam lutado contra o incndio e Zoe comentou que Tanya e Gordon pareciam ter sido feitos um para o outro.
      
      Quando voltaram para casa, nessa note, o fogo na montanha estava completamente apagado. O noticirio transmitiu imagens do incndio e toda a gente no rancho 
as queria ver. Tanya meteu-se debaixo do chuveiro e depois deixou-se ficar no Jacuzzi durante uma hora. Quando saiu e se embrulhou numa grande toalha, ouviu bater 
nos vidros da janela. Afastou a cortina e viu um rosto preto a espreitar. Teve vontade de abrir a janela e o beijar. Mary Stuart e Zoe tinham-se ido deitar. Diziam-se 
exaustas. Nenhuma delas dormira na noite anterior. Tanya tambm estava cansada, mas esperava Gordon e quisera tirar bem o cheiro a fumo da pele e dos cabelos. Agora 
estava limpa e fresca, cheirando a perfume. Gordon fez-lhe sinal para o seguir. Estava demasiado cansado para ficar  espera, mas ela pediu-lhe que esperasse um 
segundo, porque tinha outra ideia.
      
      Apagou as luzes do exterior e da sala, para que ningum os pudesse ver, e falou-lhe do limiar da porta.
      
      - Vamos - disse ele, ansioso por ir para casa.
      
      - Quero que entres. Ningum saber. Elas esto a dormir e, depois do que se passou, se algum vir alguma coisa, podes dizer que estvamos a conversar acerca 
do incndio.
      
      Fora um dia e uma noite bem estranhos e Gordon hesitou apenas por uma fraco de segundo antes de entrar na sala e fechar a porta. Os cortinados estavam corridos 
e Tanya f-lo entrar logo para o seu quarto.
      
      - Que se passa? - perguntou nervosamente Gordon. - No acho boa ideia passarmos a noite aqui.
      
      - Quero que tomes banho no Jacuzzi - insistiu ela. - Ests exausto. Vem. Se depois te quiseres ir embora, irei contigo.
      
      Gordon sabia que, uma vez que se despisse, no mais queria ir a parte alguma, mas no discutiu com ela. No tinha foras para isso. Tinham tido um trabalho 
a levar novamente os cavalos para o rancho e sentia-se mais que exausto.
      
      Tanya encheu-lhe a banheira e comeou a ajud-lo a despir-se. Gordon sentia-se como um garoto, feliz com a ajuda, e momentos depois mergulhava no banho quente. 
Tanya abriu os jactos de gua e ele ficou estendido com os olhos fechados, sentindo-se como se tivesse morrido e ido para o cu. Abriu os olhos quando ia comear 
a dormir e olhou-a.
      
      - Tanny, no posso acreditar nisto.
      
      Tanya no lhe disse que a casa dela era ainda mais luxuosa. No era isso que importava entre eles. Deixou-o estar estendido na grande banheira e lavou-lhe 
o cabelo, enquanto os msculos dele se distendiam e repousava. Era o melhor presente que lhe podia ter dado e sentiu-se satisfeita por ter insistido com ele.
      
      Gordon ficou na banheira durante aproximadamente uma hora e olhou ento para ela. Ainda no tinha dormido, mas perguntou-lhe:
      
      - Queres vir para aqui?
      
      Tanya estava ainda embrulhada na toalha de banho e nem podia crer que ele ainda fosse capaz de se lembrar dessas coisas, cansado como estava. Mas, logo que 
entrou na banheira, tomou-se bvio que ele estava interessado noutras coisas que no fossem dormir.
      
      - No posso crer! H uma hora estavas a dormir em p.
      
      - Despertei. Pelo menos algumas partes de num... Tanya riu. Ele estava realmente em boa forma e fizeram amor na banheira. J passava da meia-noite quando saram 
e tinham estado l tanto tempo que ela disse que se sentia como uma passa de uva.
      
      - A verdade  que no te pareces nada com uma - disse ele com voz sonolenta, acariciando-lhe as ndegas.
      
      - Queres ficar aqui ou ir para tua casa? - perguntou Tanya.
      
      
      Gordon pensou no assunto durante um instante. Sabia que estava a ser tolo, mas no conseguiu resistir. Decidiu correr o risco, s por essa vez.
      
      - Posso vir a lamentar isto, especialmente se no me puseres fora por volta das cinco e meia. Isso  muito importante!
      
      - Eu acordo-te - prometeu Tanya.
      
      - Ento fico aqui. Creio que no chegaria a casa. E o pior era que no queria. Meteram-se na enorme cama. Os lenis eram frescos, sedosos, a pele dela era 
macia, perfumada, assim como os cabelos. Gordon nunca se sentira to bem na vida e adormeceu antes mesmo de Tanya apagar a luz.
      
      Gordon dormiu com Tanya apertada contra si durante toda a noite e ela acordou-o meigamente, como prometera, s cinco e vinte, quando o despertador tocou.
      
      - Detesto ter de te fazer isto, querido - murmurou ao ouvido dele, e Gordon virou-se e passou-lhe um brao por cima dos ombros. Mesmo a dormir era meigo para 
ela e isso agradava-lhe muito. - Tens de te levantar.
      
      - No, no tenho - respondeu ele com os olhos fechados. - Morri e fui para o cu.
      
      - Eu tambm. V, levanta-te, dorminhoco... Por fim, Gordon abriu os olhos, saiu da cama e comeou a vestir-se. As suas roupas estavam ainda sujas do incndio, 
e ele estava limpo, mas s precisava de as usar at chegar a casa, onde tomaria um duche e vestiria roupa limpa. Porm, detestava ter de a deixar.
      
      - Obrigado - disse Gordon quando acabou de se vestir, foi o melhor presente que alguma vez recebi.
      
      Referia-se tanto ao banho no Jacuzzi como  maneira amorosa como ela o tratara.
      
      - Achei que te faria bem - disse Tanya. E, de repente, lembrou-se de que era quarta-feira. - No tomas parte no rodeo hoje, pois no? - perguntou.
      
      Ele hesitou e depois abanou a cabea.
      
      - Acho que iria adormecer ou cair do cavalo antes de sair da arena. E prefervel no ir hoje.
      
      - Eu tambm no vou - disse Tanya. Depois do que se passara no sbado  noite, decidira no ir.
      
      - Porque no havemos de passar uma noite sossegada a ouvir msica? Importas-te de ir outra vez a minha casa?
      
      - No, senhor.
      
      Tanya sorriu e beijou-o. Gordon saiu em silncio e pouco depois afastava-se sem que ningum o visse. Quando Tanya voltou a encontr-lo, s nove horas, estava 
fresco e bem arranjado, com uma camisa branca e calas de ganga, chapu e botas de cowboy. Os cavalos estavam prontos para ser montados, com as suas selas habituais. 
Se no fosse um leve cheiro a fumo no ar, ningum diria que se passara algo de especial. Porm, durante o dia inteiro o nico assunto de conversa foi o incndio 
em Shadow Mountain.
      
      Foi um dia tranquilo para todos eles e nessa tarde, depois do almoo, Mary Stuart resolveu telefonar para o marido. Ele estava a trabalhar, no quarto, e ficou 
um pouco surpreendido ao ouvir a voz dela. Habitualmente enviava-lhe faxes e raramente lhe telefonava. Ele fazia o mesmo.
      
      - Passa-se alguma coisa? - perguntou Bill, admirado por ouvir a sua voz. Eram dez horas da noite em Londres.
      
      - No, estou ptima - respondeu Mary, perguntando-lhe depois pelo trabalho. Bill disse que corria bem e em seguida fez-se um silncio embaraoso. Mary Stuart 
contou-lhe do incndio e disse-lhe que fora evacuada para outro rancho, embora as amigas se tivessem oferecido como voluntrias. No explicou que fora com Hartley. 
Depois surpreendeu ainda mais o marido, dizendo: - Estou a pensar ir a Londres na prxima semana.
      
      - J te disse que tenho muito que fazer - replicou ele, irritado.
      
      - Bem sei. Mas creio que precisamos de conversar. Se no for, s nos encontraremos em Setembro.
      
      - Talvez eu esteja despachado em fins de Agosto.
      
      - No vou esperar mais seis semanas para te falar - afirmou Mary.
      
      - Tambm tenho saudades tuas - disse ele, ainda aborrecido -, mas estou a trabalhar dia e noite, como te disse. Se assim no fosse, ter-te-ia trazido comigo.
      
      - Preferes que te envie um fax - ripostou ela, do outro lado. Era ridculo. Nem sequer tinha tempo de lhe falar, de a ouvir dizer que estava tudo acabado.
      
      - No sejas desagradvel! No tenho tempo para falar contigo!
      
      - A questo  essa. No tens tempo para me falar, nem para fazer amor comigo, ou ser meu amigo, nem para seres meu marido. No creio que isso tenha muito a 
ver com o tempo. Tem mais a ver com o interesse.
      
      - O que  que ests a querer dizer exactamente? - perguntou ele, sentindo um ligeiro arrepio na espinha. Comeava lentamente a compreender o que ela dizia, 
os faxes, os silncios, o facto de ela no lhe ter telefonado. Estava a perceber. Mas muito, muito lentamente. - Porque  que querias falar comigo? - perguntou directamente. 
Sempre detestara surpresas.
      
      - Para resolvermos um assunto. No te tirarei muito tempo. Nem sequer ficarei no mesmo motel, se no quiseres. Mas acho que, aps vinte e um anos de casamento, 
devemos dizer umas palavrinhas um ao outro antes de atirarmos toda esta confuso para o caixote do lixo.
      
      - E o que sentes a nosso respeito? - perguntou ele, espantado e acabrunhado. Mas Mary no negou o que dissera.
      
      - Sim, . E tenho a certeza de que  o que tu sentes tambm. Acho que devemos falar sobre isso.
      
      - Eu no sinto nada disso. Como podes dizer tal coisa?
      
      - O facto de tu seres capaz de me fazer essa pergunta  o que mais me entristece.
      
      - Passmos ambos por uma grande provao... E eu estou a tratar deste importante caso em Londres... sabes isso...
      
      - Sei, Bill. - Mary Stuart estava cansada de o ouvir. Bill era to insensvel que ela perguntava a si mesma se valeria a pena o esforo de ir falar com ele. 
Aquela conversa deprimia-a. - Para a semana falaremos - acrescentou laconicamente.
      
      - Ests a pensar em assinar papis? - perguntou ele, parecendo zangado.
      - Isso  contigo - disse ela. Mas no. Era com ela. E Mary Stuart sabia-o. Provavelmente Bill continuaria a ser o mesmo, indefinidamente. Continuaria casado 
com uma mulher em que nunca tocava, para quem no olhava, com quem no falava. Mary no achava que a situao lhe pudesse vir a agradar. Depois de passar dez dias 
a conversar constantemente com Hartley, a ideia de voltar para um casamento silencioso, sem amor, parecia-lhe suicida. De modo algum o faria. Estava tudo acabado.
      
      - Parece que j te decidiste - disse Bill, e ela esteve quase a afirmar isso mesmo, mas nesse caso j no mereceria a pena ir a Londres. E, de certo modo, 
achava que precisava de dar a Bill uma oportunidade de se defender, ou, pelo menos, de explicar por que motivo a tratara to mal no ltimo ano. - Virs de Nova Iorque 
para aqui? - perguntou Bill, como se isso tivesse alguma importncia. Era evidente que no tinha.
      
      - Partirei de Los Angeles, para onde irei com a Tanya.
      
      - Isso foi ideia dela? - quis saber Bill, como se Mary no fosse capaz de se lembrar disso. - Ou da tua outra amiga, a mdica?
      
      - O nome dela  Zoe. No, no foi ideia delas. E minha. Pensei em tudo isto antes de sair de Nova Iorque e no vejo motivo para esperar mais dois meses para 
to dizer.
      
      - Para me dizeres o qu?
      
      Bill estava realmente a pression-la. Ouvia o que ele lhe ia dizendo e a maneira como falava e comeava a entrar em pnico. Era pattico. Em vez de entrar 
agora em pnico, devia ter reparado no que se estava a passar seis meses antes, ou mesmo dois. Isso teria feito alguma diferena. Agora no fazia.
      
      
      - Estou a dizer-te que me sinto infeliz contigo, ou ainda no reparaste? E tu s igualmente infeliz comigo. Confessa-o!
      
      - Tm sido tempos difceis, mas tenho a certeza de que tudo vai ficar bem - disse Bill, negando a agonia do ltimo ano, o silncio, a amargura, o dio.
      
      - Porque ir ficar bem? O que  que poder mudar? Mary pedira-lhe que consultasse um terapeuta meses antes e ele recusara. No quisera enfrentar a situao, 
escondia-a. Como poderia melhorar? Mas agora parecia que estava a lutar pela sua vida.
      
      - No sei o que se est a passar - disse ele, mostrando-se completamente desprevenido contra as acusaes dela, como se nunca tivesse esperado que Mary o recusasse, 
como se pensasse poder arrum-la a um canto, bater-lhe ocasionalmente ou voltar para junto dela um dia, se se sentisse melhor. Bem, era demasiado tarde. E subitamente 
compreendeu. - No percebo porque tens de vir aqui...
      
      Bill estava ainda a tentar negar a realidade.
      
      - Para a semana falaremos - respondeu Mary Stuart, sem querer prosseguir a conversa.
      
      - Talvez eu possa ir passar um fim-de-semana a Nova Iorque - disse ainda Bill, como se o facto de ela ir a Londres fosse demasiado ameaador. Mas Mary no 
queria prolongar a incerteza nem um minuto mais do que o necessrio.
      
      - No precisas de fazer isso. Tens o teu trabalho. Eu no te tomarei muito tempo. Prometo. Vou tentar encontrar-me com Alyssa.
      
      
      - Ela sabe que vens? - Todos saberiam? Estava verdadeiramente tomado de pnico.
      
      - Ainda no - respondeu friamente Mary Stuart. Amara-o demasiado tempo, dera-lhe de mais e esperara muito tempo que ele melhorasse. E agora no tinha coisa 
alguma para lhe dar. Nem sequer sentia pena. - Tentarei descobrir onde est, antes de ir.
      
      - Talvez possamos passar um fim-de-semana todos juntos - sugeriu ele esperanadamente.
      
      - No  isso que eu quero fazer. No  o que vou fazer. Irei a Londres ver-te durante um dia ou dois, e depois irei ter com Alyssa onde ela estiver.
      
      No ia permitir que ele se escondesse atrs da filha nem deix-lo brincar s famlias  custa dela. Aquilo era entre ela e o marido, mais ningum. E no queria 
Alyssa com eles.
      
      - Podes ficar mais tempo, se quiseres. Visto que vens... - A voz dele arrastou-se, porque comeava a sentir que era intil. No era tolo e nunca ouvira Mary 
Stuart to zangada nem to fria. Nem sequer lhe ocorreu que ela pudesse gostar de outro homem. Ela no era desse gnero de mulheres. Tinha a certeza de que sempre 
lhe fora fiel, e estava certo. Mas nunca a ouvira to zangada. Era mais do que zanga, era desdm. Percebia agora que fora longe de mais. E sabia exactamente o que 
ia ouvir quando ela chegasse a Londres. Respeitava-a por ir ter com ele e falar-lhe directamente, em vez de lhe escrever, mas isso em nada melhorava as coisas.
      
      Bill ficou completamente acabrunhado quando Mary desligou o telefone. Mas ela no precisaria de fazer a viagem. Bill sabia exactamente o que ia ouvir. E a 
nica coisa em que pensou foi em enviar-lhe um fax. E quando esse fax chegou, uma hora mais tarde, Mary Stuart leu-o e atirou-o para o lixo. Mas caiu no cho e Zoe 
apanhou-o pouco depois, abanando a cabea quando o leu. O pobre diabo no via mesmo nada  frente do nariz. Era desesperante!
      
      "Ansioso pela tua chegada prxima semana. Melhores cumprimentos para ti e tuas amigas. Bill." Para um afogado que estava a lutar pela vida, era como se estivesse 
a agarrar-se a um palito. E parecia bvio a Zoe, ou a qualquer outra pessoa que conhecesse Mary Stuart, que ele no iria conseguir salvar-se.
























Captulo 20
      
      Cada uma delas ia passando os seus dias como se fossem contas de um rosrio a que se agarrassem por diferentes razes. Das trs Zoe era a mais entusiasmada 
por regressar a casa. Sentia-se bem, falara com Sam todos os dias e estava ansiosa por ver a sua filha. Mas continuava a gostar de estar no rancho e achava que cada 
dia que passava era uma oportunidade para se tornar mais forte. Era como se tivesse ido a Lourdes, dizia, gracejando, mas havia algo de verdade nisso. Podia olhar 
para as montanhas e rezar, e sabia que poderia voltar para casa como uma pessoa s. E John Kroner achava tambm que havia algo de verdadeiro nisso.
      
      Mas, para as outras, cada dia era uma agonia, uma ddiva valiosa que perdiam, algo que sabiam nunca poder recuperar. Perante a separao iminente Hartley comeava 
a recear que tivessem sido demasiado cautelosos, que talvez devesse ter havido uma ligao mais ntima entre eles, que deviam ter feito mais do que beijarem-se e 
andarem de mos dadas. Percebia o que havia entre Tanya e Gordon, e subitamente invejou-os. Mas quando falou nisso a Mary Stuart, na tarde de quinta-feira, ela disse-lhe 
que era tolice. Tinham feito o que era certo e ele sabia isso. Lembrou-lhe tudo aquilo por que tinham passado, as perdas, os desgostos, e como era mais sensato proceder 
com cautela. No iam sentir remorsos durante o resto da vida por algo que tivessem feito. Hartley sorriu, aliviado com o que ouvira. Por momentos sentira-se tomado 
de pnico.
      
      - Desde que seja realmente "para o resto das nossas vidas", no estou preocupado. - Nenhum deles se sentia completamente seguro disso e ainda tinham de pensar 
na viagem dela a Londres, mas dava a impresso de que iam acabar por ficar juntos. E qualquer pessoa que os tivesse visto durante aqueles dias teria apostado nisso, 
especialmente Tanya e Zoe.
      
      
      - Creio que irei enlouquecer quando estiver em Londres - disse Hartley timidamente. Era um homem to simptico e atraente. Convidara Mary Stuart a ir com ele 
para Seatle. Precisava de falar com o director de uma biblioteca que queria construir uma ala em sua honra, e da iria de avio para Boston, para discutir uma conferncia 
que ia fazer em Harvard. Ia ser uma vida interessante para Mary Stuart, se se juntasse a ele. Hartley estava ansioso por lhe dar a ler a sua obra e entregara-lhe 
j partes do manuscrito. Fora uma grande honra para ela, e a necessidade de arranjar um emprego no lhe parecia j to importante. Hartley ia mante-la muito ocupada.
      
      Porm, recusou a proposta que ele lhe fez para o acompanhar quando deixassem Wyoming. Queria ir a Los Angeles com Tanya, passar um dia ou dois com ela e seguir 
depois para Londres. Precisava de ficar com tudo esclarecido para se sentir tranquila. Depois encontrar-se-ia com Hartley em Nova Iorque e estava disposta a passar 
o resto do Vero com ele em Fisher's Island. Hartley queria oferecer um jantar aos amigos para a apresentar e para que eles vissem que o bom tempo voltara, aps 
dois anos de solido e de tristeza.
      
      - Telefonarei logo que fale com Bill. - Mary Stuart sorriu gentilmente enquanto caminhavam de mos dadas. Tinham montado a cavalo nessa manh, mas decidiram 
no o fazer durante a tarde. Queriam ficar ss e fazer um pouco de alpinismo.
      
      - Talvez fosse bom arranjarmos um sinal.
      - Que espcie de sinal? - Mary Stuart tentou imaginar-se na situao dele e lamentava ser a culpada disso, embora achasse que ele no tinha motivo para estar 
nervoso. A sua viagem a Londres era apenas uma delicadeza, pelo menos no que lhe dizia respeito, sobretudo depois da ltima conversa que tivera com o marido. - Em 
que espcie de sinal est a pensar? - insistiu delicadamente.
      
      - Um se for por terra, dois se for por mar - retorquiu Hartley, rindo e franzindo a testa ao pensar nisso. Depois olhou-a com o sobrolho franzido. - Envie-me 
um fax com uma mensagem. E avise-me da data da sua chegada, para eu a ir esperar ao aeroporto.
      
      - Deixe de se preocupar - replicou Mary Stuart, beijando-o enquanto caminhavam lentamente de regresso ao rancho, de mos dadas. Nesse momento, Tanya e Gordon 
galopavam lado a lado, descendo Shadow Mountain. Tinham estado a ver os estragos feitos pelo incndio e haviam verificado que eram bastante extensos. Falavam a esse 
respeito quando Tanya reparou num homem que saa de uma clareira. Parecia-lhe um vagabundo, usava roupas velhas e amarrotadas, tinha o cabelo comprido e, apesar 
de o solo estar quente e queimado, estava descalo Ficou parado a olh-los durante um bocado e depois desapareceu na orla da floresta.
      
      - Quem era? - perguntou Tanya. Achara que o homem tinha um ar estranho e levava uma espingarda.
      
      - H vagabundos como este que vivem nas montanhas de tempos a tempos. Viajam plos parques nacionais. Provavelmente o incndio desalojou-o e agora procura 
outro local onde pernoitar. So inofensivos.
      
      Gordon no estava preocupado e Tanya pensou em qualquer coisa que a fez sorrir. Pedira a Gordon para dar um passeio a cavalo no dia seguinte. Ele dissera-lhe 
que era possvel, mas que teriam de sair cedo.
      
      Chegaram ao rancho ao fim da tarde. Separaram-se e nem foi preciso combinar o encontro dessa noite, em casa dele. Era l que Tanya passava agora todas as noites, 
depois de jantar com as amigas. Depois voltava para casa antes de elas acordarem. Havia muitos anos que no se sentia to feliz e ningum a censurava pelo que fazia.
      
      Nessa noite jantaram todas com Hartley. Este e Mary Stuart mostravam-se descontrados e Zoe passara a tarde no hospital de visita a John Kroner. Gostava da 
companhia dele e Kroner apreciava o interesse que ela demonstrava plos seus doentes. Riram e contaram anedotas e era mais tarde do que habitualmente quando voltaram 
a casa. At mesmo Hartley suspeitava que Tanya ia ter com Gordon, embora no soubesse quanto tempo l ficava. Gordon era, na realidade, um tipo simptico e no o 
chocava v-lo ao lado de Tanya.
      
      Tanya seguiu ao longo do caminho habitual. O cu estava salpicado de estrelas. A noite estava to bonita que ela quase teve pena de r para dentro de casa. 
Ouvia os cavalos relincharem baixinho quando passava perto deles. Gordon estava  sua espera, como de costume. Tinha posto msica a tocar e fizera caf. Ficaram 
sentados a conversar durante um bocado, fizeram amor, como era inevitvel e, quando ficaram estendidos lado a lado, Tanya desejou poder fazer voltar o relgio para 
trs. O tempo estava a passar muito depressa. Encontravam-se deitados no escuro, a conversar, quando Tanya ouviu um estrondo, um co ladrou e, de sbito, os cavalos 
relincharam ruidosamente. Gordon voltou a cabea e ficou de ouvido  escuta. Depois o co voltou a ladrar. Dava a impresso de que os cavalos estavam enlouquecidos.
      
      - Passa-se alguma coisa? - perguntou Tanya em voz baixa.
      
      - No sei. As vezes assustam-se por qualquer motivo, ou por causa de um coiote que v espreitar s cavalarias, ou at por algum passar ali perto. Provavelmente 
no  nada. - Mas dez minutos mais tarde os rudos no tinham diminudo, pelo contrrio, haviam piorado, e ouviam-se sons de pancadas, como se os cavalos estivessem 
a escoucear nas suas baias. Gordon decidiu vestir-se e ir ver o que se passava. - No deve ser nada - disse Gordon. Mas era ele o responsvel pelas cavalarias e 
precisava de ir ver o que estava a acontecer. E Tanya sabia que no podia acompanh-lo.
      
      
      - Eu espero aqui - respondeu Tanya, vendo-o mover-se na escurido. Gordon enfiou umas calas de ganga, calou as botas e vestiu uma camisola sobre o peito 
nu. Estava to belo, iluminado pelo luar, que Tanya esteve quase tentada a pedir-lhe que no fosse. Beijou-o demoradamente, sentiu despertar o desejo nele e riu 
baixinho.
      
      - Espera um pouco. Eu j volto.
      
      Tanya espreitou pela janela, viu-o correr em direco  cavalaria e abrandar o passo ao aproximar-se da esquina. A partir da j no conseguia vislumbrar 
coisa alguma. Alm dos rudos que os cavalos continuavam a fazer, parecia tudo tranquilo. Mas Gordon no voltou, e passado uma hora Tanya comeou a ficar preocupada. 
No sabia se algum dos cavalos estava doente e ele tinha de ficar com ele ou se teria sucedido alguma coisa. E no podia chamar ningum para a ajudar nem pedir a 
algum para ir ver. Decidiu vestir-se e ir procur-lo. Se a vissem, diria que no conseguia dormir e que fora dar um passeio. No podiam saber de onde ela vinha.
      
      Encaminhou-se lentamente para a cavalaria e tudo parecia tranquilo. Porm, subitamente, ao virar a esquina, viu-os. Era o homem que avistara na montanha e 
apontava a espingarda a Gordon, que estava muito quieto e lhe falava. Reparou ento que vrios cavalos estavam manchados de sangue e um deles jazia estendido no 
cho. O homem ameaava Gordon com uma grande faca-de-mato. Tanya levou um momento a aperceber-se do que se estava a passar, mas depois comeou a recuar lentamente 
e comeou a correr. Ia a virar a esquina quando o homem a viu e disparou. Tanya no fazia ideia contra quem ele disparara, ou mesmo se fora contra ela, mas limitou-se 
a continuar a correr. Sabia que precisava de pedir rapidamente auxlio e rezou para que ele no estivesse a disparar sobre Gordon. No ouviu mais tiros e correu 
o mais que pde at chegar  porta da casa mais prxima. Ali residia um dos cowboys. Ela conhecia-o. Era um rapaz do Colorado, que veio abrir a porta com um cobertor 
enrolado em volta da cintura. Pensou que se tratava de outro incndio florestal. Por vezes, quando se apagava um fogo, ficavam algumas brasas incandescentes que 
voltavam a atear o incndio, mas ele viu pela cara de Tanya que se tratava de algo muito mais grave... O rapaz reconheceu imediatamente Tanya e ela puxou-lhe por 
um brao, querendo lev-lo consigo.
      
      - Est um homem com uma faca na cavalaria, alguns cavalos esto feridos e ele ameaa Gordon. Venha depressa!
      
      O rapaz no fazia ideia de como ela sabia aquilo, mas no lho perguntou. Enquanto Tanya esperava, na varanda, ele vestiu-se rapidamente. Quando chegou junto 
dela ainda vinha a puxar o fecho das calas, e logo a seguir correu para a casa mais prxima e bateu  porta. As luzes acenderam-se, apareceu outro homem e o rapaz 
p-lo rapidamente ao corrente do que se estava a passar e disse-lhe para chamar o xerife e os outros homens. Depois ele e Tanya correram velozmente para a cavalaria, 
a tempo de ver o vagabundo saltar para um dos cavalos e galopar em direco s montanhas. Continuava a empunhar a espingarda e a gritar obscenidades para eles, mas 
no disparou. Havia dois cavalos mortos, um apunhalado e o outro com um tiro, e Gordon encontrava-se estendido no cho e sangrava muito de um dos braos. Tanya compreendeu 
imediatamente o que sucedera. Fora atingida uma artria e ele iria esvair-se em sangue nua questo de momentos. Segurou-lhe o brao e apertou-o e gritou para o rapaz 
que a acompanhara que fosse chamar a Dr. Phillips. O rapaz partiu a correr e Tanya ficou a ver Gordon sentir-se cada vez mais fraco. Mas, pelo menos, o sangue no 
jorrava com tanta fora. Ela estava j coberta de sangue e havia sangue por todo o lado. Os cavalos andavam enlouquecidos em volta deles.
      
      - Ento, Gordon... ento... fala comigo... - Tentava mante-lo consciente, enquanto fazia presso sobre a artria, mas podia ver que ele estava a morrer. - 
No! - gritou-lhe. No tinha nenhuma das mos livres para o esbofetear, apenas podia pressionar a artria, nada mais. - Gordon! Acorda! - Tanya gritava e chorava 
ao mesmo tempo quando os outros apareceram. Todos ficaram perplexos e levaram um minuto a perceber o que se passara. Ningum lhes explicara o que sucedera. Tanya 
tentava faz-lo quando viu Zoe a voar pela montanha abaixo em camisa de noite. Reparou que ela calava luvas de borracha para proteger Gordon da sua doena.
      
      - Dem espao, dem espao... - gritou para os homens. - Assim... obrigada.
      
      Ajoelhou-se junto dele e olhou para Tanya.
      
      - Algum o atacou com uma faca-de-mato. - Zoe podia ver que quase lhe tinham arrancado o brao. - Creio que atingiram uma artria. O sangue jorrava com fora. 
- Tanya tivera lies de primeiros socorros e pelo menos disso recordava-se.
      
      - No deixes de fazer presso sobre a artria - avisou Zoe, tentando observar o ferimento, mas bastou mover ligeiramente o brao para que um jacto de sangue 
as atingisse e salpicasse o solo em volta delas. Tanya fez novamente presso e Zoe aplicou um torniquete o melhor possvel, mas viu que Gordon perdera muito sangue 
e se encontrava em estado de choque e no sabia se se salvaria. Tanya tambm se apercebeu disso e gritava por ele enquanto os outros o olhavam, horrorizados. Nessa 
altura j tinham chamado Charlotte Collins e os homens estavam desolados com a perda dos seus cavalos. O vagabundo era um louco. O rapaz que Tanya acordara contava 
aos outros o que vira e o que se devia ter passado. - Quanto tempo levar a ambulncia a chegar? - perguntou Zoe a um dos homens.
      
      - Dez, quinze minutos - responderam, e Zoe mostrou-se preocupada. Gordon no estava bem e ela nada mais podia fazer ali. Ele precisava de sangue, de oxignio 
e de uma sala de operaes o mais rapidamente possvel, mas, quando j comeava a desesperar, ouviu-se o uivo de uma sereia rasgar a noite e a ambulncia chegou, 
parando a curta distncia do sido onde se encontrava Gordon. Este perdera os sentidos e tinha o pulso fraco. Tanya soluava, tentando fazer presso sobre o ferimento, 
e Zoe tentava tranquiliz-la. Alm do torniquete nada mais podia fazer por agora, a no ser vigiar os seus sinais vitais e rezar para que tudo corresse bem.
      
      Os paramdicos ouviram o que Zoe lhes disse, e poucos segundos depois Gordon encontrava-se estendido na maca e era transportado para dentro da ambulncia. 
Zoe entrou tambm e algum lhe deu um comprido impermevel para vestir por cima da camisa de noite. Tanya perguntou se tambm podia ir. Os paramdicos ocupavam-se 
de Gordon, que estava mortalmente plido.
      
      - Quer ir comigo? - perguntou Charlotte Collins. No havia qualquer sinal de desaprovao no rosto dela, apenas gratido.
      
      Tanya disse que sim com a cabea e pouco depois partiam atrs da ambulncia, onde, de qualquer modo, no havia lugar para Tanya. Pelo caminho Tanya contou 
a Charlotte que vira aquele homem com uma espingarda durante o dia e que Gordon achara que era inofensivo.
      
      - A maior parte deles , mas h alguns tresloucados. H alguns anos deu-se um caso terrvel. Um homem acabado de sair da priso assassinou uma famlia inteira 
que dormia nos seus sacos-cama, mas claro que  raro suceder aqui esse gnero de coisas. Quase ningum fecha as portas  chave,  noite - concluiu, vendo que Tanya 
estava obviamente horrorizada com o que acontecera a Gordon. Tanya desejava ter ido na ambulncia. No podia crer no que sucedera. Era incrvel, tudo se passara 
to rapidamente!
      
      Pareceu-lhe que demorou mil anos a chegar ao hospital e durante o caminho nenhuma delas voltou a falar. Tanya encontrava-se demasiado abalada para poder conversar, 
e Charlotte sentia grande simpatia por ela. Ela sabia mais do que Tanya pensava. Pouco do que se passava no rancho lhe escapava. No era aquilo que ela recomendava 
ao seu pessoal. Pelo contrrio. Existiam penalidades para quem confraternizasse com os hspedes, mas, de vez em quando, aconteciam coisas como aquela. A vida era 
assim mesmo e as regras nem sempre se podiam cumprir. S esperava que ele no morresse agora. O resto teria de ser resolvido mais tarde.
      
      Quando chegaram ao hospital, o pessoal alija fora avisado e encontrava-se tudo a postos para receber Gordon. Fora enviada uma maca da sala de operaes e estavam 
j dois cirurgies a preparar-se. Perguntaram a Zoe se ela queria entrar e ela disse que no era preciso. Achava que seria mais til na sala de espera, junto de 
Tanya. Mantivera-o vivo durante o percurso at ao hospital. O resto cabia agora aos cirurgies.
      
      - Como est ele? - perguntou Tanya com voz rouca.
      
      - Vivo - foi tudo o que Zoe lhe respondeu. Mas sabia que devia ser sincera para com ela e acrescentou: - Mas est por um fio.
      
      Charlotte abanou a cabea, desanimada, enquanto seguravam as mos de Tanya, que chorava, sem se importar sequer com a presena de Charlotte. No se importava 
que ela soubesse ou no. S lhe interessava saber que o amava.
      
      A Polcia chegou passado um bocado e interrogou Tanya. Ela contou-lhe o que vira e onde estivera e Zoe ficou preocupada com ela. Se aquilo viesse a saber-se, 
a notcia apareceria em todos os tablides, e no seria bonita. Tanya Thomas "metida com um cowboy num rancho janota". Charlotte tambm pensou nisso e foi dizer 
duas palavras aos polcias. Estes conheciam-na e mostraram-se muito simpticos. Claro que no podiam ocultar provas, nem o fariam, mas era escusado chamar os jornalistas. 
Prometeram ainda dizer ao xerife que tentasse encontrar o atacante de Gordon e recuperar o cavalo roubado.
      
      John Kroner apareceu tambm passado um bocado. Algum lhe ligara para casa, visto ser ele o mdico do rancho, e agora encontrava-se a falar com Zoe em voz 
baixa. Dirigiu-se depois  sala de operaes, para ver o que podia saber, mas Gordon ainda no estava livre de perigo. A artria fora cozida, mas, aparentemente, 
houvera leses e grande perda de sangue. Tanya continuava sentada, imvel, de olhos fechados, e Zoe foi dar um pequeno passeio pelo corredor em companhia de Kroner.
      
      - Eh tambm no me parece bem - disse John Kroner. - O homem tambm a atacou? Que estava ela a fazer na cavalaria  meia-noite?
      
      Zoe olhou-o e sorriu. Ele era ingnuo, mas jovem, e ela aprendera a confiar nele.
      
      - Tanya est apaixonada por Gordon - disse. Isso explicava tudo e John Kroner fez um gesto de assentimento.
      
      Passou-se mais uma hora at que o cirurgio-chefe apareceu, e tinha um ar to sombrio que Tanya quase desmaiou ao v-lo. Zoe apertava-lhe a mo e ela chorava, 
mesmo antes dele ter dito uma palavra. O mdico olhou directamente para Tanya, como se compreendesse perfeitamente a situao. No fazia ideia de quem ela era e 
no se importava com isso. Percebia o que se passava com ela e sabia com quem precisava de falar.
      
      - Vai ficar bom - disse de uma s vez. E Tanya explodiu em soluos, agarrada a Zoe.
      
      - Pronto... Tan... pronto... ele vai ficar bem... Ento, querida...
      
      - Oh!, meu Deus! - exclamou Tanya, por entre soluos. - Julguei que ele tinha morrido. - O cirurgio explicou a Charlotte que houvera tendes e nervos atingidos, 
mas que pensava que Gordon iria ficar bem. Talvez nem tivesse de voltar a ser operado, apenas fisioterapia e umas duas semanas de repouso. Perdera muito sangue, 
mas tanto Tanya como Zoe tinham agido com rapidez, salvando-lhe a vida. O mdico decidira no lhe fazer uma transfuso e ela achava a deciso acertada, pois ele 
no tinha muitas dores nem febre. Poderia at voltar para o rancho na manh seguinte. Charlotte agradeceu-lhe e o cirurgio voltou-se novamente para Tanya.
      
      - Gostava de o ver? - Sorriu. - A senhora e a doutora fizeram um bom trabalho. Se no fosse o torniquete e a presso sobre a artria, ele teria morrido em 
poucos minutos.
      
      Tanya disse que sim com a cabea, incapaz de falar de momento.
      
      - Est acordado? - perguntou, seguindo-o ao longo do corredor. Os outros tinham decidido ficar na sala de espera.
      
      - Mais ou menos - disse o mdico, sorrindo e pensando que se tratava de uma mulher muito bonita. Calculava que ela tivesse  volta de trinta anos e no imaginava 
que fosse Tanya Thomas. - Est um pouco atordoado e um pouco brio, mas logo que acordou perguntou por si. E Tanny, no  verdade?
      
      Tanya disse que sim com a cabea; acompanhou o mdico at  sala de recuperao e vestiu uma bata. Estavam ali umas seis enfermeiras e havia mquinas por todo 
o lado, mas Gordon ergueu a cabea logo que a viu.
      
      - Ol, querida... - murmurou. E ela inclinou-se e beijou-o.
      
      - Pregaste-me um susto de morte - disse Tanya, ainda abalada por tudo o que se passara.
      
      - Lamento... tentei afast-lo dos cavalos e ele atacou-me.
      
      - Tiveste sorte em no te ter morto.
      
      - O mdico disse que me salvaste a vida. - Trocaram um longo olhar apaixonado e ela beijou-o de novo.
      
      - Amo-te - murmurou.
      
      - Tambm te amo - disse ele, voltando a cabea para ela e fechando momentaneamente os olhos.
      
      Tanya perguntou ao mdico se poderia ali ficar e ele disse-lhe que sim, se quisesse. Ela saiu ento da sala e foi avisar Zoe.
      
      - Tem a certeza? - perguntou Charlotte Collins. - Posso traz-la de novo, amanh.
      
      - Gostaria de ficar - respondeu calmamente Tanya. Depois olhou para a patroa de Gordon, como que a desculpar-se. - Lamento o que se tem passado... no queria 
arranjar-lhe complicaes... - Agora no havia maneira de ocultar o que se estava a passar e Charlotte sorriu, dizendo:
      
      - Eu sei. No se preocupe. Est tudo bem, mas deve ter cuidado.
      
      Tal como Zoe, ela preocupava-se com Tanya. Zoe falou-lhe da possibilidade de poderem aborrec-la mesmo ali e Tanya disse-lhe que no se preocupasse, pois no 
hospital ningum fazia ideia de quem ela era.
      
      Zoe e Charlotte foram-se embora, John Kroner foi para casa e Tanya voltou para junto de Gordon. Ele dormia e as enfermeiras arranjaram-lhe um sof-cama perto 
dele. As seis da manh transferiram-no para um quarto e Tanya acompanhou-o. Ele estava acordado e disse que se sentia bem, mas via-se que ficara abalado.
      
      - Sinto-me ptimo, vamos para casa - declarou Gordon, mas estava muito tonto devido  perda de sangue para se poder sentar, e Tanya ralhou-lhe.
      - Sim, ests ptimo. Deita-te e repousa. Gordon riu. Era uma boa oportunidade que Tanya tinha para mandar nele, e ele adorava que ela o fizesse.
      
      - S por me teres salvo no tens o direito de me dizer o que tenho que fazer durante o resto da vida - disse ele com ar trocista, sorrindo. - Ests com um 
ar cansado Tan - acrescentou ento, mais srio e preocupado.
      
      - Pregaste-me um susto terrvel - disse Tanya. Mas faltava-lhe fazer ainda mais uma coisa a caminho de casa, antes de poder ir dormir. E sentia-se desapontada, 
pois o que tinha querido era ir dar um passeio a cavalo com ele. Mandara Tom ir at ali com o autocarro para transportar Gordon para o rancho, porque desse modo 
ele poderia ir deitado e no se cansar.
      
      O mdico dissera que ele poderia partir ao meio-dia, visto no ter febre nem terem surgido complicaes, e quando Tom chegou com o autocarro, como Tanya pedira, 
Gordon assobiou, sentado na cadeira de rodas.
      
      - Somos muito discretos, no somos? - exclamou, sorrindo. - Como  que vou explicar isto a Charlotte? Ou j fornos completamente descobertos?
      
      - Digamos que lhe dei uma pequena indicao ontem  noite, quando estava agarrada ao brao dela,  espera que o mdico me desse notcias. Mas, na verdade - 
disse Tanya, com ar grave -, Charlotte foi muito decente. Creio que compreendeu perfeitamente.
      
      - Espero que sim. Ser apunhalado a meio da noite contigo por perto no estava exactamente nos meus planos - replicou ele, um pouco enervado com o caso. Mas 
parecia razoavelmente saudvel, embora se visse que o brao lhe doa. Tinham-lhe dado comprimidos contra as dores para levar para casa, mas ele declarara que apenas 
precisava de beber um gole de usque.
      
      Tanya instalou-o numa das camas, com o brao confortavelmente apoiado em almofadas. Depois deu-lhe uma Coca-
      
      - Cola e partiram para o rancho. Mas, passado um bocado, Gordon olhou para fora, pela janela, e ficou admirado.
      
      - Lamento diz-lo, Tanny, mas tenho a impresso de que o teu motorista quer regressar ao rancho passando pela China.
      
      - Pensei que quisesses ver a paisagem antes de ir para casa.
      
      Gordon no queria dizer-lhe que apenas lhe apetecia estar estendido na cama, no queria ofender os sentimentos dela, e ficou calado, beijando-a.
      
      - Quero que saibas que no deixarei que isto afecte a nossa vida sexual - disse ele. E ela riu.
      
      - Deixa-me que te diga que ontem  meia-noite a tua vida sexual era o mnimo dos teus problemas.
      
      Nenhum deles podia ainda acreditar no que lhes tinha sucedido.
      
      Tanya reparou ento que estavam a chegar ao seu destino. Olhou para fora, pela janela, e reconheceu o local. Ele levara-a ali na semana anterior.
      
      - Porque  que quiseste voltar aqui? - perguntou Gordon. Achou graa a ela t-lo levado ali. Pensou que o fazia por razes sentimentais e inclinou-se para 
a beijar, dizendo: - Gosto muito deste stio.
      
      - Espero que sim - replicou Tanya, rindo.
      
      - Porqu?
      
      - Porque  meu.
      
      - E o qu?! - Gordon mostrou-se completamente confuso com o que ela dizia. - No  nada!... Aqui fica o velho Rancho Parker. H anos que o conheo. Trouxe-te 
aqui no passado domingo.
      
      - Bem sei - disse Tanya, parecendo muito contente consigo mesma. - Comprei-o na segunda-feira.
      
      - s doida! - Gordon estava completamente estupefacto, e durante um minuto Tanya receou que ele estivesse zangado. - Porque fizeste isto? - Queria acreditar 
em tudo aquilo, mas no podia. Num determinado dia levara-a a ver um rancho e no dia seguinte ela comprara-o. Aquilo desafiava a sua imaginao!
      
      - Disseste-me que devia comprar um rancho aqui.
      
      - Por isso compraste-o? - disse, olhando para ela, estupefacto. - Assim, sem mais nem menos?
      
      - A funcionria da agncia afirmou que era um bom investimento e que o preo era bom, por isso resolvi tentar. Achei que devia seguir o teu conselho. Podes 
fazer aqui criao de cavalos. Eu posso mudar de ambiente. Poders trabalhar para Charlotte Collins e, ao mesmo tempo, ajudar-me a gerir o rancho. Mas primeiro precisamos 
de o arranjar. Depois veremos. Se o detestares, se decidires fugir com outra estrela rock, se resolveres mudar-te para Los Angeles e deixar os cavalos, poderei vend-lo. 
Achei que poderamos fazer uma tentativa.
      
      - Oh!, querida! - disse ele, puxando-a para si com o seu brao so. Agora sabia que ela falava a srio. - Tu s espantosa!
      
      - Ento, vais ajudar-me?
      - Claro que sim - respondeu Gordon, ofegante. Depois de tudo quanto ela fizera por ele, no havia nada que ele no quisesse fazer por ela. Tanya dera provas 
em toda a linha e Gordon nunca o esqueceria.
      
      - Queria vir at aqui contigo hoje, para te mostrar.
      
      - Nem posso acreditar. - Gordon ainda sorria quando se afastaram e continuava a olh-la com assombro. - Queres realmente fazer isto comigo? - Era um salto 
to grande para ela, uma tal ddiva para ambos, que desafiava a imaginao. Gordon sentia-se realmente como se tivesse morrido na noite anterior e estivesse no cu. 
- Como  que podes ser to boa e to confiante? - perguntou.
      
      - Creio que sou apenas um pouco tola - retorquiu Tanya, bebendo um gole do refresco dele e aconchegando-lhe as almofadas. - H alguma razo para no ser?
      
      - No, minha senhora - disse orgulhosamente Gordon -, vai ser o melhor pequeno rancho de Wyoming. Quando  que comeamos a arranj-lo?
      
      - Logo que possas voar outra vez - apontou para o brao partido. - Para a prxima semana ser nosso. - Imaginara oferecer-lhe o rancho como presente de casamento, 
se viesse a casar, mas isso era para mais tarde. Ainda tinha de se separar de Tony, e o divrcio s no Natal estaria concludo. Mas depois disso... as possibilidades 
eram infinitas. O cu era o limite.
      
      Quando chegaram ao rancho e as pessoas viram o autocarro, juntaram-se perto da casa de Gordon e deram vivas quando Tom o ajudou a sair do carro e a entrar 
em casa. Tanya caminhava ao seu lado. Receava mago-lo se lhe tocasse no brao. Todos queriam falar-lhe, dizer-lhe como estavam felizes por ele estar bem, traziam-lhe 
presentes de livros, doces e cassetes. Ele tinha tudo quanto precisava. E agora tinha tambm uma mulher que o amava e o rancho com que sempre sonhara. Tudo isso 
fez com que os olhos se lhe enchessem de lgrimas quando ficou sozinho com ela em casa.
      
      - Ainda nem posso acreditar! Nunca nada na minha vida foi assim...
      
      - Nem na minha! Gosto disto aqui e quero estar contigo.
      
      - Eu tambm irei a Los Angeles sempre que puder - garantiu ele.
      
      - No precisas de o fazer, se no quiseres. Aprendera j essa lio. Vivia num inundo difcil e, se ele no quisesse fazer parte dele, no o foraria.
      
      - Mas quero. J viste o meu mundo, fazes agora parte dele. Podemos t-los a ambos, desde que nos compreendamos um ao outro.
      
      - O meu mundo pode ser brutal - disse ela com tristeza. - Magoar-te-, mesmo que tenhas cuidado. No h nada sagrado. E eu no quero que eles te magoem...
      
      Mas sabia que nada poderia fazer contra isso. No dia seguinte apareceu nos jornais a histria de como Tanya fora passar duas semanas a um rancho, se apaixonara 
por um cowboy e lhe comprara um rancho. Diziam quanto ela pagara pelo rancho, mas aumentaram mais ou menos um milho de dlares. A maior parte da histria era falsa 
e tudo o que escreviam era feio. O ttulo dizia: "Uma paixo rpida, ou o marido n. 4? Qual das duas coisas, Tanya?" Faziam a comparao entre o que um e outro 
ganhavam num ano e metiam-na a ridculo em todos os aspectos. Mostravam-no como um vendido e a ela faziam-na passar por uma pega. At lhe chamavam tola por ter cantado 
o hino no rodeo. Tinham fotografias tiradas junto do autocarro e relatavam a histria dele ter sido apunhalado por outro cowboy, com quem ele lutara por causa de 
Tanya. O artigo afirmava que ela quase fora morta ao tentar separ-los. Tanya ficou sentada no quarto, sentindo nuseas ao ler tudo aquilo. O mal desses artigos 
era haver sempre neles bisbilhotice suficiente para fazer com que as pessoas acreditassem. E estava preocupada com Gordon. Que pensaria ele quando lesse aquilo?
      
      - No leias essa porcaria - disse Zoe, furiosa com o que lhe tinham feito. E depois no pde deixar de perguntar. -  realmente verdade que lhe compraste um 
rancho? Provavelmente  mentira, mas pensei que...
      
      - No, comprei um rancho para mini. Mas Gordon vai ajudar-me. Sou suficientemente esperta para no querer arrast-lo para a minha vida. Ele  feliz aqui. No 
quero estragar isso, quero  passar algum tempo aqui.
      
      - Est bem visto - concordou Zoe -, mas pensei... tenho pena Tan.
      
      - Tambm eu - replicou Tanya, sentindo-se infeliz. - s vezes costumava perguntar a mim mesma quem daria as notcias. Mas creio que  toda a gente. A Polcia, 
a imprensa, as enfermeiras, os condutores das ambulncias, os cabeleireiros deste mundo, os turistas, os agentes imobilirios e at mesmo os amigos, por vezes.  
intil! Todos fornecem uma pequena informao, que depois  maliciosamente tecida de modo a ser espetada no corao. - Pensou como se sentira Gordon com aquilo. 
Terrivelmente mal, com certeza. Tinham conseguido fazer com que tudo o que era bom parecesse contaminado. Tanya ficara com ele na noite anterior, fizera-lhe o jantar 
e s o deixara quando j era dia. Agora j no era segredo que estava com ele. E quando voltara para casa vira os jornais. As amigas ainda tinham tentado escond-los, 
mas isso de nada serviria, pois sabiam que ela acabaria por v-los. O melhor seria enfrentar a situao desde logo.
      
      - Parece impossvel o que estes patifes inventam - disse Mary Stuart a Hartley. Ele tambm passara por algo de semelhante, embora no de uma maneira to intensa. 
E o seu xito era diferente do de Tanya. Os escritores no eram geralmente devorados plos tablides, pelo menos os daquele gnero. Mas Tanya era caa fcil para 
eles e gostavam de a acossar.
      Quando mais tarde se dirigiu para casa de Gordon, Tanya levou o jornal consigo. Os outros tinham ido dar um passeio e John Kroner juntara-se a eles. Queria 
conversar com Zoe. Tanya teve pena de no ir, mas preferia estar junto de Gordon. Queria falar com ele a respeito dos jornais, mas, logo que entrou, viu que eleja 
tinha conhecimento. Havia no seu olhar uma sombra, um certo embarao, e Tanya pensou se as coisas estariam acabadas entre eles por causa daquilo. Olhou-o demoradamente. 
Ele estava sentado no sof, a ver televiso e a beber caf. Tambm vira o noticirio, onde aparecera uma fotografia sua e a histria da facada. No conseguia perceber 
como conseguiam distorcer a verdade dessa maneira. E, ao olhar para Tanya, tentou imaginar o que ela estaria a sentir.
      
      - Como est o brao? - perguntou ela. Gordon mexeu-o um pouco, para mostrar que conseguia faz-lo, mas no era com o brao que ela estava agora preocupada, 
era com o que ele sentiria a respeito dela depois de ter lido a histria no jornal.
      
      - Pagaste demasiado pelo rancho - declarou simplesmente Gordon. Tanya sentou-se, percebendo que ele lera a histria.
      
      - Que  que dizes a aparecer nos ttulos dos jornais? - perguntou Tanya, observando-o. Gordon ainda no estendera a mo para ela nem lhe dissera que a amava. 
Estava a digerir o que sucedera.
      
      - Creio que preferia que fosse por outros motivos. Por matar um reprter, por exemplo. Gostaria de o fazer.
      
      - Vai-te habituando - replicou Tanya com uma certa dureza na voz. No era a primeira vez que lhe faziam aquilo, mas talvez nunca o tivessem feito com tanta 
maldade e to cruelmente. A ele tinham-no diminudo e amesquinhado e a ela faziam-na passar por uma pega ordinria. Era prprio de certa imprensa e Tanya via isso 
suceder constantemente. - E tpico deles, Gordon. Pegam em tudo quanto dizemos ou fazemos e transformam-no em merda. Fazem-nos parecer estpidos, ridculos e ordinrios. 
Alteram tudo, desde as nossas palavras aos nossos actos. Nada  sagrado. Pode-se viver assim?
      
      - No - respondeu ele, olhando-a nos olhos. O corao de Tanya quase parou. - Tambm no quero que vivas assim. Se  assim que te tratam,  melhor ficares 
aqui.
      
      - Mas aqui fazem o mesmo. Quem julgas tu que lhes contou a histria? Toda a gente. O agente imobilirio, as enfermeiras ontem  noite, os paramdicos, os polcias 
e at o director do rodeo. Todos se querem sentir importantes, e para isso esto prontos a vender-me.
      
      - No podem. Es minha... - disse Gordon com um brilho malicioso no olhar.
      
      - Isso  verdade - replicou Tanya, desejando no ter sido atirada com ele para as pginas dos jornais com as suas srdidas histrias. - Mas tens de encarar 
o facto de que tudo quanto fizermos acabar assim. Se eu tivesse um filho, diriam que no era meu, porque sou demasiado velha para o ter, ou ento que no era teu; 
se contratasse uma empregada, afirmariam que andavas metido com ela; se te desse um presente, publicavam o preo dele, mesmo antes de eu to ter dado, e fariam que 
parecesses um gigol por o teres aceitado. Vo atacar-nos todos os dias, de todas as maneiras, e se tivermos filhos, tortur-los-o tambm. No interessa que eu 
viva aqui, ali ou na Venezuela. A minha vida  assim, e quero que o saibas agora, para mais tarde no me odiares. E, mesmo que aches que isso no te aborrece, se 
fores a um dentista, a uma loja, se estiveres com uma prostituta, o que Deus te livre de fazeres, porque eu era capaz de te matar - acrescentou Tanya, o que fez 
sorrir Gordon -, enfim, todas as pessoas com quem contactares, salvo raras e honrosas excepes, sero capazes de te vender e te fazer parecer lixo. E se isso te 
acontecer a toda a hora talvez tu comeces a detestar-me. J me sucedeu. Eu sei como ! Destri-nos a vida, como um cancro. Perdi dois maridos por causa disso, e 
um deles era to corrupto que foi quem mais me vendeu aos tablides.
      
      Fora o seu segundo marido, o seu manager, que o fizera.
      
      - Parece que tens tido uma bela vida... - disse Gordon. - Tanya nunca lhe falara naquilo, mas ele achava que devia ser doloroso. - Que esperas, Tanny? - perguntou 
com tristeza. - Que eu me v embora agora? Se ests  espera disso, desilude-te. Eu no me assusto to facilmente! E sei como  a tua vida. Leio os jornais. Sei 
o gnero de porcaria que esses tablides publicam. Tens razo, sentimo-nos diferentes quando escrevem a nosso respeito. Quando abri o jornal esta manh tive vontade 
de matar algum. Mas no foste tu que escreveste aquilo. Tu s a vtima, no s a culpada.
      
      - As pessoas esquecem isso - replicou Tanya com ar infeliz. - E quem escreve essas coisas  intocvel. Nada os pode atingir. Nem sequer vale a pena process-los, 
por mais que faam. S serviria para venderem mais jornais. Por isso acabars por me detestar a mim por te terem magoado a ti.
      
      - Amo-te - disse Gordon, levantando-se e aproximando-se dela. - Amo-te. E no quero que te faam isso. Sim, vou. detestar quando disserem coisas a meu respeito, 
e h muito para dizer. Sou apenas um pobre cowboy do Texas, e todos pensam que quero o teu dinheiro. Vo dizer que me apanhaste aqui. E ento? Tu s uma pessoa. 
Eu sou outra. Isso s significa que no poderei ficar sempre em Wyoming, como julgava. Terei de passar mais tempo em Los Angeles para te proteger, porque no quero 
que tenhas de enfrentar essa nojeira sem mim. Talvez tenhamos os dois de mudar de vez em quando de stio, at tu te cansares e decidires vir fazer criao de cavalos 
comigo.
      
      - No vou abandonar a minha carreira - disse Tanya, preocupada. - Mesmo com todos estes dissabores, gosto daquilo que fao.
      - Tambm eu. Nunca te pediria para desistires de cantar. E talvez no resulte passarmos aqui parte do tempo. Mas gostava que tentasses. Veremos o que se vai 
passar. Quero estar contigo, aqui ou onde tu estiveres. Amo-te, Tanny. No me interessa nada o que disserem a nosso respeito!
      
      - E realmente assim? Mesmo depois disto? - perguntou, agitando o jornal.
      
      - Claro que sim. - Gordon sorriu, aproximou-se dela e beijou-a. - Dizem que me atraste para a cama com promessas de me comprares um rancho. Onde estava eu 
que no ouvi essa parte?
      
      - Estavas a dormir - respondeu ela. - Disse-to ao ouvido.
      
      - Es uma mulher espantosa. No sei como  que suportas todo esse lixo!
      
      - Nem eu - disse ela, encostando a cabea no seu peito, enquanto ele a envolvia nos seus braos. - Detesto-os!
      
      - No desperdices as tuas energias. Mas digo-te uma coisa: precisas de ser muito mais cuidadosa. No deves cantar em rodeos, nem ir a hospitais, a pensar que 
ningum sabe quem s, nem deves andar por a a comprar ranchos. Vais passar a ser mais fugidia, est bem? Esconde-te atrs de mim, se for necessrio. No me importo 
com o que disserem. No meu caso, provavelmente, ser verdade. Deixa-os entreterem-se comigo. Eu tenho as costas largas!
      
      - Amo-te, Gordon. Julguei que no quisesses voltar a ver-me depois de leres este jornal.
      
      - Nada disso. Estive aqui a pensar na maneira de convencer Charlotte a dar-me um fim-de-semana livre na prxima semana para poder ir a Los Angeles e fazer-te 
uma surpresa. Talvez agora, com a asa partida, ela me deixe ir, porque sou intil.
      
      - Fars isso, se puderes? Gostava muito!
      
      - Vou tentar. De qualquer modo, ela vai ter de se sentar e ter uma conversa muito sria comigo. Gostaria de comear a trabalhar aqui em part-time depois do 
Vero.
      
      - No esqueas a tourne pela Europa e pela sia no prximo Inverno. Vai ser um pesadelo!
      
      - Parece-me fantstico. Estou ansioso - disse, sorrindo.
      
      - Tambm eu. - Tanya olhou-o, pensando como a sua vida ia passar a ser diferente com Gordon a ajud-la e a proteg-la. Ela tambm queria ajud-lo e apoi-lo, 
mas nunca ningum a tratara como ele.
      
      - A propsito, onde estaremos no Natal?
      
      - J nem sei... na Alemanha... ou em Londres... Ou Paris... talvez em Munique... no me lembro.
      
      - E se casssemos em Munique? - sugeriu Gordon em voz baixa, beijando-a.
      
      Fora o seu segundo marido, o seu manager, que o fizera.
      
      - Parece que tens tido uma bela vida... - disse Gordon. - Tanya nunca lhe falara naquilo, mas ele achava que devia ser doloroso. - Que esperas, Tanny? - perguntou 
com tristeza. - Que eu me v embora agora? Se ests  espera disso, desilude-te. Eu no me assusto to facilmente! E sei como  a tua vida. Leio os jornais. Sei 
o gnero de porcaria que esses tablides publicam. Tens razo, sentimo-nos diferentes quando escrevem a nosso respeito. Quando abri o jornal esta manh tive vontade 
de matar algum. Mas no foste tu que escreveste aquilo. Tu s a vtima, no s a culpada.
      
      - As pessoas esquecem isso - replicou Tanya com ar infeliz. - E quem escreve essas coisas  intocvel. Nada os pode atingir. Nem sequer vale a pena process-los, 
por mais que faam. S serviria para venderem mais jornais. Por isso acabars por me detestar a mim por te terem magoado a ti.
      
      - Amo-te - disse Gordon, levantando-se e aproximando-se dela. - Amo-te. E no quero que te faam isso. Sim, vou. detestar quando disserem coisas a meu respeito, 
e h muito para dizer. Sou apenas um pobre cowboy do Texas, e todos pensam que quero o teu dinheiro. Vo dizer que me apanhaste aqui. E ento? Tu s uma pessoa. 
Eu sou outra. Isso s significa que no poderei ficar sempre em Wyoming, como julgava. Terei de passar mais tempo em Los Angeles para te proteger, porque no quero 
que tenhas de enfrentar essa nojeira sem mim. Talvez tenhamos os dois de mudar de vez em quando de stio, at tu te cansares e decidires vir fazer criao de cavalos 
comigo.
      
      - No vou abandonar a minha carreira - disse Tanya, preocupada. - Mesmo com todos estes dissabores, gosto daquilo que fao.
      
      - Tambm eu. Nunca te pediria para desistires de cantar. E talvez no resulte passarmos aqui parte do tempo. Mas gostava que tentasses. Veremos o que se vai 
passar. Quero estar contigo, aqui ou onde tu estiveres. Amo-te, Tanny. No me interessa nada o que disserem a nosso respeito!
      
      - E realmente assim? Mesmo depois disto? - perguntou, agitando o jornal.
      
      - Claro que sim. - Gordon sorriu, aproximou-se dela e beijou-a. - Dizem que me atraste para a cama com promessas de me comprares um rancho. Onde estava eu 
que no ouvi essa parte?
      
      - Estavas a dormir - respondeu ela. - Disse-to ao ouvido.
      
      - s uma mulher espantosa. No sei como  que suportas todo esse lixo!
      
      - Nem eu - disse ela, encostando a cabea no seu peito, enquanto ele a envolvia nos seus braos. - Detesto-os!
      
      - No desperdices as tuas energias. Mas digo-te uma coisa: precisas de ser muito mais cuidadosa. No deves cantar em rodeos, nem ir a hospitais, a pensar que 
ningum sabe quem s, nem deves andar por a a comprar ranchos. Vais passar a ser mais fugidia, est bem? Esconde-te atrs de num, se for necessrio. No me importo 
com o que disserem. No meu caso, provavelmente, ser verdade. Deixa-os entreterem-se comigo. Eu tenho as costas largas!
      
      - Amo-te, Gordon. Julguei que no quisesses voltar a ver-me depois de leres este jornal.
      
      - Nada disso. Estive aqui a pensar na maneira de convencer Charlotte a dar-me um fim-de-semana livre na prxima semana para poder ir a Los Angeles e fazer-te 
uma surpresa. Talvez agora, com a asa partida, ela me deixe ir, porque sou intil.
      
      - Fars isso, se puderes? Gostava muito!
      
      - Vou tentar. De qualquer modo, ela vai ter de se sentar e ter uma conversa muito sria comigo. Gostaria de comear a trabalhar aqui em part-time depois do 
Vero.
      
      - No esqueas a tourne pela Europa e pela sia no prximo Inverno. Vai ser um pesadelo!
      
      - Parece-me fantstico. Estou ansioso - disse, sorrindo.
      
      - Tambm eu. - Tanya olhou-o, pensando como a sua vida ia passar a ser diferente com Gordon a ajud-la e a proteg-la. Ela tambm queria ajud-lo e apoi-lo, 
mas nunca ningum a tratara como ele.
      
      - A propsito, onde estaremos no Natal?
      
      - J nem sei... na Alemanha... ou em Londres... Ou Paris... talvez em Munique... no me lembro.
      
      - E se casssemos em Munique? - sugeriu Gordon em voz baixa, beijando-a.
      
      - Creio que gostaria de casar em Wyoming - disse ela. - A olhar para as montanhas onde te encontrei.
      
      - Podemos pensar nisso mais tarde - concordou Gordon, fazendo-a levantar e amparando-a com o brao so. - Mas temos de tratar de outra coisa antes disso - 
disse ele, impelindo-a para o quarto. - Est na hora da minha sesta.
      
      Tanya suspeitava de que ele queria ver se tudo estava a funcionar bem. Era doloroso pensar que era o ltimo dia que passavam juntos. Ficaram toda a tarde na 
cama, enquanto toda a gente passeava a cavalo. Gordon adormeceu nos braos dela e ela ficou a abra-lo durante muito tempo, sem poder acreditar na sua sorte. E 
estivera prestes a perd-lo dois dias antes. No podia pensar nisso!
      
      Hartley esteve muito calado nessa noite, enquanto passeavam. Tentava enfrentar a ideia de a perder, se ela no voltasse para ele, depois de ir a Londres.
      
      - No faa isso a si prprio - disse meigamente Mary Stuart quando ele lhe contou o que estava a pensar.
      
      - Tenho de o fazer. E se no voltar? Que farei ento? Acabo de a encontrar e no posso imaginar perd-la to depressa. - No lho disse, mas sabia que iria 
escrever a esse respeito. No alteraria coisa alguma, mas, pelo menos, permitir-lhe-ia aclarar os sentimentos. - No pode prometer-me que voltar, Mary Stuart. No 
tem a certeza.
      
      - E verdade. Mas perdemos tantas coisas na vida!... Porqu perd-las antes de isso suceder?
      
      - Porque, quando no o fazemos, o gosto que nos fica  demasiado amargo. Sentirei muito a sua falta, se a perder - disse nostalgicamente Hartley, e Mary inclinou-se 
e beijou-o.
      
      - Farei o possvel por voltar depressa. Mary Stuart estava a ser sincera, mas ele surpreendeu-a com o que disse a seguir.
      
      - Se puder salvar o seu casamento, no volte - murmurou tristemente. - Eu e Margaret estivemos quase a divorciar-nos. Eu andei com outra mulher quando ramos 
casados, h uns dez anos. Foi uma grande estupidez da minha parte, e nunca mais voltei a fazer tal coisa. No sei o que sucedeu, tnhamos problemas pelo facto de 
ela no poder ter filhos... Isso era muito difcil para Margaret. Durante uns tempos quase enlouqueceu e afastou-se de mim. Creio que tambm me censurava pelo facto 
de no conseguir engravidar. Fosse qual fosse a razo, fi-lo e ela descobriu. Estivemos separados seis meses por causa disso e eu continuei a andar com a outra, 
o que foi ainda mais estpido. Mas eu julgava estar apaixonado por ela e foi complicado. Era uma francesa e estava em Paris comigo. Fui a Nova Iorque para dizer 
a Margaret que me ia divorciar, mas, quando l cheguei, vi que tudo quanto eu amava nela continuava a existir, assim como todas as coisas de que eu no gostava e 
todas as razes que me tinham levado a engan-la. 
      
      Ela tinha todas as incapacidades, as neuroses, os irracionalismos que a tomavam difcil, mas tambm tudo aquilo que eu adorava, a honestidade, a lealdade, 
a criatividade, o maravilhoso sentido de humor, a vivacidade intelectual, a discrio, o sentido de justia. Havia um milho de coisas que eu amava nela. - Hartley 
tinha lgrimas nos olhos ao dizer estas palavras e Mary Stuart tambm. - Quando fui a Nova Iorque para me despedir de Margaret, apaixonei-me outra vez por ela. - 
Respirou fundo e olhou para as montanhas. - Nunca voltei para a mulher que me esperava em Paris. Quando eu parti, ela sabia que seria assim. Dissera-me isso mesmo. 
E estabelecemos um cdigo. Ela disse-me que no podia suportar longas explicaes e que no as queria. Duas palavras bastariam. Se tivesse decidido deixar Margaret, 
bastava-me escrever "Bonjour, Arielle" num telegrama. Isso foi h muito tempo - disse ele sorrindo. - No existiam faxes. E se Margaret e eu voltssemos a ficar 
juntos, as palavras seriam Adieu, Arielle". Ela era uma mulher muito prtica e sensata. Parti para Nova Iorque prometendo-lhe que voltaria e dizendo-lhe que no 
tinha nada com que se preocupar. Mas encontrei a minha Dalila, ela cortou-me o cabelo, e nunca mais sa do seu lado... O telegrama que enviei dizia "Adieu, Arielle". 
Nunca mais voltei a v-la. Era assim que ela queria, mas eu nunca a esqueci. - Era uma histria triste e Mary Stuart ficou comovida ao ouvi-la. - Se isto nos suceder 
- continuou Hartley, fitando-a docemente -, quero que saiba que no lamento estes dias e que a amarei sempre. A vida continuar e eu recuperarei. Arielle casou com 
um ministro muito importante e tornou-se uma escritora de sucesso, mas sei que tambm nunca me esqueceu. Eu nunca a esqueci. - Sorriu maliciosamente. - Margaret 
tambm nunca a esqueceu. Creio que nunca olvidei esses tempos, mas acho que Margaret me perdoou. Porm, ao princpio foi difcil. O que quero que saiba  que nunca 
lamentarei ter-me apaixonado por si e que nunca passei duas semanas to felizes.
      
      Mary Stuart ajudara-o a superar o desgosto de ter perdido Margaret. E ele sentia-se muito melhor.
      
      - Tambm foram as duas semanas mais felizes da minha vida - disse Mary. - E nunca o esquecerei. Mas no creio que volte a viver com Bill, Hartley.
      
      - Nunca se sabe o que se ir passar entre duas pessoas. Veja o que acontece quando falar com ele. Se eu tivesse deixado Margaret naquela altura, teria perdido 
dezasseis anos de vida com ela. E foram anos felizes. Esteja aberta ao que quer que suceda. E a coisa mais bela que lhe posso dizer.
      
      - Am-lo-ei sempre - murmurou Mary Stuart.
      
      - E eu a si. E o que me poder enviar no fax. Encontrar o cdigo que procurava. "Adieu, Arielle", ou "Bonjour, Arielle", para eu saber o que se passa.
      
      - Ser "Bonjour, Arielle" - afirmou ela, certa do que dizia, enquanto se encaminhavam para as cavalarias com o cowboy que substitura Gordon.
      
      Entretanto, Zoe tomava caf com John Kroner. Tinham-se tomado amigos nessas duas semanas. Zoe fora vrias vezes visit-lo ao hospital e ele gostava de a ir 
ver ao rancho. Prometera ir visit-la a So Francisco.
      
      - Tenho um doente sobre o qual gostaria de lhe fazer umas perguntas - disse John Kroner nesse dia. - Comecei a trat-lo, a ele e ao amigo, com AZT. Ele  seropositivo, 
assim como o amigo, mas, por enquanto, no tm quaisquer sintomas da doena.
      
      - Ento est a proceder acertadamente. No precisa de mim - respondeu Zoe, com um sorriso. Tinha a certeza de que Sam simpatizaria com John Kroner e estava 
ansiosa por os apresentar. Sam telefonava-lhe todos os dias, mais para conversarem do que por causa da clnica. E ela gostava disso. - Est a fazer um excelente 
trabalho com os seus doentes - disse encorajadoramente Zoe a Kroner. Depois agradeceu-lhe a ajuda que ele lhe dera quando no estivera a sentir-se bem. - Sabe - 
disse filosoficamente -, agora sinto maior empatia plos meus doentes. Costumava achar que compreendia bem o que eles sentiam quando ouviam a sentena de morte e 
ficavam  espera que ela os atingisse. Sentia compreenso por eles, mas no sabia bem o que era. - Olhou-o intensamente. - Nunca o soube antes de me suceder a mim. 
Voc no pode saber o que , John. No pode imaginar!
      
      - Sim, posso - replicou calmamente Kroner. - Eu tambm sou seropositivo. Sou eu o doente de que lhe falei h pouco. Eu e o meu amigo. Quando comearmos a ficar 
doentes irei ter consigo para uma consulta.
      
      Zoe ficou assombrada. No sabia porqu, mas no esperava aquilo. Ele tinha sida, e o amigo dele tambm.
      
      - Tenho muita pena...
      
      - No tem importncia - retorquiu Kroner. - Estamos todos juntos nisto.
      
      Zoe tinha lgrimas nos olhos quando o abraou, ao despedirem-se.
      
      Passaram todos uma noite tranquila. Hartley e Mary Stuart conversaram durante horas Zoe falou ao telefone com Sam e Tanya foi ter com Gordon. Falaram todos 
acerca dos seus planos, dos seus sonhos, das coisas que se haviam passado no rancho e de como desejavam voltar ali. Tinham sido tempos mgicos para todos eles. Tanya 
e Gordon conversavam a respeito dos seus planos para o rancho que ela acabara de comprar. Tinham esquecido os tablides, Gordon falara com Charlotte nessa tarde 
e iria visitar Tanya a Los Angeles no fim-de-semana seguinte. Era o comeo. E sentiam-se ambos entusiasmados. Havia tanta coisa que Tanya queria partilhar com ele! 
Gordon queria descer Sunset Boulevard, ver o Pacfico, conhecer os amigos dela, ir ao estdio onde ela gravava, e ela queria passar o fim-de-semana com ele em Malibu, 
andar pela praia com ele, lev-lo ao Soago. Fariam tudo o que pudessem, e duas semanas depois iria ela de avio at Wyoming, para estar com ele.
      
      - Gostaria de ir contigo - disse Gordon tristemente. - Detesto pensar no que vais ter de enfrentar sozinha.
      
      - E eu gostaria de ficar aqui - respondeu Tanya com sinceridade. Detestava ter de o deixar, a ele, quele local, s montanhas.
      
      - Hs-de voltar - disse ele, puxando-a para si, enquanto ela fechava os olhos, tentando gravar na memria o que a rodeava. Sabia que as coisas no voltariam 
a ser exactamente assim. No voltariam a estar escondidos na pequena casa dele, isolados do resto do mundo. Nunca mais seria to simples. Estariam em casa deles 
e fariam parte do mundo. O mundo teria parte deles e tirar-lhes-ia o que pudesse. Ali sentiam-se em segurana, e isso agradava-lhe. E pensava poder recriar parte 
disso no rancho que comprara no sop da montanha.
      
      - Quero uma casinha tal qual esta - disse Tanya.
      
      - No poder ser apenas um pouquinho maior, Tanny? De cada vez que saio da cama bato com os ps na parede - disse Gordon, rindo.
      
      Gordon era alto e a casa era pequena, mas ele percebia bem o que ela queria dizer e tinha muitas ideias a respeito da casa. Havia anos que sonhava ter um rancho 
seu e agora sabia muito bem o que fazer.
      
      Falaram at tarde e fizeram amor de madrugada, quando o Sol estava a nascer. Depois Gordon embrulhou-a num cobertor e foram para a varanda ver o Sol tocar 
no topo das montanhas. Era maravilhoso.
      
      - Vai ser um belo dia - disse Gordon. - Gostava que o passasses aqui comigo.
      
      Tanya tambm mal podia suportar a ideia de partir.
      
      Ningum podia. Todos choraram quando se despediram, junto do autocarro Hartley abraou Mary Stuart durante um tempo infinito. John Kroner e o amigo tinham 
vindo dizer adeus e ambos abraaram Zoe e todos os outros. E todos aplaudiram quando Gordon beijou Tanya em frente de toda a gente.
      
      Tambm agradeceram a Charlotte Collins antes de partirem. As trs mulheres entraram no autocarro com lgrimas nos olhos. Mary Stuart no tirava os olhos de 
Hartley e Tanya recomendou a Gordon que no montasse cavalos selvagens.
      
      Mary Stuart pensava ir encontrar Hartley em Nova Iorque, depois de regressar de Londres. Nessas duas semanas tinham surgido mil perguntas que no tinham ainda 
respostas.
      
      Quando Tom conduziu o autocarro para fora do rancho, as trs amigas entreolharam-se com tristeza. Depois cada uma delas mergulhou nos seus prprios pensamentos, 
pensando nas pessoas e nos sonhos que ali haviam deixado. Durante muito tempo mantiveram-se silenciosas.
      
      Tom pensava chegar a So Francisco por volta da meia-noite.

      
Captulo 21
      
      Quando o autocarro parou junto da casa de Zoe, as trs amigas dormiam. Tinham ficado acordadas durante muito tempo, falando sobre os homens das suas vidas. 
Prepararam qualquer coisa para comer e partilharam com Tom. Depois haviam adormecido. Fora um longo dia para todas elas. Tanya teve de acordar Zoe, que dormia profundamente. 
Porm, sorriu logo que despertou. As amigas tinham-lhe prometido entrar uns minutos para verem a sua filha, mesmo que ela estivesse a dormir.
      
      Tambm acordaram Mary Stuart e as trs subiram os degraus da casa de Zoe e esperaram enquanto ela procurava a chave na bolsa. Zoe abriu a porta o mais silenciosamente 
possvel e entraram na sala em bicos de ps. Havia brinquedos espalhados por toda a parte, um prato com comida e um bibero. Depois viram-nos. Sam dormia profundamente, 
sentado no sof com Jade ao colo. Havia horas que as esperavam. Inge fora deitar-se e Sam mantivera Jade acordada, para ela poder ver a mama. As trs mulheres olharam-no 
com afectuosa aprovao.
      
      Zoe deu uns passos para eles e inclinou-se para beijar a criana adormecida, quando Sam abriu os olhos e a viu. Mal se mexeu e sorriu ao olh-la. Ento ela 
beijou-o tambm, primeiro na face, depois nos lbios, enquanto as duas amigas os olhavam.
      
      - Senti a tua falta - sussurrou ele, levantando-se para cumprimentar Tanya e Mary Stuart. Tinha ainda Jade ao colo. A criana dormia to profundamente que 
nem se mexeu. Tinham-se tornado bons amigos nessas duas semanas e ela gostava muito dele. Adormecera feliz nos braos dele, esperando pela mam. - Ela estava ansiosa 
por te ver - explicou. Zoe sorriu. - E eu tambm - acrescentou, pondo-lhe um brao sobre os ombros. - Ests bem?
      
      Mostrava-se preocupado, mas Zoe disse que sim com a cabea e isso pareceu tranquiliz-lo.
      
      Mary Stuart e Tanya estavam ansiosas por prosseguir o caminho. Tom queria beber caf e continuar a conduzir, de modo a chegarem a Los Angeles de manha. Tinham 
ainda seis horas de viagem pela frente e era chegada a altura de irem, embora tivessem gostado de passar mais tempo com Zoe e Sam. Mas no podiam. Alm disso, Zoe 
precisava de ficar sozinha com Sam.
      
      Quando saram, ele continuava com um brao por cima dos ombros dela. Aps um choroso adeus, o autocarro partiu. Sam voltou para dentro com Zoe e Jade, pousou 
a criana adormecida sobre o sof, apertou Zoe nos seus braos e beijou-a.
      
      O autocarro chegou a Los Angeles  hora prevista, seis da manha seguinte. Tinham sado de Wyoming quase vinte e quatro horas antes. Quando entraram em casa 
de Tanya, Mary Stuart encontrou l um fax do marido. Bill queria saber exactamente a que horas chegaria ela. E havia uma longa lista de mensagens para Tanya, dos 
advogados, da secretria e dos agentes. Mas agora, depois de ter passado aquelas duas semanas em Wyoming, tudo lhe parecia menos importante. Quando o sol iluminou 
a cidade de Los Angeles, Tanya e Mary Stuart encontravam-se sentadas na cozinha a beber caf. Era um aposento enorme e confortvel e sabia bem estar de regresso 
a casa, mas ambas tinham saudades de Wyoming. Haviam l deixado muito de si mesmas. Conversaram a respeito de Hartley e de Gordon. Fora uma viagem extraordinria 
para ambas e tinham dificuldade em acreditar que tanta coisa lhes sucedera.
      
      - Quando  que vais a Londres? - perguntou Tanya.
      
      - Pensei em passar c o dia de hoje e o de amanh - disse Mary Stuart. - A no ser que queiras que v mais cedo...
      
      - Ests a brincar? - retorquiu Tanya. - Quem me dera que ficasses sempre aqui! E espero que voltes em breve.
      
      Tinham obrigado Zoe a prometer que se manteria em contacto com ambas e pensavam ir passar um fim-de-semana algures com ela, talvez em Carmel, se ela quisesse, 
ou em Malibu, em casa de Tanya, ou mesmo em So Francisco. Estavam todas entusiasmadas com a ideia. No iam deixar que o tempo ou a distncia as afastasse, ou mesmo 
a tragdia.
      
      Tanya passou todo o dia a trabalhar com a sua secretria e a tentar tomar decises, aps duas semanas de afastamento. Ao fim da tarde, Gordon telefonou. Estava 
ptimo, mas tinha imensas saudades dela. Fora ver a casa e mandara fazer um projecto para ela ver. Disse-lhe que poderiam mudar-se para l dentro de poucos meses. 
E ela falou-lhe do horror que era voltar ao mundo real. Ele disse-lhe para se aguentar at ele chegar.
      
      - Estou ansiosa - declarou Tanya, com os olhos brilhantes de excitao.
      
      - Tambm eu - replicou Gordon, fechando os olhos e imaginando-a como ela costumava estar em casa dele pela manh. Ansiava por terem o rancho pronto.
      
      Falaram durante muito tempo. Gordon fora a um telefone pblico, para estar  vontade. Metia moedas atrs de moedas e recusava-se a dizer-lhe o nmero ou a 
deix-la pagar as chamadas. Era obstinado. Disse que no dia seguinte voltaria a falar e apresentou cumprimentos a Mary Stuart. Ela no tivera notcias de Hartley, 
mas no esperava t-las. Haviam concordado em no telefonarem um ao outro at ela resolver o assunto em Londres. E Mary nem sequer sabia como contactar com ele para 
Boston ou Seattle. Sabia que ele regressaria a casa na quinta-feira. E sabia qual seria o cdigo: "Adieu, Arielle" ou "Bonjour, Arielle", conforme o que se passasse 
entre ela e o marido.
      
      Nessa noite, Tanya levou-a a jantar ao Spago, apresentou-a ao dono do restaurante, Wolfgang Puck, e indicou-lhe as celebridades que ali se encontravam. Victoria 
Principal jantava com um grande grupo, viu George Hamilton, Harry Hamlin...Jaclyn Smith... Warren Beaty... George Christy, do Hollwood Reporter, estava sentado a 
uma mesa a um canto. Toda a gente conhecia Tanya, mas aquele restaurante era um dos poucos stios de Hollywood onde as estrelas nunca eram incomodadas.
      
      Tanya e Mary Stuart conversaram durante muito tempo a respeito das suas vidas e Mary Stuart parecia ter, de facto, tomado a deciso. Quando Tanya foi ensaiar, 
no dia seguinte, ela foi fazer compras. Nessa noite deitaram-se cedo. Gordon telefonara de novo e Bill enviou outro fax a confirmar a chegada dela. O fax no dizia 
nada de pessoal e Mary Stuart abanou a cabea ao l-lo.
      
      Na manh seguinte, antes dela partir, Tanya e Mary Stuart choraram, abraadas uma  outra. Mary no tinha vontade de partir e as duas desejavam poder fazer 
voltar o relgio para trs e ir para Wyoming.
      
      - Eu fico bem - disse Tanya, encorajando-a. - Estou ptima. Lembra-te de Hartley.
      
      Foi em quem Mary Stuart pensou durante toda a viagem para Londres. Escreveu-lhe at uma carta. Era a primeira, disse, sorrindo para si mesma. Era a primeira 
que lhe escrevia. Talvez ele a guardasse. Hartley era maravilhosamente sentimental. Disse-lhe o que ele significava para si e como a sua permanncia em Wyoming fora 
maravilhosa. Contou-lhe como a vida dela era vazia antes de o conhecer. Tencionava met-la no correio antes de seguir para o hotel, em Londres.
      
      O hotel enviara um carro para a ir buscar. Afinal ia ficar no Claridge. Parecia-lhe mais fcil do que ir para outro hotel, visto o marido estar ali. Mas reservara 
um quarto para ela. No fazia ideia se Bill sabia disso, mas, na verdade, a direco do hotel informara-o.
      
      Passou facilmente pela alfndega e chegou ao hotel pouco depois. Era tudo muito sofisticado e quando chegou foi conduzida aos seus aposentos como uma realeza 
de visita ao pas. Foi informada de que Mr. Walker se encontrava na suite que alugara para instalar os seus escritrios e que estava a trabalhar com a sua secretria. 
Mary Stuart queria tempo para se refrescar e arranjar. Lavou a cara e penteou-se e, como de costume, estava impecvel, com o seu fato de calas e casaco de linho 
preto com o qual viajara de Los Angeles para Londres. Isso era tpico de Mary Stuart.
      
      Depois de pedir que lhe levassem ao quarto uma chvena de ch e de acabar de a beber, ligou para o marido. Eram ento dez horas e ela chegara ao hotel s nove. 
Mas o que ela no sabia  que Bill estava a ficar doido de ansiedade. Soubera que o avio aterrara s sete, que devia ter passado pela alfndega s oito e que devia 
chegar ao hotel s nove. Telefonara para a recepo, para o confirmar. Sabia que Mary estava no quarto e que no lhe telefonara. Mas Mary Stuart no tinha pressa. 
Era quinta-feira. Reservara esse dia para falar com o marido e, como no conseguira contactar Alyssa, tencionava regressar a Nova Iorque na sexta-feira. Era um itinerrio 
muito longo, a partir de Wyoming.
      
      Quando ela ligou Bill atendeu ao primeiro toque. Mary sentia-se embaraada ao falar com ele e indicou-lhe o nmero do quarto que ocupava. Bill disse que iria 
imediatamente ter com ela. Antes de sair, informou a secretria de que no queria ser incomodado, pois tinha uma reunio muito importante.
      
      Mary Stuart abriu a porta e olhou-o e foi-lhe doloroso ver como ele lhe parecia familiar, como se parecia com o homem que ela tanto amara at h um ano atrs. 
Mas sabia que aquele homem era diferente. Que ambos o eram.
      
      - Ol, Bill - disse calmamente Mary. Ele ia abra-la, mas, ao ver a expresso dos olhos dela, decidiu no o fazer. - Como ests?
      
      - No estou muito bem - disse ele, surpreendendo-a.
      
      - Passa-se alguma coisa? - Era estranho ser ela a perguntar-lhe isso.
      
      - Receio que sim - disse ele, sentando-se e estendendo as compridas pernas.
      
      - Que sucedeu?
      
      Mary Stuart pensou que o caso no estivesse a correr bem e lamentou. A verdade  que ele empenhara muito trabalho e esforo para ganhar aquele litgio.
      
      - Na verdade - disse Bill, olhando-a com tristeza e parecendo-lhe mais novo e vulnervel -, estraguei a minha vida e a tua.
      
      Mary Stuart ficou estupefacta por o ouvir proferir tais palavras e ainda mais pela maneira como ele as dizia. Pensou que lhe fosse fazer alguma confisso terrvel, 
como por exemplo, um caso com outra mulher desde a sua chegada a Londres. Mas, de certo modo, isso tomaria as coisas mais fceis. No era to simples como ela julgara 
dizer ao marido que o casamento deles estava acabado. Subitamente tinha na sua frente o marido, com as suas rugas e defeitos, mas tambm outras coisas que ela em 
tempos amara nele.
      
      - Que queres dizer? - perguntou, perplexa. Que queria ele dizer ao declarar que estragara a sua vida?
      
      - Creio que sabes exactamente o que quero dizer. Por isso  que aqui ests, no ? Foi o que calculei, embora seja estpido. E tenho sido bastante estpido! 
Passei o ltimo ano com a cabea enfiada na secretria, pensando que, se te ignorasse o tempo suficiente, tu te irias embora, ou que a minha infelicidade e o meu 
remorso desapareceriam, ou que Todd voltaria, ou que os disparates que eu te disse seriam esquecidos. Mas nada disso sucedeu. As coisas foram-se tomando cada vez 
piores; eu, em cada dia que passava, sentia-me mais horrvel e tu comeaste a detestar-me. Isso era previsvel. A nica pessoa que no o previu fui eu, o que  bastante 
embaraoso. - Bill disse tudo aquilo como um garoto apanhado em falta e Mary Stuart ouviu-o com um sorriso. s vezes era muito querido. - De qualquer modo, creio 
que nada disto te surpreende. Creio ser eu o nico surpreendido, no s com a minha estupidez como com o meu procedimento. Por isso agora vieste dizer-me muito delicadamente, 
e em pessoa, o que  muito amvel da tua parte, minha querida, que te queres divorciar.
      
      Era o criminoso a ajudar o carrasco a colocar a guilhotina e a concordar que merecia ser punido. Na verdade, isso tornava mais fcil mat-lo.
      
      - Onde estiveste durante todo o ano? - perguntou Mary. Era a nica coisa que queria perguntar-lhe. - Como pudeste esconder-te completamente de mim, deixar-me 
de fora? Nem sequer me falavas ou respondias s minhas perguntas!
      
      Fora como viver com um rob ou um morto!
      
      - Sentia-me infeliz. - Era uma verdade j sabida e Mary Stuart dizia a si mesma, mentalmente, para se lembrar de Hartley. - Que fazemos agora? Trazes os papis 
do divrcio contigo?
      
      Bill achara que Mary j os tinha quando falara com ele de Wyoming. Tudo se tomara repentinamente claro para ele e sabia exactamente o que ela vinha fazer.
      
      - Devia t-los trazido? Queres assin-los?
      - Esto contigo?
      
      Bill parecia pronto a assinar o divrcio e Mary Stuart ficou ainda mais irritada ao ver como ele estava disposto a desistir daquilo que tinham tido durante 
vinte e dois anos.
      
      Realmente no se importava, pelo que ela podia ver. E isso enfureceu-a ainda mais!
      
      - No, no tenho os papis do divrcio comigo - ripostou, zangada. - Arranja um advogado que trate disso, ou f-lo tu mesmo. No posso fazer tudo. Vim para 
falar contigo, no para assinar papis.
      
      - Oh! - exclamou Bill, espantado. Tambm percebera a mensagem quando na recepo lhe tinham dito que iria ter outra pessoa no seu quarto, mas ficara desiludido 
ao perceber que ela no iria ficar com ele. Isso fizera-o compreender bem como ela se sentia. - Ests muito zangada comigo, Stu - disse tristemente, desejando voltar 
atrs e alterar as coisas. - No te censuro. Fui um completo patife, Stu. Nem te posso apresentar uma desculpa, embora tu a mereas. S o que posso  pedir que me 
perdoes. Fiquei confuso desde a morte de Todd. Sentia-me culpado e no sabia a quem culpar. Culpei-me a mim prprio, mas no o pude suportar, por isso fingi culpar-te 
a ti. Mas nunca realmente o fiz. Sempre fiquei convencido de que a culpa era minha.
      
      - Como  que podia ser tua a culpa? - Mary Stuart ficou assombrada com o que ele disse. - No foi culpa de ningum! Foi horrvel para todos, mesmo para Alyssa. 
No merecamos aquilo. Fiquei zangada com Todd quando arrumei o quarto dele, e o mais estranho  que fiquei melhor depois disso.
      
      - Arrumaste o quarto dele? Porqu? - Mais uma vez ela o surpreendia.
      - Porque era chegada a altura. Arrumei tudo e empacotei as coisas dele. Dei as roupas a pessoas que podiam us-las. Creio que acreditei que ele voltaria se 
ali deixasse as coisas dele. Finalmente convenci-me de que isso no sucederia...
      
      - Creio que s aqui, em Londres, me apercebi disso... Depois Mary Stuart chocou-o de novo.
      
      - Quero vender o apartamento. Ou podes fazer o que quiseres, mas no desejo voltar a viver l. E demasiado deprimente. Nenhum de ns se ir recompor enquanto 
continuar a viver ali. - Toda a gente lhes dissera para no tomarem decises apressadas e no o tinham feito, mas decorrera um ano. - Podes l viver, se quiseres, 
mas eu no o farei.
      
      Quando voltasse para Nova Iorque iria procurar outro apartamento, a no ser que resolvesse ir viver com Hartley. Ainda no decidira, mas sabia que ele faria 
o que ela quisesse.
      
      - O apartamento no importa - declarou Bill. - Queres viver comigo? A questo  essa.
      
      Bill quase caiu da cadeira ao ouvir a resposta dela. Embora a esperasse, no estava preparado para a ouvir de forma to directa.
      
      - No, no quero - respondeu calmamente Mary Stuart. - Pelo menos da maneira como vivemos no ltimo ano. Quereria, se fosse como dantes, mas isso acabou...
      
      - E se pudssemos voltar atrs outra vez? Se tudo voltasse a ser como dantes?
      
      - Isso no suceder - disse Mary com tristeza. Quando olhou para ele viu que Bill tinha os olhos cheios de lgrimas. Mas Mary tinha chorado muito durante o 
ltimo ano, no podia chorar mais. Para ela estava acabado. - Tenho muita pena...
      
      - Eu tambm - murmurou Bill, mostrando-se vulnervel e humano. Era triste. Ele parecia ter voltado  vida demasiado tarde, mas, de qualquer modo, isso no 
importava. Era apenas uma visita. Se ela concordasse em voltar para ele, provavelmente seria de novo mau para ela, no lhe falaria nem daria pela sua existncia. 
Mary Stuart no queria correr riscos. - Lamento ter sido to estpido... - disse Bill com os lbios a tremerem e os olhos cheios de lgrimas. - No soube enfrentar 
o que nos aconteceu.
      
      - Nem eu - reconheceu Mary com os olhos rasos de lgrimas, mesmo contra sua vontade. - Mas precisava de ti. No tinha ningum - acrescentou, por entre soluos.
      
      - Nem eu. Nem sequer me tive a mim. Creio que morri com Todd e matei o nosso casamento.
      
      - Sim, foi isso que fizeste - afirmou Mary Stuart, acusando-o abertamente. Fora por isso que viera a Londres. Queria que ele percebesse porque o ia deixar. 
Ele tinha o direito de saber. Mas Bill deixou-se ficar ali sentado, a chorar. E mostrava-se to infeliz que ela sentia vontade de o abraar. No entanto, forou-se 
a no o fazer.
      
      - Gostava de voltar atrs e fazer tudo de maneira diferente, Stu, mas no posso. Apenas te posso dizer como tenho pena. Tu mereces muito melhor do que isto. 
Sempre mereceste. Eu fui cretino e um atrasado mental.
      - Que devo fazer com isso? - disse Mary Stuart, andando de um lado para o outro. Pela primeira vez mostrava-se zangada e irritada. - Porque me ests a dizer 
agora que foste um patife para mim? Porque no viste isso mais cedo?
      
      - No sabia como deixar de o ser. Mas percebi-o quando aqui cheguei. Percebi o meu erro logo que cheguei a Londres. Sentia-me to s que no conseguia trabalhar. 
Queria-te aqui. Queria pedir-te que viesses, mas sentia-me embaraado e tu estavas a divertir-te num rancho de luxo. Provavelmente tinhas-te apaixonado por um cowboy, 
era o que eu pensava. - Bill disse essas palavras com ar infeliz e Mary Stuart teve vontade de o sacudir.
      
      - s um completo cretino! - replicou com convico. Devia ter-lhe dito isso h muitos meses agora lamentava no o ter feito.
      
      - Desculpa. No quis ofender-te. Quis apenas dizer que o mereci.
      
      - O que mereces  um grande pontap no traseiro, e mereceste-o durante todo o ano, William Walker. O que  que querias dizer ao afirmares que te sentias s 
quando vieste para aqui? Como pudeste ser to estpido que viesses instalar-te aqui durante dois ou trs meses, deixando-me sozinha em Nova Iorque? Porque havia 
de continuar casada contigo?
      
      - Tens razo. No devias - murmurou ele.
      
      - Bom. Ainda bem que concordamos nesse ponto. Vamo-nos divorciar.
      
      Mary Stuart sentiu-se aliviada. Finalmente dissera o que tinha a dizer. Estava tudo acabado. Mas Bill olhava-a abanando a cabea, o que a confundia.
      
      - No quero divorciar-me - disse finalmente Bill, parecendo um garoto que se recusasse a ir ao dentista. - No quero divorciar-me de ti - repetiu firmemente.
      
      - Porqu?
      
      - Amo-te. - Fitou-a nos olhos e Mary Stuart desviou o olhar em direco  janela.
      
      - Receio que seja um pouco tarde para isso - replicou tristemente. No podia acreditar que ele a amasse. Provara o contrrio durante um ano inteiro: ignorara-a, 
abandonara-a, hostilizara-a, fora para Londres e deixara-a sozinha, no lhe dera um nico momento de conforto quando o filho morrera. Roubara-lhe tudo quanto tinha 
obrigao de lhe dar como seu marido.
      
      - Nunca  demasiado tarde - disse Bill, continuando a olh-la, mas ela abanou a cabea. Pensava de maneira diferente. - Queres dizer que no me perdoas? Isso 
no parece teu. Sempre estiveste pronta a perdoar.
      
      - Provavelmente perdoei de mais - respondeu Mary. - No sei porqu, mas sei que  demasiado tarde para mim. Lamento muito - concluiu, levantando-se e voltando-lhe 
as costas, virada para a janela. Queria acabar a discusso. Dissera-lhe que queria o divrcio. Fora por isso que viera. E tinha de enviar um fax... "Bonjour, Arielle". 
Queria que Hartley o encontrasse no momento em que entrasse no apartamento na sexta-feira. Porm, no se apercebera de que Bill se aproximara dela por trs e sobressaltou-se 
quando ele lhe rodeou o corpo com os braos. - No faas isso, por favor - pediu Mary, sem se voltar para o ver.
      
      - Mas eu quero - replicou Bill, mostrando-se desesperadamente infeliz. - S uma ltima vez... por favor... deixa-me abraar-te...
      
      - No posso... - murmurou ela, voltando-se para ele. Ele prendera-a nos seus braos, apertando-a contra si, o rosto dele estava a curta distncia do dela. 
Mary queria-lhe dizer que j no o amava, mas no teve coragem. E ainda no era verdade. Mas seria um dia. Apenas levaria o seu tempo. Amara-o durante demasiados 
anos para que esse amor pudesse desaparecer do dia para a noite. Mas ele magoara-a de mais para ela querer am-lo. O nico problema era que ainda o amava!
      - Amo-te - repetiu Bill, fitando-a, e ela fechou os olhos. Ele continuava a prend-la nos braos e ela no queria v-lo.
      
      - No quero ouvir isso. Mas a verdade  que no tentava libertar-se.
      
      -  verdade. Sempre foi. Amo-te... Mesmo que me deixes agora, por favor, acredita. Sempre te amarei... tal como amava Todd... - Bill chorava e, sem querer, 
Mary Stuart baixou a cabea e encostou-a ao ombro dele. Lembrou-se de repente como fora doloroso o que lhes sucedera e que Bill no a apoiara. Ficara to mortificado, 
gelado e magoado que no pudera ajud-la. E agora chorava pelo filho, e ela tambm, agarrada ao marido. - Amo-te tanto - repetiu ele, e depois beijou-a. Ela tentou 
afastar-se, mas no pde. Em vez disso, deu por si a beij-lo tambm e a detestar-se por isso. Como podia ser to fraca? Como podia ceder daquela maneira? E o pior 
era que queria beij-lo!
      
      - No - disse Mary quando ele parou. Estavam ambos ofegantes. Porm, descobriu que beij-lo apaziguara a sua mgoa, embora no tivesse acabado com o desgosto. 
Depois ele beijou-a outra vez e ela beijou-o a ele, sentindo que no queria que ele acabasse de a beijar nunca. - Isto no  prprio - murmurou Mary, ofegante. - 
Vim aqui para me divorciar de ti.
      
      - Eu sei - disse ele, beijando-a de novo, e subitamente foi mais longe. Acariciava-a e apertava-a contra si e ela beijava-o. Nenhum deles podia compreender 
a atraco que sentiam um pelo outro. No lhes sucedera isso durante um ano e subitamente estavam loucos de desejo e antes que algum deles pudesse compreender o 
que lhes acontecia, estavam na cama. Mary nunca o desejara tanto e ele sentia uma paixo to grande por ela como nunca antes conhecera. As suas roupas encontravam-se 
espalhadas pelo cho e quando finalmente pararam estavam ambos exaustos. Fora um ano inteiro para ambos e Mary Stuart sorriu, deitada ao lado do marido. Depois, 
ocorreu-lhe o absurdo de tudo aquilo e soltou uma gargalhada. Bill sorriu.
      
      - Isto  absurdo - disse Mary, ainda a sorrir.
      
      - Eu sei - respondeu ele. - Nem posso acreditar no que aconteceu... vamos faz-lo outra vez...
      
      E uma hora mais tarde sucedeu de novo. Falaram e fizeram amor, ele chorou pelo filho, aninhado nos braos dela. Chorou pelo que lhe fizera, e novamente fizeram 
amor. Bill no voltou a ver a sua secretria nesse dia. Ela no fazia ideia do que se passava. Sabia penas que fora para uma reunio importante e foi isso que disse 
a todos os que lhe telefonaram.
      
      As seis horas ainda estavam na cama, nus, e sentiam-se exaustos. Bill perguntou-lhe se queria que lhes levassem alguma coisa para comerem no quarto, mas Mary 
queria apenas estar com ele e adormeceu nos seus braos. E quando acordou, na manh seguinte, o marido olhava-a, rezando mentalmente para que aquilo no fosse um 
sonho. A nica coisa que queria, a nica certeza que tinha, era que no queria perd-la. E disse-lhe isso mesmo enquanto tomavam o pequeno-almoo. Pedira um abundante 
repasto para ambos, pois estavam esfomeados. Tinham fome de comida e um do outro. E, enquanto conversavam Bill perguntou-lhe o que queria fazer nesse dia. Falou 
como se estivessem de frias.
      
      - No tens de trabalhar? - perguntou Mary Stuart, acabando a omeleta e bebendo um gole de caf.
      
      - Vou tirar este dia para descansar. Se vais voltar a Nova Iorque, quero estar contigo antes de ires. Quero levar-te ao aeroporto - acrescentou com tristeza.
      
      Mas depois do pequeno-almoo fizeram amor outra vez e ela perdeu o avio. Poderia t-lo apanhado, se saltasse da cama e se arranjasse depressa, mas no o quis 
fazer. Queria ficar. Por um dia, uma semana, enquanto ele ali estivesse. Fosse o tempo que fosse. Talvez para sempre. E foi isso que disse ao marido enquanto tomavam 
banho juntos.
      
      - Ficars? - perguntou meigamente Bill. E quando ela disse que sim com a cabea beijou-a.
      
      - S trago comigo calas de ganga e botas de cowboy, alm de dois vestidos decentes para usar na cidade - disse Mary Stuart, sorrindo e vendo que Bill parecia 
mais feliz do que nunca.
      
      - Vais fazer furor em Londres com essas roupas. Temos de ter quartos separados?
      
      - No - respondeu Mary com ar srio -, mas continuo a querer vender o apartamento.
      
      Bill tambm achava que era boa ideia. Era chegada a altura de prosseguirem a sua vida, de curarem as feridas, de se descobrirem um ao outro de novo e, com 
alguma sorte, recomearem. Bill tinha as melhores intenes de fazer com que isso sucedesse e sentia-se grato por Mary lho permitir.
      
      Jurou-lhe que o pesadelo do ano anterior no mais se repetiria e ela acreditou.
      
      Bill disse que queria sair com ela nessa tarde, para darem um passeio, para poder estar com ela e conversar, para recordar como era bom andar ao seu lado. 
Mas precisava de passar primeiro pelo escritrio. Prometera  secretria assinar uns papis. Mary Stuart disse que se encontraria com ele no vestbulo.
      
      Vestiu-se calmamente, pensando nela e no tempo que tinham passado juntos. Escreveu o bilhete com mos trmulas, quando acabou de se vestir. Envergara um vestido 
de linho castanho, o nico que levara, alm do fato preto, e o seu cabelo no estava to impecvel como habitualmente. Parecia mais nova assim. J dissera a Bill 
que, se ficasse, precisava de fazer umas compras. Mas nessa altura no pensava nisso. Pensava em Hartley, o homem que galopara ao seu lado plos campos cobertos 
de flores silvestres, em Wyoming. Desceu para o vestbulo e falou com um dos empregados da recepo. Este disse-lhe que no havia problema em enviar o fax, mas lembrou-lhe 
que o marido instalara um fax no escritrio dele. Porm, ela preferia que ele o enviasse e deu-lhe o nmero. Eram apenas duas palavras e foi com os olhos brilhantes 
de lgrimas que entregou o papel ao recepcionista.
      
      - Ser enviado imediatamente, minha senhora - disse o homem.
      Mary tremeu ao pensar na dor que iria causar. Mas Hartley fora mais sensato do que ela. Apercebera-se melhor do que ela daquilo que poderia acontecer.
      
      O papel dizia "Adieu, Arielle". Nada mais. E no chegou a pr a carta no correio. No valia a pena, agora. Cumprira o que lhe prometera. Apenas duas palavras. 
Nada de explicaes.
      
      - Preparada para apanhar ar? - perguntou Bill ao chegar junto dela. Achou-a muito calada e ficou preocupado. Quando a olhou viu que ela chorara. Tinham estado 
no quarto quase dois dias seguidos e haviam esclarecido muita coisa, mas ele abraou-a de novo, mesmo ali, no vestbulo. 
      
      - Est tudo bem, Stu... juro que vai correr tudo bem... amo-te!
      
      Mas ela no estivera a pensar nele. Dissera adeus a um amigo. Deu a mo ao marido e saram ambos para a claridade do sol. O porteiro viu-os afastarem-se, de 
mos dadas, e sorriu. Era bom, embora raro, ver casais felizes. A vida parecia to fcil para eles!... Ou talvez apenas tivessem sorte...
      
Fim




http://groups-beta.google.com/group/Viciados_em_Livros 
http://groups-beta.google.com/group/digitalsource 
